quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Zeca Afonso... vivo na lembrança

    Por altura dos 25 anos da sua morte, fica o registo de uma música, de uma voz, de um tempo que se impõe relembrar.

    Os tempos não andam fáceis. 
    A descrença é evidente; o desalento impõe-se; os sinais de revolta,... latentes.
  E, assim, as palavras de Zeca Afonso e o seu sentido de intervenção se revelam inspiradores, atuais, reinventados com o significado vivo do que são as lembranças de um tempo de larga e crescente preocupação, insatisfação, injustiça, perseguição, condicionamento e vontade de mudança.


Vieram cedo
Mortos de cansaço
Adeus amigos
Não voltamos cá
O mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria Bonita
Onde vamos morar

Na barcarola
Canta a Marujada
- O mar que eu vi
Não é como o de lá
E a roda do leme
E a proa molhada
Maria Bonita
Onde vamos parar

Nem uma nuvem
Sobre a maré cheia
O sete-estrelo
Sabe bem onde ir
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos cair

À beira de àgua
Me criei um dia
- Remos e velas
Lá deixei a arder 
Ao sol e ao vento
Na areia da praia
Maria Bonita
Onde vamos viver

Ganho a camisa
Tenho uma fortuna
Em terra alheia
Sei onde ficar
Eu sou como o vento
Que foi e não veio
Maria Bonita
Onde vamos morar

Sino de bronze
Lá na minha aldeia
Toca por mim
Que estou para abalar
E a fala da velha
Da velha matreira
Maria Bonita
Onde vamos penar

Vinham de longe
Todos o sabiam
Não se importavam
Quem os vinha ver
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos morrer

     De tudo isto se compõe o presente, num ritmo cíclico de eterno retorno ao que não se quer (ver) repetido.

    Num incómodo 23 de fevereiro de 1987, uma voz passou a habitar a memória dos que a recuperam neste momento em que há notas (tão dissonantes) para uma nova "Canção do Desterro".

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