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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Há cem anos nascido

       Entre a prosa e o verso, ficaram os livros do gin.

     Homem das Belas Artes, rendeu-se à escrita (arte bela, pois sim). Em janeiro nascido, no mesmo mês desaparecido, foi escritor surrealista português.
  Mário Henrique Baptista Leiria viu-se politicamente perseguido, preso pela PIDE, até se instalar no Brasil, onde desenvolve uma vivência voltada para a expressão literária. Entre finais da década de 40 e os anos 70, apresentou obra, até que em 1980 morre. A escrita revela o seu espírito indomado, irónico, pouco ou nada obediente aos poderes da realidade político-social do tempo; subversivo o bastante para desafiar os códigos morais e estéticos do (bom) gosto, nomeadamente os da tendência surrealista em que o situaram.
   Cruzei-me com os seus Contos do Gin-Tonic (1973) e Novos Contos do Gin (1974), tão desconcertantes quanto fiéis a uma marginalidade própria de quem constrói um mundo às avessas, criativo e de libertação. Relembro, da segunda obra, uma pequena narrativa intitulada

ÚLTIMA TENTAÇÃO
 
    E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pera pequenina e pálida.
   Ficaram os dois numa desesperante frustração.
   Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
    
     Lá se foram a maçã e a serpente, mais a Eva e o Adão; também o Paraíso, dessacralizado na imagem e na palavra.

    Revolucionário, homem de contracultura(s), experimentou a escrita do inconformismo; inventou mundos e vidas coloridos de bizarria, paródia, humor negro. Tudo fora de um convencionalismo do tempo que (não) foi o seu.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Da imprescindibilidade de um dicionário

        Sou do tempo em que se pedia um, em suporte livro, para cada sala de aula.

    Hoje, basta um computador ou telemóvel para facilmente se ter acesso ao dito material imprescindível para qualquer aula (de língua ou não).
     Direi que, quando falo de ósculos ou amplexos, os alunos julgam que os estou a insultar. E estou a ser tão afetivo! Só não o sou quando sistematicamente usam o verbo 'meter' onde não devem ou dizem para eu esperar 'um bocado'. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Pintura do poeta Bocage 
no Palacete do Conde de Carcavelos (Braga)
    «Conta-se que Bocage, ao chegar a casa, um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. 
 Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o a tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
-Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo... mas, se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada!
    E o ladrão, confuso, diz:
    - Doutor, afinal levo ou deixo os patos?»

      Sinto-me qual ladrão sem saber o que fazer. Não quero roubar ninguém, mas vou tratar de ir à procura de algumas palavras tão eruditas, tão arcaicas e (neo)clássicas.

      Neo..., sim, seja pelo tempo representado em que foram supostamente ditas (na segunda metade do século XVIII) seja por aquele em que podem vir a ser recuperadas. Amplexos!

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Pequena narrativa do caminho

          O dia, não sendo bom, acabou um pouco melhor.

           Esteve um tempo chuvoso e inverniço para o outono angustiante que se vive.
       Ao final da tarde soprava um friozinho a pedir agasalho. Aqui e ali o céu cinzento deixava ver uns buracos, como se estivesse puído, por onde passava uma réstia de cor luminosa, em contraste com as densas e pesadas nuvens. O céu estava roto!

O céu está roto (Foto VO)

       Porém, de repente, este ganhou tonalidades douradas e as gaivotas decidiram pintá-lo de liberdade: abandonavam o areal da praia, planando e voando pelo litoral rumo ao norte.

O voo das gaivotas I (Foto VO)

O voo das gaivotas II (Foto VO)

        Anunciava-se a escuridão; mas, antes, houve ainda tempo para contemplar um rasgão de cores, sem tintas, paletas ou pincéis. Apenas reflexos de um sol que já não se via em bola de luz, mas entornado em manchas de água suspensas, coloridamente desbotadas ao longo do firmamento.

O rasgão colorido do céu (Foto VO)

        Após breves instantes, o percurso pelo passadiço mostrou-me também o verde relvado da terra. De um lado, o campo estável coberto de verdura; do outro, o algodão sujo do mar, ora sobrevoando o areal ora boiando numa extensão de água imensa e intensa. em contínuo vaivém; por cima, um fogo celeste em cinza bruma, a lembrar calor e a humedecer um corpo com neblina.

Terra, céu e mar (Foto VO)

        Na história do caminho, um banco de pedra ficou ao ar, entre a terra e o mar, à espera de alguém que nele se sentasse, para mirar a outonal paisagem marinha. Ninguém o usou, sempre num ir e vir que não era de ondas, mas de um corredor feito de vários passos, a aguardar por melhores dias.

Um banco no caminho (Foto VO)

         Finda a narrativa, um novo tempo se deseja para um espaço a ganhar a cor das estações e do olhar do caminhante. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Gramido: a casa branca

       Junto ao Douro, no concelho de Gondomar (Valbom), há uma casa histórica.

     É a Casa Branca de Gramido, edifício solarengo do século XVIII (1789) com características de um neoclássico rural. Nela ocorreu, em 29 de junho de 1847, a assinatura da Convenção de Gramido, que assinalou o final de uma época de conflitos entre liberais e absolutistas, nomeadamente os que se sucederam às sublevações populares e burguesas conhecidas, respetivamente, como Maria da Fonte e Patuleia. 

Casa Branca de Gramido I, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

Casa Branca de Gramido II, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

     Ainda durante o século XIX, o espaço foi armazém de cereais, comercializados pelos proprietários «Cazas Brancas» para a atividade da panificação (de Valongo e Avintes, essencialmente). Os grãos de trigo trazidos rio abaixo pelos barcos rabões (de aspeto mais claro do que aqueles que transportavam carvão) eram desembarcados nesse armazém. Por extensão da designação da família proprietária e pela imagem clara dos barcos, popularmente chegou-se à denominação de "Casa Branca".

Convenção de Gramido (1847)

  A projeção e imponência visuais do solar duriense, progressivamente ampliado ao longo do século XIX e restaurado quase século e meio depois, revestem-se da importância histórica de que o local é exemplo, com a afirmação da paz após a Guerra Civil da Patuleia. A Convenção, assinada entre comandantes dos exércitos espanhol e britânico (entrados em Portugal ao abrigo da Quádrupla Aliança), mais os representantes da Junta do Porto e as forças do governo mais conservador, selou a derrota dos setembristas (revoltosos) frente aos cartistas (apoiados pela rainha) numa guerra civil que vinha a assolar o país desde a década de vinte e, mais particularmente, nos anos de 1846-1847. Menos de cinco anos depois, a concórdia viria a sofrer algum revés, com a força governamental apoiada por D. Maria II a retirar aos revoltosos poderes e influências em prol de um maior conservadorismo.

   A recuperação da casa, depois de uma fase de crescente degradação e de um incêndio que praticamente a abandonou a um estado de desleixo e decadência inevitáveis no século XX, ocorre no período 2005-2006, sendo a inauguração da sua requalificação datada de 31 de maio de 2008.

Marginal do Douro, em Gondomar (Foto VO)

      Enquadrada num espaço reabilitado, a Casa Branca de Gramido faz relembrar o romance Uma Família Inglesa ([1867] 1868), de Júlio Dinis, quando Manoel Quintino, guarda-livros da família Whitestone, se refere à zona da marginal como não havendo "outro passeio assim nos arredores do Porto". Desse passeio, em manhã mais soalheira, se faz aqui registo, em tempos mais contemporâneos.

       Na marginal do Douro, a Casa Branca de Gramido vigia o curso do rio.    

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Geologia literária ou literatura geológica

      Quando a natureza se revela inspiradora para as narrativas.

     Pela zona de Lavadores, com o olhar na direção do mar, há uma composição rochosa chamada de "Pedra Moura": um bloco granítico sobre outro afim, com fratura visível provocada pela erosão.

"Pedra Moura" e os pedregulhos de Lavadores (Foto VO)

      Para quem ache ser explicação ou descrição demasiado científica, pode sempre recorrer à lenda - mais uma entre as muitas que povoam o imaginário nacional, com a típica temática da moura castigada (ou não fosse a terra lusa dominantemente cristã).

      Ora, conta a lenda (maneira sempre eficaz de se apagar o narrador e os efeitos que este pudesse introduzir na narrativa) que uma bela e formosa moura (são-no sempre, apesar de punidas, demoníacas e tentadoras) recebeu um grande castigo (lá está - depois dizem que hoje é que somos preconceituosos): trazer pedras das profundezas marítimas até às proximidades do areal (coitada)! Porém, o mar (soberbo) retomava tudo o que lhe pertencia e, com as marés, fazia voltar essas pedras ao fundo marinho (mais fazendo da moura a versão feminina de Sísifo). O esforço persistente da mourisca (afinal, tem alguma virtude) fez que, um dia, de lá trouxesse um penedo, penosa e colossalmente colocado em cima de um outro (uma moura muito hercúlea, portanto). Vencido o mar, lá estão os pedregulhos, desafiando o oceano. É a Pedra Moura de leva...dores ou que lava... dores pelo castigo cumprido (ao que chega o sentido toponímico da história).

     Quem quiser saber dos motivos do castigo, talvez tenha que investigar sobre os tempos do rei Ramiro e do filho, D. Ordonho, mais o rei mouro Alboazer Alboçadam que detinha as terras de Gaia. Há de lá encontrar uma moura formosa (mais vítima do que merecedora de castigo).


sábado, 14 de março de 2020

Já vi ou li isto algures…

      E agora que alguma da nossa vida fica como suspensa, revisita-se uma leitura.

     Chega aquele momento em que te lembras de ter lido uma passagem de um livro de ficção tão cheio de realidade! Na altura, era tudo tão carregado de referências históricas, culturais e científicas que chegava a duvidar se haveria presente ou futuro para reconfirmar o que acabava de ler:
Capa do romance Inferno
de Dan Bown (2013)
     "Langdon tentou afastar da sua mente as imagens da peste, mas não conseguiu. Sempre quisera saber como fora aquela cidade [Veneza] incrível no seu auge... antes de a peste a ter enfraquecida o suficiente para poder ser conquistada pelos otomanos e depois por Napoleão... quando Veneza reinara gloriosamente como o centro comercial da Europa. Dizia-se que não havia cidade mais bonita no mundo, que a riqueza e a cultura da sua população não tinham precedentes.
      Ironicamente foi o gosto da população por luxos estrangeiros que levou à sua queda - a peste mortal viajara da China para Veneza nas ratazanas transportadas nos navios comerciais. A mesma peste que dizimou uns abismais dois terços da população da China chegou à Europa e rapidamente matou um em cada três - jovens e velhos, ricos e pobres.
       Langdon lera descrições da vida em Veneza durante os surtos da peste. Com pouca ou nenhuma terra seca onde enterrar os mortos, os cadáveres inchados flutuavam nos canais, com algumas áreas tão densamente cheias de corpos que os trabalhadores tinham de os empurrar para o mar. Não havia orações que conseguissem diminuir a ira da peste. Quando as autoridades municipais perceberam que eram as ratazanas que estavam a causar a doença, já era demasiado tarde, mas Veneza ainda decretou que todos os navios recém-chegados tinham de ancorar no mar durante quarenta dias antes de serem autorizados a descarregar. Até hoje o número quarenta - quaranta em italiano - serve como lembrete sombrio das origens da palavra quarentena."
in Inferno, Bertrand Editora 2013, pág. 360

     O passado veste-se de presente e inquieta. O excerto é tão oportuno e coincidente com o que se vive hoje! É como se o Covid-19 fosse mais um exemplo da peste que veio dos finais da Idade Média, onde não faltam as máscaras - podiam ser as do Carnaval de Veneza, que, afinal, tudo tiveram a ver com a Peste Negra:
Máscara veneziana
      Langdon explicou rapidamente que, no seu mundo de símbolos, a única forma de máscara com um bico comprido era quase sinónimo de Peste Negra -  a peste mortífera que grassou na Europa no século XIV, matando um terço da população em algumas regiões. A maior parte das pessoas acreditava que a designação da peste como "negra" era uma referência ao enegrecimento da carne das vítimas por causa da gangrena e das hemorragias subepidérmicas, mas na verdade a palavra negra era uma referência ao profundo terror que a pandemia espalhou entre a população.
       - Essa máscara com um bico comprido - disse Langdon - era usada pelos médicos que tratavam a doença na época medieval, a fim de manter a pestilência longe das suas narinas enquanto cuidavam das pessoas infetadas. Hoje em dia, só são usadas durante o Carnaval de Veneza... uma lembrança sinistra de um período sombrio na história da Itália."
idem, pág. 63

     Não vou dizer que a obra Inferno, de Dan Brown, foi premonitória face ao tempo presente; mas que há coincidências demasiadas da contemporaneidade com a época histórica mencionada... isso é inegável.

domingo, 3 de novembro de 2019

Será que a Amélie vem aí?

        Dizem que a tempestade está para chegar a Portugal.

     Podia ter sido uma promessa, para afastar a anunciada intempérie; foi apenas um passeio para afastar as más energias, o cansaço e alguns sintomas doentios que persistem. E, agora, dizem que está a vir depressão! Coisa escusada! São ventos e chuvas que chegam para derrubar qualquer homem. Era bom que se dissipassem.
       A força da natureza está à vista: depois do sol tímido de um sábado e domingo, muda a cor do céu, a névoa surge, o vento esfria e o mar alteia. De longe, o branco das ondas ameaça pintar as paredes de uma capela, erguida sobre um rochedo, de costas voltadas para as fortes ondas. Em Miramar, a capela barroca do Senhor da Pedra não mira o mar; mira a terra. Impõe-se mais do que Pedro: é pedra sobre rocha, local de culto e peregrinação que, segundo um dos painéis de entrada, está erguido num espaço que terá remotamente recebido cultos pagãos de povos pré-cristãos. Persiste essa natureza natural e panteísta, pela envolvência do mar, da terra e do céu.

Capela do Senhor da Pedra, em Miramar (freguesia de Gulpilhares) - Foto VO

      Construída nos finais do século XVII (1686), a igreja é Património Mundial da UNESCO desde 1996. A sua forma hexagonal e a balaustrada exterior circundante, frequentemente rodeadas pela subida das marés, contribuem para um imaginário singular: o de um escolho santificado. A força da crença cruza-se com alguma sobrenaturalidade. Segundo os antigos, uma imagem de Cristo terá sido trazida pelo oceano: “Que num belo dia pousou sobre aquela pedra onde, mais tarde, veio a ser erguida a capela” (lê-se num outro painel, numa espécie de justificação do nome: “Senhor da Pedra”). No registo da lenda, quando os locais se preparavam para construir uma ermida ao Senhor da Pedra num terreiro conhecido por arraial, frequentemente era vista uma luz sobre os rochedos. A cada noite a luz misteriosa brilhava, pelo que os habitantes começaram a acreditar num sinal enviado do Céu. Assim, o ponto luminoso à beira-mar passou a ser o local de construção da capela. 
      O fantástico e o sobrenatural são ainda sulcados pelo espiritual e pelo religioso: na rocha, por atrás da capela, está incrustada uma marca semelhante a uma pegada de boi, que os habitantes da terra dizem ser de um animal bento (o boi que aquecia Jesus na manjedoura) que, também, por ali havia passado.

     As marcas nos penedos são uma constante nas lendas de cariz religioso. Natureza e fé são motivos para dar cor às religiões. A Amélie tem nome que (além de título para filme) dá para depressões.
      

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Palavras a Lúcia - de luz a uma forma de ver os dias

        Em trinta e dois apontamentos de vida,  se (re)descobre uma mulher.

    Numa dedicatória manuscrita, lê-se que a obra é feita de "páginas femininas". É um dado categórico, ainda que não seja facto menor o de nelas também figurarem homens que, em múltiplas vertentes, mostram formas de estar e de viver bem para lá do que seja ser-se masculino ou feminino, Acima de tudo, encontra-se o ser humano na sobrevivência e na felicidade do(s) tempo(s).
     A Drª. Lúcia carrega no nome a luminosidade, a lucidez, a “luz” de ver as coisas que nem sempre lhe são fáceis, mas com o sentido que a experiência de vida lhe trouxe (pelo vivido, pelo lido, pelo escutado, pelo visionado, pelo sonhado). A sua condição de "quase cinquentona", ao ano de 2015 (o dos registos do diário), conjuga-se com esse papel que cumpre e partilha na relação "íntima deste teclado" (pág. 95), como se as páginas folheadas pelo leitor fossem mais visionadas no monitor de um portátil do que tateada na gramagem das folhas. Mais sobressai a partilha da sua visão do mundo tão afim a todos os que se deixam pautar pela sensibilidade e pelo gosto de fazer da/na vida o que ela tem de bom (mesmo quando esta nem sempre o dá).
     Entre janeiro e abril, a escrita acontece. Lúcia foi escrevinhando, diarinhando, na sequência de alguns dias ou na suspensão de outros; entrecortando, segundo a vontade ou o tempo liberto da fatalidade da rotina. Aspetualmente marcado ora pela duração ora pela iteração, o ato de escrever é encarado como "o melhor modo de fazer as pazes comigo, de tentar descobrir o que há que me faz sair daquele mim que julgo ser eu para aquele mim anestesiado para o que vai no mundo" (pág. 11).
     9 semanas surgem contempladas, no terço inicial de um ano, com os ingredientes de surpresa, sedução e suspense, mas também os de recordações (da infância e adolescência), de algumas rotinas (as do trabalho) e regressos (às origens, a Moncorvo). Há amor e dor, há cómico e seriedade reflexiva, há apontamentos ensaísticos, há perceções da arte (cinéfila, literária) e da vida (real, imaginada), há dúvidas e curiosidades que vão sendo resolvidas, satisfeitas à medida que as interações se fazem, principalmente, com o senhor Antunes, a dona Maria do Carmo. Há perdas: umas definitivas, outras por resolver - o tempo e a vida dirão se haverá lugar para tal.
       A diferença entre estar sozinho e viver só é também explorada nas páginas deste diário, ainda que a orquídea (uma das"meninas vestidas de lilás") permita, tal como o ato de escrita, "tentar remendar o dia, atar pontas soltas" e tornar o dia(mais) feliz. A Perpetuazinha fica; nos cuidados de Lúcia ou do senhor Antunes, está lá na narrativa para não só combater a solidão mais do que septuagenária como também tornar o dia "Solitariamente feliz" (pág. 57).
      Apreciei o texto pelo discurso tanto literário quanto natural; pelo veio investigativo e detetivesco introduzido e aplicado a um ponto narrativo que alimenta a curiosidade leitora; pelas lembranças e pelo cruzamento de referências musicais, fílmicas, literárias tão geracionais como familiares; também pelos valores e pela visão de mundo da Drª. Lúcia; por fim, mas não menos importante, também por esta última ser do "FêQuêPê" (a ficção é mesmo uma boa alternativa à realidade)!
      Cerca de cem páginas (faltam cinco) que se leem muito bem e, passo a citar, "gerundivamente":

Numa página de Facebook, datada de 23 de dezembro

      Obrigado, Maria Clara Miguel ("também e sempre Zá").
   
    Ao fim da leitura da obra, reluz alguma serenidade, com os preparativos de uma viagem, de um regresso às origens (sempre diferentes do ponto de partida) e de uma conformação inevitavelmente a construir, para sobrevivência na vida e na sociedade que temos, onde se buscam afetos e "aconchegos coletivos".
     

sábado, 24 de novembro de 2018

Diarinhando... bom título!

      A tarde foi de apresentação de um livro especial. Entre amigos, no Centro de Recursos da Secundária de Gondomar.

    Uma capa bonita, um título inovador, uma apresentação entre o elogio fundado na qualidade estético-literária e as cores da amizade, uma obra à espera de ser lida. E a autora?


    Já figura nalguns apontamentos desta 'Carruagem', por nos ter dado Histórias para Lermos Juntos e nos ter brindado com O Tesouro. Na companhia e na amizade. Assim foi, assim continua a ser, com os ingredientes geradores de uma família de leitores que Maria Clara Miguel tem vindo a construir. No caso de alguns dos presentes (inclusivamente de alguns ausentes), mais do que leitores, por certo.
      Nada é por acaso, diria a nossa Isaura. O (re)encontro com Maria Clara Miguel aconteceu. E uma Lúcia está para se dar a conhecer. Não foi 'encontro feito poesia', porque de narrativa se trata. Mas nas máscaras de Narciso (nesse mito que se compõe do eu que também é outro, no espelho da água), o que se narra é um ato de escrita metamorfoseado em diário, em prosa poética, em fragmento reflexivo, em apontamento breve, em opinião ou gosto que se querem partilhados.
      Dizia o apresentador do livro - o colega, escritor e amigo Manuel Maria - que nas páginas lidas há suspense, surpresa e sedução. As personagens e as ações narradas convocam espiritualidade e intuição, conformes à tonalidade lilás da capa, a essa cor metafísica propícia à purificação e à cura do físico, emocional e mental. A criação artística é um dos caminhos, nessa elevação de intuição, inspiração e criação espiritual. É mistério a expressar-se pela individualidade, pela personalidade, numa relação plena com a espiritualidade.
      De tudo isto se compõe a obra hoje dada a público, páginas configurando nove semanas de um diário que Lúcia (também Isaura e/ou Maria Clara Miguel) escrevinhou - não se trata de escrever mal nem de produzir algo sem valor (bem pelo contrário); talvez fingir um registo solto, natural, com um fim diverso (mais do que determinado), entre o entretenimento criativo, a oportunidade aproveitada, a vontade sem compromisso e a necessidade de revisitar tempos, gostos, pessoas, memórias que em todos nós vivem - umas comungadas, outras só de alguns, muitas só do 'eu' plasmado num discurso por natureza calendarizado, datado à cabeça (o Homem é tempo; dá-lhe a mão e larga-o, conforme a força, a vontade e a capacidade de o acompanhar).
      Diarinhando é amálgama para um ato encarado como processo, talvez por pretender culminar numa construção de identidades e entidades fictícias que só a vida pode vir a (re)criar pelo que já deu a (re)ver ou a imaginar.

     Ao folhear o livro, parei em algumas datas (8 de fevereiro foi uma delas) e em alguns segmentos (um deles, logo a abrir: "Está aí alguém?"). Talvez seja Narciso a recriar-se, a rever-se num universo de palavras, num fluir do tempo, num espelho de interrogações, reflexões, intrigas que de vida (também) se fazem.

domingo, 4 de novembro de 2018

Barcelona medieval e 'A Catedral do Mar'

    Uma série Netflix a não perder (2017). O livro do barcelonês Ildefonso Falcones (2016) é encontro a marcar.

     "La Catedral del Mar" - 'pela Virgem' e 'Às armas'. É com estes dois lemas que se retrata a sociedade catalã do século XIV. A partir de uma pesquisa e investigação aprofundadas, o autor apresenta uma visão da prosperidade e da força da cidade nos tempos medievais. Com a história de fuga do servo Bernat (que salva o filho das mãos tiranas e brutas do senhor feudal que possuíra a esposa e faria da criança mais um escravo às suas ordens), fica a conhecer-se a vida e a singularidade de uma Barcelona encarada como espaço urbano cosmopolita, habitada por escravos, artesãos, judeus, nobres, mais a realeza que se impõe a Castela e a Mérida.
     Um bairro humilde de pescadores (Bairro de La Ribera) afirma-se pela construção popular, coletiva e colaborativa do maior templo mariano do tempo: a catedral de Santa Maria do Mar. A gloriosa edificação faz-se a par da história de Arnau (Aitor Luna), uma criança tornada adulto e cidadão que conquista a condição de homem livre. Enquanto estivador,  bastaixo (carregador de pedras), soldado e cambista, a evolução do filho de Bernat não deixa de criar invejas, forças que preconceituosamente o forçam a ver-se como servo, como fugitivo indigente cuja nobreza de carácter só no final da narrativa dará lugar ao nobre e aristocrata definitivamente reconhecido em termos sociais. 

Trailer oficial da série 'A Catedral do Mar' (2017)

   Conspirações torpes e vis, injustas expõem-no a múltiplos perigos, como a chantagem da mulher que amou e de quem teve de se separar (por ser casada); a peste negra que lhe levaria a primeira mulher e os amigos; a perversão e o ciúme interesseiro da princesa (Elionor) com quem viria a casar, por decisão de um rei que viu nesse matrimónio a oportunidade de se libertar de uma dívida enorme ao então bem-sucedido cambista; a depravação e a imoralidade de uma Inquisição, que mostrou o que de mais degradante, maquiavélico e demoníaco havia na instituição da Igreja.
     Entre a a discriminação e segregação sociais, os interesses e jogos políticos, a intolerância religiosa e o materialismo reinantes, o amor virá a resistir e a triunfar, com Arnau Estanyol a assumir a sua paixão por Mar (Michelle Jenner), uma jovem protegida que cresceu, ficou mulher e acabou sua esposa, e mãe do filho que transporta para futuro o sinal da paternidade (sinal junto ao olho direito).
    Baseado no romance histórico de Falcones, o enredo da vida de Arnau Estanyol é complexo, narrado desde as dificuldades da infância à condição de bastaixo e ao sucesso adulto do cambista. Na ausência de uma mãe (Francesca) que só vem a conhecer na pior fase da sua vida adulta, o protagonista tem na Virgem Maria a mãe celeste a quem recorre nas adversidades, aquela que o acompanhará desde os mais tenros anos, bem como ao irmão adotivo que também marcará o seu percurso. Fecha a série (com oito episódios) com a inauguração e a sagração da catedral, com Arnau, Mar e o filho num núcleo familiar com expectativas de futuro (ao contrário de um início que colocou Bernat, Francesca e Arnau em rota de fuga e dispersão).

      Na linha das séries "Os Pilares da Terra" (2010) ou "Um Mundo Sem Fim" (2012), baseadas nos romances homónimos de Ken Follett, "A Catedral do Mar" é uma produção de Ana Rubio, num projeto da 'Diagonal Televisió', em coprodução com a Televisão da Catalunha.

sábado, 3 de novembro de 2018

Tristão e Isolda - da lenda ao filme

      Diz-se lenda medieval de origem céltica; firmou-se como uma das histórias universais de amor trágico.

    Surge pelo século IX. As primeiras versões escritas são do século XII, no formato de narrativa em verso, tendo sido história difundida por trovadores e pela realeza francesa (rainha Leonor de Aquitânia) na Europa. Um século depois, foi incorporada no Ciclo Arturiano, com Tristão a assumir-se como um cavaleiro da Távola Redonda. 
    Tristão (James Franco) assiste à destruição da sua família por invasores oriundos da Irlanda, até que um nobre da Cornualha (Lord Marke, interpretado por Rufus Sewell) o protege. O reino é constantemente ameaçado pelo rei irlandês, como forma de impedir o nobre bretão de obter uma união de pares e de reinos capaz de o enfrentar (assegurar a paz das fronteiras irlandesas era um objetivo a cumprir, desde os tempos da expansão romana).
     Entre a Irlanda e a Cornualha, há, contudo, um mar que deu em amar, ou não o cruzasse Tristão, acabando por conhecer Isolda (Sophia Myles), a ela se unindo e dela se afastando até dela se separar com a morte.

Tristão e Isolda - trailer do filme de Kevin Reynolds (2006)

    A intriga fílmica, dirigida por Kevin Reynolds (2006), espelha várias questões da literatura do tempo: a herança, os vestígios e a influência romanas; a questão das relações feudais, dos códigos de honra e de lealdade, bem como da vassalagem e do amor cortês; a condição da mulher no casamento (essencialmente entendido como contrato, negócio); o adultério como consequência ou realidade associada à distorção das regras de casamento; a relação da arte com a vida cortesã (literatura, dança e música), entre outros.
     Se a versão cinéfila é ou não fiel às origens narrativas celtas é questão que, não sendo de menor interesse, não apaga o destaque temático a dar ao herói (homem sem terra, na busca e no distanciamento face ao que mais deseja - Isolda; ser em constante conflito, entre o foro público e o privado, mas sempre fiel tanto ao "senhor" que serve como à "senhor" que ama) e à heroína (mulher entregue a um amor que vai ultrapassar convenções familiares e sociais, para não falar da própria vida).

   Segundo as palavras de uma personagem do filme, o amor de Tristão não destruiu um reino (contrariamente ao assumido no momento da denúncia amorosa), não diminuiu ninguém. É expressão de elevação, de idealização; de amor mais forte do que a vida ou do que a morte.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

História que (não) se repete

     Depois da festividade do Halloween, veio o susto.

    Tremeu a terra, pela madrugada, num sismo registado na região norte e centro com a magnitude 5.2 na escala de Richter. O epicentro localizado no mar, a cerca de 480 quilómetros a oeste de Peniche, não trouxe danos pessoais nem materiais, ainda que sentido entre Braga e Lisboa.
    Há cerca de 250 anos (mais precisamente 253), a catástrofe era maior, com efeitos mais localizados na capital do reino e seus arredores. Vivia-se o reinado de D. José I e a oportunidade de ascensão política de Sebastião José de Carvalho e Melo (mais conhecido por Marquês de Pombal). O Terramoto de 1755 foi tragédia nacional com reflexos internacionais.
    Assim o diz a Literatura, particularmente em Cândido, ou o Optimismo (1759), narrativa filosófica de Voltaire, na qual se reflete e critica o axioma «Tudo está bem no melhor dos mundos possíveis» (de Leibniz), com a irónica refutação evidenciada com as terríveis lições infligidas aos protagonistas - o precetor Pangloss e o seu discípulo Cândido.
   Uma dessas lições prende-se com as vivências do terramoto, que relativizam o otimismo excessivo de Cândido, ao chegar a Lisboa no preciso dia da tragédia. A morte de Pangloss num auto de fé, por ação inquisitorial, é lição demasiado pesada para tanto "bem no melhor dos mundos", sejam estes possíveis (fictivos) sejam estes reais (factuais).
   Ora, em tempos de alguma preocupação (também com sinais sísmicos que não pacificam ninguém na atualidade), a história repete-se em dia que parece fatídico, ainda que em escala bem menor face ao que sabemos de outros séculos.
     Sem o otimismo inicial de Cândido - sou mais pela relativização do bem (por forma a não o perder por completo, na ilusão de que não existe mal nenhum) -, vou ficar-me pelo preceito final da obra: "devemos plantar o nosso jardim".
      Aproveitar alguma coisa do feriado é o desejável (já que não pode ser tudo). Não será jardim; antes um canteirozinho.

     Repete-se a história, sim, mas com narrativa e efeitos bem distintos, para um dia de má memória.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

História que deu vida

       Tudo por causa da História que daria um Livro, de Manuel Maria.

      Um encontro intrigante (uma personagem com um passado por desvendar e uma realidade tão fictícia quanto aproximada ao vivido em Moçambique) conduz José António para a (re)descoberta de alguns dos enigmas que a guerra, a experiência de alfarrabista e a vivência de homem comum propõem à vida.
    Cruzam-se neste enredo pensamentos literários e filosóficos, além de toda uma gama de conhecimentos a convocar futebol, política, arte plástica, ensino, coordenadas de tempo e de espaço em muito coincidentes com o real que alguns leitores possam (re)ver no dia-a-dia que foi ou mesmo naquele que ainda é (ou pode ser). Enquanto um desses leitores, vejo a ficção entretecida com uma realidade conhecida, esbatendo-se uma fronteira muito ténue a anunciar essa terra de todo o mundo e ninguém, uma "nowhere land" de muitos (se não for de todos) conhecida.
      Revisto o Portugal dos finais do século XX / inícios do XXI, cabem nele a consciência do que foram os tempos de guerra colonial em Moçambique; os jogos político-estratégicos do regime ditatorial; os dilemas de quem cumpria um dever nem sempre reconhecido no poder que o impunha.
     Cronotopicamente plural, o romance propõe uma rede de personagens e de relações que convergem maioritariamente para um local de convívio e alimento: A Cozinha do Martinho. À mesa (e no jogo) se vê a educação, diz o povo. Há quem nela também faça grandes negócios e nela ponha as cartas. Em A Cozinha do Martinho, à mesa surgem (re)encontros, resoluções, reuniões e (re)equilíbrios de situações narrativas, numa reconfiguração simbólica da generosidade do próprio santo que dá nome ao restaurante; ao chefe do espaço e à festividade celebrada no capítulo final.
      Concluída a leitura e fechado o romance, tenho a impressão de já me ter cruzado com alguns dos espaços e algumas das personagens, embora ela tenha sempre de ser matizada, particularmente nos humanos, por traços fictivos de um José António, de uma Silvana (Sissi), de um Manuel Maria e de um Sr. Laurindo que (con)vivem nas páginas de um livro. E, de novo, nos confins da ficção ou da realidade, há uma espécie de limbo a alimentar dúvidas: pode o Man(u)el Maria de carne e osso que conheci ser o professor de ensino secundário (que também o foi, é e será) lido no papel? Pode qualquer semelhança da obra com a realidade não ser apenas mera coincidência, dando-me a ler um Sr. Laurindo que recupero das minhas memórias e revejo no próprio dia de apresentação do romance? É José António um múltiplo de Manuel Maria? É a carta do primeiro (que, não existindo, foi sendo) aquela que o segundo, pelo ato criativo de escrita, produziu com efeitos de real, a ponto de aparecer reproduzida num manual de Português (que existiu, sem dúvida)? E fico-me pelas figuras masculinas, porque de algumas femininas não diria menos.
      É nesta espécie de "mise en abîme" - de uma História que daria um Livro a evocar Checa é pior que Turra; de um José António tão familiar(izado) no espelho de Manuel Maria; de uma ficção a gerar uma outra, ainda que tão aproximada do real nas contextualizações epocais evocadas - que o romance se impõe.
     A fechar, há um "happy end" de uma história que, no ponto de arranque, "nunca encaixou na cabeça" de José António; que, na fase de resolução, Silvana reconheceu como enigmaticamente fantástica; que Carlos Vladimiro, no fim, confessadamente apresentou como desvelamento de identidade. Tudo acabou por dar em livro... e em vida com oportunidade de felicidade.
     Em suma, e similarmente às palavras do Chefe Martinho quando se refere à comida do seu restaurante, digo desta obra que "temos coisinha boa!"

     Renovado agradecimento ao Man(u)el pela dedicatória, pelo convite formulado para assistir à apresentação pública do livro, pela evocação de vivências e projetos que nos aproxima(ra)m e pelos momentos de leitura proporcionados. Nem penosos nem penalizadores, meu caro. Uma obra "maningue" interessante!

domingo, 3 de junho de 2018

A velha casa e outros dias

    Gondomar, na Biblioteca Municipal. Com amizade.

    Um dia depois de uma amiga ver o seu livro publicado nas mãos de alguns dos leitores e de ter assistido a uma apresentação da obra por alguém que a lera (e muito bem), ficou-me a vontade de apreciar mais a narrativa matizada de oral e poesia, com boa literatura à mistura.
  Um registo diarístico ficcionado; uma personagem (Madalena) cheia de vida, dando à palavra 'reformada' o sentido de mulher (bem) formada e com oportunidade(s) de reformular, retomar e reformar percursos e projetos; marcas de espaço e de tempo que se (re)visitam para se lhes dar novas cores, sabores e vivências, sem esquecer os tons, as pessoas e as memórias que a novidade faz e traz na (re)criação afetiva do lugar, das estações ciclicamente retomadas e renovadas, do fluir e do fluxo de vida e de comunhão com os outros e consigo própria - de tudo isto o livro se compõe, num jogo de ficção e realidade em que qualquer semelhança (ou coincidência) sai motivada e inspirada por lembranças, pela condição de presente e pelo desejo de futuro.
       E porque este último se complementa com presente e com passado, na linha do tempo, os projetos também se compõem de vivências e de memórias, inclusivamente aquelas que se revisitam pela tradição oral numa literatura feita em verso familiar, popular, universal pelas lições e pelos exemplos de vida configurados:


Poema da D. Marieta (in A Velha Casa e Outros Dias)

"Os Velhos" (in A Velha Casa e Outros Dias)

      Porque o ser humano se faz de, no e com tempo; porque também ele ocupa um espaço mais ou menos difuso, real, virtual ou fictivo; porque ele se (re)vê num espelho em que a imagem observada fica aquém da que verdadeiramente se expõe ou reflete, busca-se, nas linhas da narrativa, os traços de que uma mulher é feita, num retrato e numa vivência com sinais de passado recordado, de presente em ação e de futuro projetado.
      Liberta das contingências de uma vida entregue aos vários papéis que plenamente desempenhou, Madalena é feita de dores (etimologicamente de 'dolores'), de perdas, de conquistas, de ganhos, mas sempre de afetos e de expectativas, na demanda dessa utopia de felicidade que, na vida, não pode ter fim.

     ... porque o outono da vida há de sempre dar em novas primaveras, não obstante as intensidades do inverno e do verão.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Maria Lionça na senda da ficção e da verdade

   A fronteira do fictício e do real é como a linha do horizonte: ilusão de ótica a todo o tempo renovada, procurando a terra da utopia.

   Tudo a propósito da poesia de Miguel Torga, ainda que Maria Lionça seja nome para uma personagem de um conto com título homónimo publicado em Contos da Montanha (1941). O próprio autor apresenta-a como criação, invenção, imaginação que se torna verdadeira. É como a obra do escritor: quanto mais ficcionada, criada ou mais imaginada, mais real.
   Como força materna, ela resulta numa espécie de caleidoscópio, nas múltiplas variações de luz que uma figura feminina é capaz de dar ao mundo. Neste sentido, Maria Lionça é universal(ista), fonte de energia, e (por isso) encontra-se na origem e nos ciclos renovados da vida. Fiando e tecendo, assim vai compondo a meia, com a linha ou o fio que, dedilhados, a mão já susteve entre a roca e o fuso, numa imagem de continuidade de vida.

Entrevista de Miguel Torga ("Viagem às Terras de Portugal" - Rede Manchete, 1987)

      Na vida literária, a obra também se compõe de energia, luta, força da palavra, da linguagem que traduz a própria criação e invenção. Assim a verdade interior do criador é partilhada com o seu leitor, tal como a mãe dá ao filho o que de melhor tem.
      No feminino da terra, na força telúrica que o poeta dá a ler, também se revela uma Maria Lionça. Mesmo o masculino a reflete, nomeadamente nesse negrilho plasmado em verso (não deixa de ser árvore de grande porte na expressão da criação poética). Qual Anteu, o poeta alimenta-se da força da terra e, dessa forma, dá voz à Poesia. Nesta apresentam-se marcadamente quatro linhas orientadoras: um desespero humanista, configurado no inconformismo, na luta e na revolta de um Orfeu Rebelde face ao(s) poder(es) que transcende(m) o Homem e o deixa(m) preso a uma realidade que não dá nem traz esperança, utopia ou felicidade; o telurismo como expressão da força e da energia que decorrem da vivência e da proximidade à terra; a problemática religiosa, na questionação de um Deus que, não sendo negado, é acusado de não ser humano nem próximo da racionalidade que o poeta quer sublinhada na vida humana;  o drama da criação poética, associado ao esforço, ao trabalho extenuante e contínuo dos que desejam a superação das limitações (nomeadamente os da escrita poética). 
      No cruzamento destas linhas temáticas cabe também falar de Pátria, de Nação, de Alma e Cultura de um povo - e aqui Maria Lionça também é traço de alma de um país e da sua cultura; de terra e de mar abertos ao mundo, na descoberta de caminhos que têm como destino último a Universalidade, esse princípio que nos aproxima de todos os outros, na busca infindável do que nos leva à felicidade, à utopia.
      No reconhecimento do poeta, sigam-se-lhe os trilhos da terra:

Documentário televisivo (Porto Canal) sobre o escritor Miguel Torga
      
     Nas quelhas da vida, também composta de múltiplas ruas, há caminhos a descobrir para lá da aparência e da superficialidade. É na busca do que há de mais profundo, e verdadeiro, que a aproximação ao ideal se constrói. Com esforço e com trabalho.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Viajando... de comboio?

     Não é a propósito desta carruagem, nem tão pouco de nenhum comboio. Nela, contudo, fica sem que nele se viaje... porque de tempo (acima de tudo) se trata.

     Em torno de uma narrativa epónima (de um nome apenas para três personagens, feitas de uma só), compõe-se uma viagem no tempo.
    Assim se lê "George", esse conto de Maria Judite de Carvalho que configura as três idades de uma mulher, surgida como adulta aos olhos do leitor, no início e no final da narrativa. É este o ponto de partida (e será o de chegada) para alguém que, regressando à sua aldeia de infância, se reencontra com Gi (George na sua juventude, próxima dos vinte anos). Não se trata de relembrar ou recordar o bem passado; antes um tempo que George quer ver apagado, para que não se sinta presa / condicionada (tudo o que a quarentona de sucesso parece não querer).
      O passado esfumado, qual memória que se vai esgotando, é tempo recuado em mais de vinte anos; é rosto fixado num retrato de uma mala qualquer. É uma jovem que podia ser uma filha da protagonista; porém, surge como esboço, como figura de alguém com disposição para a partida - alguém que levará uma mala velha, de cabedal, para sair do "cu de Judas" (onde fica Carlos, que, ao contrário dela, se deixa prender). A reconstrução da memória é como uma pintura: inicialmente, apenas um rosto vago sem contornos, com o sorriso dos dezoito anos (bem distinto do de Georgina); depois, um reencontro, espelhando e  revendo o que não se quer presentificado.
      O presente é o instante do regresso à vila, para vender uma casa (para que nada prenda a um tempo ou a um espaço), pois George é mulher que não se quer ver agarrada a nada (a não ser, talvez, ao "último dos seus amores"). É o momento da consciência do duplo (ou do múltiplo) e de um percurso de errância, sempre na predisposição de partir, de viajar - até porque a vida é feita de constantes partidas / viagens / percursos. É ainda o tempo de despedida do passado e de uma viagem de comboio, qual metáfora da passagem do tempo. É o agora de uma vivência que se faz em Amesterdão, com um trabalho que agrada e faz da adulta George uma pintora bem sucedida, que adora viajar; que prefere os pensamentos agradáveis (feitos de um gosto materialista e de uma propensão para um controlo do tipo quem tudo pode e tudo quer - porque tudo tem).
       O futuro é encarado no momento em que vai o "comboio a fugir de dantes". Aparece, então, um novo esboço, o de Georgina, uma idosa que se sente só (por causa desse "crime" da velhice), com necessidade de retratos (o da menininha que foi Gi, saída da vila com uma foto no fundo da mala). Vê pior, as mãos enrugadas tremem (nada pior para quem foi uma conceituada pintora) e o "mundo já não lhe pertence", aos setenta anos.
     20, 45, 70 anos - a passagem do sorriso do dia para o da noite. O 'eu' no reencontro, na descentração, com o outro 'eu' (o de outros tempos, sejam passados sejam futuros). Nenhum deles George quer. Só o presente, o instante, o momento que controla, à mesma lógica das emoções que são contidas ("uma simples lágrima no olho direito, o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não" / "Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro...").

       A pretensa liberdade do 'eu'. A adulta que tudo julga controlar (inclusive o tempo). A pintora que expõe, que tem sucesso e acredita poder "fechar os olhos" a tudo o que lhe desagrada. Acredita que a mala cara, leve, de rodinhas não dará lugar a uma "carteira preta, cara, talvez italiana, italiana, sim". Porém, "tudo passa", por mais que a antecipação disso incomode George - título narrativo para um presente que dura (só até chegar o futuro).
      

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Gi-George-Georgina

    Afinal, (também) Maria Judite de Carvalho.

    Na sequência da abordagem do conto "George", nada como apresentar a autora da narrativa, a partir de um pequeno documentário sobre a vida e obra daquela que, na escrita literária, se (re)viu mulher em diferentes idades e se compôs na solidão.

Documentário da RTPN (2011)

    Um visionamento que prossegue o tratamento de um pequeno texto informativo (para deteção de linhas temáticas, marcas de construção narrativa e registos de inspiração biográfica) e incide sobre uma pré-tarefa a dar continuidade / complemento à recolha de dados relativos ao trabalho anterior.
     Dos muitos dados contemplados, sublinham-se os seguintes:
"As Três Idades do Homem e Três Graças", 
de Hans Baldung Grien, 1539 (Museu do Prado)
a) consciência em movimento (interior da alma) de personagens, dimensionada no âmbito do psicológico;
b) vertente realista de retrato de uma sociedade frustrada, oprimida, isolada, marginal;
c) consciência da velhice e dos idosos (que todos seremos) no ciclo da vida;
d) técnica do monólogo interior (na expressão de uma consciência partilhada do pensamento);
e) exigência da colaboração do leitor (corresponsável na construção de imagens narrativas, por exemplo, a do espelho, no caso de 'George');
f) vivência no estrangeiro (França, Bélgica), tal como George (em Amesterdão);
g) crença mais no talento de pintora (tal como George) do que no de escritora.

      Vamos, então, a "George" (que já foi Gi e será Georgina), narrativa epónima marcada por essa consciencialização do encontro do 'eu' consigo mesmo, pela representação do que foi e do que será, numa espécie de despersonalização, distanciamento, descentração para se poder ver na memória, ao espelho ou n(um)a bola de cristal.

     Uma narrativa tão reflexiva e deambulante quanto o que Bernardo Soares fez com Pessoa (ou o último no primeiro). Porque a consciência da vida é feita de procura, numa viagem que nos faz estar atentos ao que há à volta de todos nós e que nos leva a revermos o percurso já feito e/ou a prevermos o que estará para além de nós a cada instante.

domingo, 4 de março de 2018

Um condicional muito factual

    A propósito de História que daria um Livro... e deu mesmo!

    Foi ontem divulgada mais uma publicação do escritor e amigo Manuel Maria - uma produção, uma apresentação que ganhou nota de foro pessoal, não só pelo convite amigo que me foi endereçado (e permitiu o reencontro com pessoas de bem) mas também pelo facto de me ter, surpreendentemente, deparado com um romance que me foi dedicado.
    Abri-o. Sorri com a leitura das primeiras linhas, antevendo um José António tão feito de Manuel Maria quanto marcado pelo azul (quer pela nobreza de caráter quer pelo amor ao Futebol Clube do Porto). Será o reencontro com uma personagem que conheço desde a leitura de Checa é Pior que Turra (1996).
    Relembrado de como uma carta deste romance foi transcrita nas páginas de um manual de Português de que fui coautor, o capítulo VII da História que daria um Livro sublinha precisamente esse dado, num diálogo entre as personagens Estela e Silvana (Sissi):

   "- Procuro um livro. É sobre a guerra colonial. Vem aí o aniversário do Tito e gostaria que as filhas lho oferecessem. Tenho a certeza de que iria gostar. Apesar do divórcio, a sua relação com as miúdas continua a ser exemplar.
    - Ainda bem.
    - Acho que é o mínimo que nos resta.
    - E que livro é?
    - Chamou-me a atenção, porque tem uma carta de Natal reproduzida no manual de Português da mais nova.
    - Da Luna...
    - Sim.
   Abriu a pasta e retirou um manual de 10º ano, Das Palavras aos Actos, Edições ASA. Tinha uma marcador na página 152. Em fundo cinza, uma citação da obra a ocupar quase toda a página; no canto superior direito, um mapa do continente africano, com a localização exata de Moçambique, além da Península Ibérica, a norte, com o retângulo de Portugal. À margem, à esquerda, uma miniatura, a preto e branco, da capa do romance Checa é Pior que Turra.
    - Conheces? - Perguntou Estela.
   - Não. Não tenho ideia de o ter visto cá, mas deixa que chame o Zé António, que está no primeiro andar a arrumar uns livros. Pode ser que ele conheça."

      Conhecerá ele, por certo, a carta que escreveu, publicada num manual que cita um livro escrito por Manuel Maria. Como este último terá chegado à carta de José António, diria que são "contas de um outro rosário".

    Resta-me agradecer ao Man(u)el que tenha feito registar neste seu novo livro, quase vinte anos passados, um pedaço das nossas vidas, de projetos comuns, perdurados numa narrativa que certamente irei ler com a atenção que merece e com o desafiante sentido de como a ficção pode inspirar-se numa realidade que ultrapassa a(s) sua(s) fronteira(s).