segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ontem foi dia "interestelar"

      Mais um filme para abordar a questão apocalíptica da terra...

      Este é o assunto de apresentação para "Interstellar", filme de Christopher Nolan, que encontrou no cenário da ficção científica e no contexto apocalíptico do planeta terra (dominada por pragas, nuvens de poeira, doenças, fugas de habitantes) mais um pretexto para ir em busca da esperança; construir a base de uma crença humana capaz de se afirmar além do material visível; compor um hino à vida e à(s) possibilidade(s) ilimitada(s) do(s) saber(es) e do(s) afeto(s).
     Numa história de amor, de família - onde os laços mais estáveis dos sentimentos permitem ir além do tempo e do espaço alcançados pela nossa consciência -, os limites, por mais que estes existam, nunca são um fim em si. Constroem-se pontes entre o perigo e a salvação; um planeta devastado e uma estação (Cooper), construída à imagem e semelhança do paraíso que ele podia ter sido; a distância e a proximidade; a crença e a realidade.


    Na força da crença e da potencialidade que pode evitar a extinção da Humanidade, bem como na busca de um mundo onde a vida possa ter continuidade, um engenheiro viúvo (Cooper, interpretado por Matthew McConaughey) vive o difícil dilema de participar numa viagem perigosa (de retorno mais do que duvidoso) ou de permanecer junto dos dois filhos.
   A inevitabilidade do fim é um desafio, com fortes motivações para que este último possa ser superado.
     Vai no mesmo sentido o poema do escritor galês Dylan Thomas: "Odeia, odeia a luz que começa a morrer". Citado pelo professor John Brand (interpretado por Michael Caine), um físico da NASA, fica o convite para se viver com intensidade, na crença que permite esgotar as possibilidades e encontrar respostas para o projeto de uma vida (no caso, a resolução do mistério último da gravidade, viabilizador dessa esperança de salvar a Humanidade de uma iminente ameaça).
    Os testemunhos que abrem o filme permitem, pela técnica de flashback, constatar os problemas que existiram; o final sugere a possibilidade de vida numa outra dimensão, mesmo que esta possa estar ao alcance do conhecimento de uma estante - a que separa um pai de uma filha, mas que pode resultar no elo de ligação que um relógio (também) pode criar: o do tempo feito de afetos.
   À medida que ia vendo o filme, ia-me lembrando de A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos, e dos diálogos entre a personagem Tomás de Noronha e o pai deste; ou das interações criadas com uma mulher iraniana. Em ambos havia explicações para as grandes teorias científicas do tempos contemporâneos - como a Teoria da Relatividade Restrita de Einstein, que assume uma ligação entre o espaço e o tempo encarados como relativos; a Teoria da Relatividade Geral, que resolve as questões da gravidade e estabelece o espaço como sendo curvado, encarando que a massa dos objetos distorce o espaço e o tempo; a Teoria do Tudo, unificadora de abordagens e entendimentos acerca das forças da natureza, inspirada também na Teoria Quântica, apostada na reconstrução dessas forças e dos movimentos associados a partículas invisíveis aos olhos comuns; a Teoria do Caos, enquanto modelo matemático evidenciador de como pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar, numa espécie de progressiva onda, alterações substanciais nas condições finais - num efeito equiparado ao bater de asas da borboleta que provoca a imprevisibilidade num ponto mais distante.
       Muitos saberes, muita inteligência à espera de que a vida lhes dê oportunidade de vingar, para a construção de uma maior consciência de tudo. E na continuidade das gerações está a possibilidade de se progredir.

     Ver a vida não como um fim em si mesmo, mas como o meio para permitir aproximações, acessos a outras formas de desenvolvimento de inteligência e consciência é um sentido de leitura para uma existência que possa manter continuidade com a seguinte, numa espécie de cadeia ininterrupta que ganha maior sentido pela energia emotiva e afetiva que a una. Neste sentido, a vida é "interestelar".