segunda-feira, 3 de agosto de 2015

E vai um...

      É o que se pode dizer do primeiro, pensando na trilogia que vai surgir.

     Vem o título a propósito da nova versão (ou remake, na linguagem cinéfila mais internacional) de O Pátio das Cantigas, realizado por Leonel Vieira. Depois de mais de setenta anos do original, dirigido por Francisco Ribeiro (Ribeirinho), a popularidade de atores como António Silva, Vasco Santana e Maria das Neves talvez venha a refletir-se em nomes como Miguel Guilherme, César Mourão, Dânia Neto - só para, respetivamente, mencionar os protagonistas correspondentes às duas produções. O tempo o dirá. Para já, o projeto de 'atualização' terá continuidade com mais duas iniciativas: uma já anunciada para o sucesso de 1947, "O Leão da Estrela", realizado por Arthur Duarte; outra para o de 1933, "A Canção de Lisboa", de Cotinelli Telmo.
     Em O Pátio das Cantigas, a comparação entre o ponto de partida e o de chegada é inevitável, particularmente para quem está habituado a ver e a rever múltiplas vezes o primeiro (de modo a já citar instintivamente réplicas inteiras do Evaristo, do Narciso ou até da Dona Rosa - personagens marcantes de um tempo e de um regime bem diferentes dos de hoje). Ainda assim, é de convir que a linguagem, a situação, os tipos sociais e as personagens individualmente consideradas precisavam de uma outra roupagem, para dar ao cómico de outrora um sentido e um riso outros, adaptados a circunstâncias mais familiares e contemporâneas. Não deixa de ser uma estratégia para fazer chegar, do próximo, ao mais distante e desconhecido. "Compreendi-te!" (como diria o Narciso-Vasco Santana)
       A comédia acontece. O reconhecimento de elementos originais também (pontos de ancoragem como o ambiente bairrista e popular lisboeta, os amores e as querelas entre as personagens de maior relevo, a fidelidade ou a sugestiva aproximação a expressões / réplicas do século passado), por mais que haja um distanciamento imposto pelo realizador e pela realidade face ao clássico português. Do operador de rádio ao DJ, da leitaria à empresa turística dos tuk-tuk, das marchas populares à chamada música pimba, do merceeiro tradicional ao dono de uma loja gourmet com empregados a falar francês, dos princípios da rádio ao tempo da internet e do hifi, da Dona Rosa vendedora de flores à Linda Rosa balconista num hostel, da Maria da Graça cantora à artista de novela, muitos são os motivos e/ou desvios para deixar algum público "dessincronizado" (ou também... "turbinado", numa versão mais à Malhoa).
       Para os que preferem o filme a preto e branco e o querem encontrar na cor de 2015, talvez fosse de relembrar as palavras de Narciso de 1942, assim que fala com o candeeiro (que o "guia" até casa, graças ao elevador cúmplice de um amigo do bairro):

" - Onde estás tu? Fugiste?
   - Ah! Estás aí! Apareces e desapareces... (Ri-se) Também és um ilusionista!
    Já vi tudo! Queres ir para cama. Assim como assim, vamos lá embora! (Assobia à medida que sobe os degraus da escada)"

      Semelhanças com o antigo também aparecem e desaparecem, num ilusionismo que não deixou de me manter atento. Sem a magia do antigo (que só o tempo vai alimentando), a novidade mantém algum interesse.
      Se antes era assim...

Cena fílmica de O Pátio das Cantigas original (1942)

        ... agora a cor é outra - seja local seja epocal, para não falar a das impressões e dos efeitos de luz e tonalidades coloridas bem distintos, mais a dos retratos humanos que vemos na tela / na rua a qualquer instante.

 
Um dos trailers oficiais da nova versão de O Pátio das Cantigas (2015)

        Como não fui propriamente à procura do antigo, estava de espírito aberto, disponível para o pudesse surgir na tela. É verdade que a expectativa também não era muito grande, até por saber que iria encontrar atores que não estão entre os meus preferidos (por mais fama que tenham - ou se achem ter - na comédia da atualidade). O certo é que não dei o dinheiro por mal empregue, não deixando de rir particularmente com algumas situações e piadas bem construídas (tanto pelo nonsense como pelos jogos, pelas recriações e pelos contrastes de registo e de linguagem conseguidos).