segunda-feira, 22 de agosto de 2011

É fado!

   Em tempos de candidatura do fado a património imaterial da UNESCO, apresentada pela Câmara Municipal de Lisboa em 2010, muito se discute a origem dele.

    Quanto à origem da palavra, fado tem a força do destino (do latim 'fatum'); quando à composição musical, diz o povo que vem dos cânticos dos Mouros, dos que se ficaram na Mouraria. 
    A sonoridade da dolência e da melancolia parece não ter registo musical anterior ao século XVIII, o que faz deste saber popular um dado a comprovar.Todavia, quem ouve um cântico muçulmano - na plangência, no trinar, no torneado sonoro e na intensidade agudamente sofrida da voz que se arrasta na melodia - não pode deixar de sentir a aproximação a um passado, a uma herança que pode (na influência recebida e no 'melting pot' histórico e cultural de que também somos feitos) ter alimentado uma plataforma para a novidade e a criatividade de um género musical tão português.
    Esta foi a sensação com que fiquei depois de ouvir um fado cantado por Raquel Tavares (grande voz portuguesa), acabado de chegar de Marrocos, onde me cruzei com alguns registos desses cânticos.
    A beleza deste fado (na letra de Eduardo Olímpio, na música de Paco Bandeira, na interpretação de Raquel Tavares) é inegável.


FALA DA MULHER SOZINHA
(no álbum Bairro, de 2008)

Já estou farta de estar só
Acompanhada de nada
Já estou louca de ser rua
Tão corrida tão pisada
Já estou prenhe de amizade
Tão barriga de saudade

Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar
O olhar de uma canção
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto
Mais longe e mais além
Mas a saber que sou alguém

Na cidade sou loucura
Sou begónia sou ciúme
E eu que sonhava ser rua
Caminho atalho lonjura
Não tenho assento na festa
Sou a migalha que resta.


   Cântico ao sabor da voz sofrida, saudosa da mulher, qual cantiga de amigo que, na tese arábica, via nas 'hardjas' muçulmanas uma das suas fontes culturais comuns, de raiz indo-europeia.

Sem comentários:

Publicar um comentário