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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Antes dos 70

     Na preparação do meio século de carreira.

     A voz dos Trovante, a voz de um percurso a solo pode continuar a cada vez que se cantar com o ritmo e a cadência musical familiar das canções que, coletivamente, se reconhecem. A marca deixada no cancioneiro da música portuguesa acompanha lutas grandes e pequenas, dentro e fora de portas.
    O dia nasce com a notícia da morte de Luís Represas, na discrição do que foi uma doença prolongada a pôr fim ao espetáculo ao vivo. Persistirá na memória dos que veem e ouvem as suas composições, letras e canto, mesmo estando agora "Fora de mão" (álbum de 2003):

Da voz que nos deixa à música que nos faz ouvir há décadas

    Sem querer trair a autoria inspiradora, diria que "As ruas da minha cidade abriram" não os olhos, mas os ouvidos, para se ficar a saber o que não se queria: partiu "sem deixar destino ou direção."

DA PRÓXIMA VEZ

As ruas da minha cidade 
abriram os olhos de encanto para te ver passar
As pedras calaram os passos 
e as casas abriram janelas só para te ouvir cantar
Porque há muito muito tempo não vinhas ao teu lugar
Ninguém sabia ao certo onde te procurar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Quisemos saber como estavas, 
se a vida tinha tomado bem conta de ti
Ou se a vida teve medo 
e eras tu que a levava refugiada em ti
Cada verão que passava sentíamos-te chegar
Como era possível que o sol se atrevesse a brilhar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Deves trazer tantas histórias, 
tantas que algumas ficaram caídas por aí
Outras, eu tenho a certeza, 
o teu fogo na alma queimou, deixaram de existir
Só queremos saber se és a mesma que vimos partir
Não existe mundo lá fora que te possa destruir
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

     Lembro-o por terras de Espinho, num palco junto ao casino, em concerto de verão, há mais de quinze anos. Soam muitas cantigas de sucesso, nas melodias e pelos propósitos da composição (por todos nós, por Cuba ou por Timor).

     "Se houver próxima vez não esqueças / leva contigo recordação...". Um dia, a festa será algures no universo. RIP.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bodas de ouro para um edifício (e não só)

     50 anos numa noite espetacular, com memórias revistas em escassos minutos.

     Hoje, pelas 21 horas, no Multimeios de Espinho, foi tempo de encerrar uma história que culminou em espetáculo-concerto e contou com a participação da comunidade educativa do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), nomeadamente professores, alunos, pessoal não docente (operacional e técnico-administrativo), encarregados de educação, mais as entidades parceiras que viveram os "50 anos: do Liceu ao Agrupamento" - tema aglutinador de todo um plano de atividades vivenciado desde o ano letivo 2024-2025.

Convite endereçado à Comunidade Educativa do AEML
     
       As bodas de ouro dizem respeito a um edifício construído no início da década de setenta do século passado, para nele ser alocado o Liceu Nacional de Espinho. Entrou aquele em funcionamento no dia 4 de novembro de 1975, conforme ofício redigido pela presidente do conselho diretivo provisório de então: a professora Maria do Céu Beato Oliveira Dias de Sousa. Em tempos marcados ainda pelo espírito revolucionário pós-25 de abril, tudo começou de acordo com decisão unânime assumida em reunião geral de professores (RGP). Assim se lê no documento exarado: "... encontrada uma plataforma de solução... em relação a uma decisão tomada por unanimidade numa anterior reunião sindical, segundo a qual as aulas não seriam iniciadas sem que todos os professores eventuais estivessem colocados...". Nas palavras citadas de quem viveu o momento, a construção foi como que tomada de assalto, para que se cumprisse o desígnio para que havia sido erguida.
        O programa do evento celebrativo iniciou-se com a projeção de um pequeno vídeo, a dar conta do percurso desse estabelecimento escolar que, aberto em novembro de 1975, em 1976-77, passa a ganhar um patrono com a designação "Liceu do Dr. Manuel Laranjeira". Em 1978, chegou a "Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira". Em 2011, o edifício foi objeto de reabilitação por parte da Parque Escolar (hoje, Construção Pública), segundo um projeto arquitetado por Rui Lacerda. Cumprido meio século de um estabelecimento escolar (que, na atual e requalificada escola-sede de agrupamento, apresenta apenas alguns poucos apontamentos dispersos do passado), mantém-se a missão, ainda com futuro.
     Na presen-ça da Diretora do AEML, do Presidente do Conselho Ge-ral e do Vice-  -Presidente da Câmara Muni-cipal de Espi-nho, houve oportunidade para me pro-nunciar acerca do vídeo pro-duzido e de como este pode ser injusto face a uma multiplicidade de projetos, de atividades, de rostos que têm vindo a marcar gerações e que nele não figuram. Não cabem 50 anos em menos de dez minutos e, nessa medida, impõe-se a compreensão e a generosidade de muitos poderem rever-se naquilo que foi editado; encontrarem no que fizeram / fazem interseções, comunhões (re)visitadas no que foi incluído (há impossibilidades óbvias no conceito de memória: desde a perda, ao esbatimento e à recuperação recriada). Importa ainda agradecer a todos os que, saindo, entrando ou permanecendo no agrupamento, deram ou têm vindo a dar o seu melhor a uma instituição que tem servido bem o concelho, para não dizer o país (considerando alguns dos nomes que saíram formados do "liceu", como ainda é familiar e popularmente nomeado).
       Fica aqui o registo vídeo (clicar na expressão destacada) desses menos de dez minutos para uma história que já segue caminho no sentido do século - porque, do meio já vivido, há já provas consolidadas quanto ao papel de-sempenhado na socie-dade, enquanto exem-plo de escola pública focada na qualidade educativa, na inclusão, na multi e interculturalidade, bem como no acompanhamento socialmente empenhado e implicado na ativação de competências (conhecimentos, procedimentos, atitudes e valores) formativas diversificadas.

         Comemorados e encerrados os 50 anos, rode-se a ampulheta e reveja-se a areia a cair, em nova contagem de tempo com atenção à vida e, como o diz o patrono, abrangendo no "mesmo olhar o céu e a terra". Acrescentaria o mar, pela força que detém e pelo horizonte que nos dá, nos caminhos e nas oportunidades a descobrir, a explorar e a conquistar.
        

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

       Relembrando a passagem por locais emblemáticos.

       Há cerca de um ano foi assim, tal como há sete.
      A visita turística é cada vez mais isso: turismo. Espaço para memória, sim, mas tão bem organizado e restaurado que vai apagando a realidade dolorosa que foi. Às vezes, parece que só volta a ser por um exercício de imaginação, distantes que estamos desse vivido (será?!).
       Auschwitz é cada vez mais assim: arranjadinho, limpinho, com cara nova.

Eletrocussão, gás, fuzilamento, forca, fome, doença, trabalho forçado - indignidades (foto VO)

     Birkenau mantém-se mais fiel a um tempo que não podemos querer retomar, nos sinais mais pequenos que o induzem. A grandes passos e com alguns sinais de autocracia, despotismo, autoritarismo e ditaduras contemporâneos, permanecem hoje provas naturais desse horror que não pode ser esquecido.
    
A três quilómetros de Auschwitz, Birkenau impõe-se como boca infernal no trago da vida humana (foto VO)

    Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho da União Soviética libertou o campo nazi de concentração e extermínio Auschwitz-Birkenau (um dos muitos espalhados pela Europa), na Polónia. Encontrou poucos sobreviventes, câmaras de gás destruídas, corpos defuntos e cinzas dos assassinados. Milhões de judeus, ciganos sinti e roma, portadores de deficiência, dissidentes políticos, homossexuais, indivíduos arbitrariamente declarados "criminosos" ou "antissociais", trabalhadores forçados, prisioneiros de guerra, testemunhas de Jeová e vários outros grupos considerados menores.
    Tudo começou com ódio, preconceito e antissemitismo, acabando em genocídio. Holocausto: termo de origem grega para significar "totalmente incinerado". 

     Seja este o dia pela dignidade e pelos direitos humanos, combatendo o ódio, a intolerância, totalitarismos e todas as formas de discriminação; preservando a memória na defesa dos direitos fundamentais da vida humana.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Mostra-me os teus Lusíadas - momento de (re)encontro(s)

      Um evento feito de duas palavras.

    Na verdade, houve muitas mais, mas o Sr. Comissário Nacional para a Comemoração dos 500 anos do nascimento de Camões marcou o seu discurso por duas: "Parabéns" e "Obrigado".
      O agradecimento começou quando, na abertura do evento, reparei na presença de várias gerações no Auditório Maria Ricardo - crianças pequenas, jovens, pais, educadoras, professores, avós -, todos em torno de uma atividade promovida pela Coordenação da Biblioteca do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), em articulação com o Departamento de Línguas e o grupo disciplinar de Português: "Mostra-me os teus Lusíadas" (perdoada, claro, a deturpação do título, a bem de uma oralidade mais fluida, natural, tornada escrita).
    Na senda das atividades  promovidas a propósito do ano quingentésimo do nascimento do épico português, o AEML fecha um ciclo, com a recolha de edições da epopeia quinhentista Os Lusíadas e o propósito de encontrar a mais antiga. Entre vários formatos e edições de diversas datas, não se chegou à original (de 1572); conseguiu-se recuar até ao ano 1870, com uma edição de bolso, não maior do que a palma da mão, surpreendentemente composta de finas e pequenas páginas onde cabiam 1102 estâncias (para 8816 versos) distribuídas por dez cantos. Caso para dizer que "Mostra-me os teus Lusíadas" quase precisava do complemento lupa para a devida leitura.

Bem andei com os meus Os Lusíadas à mostra, com muitas notas minhas (como aluno e professor), 
mas era apenas uma edição do século passado (1978). Havia vários exemplares datados do século XIX!

      O Auditório Maria Ricardo (inicialmente) e a Biblioteca da escola-sede do agrupamento (aquando da divulgação de prémios, generosamente patrocinados pela Porto Editora e pelo Grupo Solverde) foram os locais de (re)encontro, onde se acolheu uma exposição de livros e se recebeu o grupo de convidados e participantes, numa oportunidade para lembrar diferentes gerações de que, para lá dos planos da História de Portugal, da viagem marítima até à Índia e dos episódios mitológicos, há mais um (o quarto) com versos épicos camonianos a sublinhar a universalidade, intemporalidade e a contemporaneidade do pensamento do autor. 

     Biblioteca da EBSML, local da entrega de prémios e da exposição de edições de Os Lusíadas.

    Daí relembrar-se a reflexão final do Canto I, tão ajustada aos tempos modernos e à humilde constatação da fragilidade da condição humana perante a grandiosidade das forças que a dominam:

105 (...)
Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
Oh! Caminho de vida nunca certo,
Que, aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!

106 
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

     Daí evocar-se o Canto VII, naquele momento em que Paulo da Gama se prepara para explicar ao Catual o significado dos símbolos da bandeira nacional nas naus: surge o pedido de auxílio do poeta às ninfas (mais uma invocação, para que se cumpra grandioso relato), imediatamente seguido de um lamento por quem tem obra feita e não se vê reconhecido pelo que faz (seja pelo esforço desproporcionado para se fazer notar seja pelas invejas movidas contra quem trabalha):

78 
 (...)                           ... Mas, ó cego,
Eu, que cometo, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

     No seio do sentido eufórico e grandioso da epopeia, não deixam de se ler notas críticas, disfóricas de uma época em extensão contínua, quase profética para a atual. No mar da vida, os ventos contrários surgem tão inesperados quanto certos, restando à humanidade remar "em fraco batel" contra marés adversas e provar a sua tenacidade, para a sobrevivência; para a luta por uma sociedade mais humanizad(or)a, justa, menos tomada por jogos de interesse, manipulações, maniqueísmos ou invejas.
     De tudo isto e muito mais trata Camões na sua epopeia, tão diversa, inspirada e experimentada (com "saber de experiência feito").
    Pelo exposto, o AEML mereceu os parabéns: pelas iniciativas levadas a cabo; pelos produtos conseguidos (mais icónicos, mais escritos, mais manuais, mais digitais, mais simbólicos); por ter feito da celebração ação, divulgando e reconhecendo obra; por saber que ainda muito há a partilhar do poeta universal português. Razões, portanto, para mais evocações e comemorações, com as lições intemporais colhidas dos textos, numa leitura atenta, focada num tempo que se (re)visita e, nalguns casos, parece manter-se pela pertinência e atualidade das questões, dos tópicos e dos problemas vividos, transeculares.
  Agradeceu-se, também, a presença amiga e já familiar do Sr. Comissário Nacional, o Professor José Augusto Cardoso Bernardes, ao dar maior dignidade - com o seu estímulo, a sua acessibilidade, douta simplicidade e afabilidade no saber e no trato - a um momento de reconhecimento do que se faz bem e em honra de quem deu a ler e a ouvir grandiosa epopeia ao mundo. 
   Gratidão ainda por se ter contado com a música e o canto de membros do Bando do Surunyo (com a voz encantadora de uma ex-aluna e a companhia harmoniosa, simpática e colaborante de uma instrumentista), que mais abrilhantaram a tarde deste dia, numa ambiência memorável, festiva, musical, poética - pelas palavras camonianas, pelas sonoridades criadas, pela animação vivenciada, pela presença de muitos e pelos gestos que engrandecem o ser humano (a partir do exemplo dos grandes, clássicos ou contemporâneos).

    Caminhe-se rumo ao seiscentésimo ano, evocando e reencontrando, a cada dia, mês, ano, a grandiosidade de quem simboliza a língua, a identidade nacional e o sentido universal de mensagem(ns) humanas e humanistas.

sábado, 5 de abril de 2025

Partilha do não desejado

      Há textos que não deviam ser escritos.

     Este é um deles. Eu, pelo menos, gostaria de não o ter feito, se tal significasse que não havia motivo para tal.
      Teve que ser lido:

O texto que ninguém quer escrever nem ler - https://carruagem23.blogspot.com/2025/04/partilha-do-nao-desejado.html 
(Foto VO)

     É sempre um momento de aperto no coração, de embargo na voz e que, na memória do vivido, traz a consciência de um tempo que prossegue sem a presença desejada, mas com o sinal do que o professor David Rodrigues define como "a grande provedora do tempo": a gratidão devida.
      É esta a vida (na qual subsiste a morte).

     Assim foi na Igreja Matriz de Espinho. À MCM. RIP. 

sábado, 22 de março de 2025

Onze anos depois

     Regresso a Cabanas de Viriato e ao palacete, hoje museu, de Aristides Sousa Mendes.

   Já muito escrevi acerca de uma das personalidades mais relevantes da História de Portugal do século XX, internacionalmente reconhecida como um "Justo entre as Nações", mas que ainda muitos teimam ver apagada, na permanência de uma condição que a jornalista Diana Andringa apelidou de "O Cônsul Injustiçado".
   Volto ao tema, pela visita hoje levada a cabo à casa que vi já bem degradada e, presentemente, se dá a ver restaurada, acolhendo o Museu Aristides de Sousa Mendes. Não fossem os sinais interiores (denunciadores da injustiça, da perseguição, da miséria para que foi conduzido), dir-se-ia que, pelo exterior, um libertador do sofrimento e da desgraça está mais do que enaltecido. Não será nunca o caso.
    Guiados por um familiar seu, foram cerca de quarenta participantes a partilhar uma oportunidade de aproximação / identificação com uma causa que devia ser a de todos os homens: generosidade e grandeza de alma ao serviço do salvamento de povos ostracizados, conduzidos, por uns loucos despóticos do tempo, para um fim indigno.

Contrastes que o tempo produziu (montagem fotos VO)

   Muito trabalho foi já desenvolvido para um conhecimento mais efetivo do que representou, no seu tempo, este diplomata português, cujo desejo acabou por ser o de "ficar do lado de Deus contra os homens, em vez de ficar com os homens contra Deus". Num espírito de desobediência consciente, enfrentou e desafiou ordens expressas do ditador António de Oliveira Salazar (contrariando a famigerada Circular 14) e, durante três dias e três noites, concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal, para refugiados de várias nacionalidades interessados em fugir de França e de outros países europeus (invadida pelo regime nazi). 
  Pagou caro por isso, e tal é comprovado de várias formas - uma delas, talvez a mais leve, por ter entregado um sobretudo (recentemente readquirido pela fundação para o museu) como forma de pagamento de uma despesa feita para poder alimentar a família.

Uma das salas do museu (primeiro andar) homenageando o Cônsul de Bordéus

   Num mundo que vivia e se digladiava com fortes armas, dizimando seres, Aristides Sousa Mendes empunhou um carimbo, para salvar milhares.

   Perante o vivido no museu e o restauro evidenciado no palacete, falta o passo de divulgação, de requalificação e de revalorização nacional merecidas de um dos seus maiores no período da Segunda Guerra Mundial; alguém que se interrogou sobre a vivência de um tempo tomado de desumanidade e loucura: "que mundo é este em que é preciso ser louco para fazer o que é certo?" Lembrá-lo será sempre pouco para o bem que fez.

domingo, 16 de março de 2025

200 anos de Camilo

     Não é estranha condição humana; é certeza de todos.

    Por barroco que seja o tópico da morte predita a partir do nascimento e da vida (como o sugere a rima do setecentista Francisco de Pina e Melo intitulada "A um berço com feitio de uma tumba"), o tema hoje é o nascimento de um oitocentista, um romântico, ainda que ilustrado com fotos da morte.
    Celebra-se o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, esse escritor que, na intensidade da polémica, do sentimento e da escrita, levou ao limite e ao extremo a decisão do fim.
    Cumprido o desejo da sepultura no cemitério da Lapa, conforme testamentado numa das suas cartas a um amigo (João Freitas Fortuna, que detinha uma tipografia, onde algumas das obras camilianas foram impressas), a evidência dessa intenção satisfeita permanece ao olhar de todos, entre seis gavetões de sepulturas alinhadas num jazigo de família (que não a sua na vida, mas a escolhida na morte):

Um gavetão no cemitério mais romântico nacional tem os restos mortais de Camilo, 
junto de três outros suicidas (Foto VO)

     Em 15 de julho de 1889, na busca da cura para a cegueira, numa das muitas cartas que escritas pela mão de Ana Plácido a Freitas Fortuna, Camilo assume essa vontade:

    «Começo a experimentar uma espécie de affecto posthumo ao meu cadáver. Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fis da minha saúde, que já agora me quer parecer que este amor ao que nada vale é retribuição devida a esta matéria que me hade sobreviver alguns annos, aviventada pela engrenagem da putrefacção. Deste desejo extraordinario mas não excepcional, resultou dizer-lhe eu, meu querido amigo, quer fallando quer escrevendo, que aspirava fervorosamente ser sepultado no seu jazigo da Lapa. …. vontade que me domina há ano e meio… O meu querido Freitas acceitou com ternura fraternal a offerta do meu cadáver, e d’esta arte, permittindo que eu fizesse parte da sua família extincta, quis continuar alem da vida a tarefa sacratíssima da sua dedicação incomparável.»

      No dia seguinte à morte do autor de Amor de Perdição (1862), a 2 de junho de 1890, o Governador Civil de Braga autoriza que o cadáver seja transportado de S. Miguel de Seide para a Igreja da Lapa, no Porto. Aqui se encontra sepultado no cemitério privativo da Venerável Irmandade, no jazigo de família desse dedicado amigo, a quem por escrito recomendou «que nenhuma força ou consideração o demova de conservar-lhe as cinzas perpectuamente na sua Capella».

      Sirva este apontamento para falar da vida, celebrada, na arte, num cemitério, tomado como museu a céu aberto. Dê-se a prova de como não há Panteão, por merecido que seja, para acolher quem nele não quis permanecer.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Mulher de "invenção"

     Porque, além da epistolografia e da narrativa, também em poesia escrevia.

   No tempo em que andava pela aventura da autoria de manuais escolares, considerava-a, enquanto escritora viva, entre os poetas contemporâneos a ler por alunos(as) do ensino secundário:

Só de amor (1999) - assim se intitulava uma obra no fim do século XX (Foto VO)

      Com a notícia da morte de um percurso de vida inspirador (1937-2025) de uma das responsáveis pelas Novas Cartas Portuguesas (1972), diz-se que se perdeu uma das maiores da literatura portuguesa atual. Sim, é. Continuará a ser, pelo exemplo feminino que foi; pela obra que nos lega; pelo reconhecimento que poderá ser maior (assim a queiram dar a conhecer, a ler):

Um exemplo poético a "rasgar" perceções

     Mulher de liberdade, de amor, de invenção, de contestação e luta contra despotismos de qualquer natureza. Uma das três Marias, uma Minha Senhora de Mim (para citar um dos seus títulos de 1971) ou um' A Desobediente (como a sua biógrafa Patrícia Reis a apelidou) a marcar a sociedade e o pensamento de um tempo à espera da (r)evolução, na esperança dos olhos verdes com que nos viu.

Nada mais de mim
haverá memória
- sei -
só os poemas darão conta
da minha avidez
da minha passagem
Da minha limpidez
sem vassalagem

      Bem podiam ser as palavras de um epitáfio para uma irreverente que encontrou na poesia a voz da (r)evolução. RIP.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Sem açúcar

        Assim bebo o café (e também o chá).

       Hoje, porém, não se trata de outra coisa senão lembrar o café, ainda que a propósito de um pacote de açúcar (não é a primeira vez que recorro a eles para produzir um comentário - entre os positivos e os negativos, há doçuras para vários graus):
 
Um pacote de açúcar a lembrar café e alguém mais (Foto VO)

      À semelhança de muitos outros dias, trago comigo a pequena e doce dose, para não consumir. Simplesmente, ao ler a publicidade nele contida, relembro uma pessoa que hoje parte desta vida. É difícil encontrar alguém que, nestes tempos e na passagem do próprio tempo, seja tão consensual quanto a virtudes, a ponto de o considerarem simples, afável, atento, encantador, sorridente, alegre, humilde, bem sucedido e com forte preocupação social. Difícil juntar todos estes ingredientes num só ser humano.
      Comendador da Ordem Infante D. Henrique (2006) e da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial (1995), Rui Nabeiro ficou conhecido como o Senhor Delta Café. Hoje é notícia pelo seu falecimento. Felizmente foi um dos que, em vida, viu reconhecido o importante papel que teve para muitos. Teve prémios, teve agruras e, inteligentemente, conviveu com ambos.
    Apoiando-me na mensagem publicitada, apetecia-me mudá-la: "E se o café desafiasse a mortalidade?" As boas pessoas não deveriam nunca deixar este mundo (até para contrariar aquelas outras que, ficando, só fazem e vivem em guerra com tudo e todos).
       
       Que esteja em paz pelo bem que fez e soube ser.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Porque é hoje o dia

     Cem anos depois do nascimento.

     Talvez o desmereça, mas foi o que quis fazer, recuperando temas, títulos, versos, ideias. Trazê-lo à vida, ao hoje (porque do presente se fez, sem querer pensar muito no amanhã), com um sorriso.

FOSTE...

Disseste
que há palavras interditas;
palavras que nos tocam;
algumas, um cristal;
outras, um punhal.

Saíste da moldura,
foste com as aves
e viste na poesia
a música que sempre teve:
um acorde perfeito.

Rejeitaste a pureza.
Nas viagens que fizeste,
juraste ver a luz tornar-se pedra.
Nascido em inverno,
aspiraste às tardes de setembro.
Buscaste o campo e o silêncio.
Quiseste falar das oliveiras, 
de uma cerejeira em flor,
da figueira e do trigo maduro.
Preferiste as mãos e os frutos.

Afirmaste a urgência do amor,
de um barco no mar;
e quando perguntaste
"Que diremos ainda?",
mergulhaste na água;
escreveste na terra;
entregaste-te ao fogo;
levitaste no ar
e puseste no céu a lua.

Voltaste à fonte, ao rio, ao mar...
Molhado pelo orvalho,
deixaste-o escorrer no corpo.
Bebeste-o como lágrima,
quebrando a dor, a secura.
Suaste no trabalho da sílaba,
da palavra, dos versos.

Nas perdas, 
alimentaste o isolamento.
Entre brutalidade e ternura,
o rigor, o rumor, o corpo habitado,
sentiste o peso da sombra
e desejaste ser árvore.

À hora da despedida,
no tempo em que se morre,
um rio te esperou.
Ficaste na memória,
como a canção de Laga.

Tens um nome.
És lido aqui, neste país, agora.

Estarás em paz entre os anjos.
                                                  Espinho, VO

      Ao jeito de palimpsesto e de intertexto, fica uma combinação que soa a dedicatória a um grande da criação e da expressão poética lusa. Ao funcionário público que se tornou poeta. A um mestre que deu grande lição.

      Ao Eugénio que foi José e que do Fontinhas se fez Andrade.

sábado, 13 de agosto de 2022

Um dia depois...

      Porque é agosto, é dia de sol, ...

     Porque a seguir a um dia vem outro e há quem esteja já para lá do tempo (que passa sempre). É o caso de Miguel Torga.

               MÁGOA

Medas de trigo ao sol - Agosto,
Tudo o calor do Sonho amadurece;
Só a verdade amargura do meu rosto
Permanece!

Até me lembro que não sou da vida!
Que não pertence à terra esta tristeza…
Que sou qualquer desgraça acontecida
Fora do seio mãe da natureza.

E contudo não sei de criatura
Que mais deseje ter esta alegria
De um fruto azedo que arrancou doçura
Do céu, das pedras e da luz do dia.
.
Leiria, 11 de Agosto de 1940.
in Diário I

     Sem mágoa(s), sem medas de trigo, sem querer ser "desgraça acontecida", há a consciência do que possa fazer ensombrar e perigar esta vida; mas há também palavras a combinar e a criar alguma da magia que só os eleitos conseguem trazer à escrita poética, como que peneirando, do pó da terra, o ouro vital que a ela nos liga.
     Nos grãos de areia que caem no relógio, há tempo para que a poesia dos versos torguianos adoce o dia - o de hoje e o do futuro.

    Porque ontem foi mais um dia para o celebrar e hoje, e sempre, faz sentido (re)lembrar.

sábado, 6 de agosto de 2022

Triste dia, o de ontem, para a poesia

      À hora da morte, há quem diga que se vai para o céu. Que céu é este?!

    Não sei se sim ou se não. Sei que os olhos perdem quem para lá tenha ido (mesmo que, por vezes, ilusoriamente, haja uns laivos de reencontros impossíveis). A memória procura contrariar a perda, mesmo que a representação feita esteja mais para uma construção subjetiva do que para a realidade objetiva que (se) foi.
   Ana Luísa Amaral, reconhecido nome nacional da poesia contemporânea, revelou--se apaixonada pela expressão poética, pela língua, pela palavra, num trabalho que encarou como "amor, angústia e necessidade". Recebeu o Prémio Rainha Sofia, em 2021, que lhe foi atribuído pelo Património Nacional de Espanha e pela Universidade de Salamanca, com o qual fica notabilizada junto de nomes da língua portuguesa como João Cabral de Melo Neto (1994), Sophia de Mello Breyner Andresen (2003), Nuno Júdice (2013), a par de muitos outros grandes autores da tradição e cultura iberoamericanas.
        No seu percurso poético, iniciado com "Terra de Ninguém" (primeiro poema do seu primeiro livro - Minha Senhora de quê, publicado em 1990), há uma possível resposta para o entendimento do que é um "céu":

Um Céu e Nada Mais

Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
neram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

                                                              in Às vezes o Paraíso (1998)

      Eis um "céu" que nos mostra que não somos ninguém ou que somos (apenas) o que podemos ser; um "céu" de que, entre o nível do quotidiano e o cósmico, se compõe a afirmação do real mais a negação do que esteja / seja mais do que simples "amor". 
      Cruzada esta mensagem com "Soneto científico a fingir" (in E muitos os caminhos, de 1995), este é, afinal, um "céu" que dá mote ao amor, a esse tema que, desviado, não deixa de posicionar o ser humano na condição que verdadeiramente o dignifica. Ou seja, estamos perante "um céu e nada mais" que pode ser tudo, numa leitura subversiva da negação, instaurada nos versos, mas (a)firmada na posição das possibilidades, do poder ser.

Um breve roteiro pela obra poética de Ana Luísa Amaral (1956-2022)

      Cruzei-me com a professora nas salas da antiga Faculdade de Letras da Universidade do Porto e na expressão da poesia romântica em língua inglesa, por ela ensinada e convocada nas relações interartísticas e intertextuais que o mundo traduz; que aquele que a escreve faz representar; que o tempo (re)compõe e nela se atravessa, quando é grande.
     Aos 33 anos, viu publicada a sua primeira obra; aos 66 partiu, ontem, desta vida terrena, com muitas publicações e estudos que ficam para nós, numa comunhão / comunicação feitas de humanidade e genuinidade - no fundo, ensinamentos que dão sentido à existência, apartados de tudo o que se mostre impertinente ou ferino.
   Foi para o "céu"? Deixou-nos um "céu": o do pensamento; o das línguas, culturas, letras e humanidades, que serviu em todos os sentidos; o do respeito pela igualdade e solidariedade sociais, enquanto exemplo e testemunho de empenho cívico, num "amor" tão pessoal quanto coletivo.

      Da literatura inglesa (e de expressão inglesa) à portuguesa - um caminho que também se faz de um "céu" comum, livre de fronteiras, e com uma poeta que revelou O Olhar Diagonal das Coisas (conforme no lo dá hoje a conhecer a Assírio&Alvim, numa compilação significativa e atualizada da sua obra poética).

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Fechar do pano, aplauso eterno

      Nunca se espera o que nos está destinado.

     Acordar com a notícia da morte de Eunice Muñoz é sentir que mais uma referência da nossa cultura da palavra e do teatro parte.
     A versatilidade e a qualidade de papéis por ela representados granjearam-lhe o es-tatuto de "Senhora do Teatro Nacional"; fi-gura de proa reconhe-cida no talento, no trabalho e na gene-rosidade. Se aos dois primeiros se associa o profissionalismo, no último espelha-se o humanismo de que aquele(s) também precisa(m). Por isso, se tornou exemplo de sucesso e de excelên-cia, por ser completa na representação e no ser - duas dimensões que soube preencher de e com verdade. Acrescentaria com dignidade - para si e para os outros, que soube acompanhar no palco e na vida. Foram 93 anos de vida e 80 de carreira; cerca de duas centenas de peças, com presenças no cinema e na televisão; quase cem produções fílmicas, telenovelas e programas de comédia. Muita obra para uma enorme artista e não menor mulher. Afabilidade e sorriso marcaram-na; por isso, conquistou também o público que a aplaudiu na qualidade da representação dos pequenos e grandes papéis.
    Terminou como atriz no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, em 28 de novembro de 2021, representando "A margem do tempo" (de Franz Xaver Kroetz), no mesmo local onde se estreou em 1941 com a peça "Vendaval" (de Virgínia Vitorino), com a Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro. Mesmo quando a voz denunciava debilidade na projeção, a intensidade emotiva estava lá; a força da palavra persistia, resiliente.
     Vi-a por duas vezes ao vivo: Dúvida (2007), no Teatro Maria Matos, e O Ano do Pensamento Mágico (2009), no Teatro Nacional de São João. Na primeira, contou com a contracena fabulosa de Diogo Infante; na última, era uma mulher só num imenso palco e com um longo texto monologado. Em ambas as representações, fui pelo nome "Eunice Muñoz" e nessa concessão própria de quem quer dar uma oportunidade às personagens criadas; de ambas saí com a sensação de andar nas nuvens, como se o lugar da vida fosse o céu que acolhe nuvens e estrelas.

       Na enunciada eternidade do seu papel na vida e no teatro, Eunice Muñoz é identificada na e pela arte que viveu. Uma figura da cultura portuguesa, e que muitos souberam ver como valor sem fronteiras. Aplauso de pé. 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

67 anos depois - o reconhecimento oficial

      Uma cerimónia e uma homenagem justas para "Um Justo entre as Nações" português.

       Um exemplo humano a reconhecer, sem dúvida. Pena que, oficialmente, seja passado tanto tempo e depois de a voz da consciência interior ter sido confrontada com a injusta miséria infligida no final da vida. Como mais vale tarde do que nunca, chegou a devida homenagem, porque se impunha. Não foi no mês do nascimento (julho) nem no da morte (abril) Qualquer outro serve, pois este é um homem para lembrar a todo tempo pelo que fez; pelo testemunho que deu.

Aristides de Sousa Mendes - o cônsul de Bordéus (1885-1954)

    Aristides de Sousa Mendes causou incómodo ao poder, desrespeitando o dever de um diplomata: obedecer às diretrizes de um governo nacional(ista) mais interessado em se aliar à força maior da(s) ditadura(s) do tempo. Recusou seguir as ordens de Salazar (e o conluio que acabava por ter com Hitler). Teve um processo disciplinar por isso; sofreu, sabendo que ia ser castigado. Todavia, foi numa cultura de desobediência, e de consciência, que acabou por dar uma lição ao mundo: devolveu, com os vistos que assinou, a vida a milhares de perseguidos; olhou o outro na sua diferença e na sua desgraça, respeitando-o e libertando-o de uma morte certa à mão dos nazis. Fê-los chegar a Lisboa, tornada porta da esperança e da liberdade para mais de dez mil pessoas.

Jardim dos Castanheiros, junto à Casa do Passal
com árvores plantadas por judeus que visitaram a localidade e homenagearam o seu "salvador" (Foto VO)

     Foi este o legado de um homem. Ou melhor, de um Homem; de um Português, que assumiu um ato de consciência excecional: o de que sempre esteve certo (por mais que os poderes do tempo não o apoiassem).

     Hoje, precisamente há 81 anos, era lida uma sentença que castigava um justo; hoje, neste mesmo dia, um corpo mantém-se longe da capital, na sua terra de Carregal do Sal (Cabanas de Viriato), enquanto uma lápide evocativa é colocada no Panteão Nacional. Relembra um ser humano que salvou a vida de muitos outros e fez da sua a luta por valores e causas com sentido(s) de Humanidade. 


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Morrer na praia

      O dia iluminou-se com um radioso sol...

     Regressado o bom tempo, revive-se o conforto desses momentos que nos deixam apreciar o final de uma outoniça, mas calorenta tarde, aromatizada pelo iodado vindo do mar, numa combinação a que não falta uma fresca névoa esfumada, a embaciar levemente a paisagem.
     Erguido o olhar para o alto, como para sorver agradecidamente o terapêutico ar, reparei num céu cruzado, que decidi guardar em foto:

Céu cruzado junto à Granja (Foto VO)

     No enlevo do instante, fui subitamente espertado pelo aparato ruidoso de sucessivas sirenes, trazendo o sobressalto e a aflição. Bombeiros, polícia marítima e muitos curiosos deixavam-se ficar na praia. Não era a simetria dos traços nem a variedade das cores celestes que os atraíam. No areal, havia um corpo humano estendido, inanimado. Morto. Tudo tão rápido. Ninguém conseguia explicar o sucedido. Simplesmente caiu, quando caminhava naquela linha de areia que fica entre o molhado e o seco. Foi aí que o corpo encontrou o seu leito de morte, bem próximo daquele outro que dizem ser a origem de tudo, mas que, no seu vaivém ondulatório, nada trouxe a quem deixou definitivamente de ver o espetáculo do céu cruzado, pintado de algum dourado em tela de fundo azul.
      Por vezes, a vida reduz-se a isto: a uma rápida queda sem recobro. Nada resta; nada mais há. Só chão - no caso, areia, a mesma que, na ampulheta, se deixa cair de uma âmbula para outra até esgotar. Tudo acaba, mesmo quando alguém vai em socorro e ao encontro do que já só é um peso inerte, algures deixado, abandonado de todos os sentidos.
     O céu cruzado e a luz ainda quente assistiam a alguém caído, a esfriar à medida que as sombras e o escuro surgiam, extinguindo as cores do dia. Azul, só o das luzes rotativas das viaturas que, agora paradas e em silêncio, haviam trazido socorro a destempo; calor, só o da humanidade dos que prestavam os cuidados derradeiros, ensacando quem partira numa última viagem, já sem horizonte.

      ... até que a vida se apagou. Literalmente, alguém morreu na praia. RIP.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

     Um dia que não pode ser desconsiderado na memória da Humanidade, por mais que o tempo passe.

     Entre os livros que se leram, os filmes que se viram, as palestras a que se assistiram, as viagens que se fizeram, nada se equipara ao vivido.
     Tenho algumas memórias acerca do dia lembrado, felizmente, nada comparado com os que sofreram na pele os acontecimentos hediondos da História. Ainda assim, são memórias minhas entre a revolta e o medo de que esses tempos tenham existido e de que possam vir a repetir-se por ação consciente do Homem, desconsiderando e humilhando o seu semelhante.
    O mais próximo que estive dessa realidade foi ter viajado e ter observado sinais de uma vivência que atualmente se pode dizer museológica, mais de sessenta anos depois, em Sachesenaushen, em Auschwitz, em Birkenau. Pisar o chão que foi percorrido por judeus, e não só, conduzidos ora para trabalhos forçados (em condições de sobrevivência desumana) ora para a morte, é uma memória necessariamente distante do sofrimento real, por mais que este possa ser mostrado aos olhos de um turista. Cada passada em chão de terra e cascalho é ouvida nesse caminho que foi o de centenas de milhares forçados a um infortúnio frequentemente fatal. Faltam as sirenes, as luzes de denúncia e perseguição; os gritos dos militares e o ladrar dos cães; a chuva ou a neve ou o vento ou todos eles combinados; a verdadeira fome e sede (tanto de pão como de justiça); as fortes agressões físicas e psicológicas; o céu escuro da noite ou o cinza diurno dos folículos negros da chaminé caindo e com cheiro a carne queimada. 
       Pode ainda sentir-se o peso do momento; nunca será o do tempo da recordação.

À entrada "O trabalho liberta", em Sachsenhausen (Foto VO)

        O Campo de Concentração de Sachsenhausen, pequeno na comparação com os congéneres polacos, é um desses espaços-museu, na Alemanha. Ativo desde meados de 1936 (numa inauguração simultânea com os Jogos Olímpicos de Berlim) a abril de 1945, tem o nome Sachsenhausen, na cidade de Oranienburg, em Brandemburgo. Foi aí que se confinaram ou liquidaram em massa, primeiro, os opositores políticos ao regime de Hitler; depois, judeus, ciganos, homossexuais, Testemunhas de Jeová, além de milhares de prisioneiros de guerra.

Memorial das vítimas de Sachsenhausen (Foto VO)

        O memorial às vítimas - primeiro, às mãos dos nazis, depois, à mão dos serviços secretos soviéticos - é um belo registo escultórico dos tempos sórdidos então vividos pelos prisioneiros. Numa das várias placas espalhadas pelo campo, lê-se uma das maiores lições a tirar do que foi experienciado:

Pensamento de um prisioneiro do Campo de Concentração de Sachesenhausen (Foto VO)

"E eu sei mais uma coisa - que a Europa do futuro 
não pode existir sem comemorar todos aqueles, 
independentemente da nacionalidade, que foram mortos naquele tempo, 
com todo o desprezo e ódio; que foram torturados até à morte, 
famintos, gaseados, incinerados e estrangulados..."

          Em plena Berlim, entre as muitas evidências do que foi o centro da II Grande Guerra, um outro sinal das atrocidades infringidas pode ser contemplado:

Memorial dos Judeus, em Berlim (Foto VO)

       Em terreno inclinado, 2711 lajes de cimento compõem o "Memorial do Holocausto", construído entre 2003-2004 e inaugurado em maio de 2005, numa homenagem aos judeus vitimizados no holocausto europeu. São cerca de 20.000 metros quadrados com blocos de tamanho distinto, onde os turistas se passeiam, se cruzam numa espécie de labirinto aberto - um monumento da desgraça passada a divertir os que presentemente parecem estar a jogar às escondidas.
       Não há A Lista de SchindlerA Vida é Bela ou O Pianista que se equipare a cada passo calcorreado nestes locais de desgraça humana, hoje encarados como uma topografia de horrores, de roteiros de sinais de tragédia distante.
     Foram imensas as vítimas, muitas mais as desgraças que só alguns puderam, de algum modo, contrariar. No caso português, há o exemplo recentemente lembrado com o "Dia da Consciência".

      Está anunciado para o Porto um Museu do Holocausto, o único da Península Ibérica. Quero lá ir, certamente, quando a pandemia não for tão trágica; porém, os ares alemães e polacos serão sempre mais autênticos para um genocídio humano que o regime nazi impôs ao Mundo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

"Não há guitarras nem cantar de amigo..."

      Não começa da melhor forma o ano, para a música portuguesa (e do mundo).

    Anunciada a morte de Carlos do Carmo, não se pode dizer que seja uma surpresa, dada toda a preparação da despedida artística em novembro passado, em concertos no Porto e em Lisboa. Feito o agradecimento público a quem o acompanhou como cantor, chegava o tempo de um afastamento e uma preparação para a hora que hoje se cumpriu. 58 anos de carreira sóbria, rigorosa e consolidada; 81 de idade são sinais de um percurso humano cuja previsibilidade pode ser confirmada, mas nunca desejada.
    Dizem que foi o renovador do fado. Fosse este último interpretado mais ou menos como canção, teve sempre a sonoridade rítmica, vocal e instrumental típica que identificou Carlos do Carmo como fadista de renome. Também com a sua ação persistente, em muito contribuiu para que o fado conquistasse a categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO (numa declaração aprovada em novembro de 2011, no VI Comité Intergovernamental, em Bali, na Indonésia).
    Aqui fica um registo do que foram as minhas primeiras memórias para esse grande intérprete nacional (e não só). Foi a experiência de um Festival da Canção Português, todo cantado por Carlos do Carmo. Algumas das cantigas concorrentes, não tendo vencido, acabaram por se tornar músicas para todo o tempo, em várias versões (o caso de "No Teu Poema", "Estrela da Tarde"). A vencedora, "Uma Flor de Verde Pinho", contava com a participação de Manuel Alegre (autor da letra) e José Niza (composição musical), versando já sentidos, símbolos e referências da cultura, história e literatura portuguesas (com as "flores de verde pino", de D. Dinis; os amores de Pedro e Inês; o "fogo amor" camoniano; o mar da diáspora nacional):

Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival RTP da Canção)

UMA FLOR DE VERDE PINHO

Eu podia chamar-te pátria minha 
Dar-te o mais lindo nome português 
Podia dar-te um nome de rainha 
Que este amor é de Pedro por Inês. 

Mas não há forma não há verso não há leito 
Para este fogo amor para este rio. 
Como dizer um coração fora do peito? 
Meu amor transbordou. E eu sem navio. 

Gostar de ti é um poema que não digo 
Que não há taça amor para este vinho 
Não há guitarras nem cantar de amigo 
Não há flor, não há flor de verde pinho. 

Não há barco nem trigo, não há trevo 
Não há palavras para dizer esta canção. 
Gostar de ti é um poema que não escrevo. 
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

       Assim se representou Portugal na Eurovisão, em Haia (Holanda), em 1976:

      Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival da Eurovisão, em Haia)

     Recentemente galardoado com o Grammy Latino de Carreira (2014), a Rádio Comercial prestou-lhe uma merecidíssima homenagem, convocando várias vozes nacionais de diferentes gerações para cantar um dos seus fados mais populares, dedicado à cidade que o viu nascer e morrer: "Lisboa, menina e moça".

      Homenagem a Carlos do Carmo (numa feliz iniciativa da Rádio Comercial)

     À hora da morte, sublinhados os valores profissionais e humanos, fica o sentido de uma grande perda coletiva perante um caminho artístico e humano bem cumpridos e largamente reconhecidos.