quarta-feira, 30 de abril de 2014

'Os Lusíadas' e o número da besta

     Estudos sobre numerologia e simbologia numérica associados à literatura são inúmeros e Os Lusíadas são mais um exemplo de obra a isso destinado.

     Tudo começa porque, ontem, um aluno me perguntou qual era o verso da epopeia camoniana que estava relacionado com o número da besta, o 666. Uns riam-se; outros estavam expectantes e todos esperavam ouvir a explicação de uma curiosidade que a professora de Português lhes tinha incutido, mas que, parece, o professor de Literatura estava mais destinado a responder. Não sei se é bem o caso, mas assim passou a ser.
     Hoje foi a aula para se chegar à resposta e contei com a colaboração de alguns estudantes que tentaram chegar à solução, na procura que fizeram (disseram-me) pela internet. Dois cenários surgiram: um relacionado com o Canto VII; outro com o IX. Afinal, não era o verso, porque há mais do que um. E, no final da aula, foram muitas mais as referências, todas elas contribuindo para uma leitura reveladora de alfabetos muito diversificados para o conhecimento, com os números a constituirem-se como um processo de o Homem aceder e compreender a coerência do mundo, pela construção de um sentido a atribuir ao universo.
     Começados com a obra literária por excelência (a Bíblia) - na súmula de tradições, de culturas, de saberes e acontecimentos que marcam a humanidade -, orientou-se para a leitura do último livro, o 'Apocalipse' (termo grego para 'Revelação'). No fim dos tempos (críticos), anuncia-se uma mudança, um novo tempo. No capítulo 13, versículo 18, lê-se: 

“Aquele que tem sabedoria calcule o número da besta, pois é o número de um homem e seu número é seiscentos e sessenta e seis”

     A leitura de um (sentido ou tipo de) "Homem" coincide com a cosmovisão antropocêntrica que o Renascimento traz para o Mundo - refletida em Os Lusíadas, num ideário que subjaz à própria arquitetura e construção da epopeia. E na tríplice configuração do "6" não será estranha toda uma simbologia que as próprias línguas de cultura sublinharam.
      No hebraico, as letras apresentavam valores numéricos; o mesmo sucedia na antiga Grécia (séc. IV a. C.), comparecendo a letra clássica do dígamo para representar o '6' (cf. tabela à direita), numa configuração gráfica próxima do atual "S" do alfabeto. Por outro lado, é sabido que, até ao século XVII, a Europa conviveu com cálculos matemáticos baseados na numeração romana (os algarismos árabes aparecem em textos portugueses pelo século XV e só se vulgarizam um século mais tarde).
     Nesta medida, a associação da grafia latina aos números sugerirá uma relação que - à exceção dos zeros para letras que não representam algarismos romanos - conduzirá a escrita da palavra 'sol' para o número seis; o mesmo sucede com a redação do nome 'Jesus'. Caso para dizer que, ora numa orientação mais pagã ora noutra mais cristã, a "revelação" simbólica e numerológica acontece. 
     O aparecimento das cartas do Tarot pelos séculos XIV-XV trouxe também consigo a leitura de sinais, no que aos vinte e um arcanos maiores diz respeito. O número seis corresponde à carta dos Enamorados, dos Amantes e traduz o caminho da escolha (segundo o livre arbítrio), da encruzilhada e da hesitação, com risco de erro e dispersão. Ao contrário do três (carta da convergência e da unidade), o seis (3 x 2) convoca a divergência de forças (dois sentidos) - é o reflexo dessa dualidade composta de corpo Vs espírito. Desta dupla dimensão (revista no contraste 'feritas / divinitas', materialidade / espiritualidade) se compõe o conteúdo de Os Lusíadas, publicados em 1572 (ano que, na operação matemática familiar dos 'noves fora', resulta em seis). Os 8816 versos da obra, nas 1102 estâncias, foram já largamente estudados por Jorge de Sena numa perspetiva numerológica. Não o fez com o foco no número da besta, mas a possibilidade existe, atendendo aos seguintes dados:

i) a leitura do título da epopeia, segundo uma configuração alatinada e numa aproximação ao grego antigo (particularmente ao dígamo), revela a presença de três números seis, para não falar na presença do cinco e do um (que também somados resultam no número seis);

ii) o sexto verso de cada uma das três estrofes da Proposição (Canto I) - 6 6 6 - reflete um conjunto de características relacionado com a excecionalidade do humano herói lusíada, associada à força, à intemporalidade e à divinização (“Mais do que prometia a força humana”; “Se vão da lei da Morte libertando”; “A quem Neptuno e Marte obedeceram”);

iii) as oitavas somadas até ao verso 666 conduzem até ao segundo verso da estância 84 de cada canto e, no caso do canto I ("Já o raio apolíneo visitava / Os Montes Nabateios acendido, / Quando o Gama cos seus determinava / De vir por água a terra apercebido"), remete para o espaço terrestre  dos Montes Nabateios (onde o Gama está prestes a ser traiçoeiramente atacado, por influência de Baco), espaço elevado e posicionado entre a referência a um deus (Apolo) e um homem (Gama), como que prenunciando a divinização deste, assim que superar a prova que lhe está destinada;

iv) o canto VI é o do segundo consílio (convocado por Baco) - que colocará os portugueses novamente à prova, pela congeminação divina que criará uma tempestade marítima - e tem no verso 666 (estrofe 84) a marca da força a enfrentar ("Assi dizendo, os ventos, que lutavam / Como touros indómitos, bramando, / Mais e mais a tormenta acrecentavam");

v) a estância 666 é precisamente a do início do canto VII, aquela que dá conta da concretização do caminho da escolha, do objetivo da viagem - a chegada dos marinheiros à Índia (“Já se viam chegados junto à terra / Que desejada já de tantos fora, / Que entre as correntes Índicas se encerra / E o Ganges, que no Céu terreno mora. / Ora sus, gente forte, que na guerra / Quereis levar a palma vencedora: / Já sois chegados, já tendes diante / A terra de riquezas abundante”) - ou o cumprimento do feito planeado;

vi) a chegada à Índia, por mais que seja desejada, constitui uma desilusão (por ser local onde se troca a vida humana do Gama por dinheiro) só (re)compensada no canto IX com a Ilha dos Amores (num plural que conjuga a dimensão corpórea - das relações mantidas entre marinheiros e ninfas - com a espiritual - no prémio e na glória simbolicamente representados) - o segundo verso da estância 84 do canto IX (o 666) é precisamente o que explicita a união dos marinheiros e das ninfas ("Destarte, enfim, conformes já as fermosas / Ninfas cos seus amados navegantes, / Os ornam de capelas deleitosas / De louro e de ouro e flores abundantes."), na realização corpórea e espiritual dos amantes (relembre-se a carta VI do Tarot), na ascensão humana à "divinitas", depois de um percurso em busca do local onde o "bicho da terra tão pequeno" não "indigne o Céu sereno".

     Na linha do exposto, revê-se a escrita das letras numa configuração numérica simbólica, traduzindo uma mentalidade que, desde os tempos medievais, procura compreender o(s) sentido(s) oculto(s) do Universo e tentar determinar o destino humano. Não será por acaso que o verbo 'contar' (números) e 'contar' (histórias) apresentam raiz etimológica comum.
     A numerologia, com cálculos de previsões, interpretações e até  especulações transcendentes ou mágicas surge, impondo-se com a Idade Média e o Renascimento, quando a ordem universal se baseava na razão numérica (filosofia derivada de Santo Isidoro: "A razão dos números não deve ser desprezada. Na realidade em muitas passagens das Sagradas Escrituras, quanto mistério eles revelam" - in Etimologias, III, iv, i). Consagrado como fator de configuração na Criação Divina, o número assumiu-se com lugar de destaque na criação artística, em geral, e na literatura, em particular.

    Na arquitetura de Os Lusíadas não deixa, pois, de perpassar a ideia de que as relações numéricas são relevantes para o significado da obra; para a interligação da natureza com a vida humana e, consequentemente, para a expressão da arte. Nesta última, os números são mais um alfabeto para o conhecimento.