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domingo, 14 de novembro de 2021

Porto Sentido 'cum bozes da naçõue"

      Hoje a manhã começou com uma canção familiar.

     Foi a vez de ouvir um "Porto Sentido", essa canção-hino de Carlos Tê e Rui Veloso (surgida no álbum Rui Veloso, de 1986), numa versão diferente, com várias vozes nacionais. Uma homenagem (mais do que merecida) da Rádio Comercial, ao jeito do que já fez para Carlos do Carmo, agora pelos quarenta anos de carreira de Rui Veloso, esse "Chico Fininho do rock português, cantor e intérprete de mão cheia que também é Manuel Gaudêncio (conforme o ditam os nomes do meio).

Versão de 'Porto Sentido', em homenagem aos 40 anos de carreira de Rui Veloso

      É dessa letra-hino, cantada por populares 'de cor e salteado', que se faz esta versão tão nacional e tão emotiva. O 'Porto Sentido' - tanto na leitura da cidade que sente orgulho (pelo que é) como na do "milhafre ferido na asa" - é a expressão de uma invicta, de uma resistente, de uma urbe que "se estende até ao mar" e se faz mundo, apesar dessa posição segunda a que foi votada.

    PORTO SENTIDO

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende até ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

     Assim se projeta a "capital do Nuórte", com cantores nacionais (de vários géneros e registos) dando-lhe voz.

    Uma "artista" fecha a versão: a mãe do cantor, a Srª. D. Emília Gaudêncio, que se "anuncia", com os seus 97 anos, no Coliseu.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

"Não há guitarras nem cantar de amigo..."

      Não começa da melhor forma o ano, para a música portuguesa (e do mundo).

    Anunciada a morte de Carlos do Carmo, não se pode dizer que seja uma surpresa, dada toda a preparação da despedida artística em novembro passado, em concertos no Porto e em Lisboa. Feito o agradecimento público a quem o acompanhou como cantor, chegava o tempo de um afastamento e uma preparação para a hora que hoje se cumpriu. 58 anos de carreira sóbria, rigorosa e consolidada; 81 de idade são sinais de um percurso humano cuja previsibilidade pode ser confirmada, mas nunca desejada.
    Dizem que foi o renovador do fado. Fosse este último interpretado mais ou menos como canção, teve sempre a sonoridade rítmica, vocal e instrumental típica que identificou Carlos do Carmo como fadista de renome. Também com a sua ação persistente, em muito contribuiu para que o fado conquistasse a categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO (numa declaração aprovada em novembro de 2011, no VI Comité Intergovernamental, em Bali, na Indonésia).
    Aqui fica um registo do que foram as minhas primeiras memórias para esse grande intérprete nacional (e não só). Foi a experiência de um Festival da Canção Português, todo cantado por Carlos do Carmo. Algumas das cantigas concorrentes, não tendo vencido, acabaram por se tornar músicas para todo o tempo, em várias versões (o caso de "No Teu Poema", "Estrela da Tarde"). A vencedora, "Uma Flor de Verde Pinho", contava com a participação de Manuel Alegre (autor da letra) e José Niza (composição musical), versando já sentidos, símbolos e referências da cultura, história e literatura portuguesas (com as "flores de verde pino", de D. Dinis; os amores de Pedro e Inês; o "fogo amor" camoniano; o mar da diáspora nacional):

Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival RTP da Canção)

UMA FLOR DE VERDE PINHO

Eu podia chamar-te pátria minha 
Dar-te o mais lindo nome português 
Podia dar-te um nome de rainha 
Que este amor é de Pedro por Inês. 

Mas não há forma não há verso não há leito 
Para este fogo amor para este rio. 
Como dizer um coração fora do peito? 
Meu amor transbordou. E eu sem navio. 

Gostar de ti é um poema que não digo 
Que não há taça amor para este vinho 
Não há guitarras nem cantar de amigo 
Não há flor, não há flor de verde pinho. 

Não há barco nem trigo, não há trevo 
Não há palavras para dizer esta canção. 
Gostar de ti é um poema que não escrevo. 
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

       Assim se representou Portugal na Eurovisão, em Haia (Holanda), em 1976:

      Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival da Eurovisão, em Haia)

     Recentemente galardoado com o Grammy Latino de Carreira (2014), a Rádio Comercial prestou-lhe uma merecidíssima homenagem, convocando várias vozes nacionais de diferentes gerações para cantar um dos seus fados mais populares, dedicado à cidade que o viu nascer e morrer: "Lisboa, menina e moça".

      Homenagem a Carlos do Carmo (numa feliz iniciativa da Rádio Comercial)

     À hora da morte, sublinhados os valores profissionais e humanos, fica o sentido de uma grande perda coletiva perante um caminho artístico e humano bem cumpridos e largamente reconhecidos.
     

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Um dueto com "olhos de Deus"

        Uma versão musical que, em dueto, resulta numa peça singular.

        A letra de Pedro Abrunhosa e o canto de Ana Moura são combinação perfeita para um fado-canção que ganha também com a interpretação do compositor. Assim se apresentou televisivamente (na TVI, primeiro, na RTP-1, hoje, em "A Casa d'Amália") esta composição tão genuína nas sonoridades e no texto:

Versão em dueto de "Tens os olhos de Deus" 
(emissão televisiva da TVI)

TENS OS OLHOS DE DEUS

Tens os olhos de Deus
E os teus lábios nos meus
São duas pétalas vivas
E os abraços que dás
Rasgos de luz e de paz
Num céu de asas feridas
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Dos teus olhos de Deus

Num perpétuo adeus
Azuis de sol e de lágrimas
Dizes: fica comigo
És o meu porto de abrigo
E a despedida uma lâmina
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Embarca em mim

Que o tempo é curto
Lá vem a noite
Faz-te mais perto
Amarra assim
O vento ao corpo
Embarca em mim
Que o tempo é curto
Embarca em mim

Tens os olhos de Deus

E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento
Que cada beijo trouxer
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Nos teus olhos de Deus

Habitam astros e céus
Foguetes rosa e carmim
Rodas na festa da aldeia
Palpitam sinos na veia
Cantam ao longe que sim
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Vídeo oficial do original (no álbum "Moura", de 2015)

         O cruzamento com a boa música portuguesa tem acontecido a diferentes tempos, mas com zonas comuns de reconhecimento. A voz de Ana Moura tem sido uma das constantes.

          Do álbum "Moura" (o sexto, da fadista - 2015) vem o original. Cinco anos depois, está aí umas das composições, com novas interpretações.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

(Mais) Um romano para o mundo, com " O Amor a Portugal"

          Começou o dia com o anúncio da morte de Ennio Morricone.

      Não se pode dizer que seja inesperado, para quem já tinha 91 anos, mas a juventude e a força reveladas um ano antes, no concerto do Altice Arena (Portugal), faziam prever que ainda havia resistência suficiente para construir novas melodias ou conduzir outros espetáculos.
     Falar de Ennio Morricone é sinónimo, entre outras coisas, de música no cinema. O compositor e maestro italiano, nascido e falecido na sua cidade natal (Roma), é uma figura mundialmente conhecida, pela projeção que teve, e ainda tem, com as bandas sonoras de filmes como Era uma vez na América (1984), A Missão (1986) ou Cinema Paraíso (1989), só para citar alguns dos títulos mais sonantes.
       Dizer que ele deixou música para a vida é afirmação demasiado simplista, porque foram / são várias as melodias que estão gravadas na mente: das mais de quatrocentas partituras que compôs para cinema e televisão, há ainda a acrescentar mais de uma centena de obras clássicas. 
      As cinematográficas são, efetivamente, as de maior projeção. São mais do que reconhecíveis sonoridades como...

Banda sonora de "Era uma vez na América" (1984)

          ... ou...

Interpretação de uma das músicas de Ennio Morricone, 
no filme Cinema Paraíso (1989)

      A sua primeira indicação para Óscar ocorreu em 1979, pela banda sonora de Days of Heaven (Terrence Malick, 1978); a segunda, por A Missão (Rolland Joffé, 1986); outras se seguiram, até que, em 2007, recebe, a título honorífico e pelos contributos na música da Sétima Arte, o Óscar Honorário. Em fevereiro de 2016, finalmente, acaba por ganhar seu primeiro Óscar competitivo, por The Hateful Eight (Quentin Tarantino).
        A ligação do compositor a Portugal, para além dos espetáculos cá conduzidos, faz-se também com a voz de Dulce Pontes. Com o álbum Focus (2003), materializou-se uma colaboração da cantora portuguesa com o maestro italiano: ela a cantar alguns dos clássicos dele, que se tornou seu admirador na voz.
         E entre os clássicos, apareciam alguns originais - um deles intitulado "O Amor a Portugal":

Versão orquestral de "O Amor a Portugal", de Ennio Morricone

O AMOR A PORTUGAL 

O dia há de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção e então

O amor há de vencer
E a alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar

Um dia há de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal

        Se a música é símbolo de harmonia, Ennio Morricone muito contribuiu para ela(s). RIP.

sábado, 9 de maio de 2020

"Enquanto houver ventos e mar"

       Também podia ser "Enquanto houver estrada para andar".

       Nestes tempos, há sempre um momento para dar atenção a belíssimas letras de canção.
       E quando delas se fazem ótimas interpretações, repete-se a audição.

Jorge Palma ao vivo - Coliseu dos Recreios (20.11.2007)

A GENTE VAI CONTINUAR

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso 
o que lá vai já deu o que tinha a dar 
quem ganhou, ganhou e usou-se disso 
quem perdeu há-de ter mais cartas para dar 
e enquanto alguns fazem figura 
outros sucumbem à batota 
chega aonde tu quiseres 
mas goza bem a tua rota 

Enquanto houver estrada para andar 
a gente vai continuar 
enquanto houver estrada para andar 
enquanto houver ventos e mar 
a gente não vai parar 
enquanto houver ventos e mar 

Todos nós pagamos por tudo o que usamos 
o sistema é antigo e não poupa ninguém 
somos todos escravos do que precisamos 
reduz as necessidades se queres passar bem 
que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo 
e a liberdade é uma maluca 
que sabe quanto vale um beijo 

Jorge Palma (letra e música)

Versão de Mafalda Veiga, acompanhada ao piano por Jorge Palma.

       Esta é uma canção de momento, de poesia a responder à realidade; a ensinar-nos a sobreviver.

       Isso mesmo - entre o poder ser e o ser fica o título: "A gente vai continuar".

sábado, 25 de abril de 2020

Celebrar a liberdade (ansiando pela libertação)

       Há sempre razões para celebrar a liberdade surgida da ditadura.

       Para que não se esqueça o passado mal vivido e se tenha presente as conquistas conseguidas, faz sentido celebrar este dia, aquele que "acordou" sem o peso dos grilhões do autoritarismo e do despotismo; do controlo e do poder ditatoriais que não dão felicidade nem permitem afirmar a dignidade humana; do medo da perseguição.
       Hoje, sem a liberdade de movimentos desejada, persiste a liberdade da democracia. Confinados, sim, mas livres do jugo político que alguma ideologia possa representar - aspirando à libertação, porém, com a liberdade garantida.
       Este é o 25 de abril dos tempos da pandemia. Ainda assim, 25 de abril: aquele que precisou de vítimas, de heróis, de canções e de poemas "de guerra" em "vozes de rebate" (com o diria Antero de Quental, em "A um Poeta"); de luta contra a resignação; de espírito de resistência.
      A poesia e o canto, comprometidos com a revolução (seja esta qual for), fazem ainda sentido. Hoje também é preciso "acordar" as mentalidades para a mudança de comportamentos; para os cuidados que trarão o desconfinamento necessário a uma vida com mais cor, dando-nos maior liberdade. 
   Por isso, relembro "Acordai", canção heroica, um dos hinos nacionais de resistência, que contribuíram para exaltar a liberdade e motivar quem lutava contra o salazarismo. Inicialmente publicada em 1946, foi silenciada pela Censura; contudo, muitos resistentes a divulgaram, de forma subreptícia, em encontros clandestinos ou em países de exílio. Hoje partilho-a sem "a dor / dos silêncios vis" de outrora; antes com a distância dos que, limitados, não são servis:

ACORDAI

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

A voz de Teresa Salgueiro 
com os versos de José Gomes Ferreira e a música de Fernando Lopes Graça

       Acordai ou a cor dai a este dia (sem frenesins), pelo que foi, pelo que é e pelo que poderá e deverá continuar a ser, sem que nada acinzente a democracia.

       Outro dia poderá ser mais feliz, mas tem este a liberdade há quarenta e seis anos conquistada.
        

domingo, 6 de novembro de 2016

Um palhaço para levar a sério

   Tudo a propósito de "Clown".

    Cantada no original pela escocesa Emeli Sandé (do álbum "Our Version of Events", de 2012), esta cantiga é apontada como o reflexo de uma situação vivida pela cantora, quando estava para ser contratada por uma empresa e, nesse contexto, teve de participar em alguns encontros, algumas receções e se sentiu julgada / avaliada por tudo e todos. É um grito de revolta, para que não se seja mero objeto de julgamento dos outros; para que se afirme a crença nos valores próprios e para que ninguém faça do ser humano um simples palhaço:

Vídeoclip da interpretação de "Clown", 
de Emeli Sandé
        
     CLOWN

I guess it's funnier from where you're standing
'Cause from over here I miss the joke
Clear the way for my crash landing
I've done it again
Another number for your notes

I'd be smiling if I wasn't so desperate
I'd be patient if I had the time
I could stop and answer all of your questions
As soon as I find out
How I can move from the back of the line

I'll be your clown
Behind the glass
Go 'head and laugh
'Cause it's funny
I would do too if I saw me
I'll be your clown
On your favorite channel
My life's a circus, circus
Round in circles
I'm selling out tonight

I'd be less angry if it was my decision
And the money was just rolling in
If I had more than my ambition
I'll have time for please
I'll have time for thank you
As soon as I win

From a distance my choice is simple
From a distance I can entertain
So you can see me
I put makeup on my face
But there's no way you can feel it
From so far away

Vídeo do "The Voice Portugal", emitido hoje à noite na RTP1

    Depois da original, vem a interpretação produzida no programa televisivo "The Voice Portugal" (no canal público da RTP1), numa versão com um trio de vozes muito sonante e harmonioso (Francisco, Márcia e Daniel), ao qual se juntou outro concorrente (Sérgio Alves), para uma batalha em que não podia haver vencedor (a qualidade de ambos - o grupo e o solista - era evidente). Acabaram os dois participantes por continuar no concurso musical, em equipas tuteladas por mentores musicais distintos. Mais do que merecido!
    Qualquer um dos registos (o primeiro mais intimista; o segundo mais projetado) é tocante, para uma mensagem que, por certo, ganhou a espetacularidade e a força merecidas para um valor humano cada vez mais premente - o de não se ser um palhaço social.

      Há vozes que merecem ser ouvidas, por maior ou menor fama que tenham, já que nos cantam a própria dignidade humana.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Lá vem a época estival

      Falo do verão, ora pois então.

     Começa hoje o estio (não o estilo nem a primavera). Tempo de verão ("summertime"), para um dia soalheiro e quente conforme à estação. Pena que não esteja em férias, não!
    Deixo, então, aqui uma canção: em melodia e com alegria fica mais suportável saber que há exames à espera de correção. Com Diana Krall, o verão fica "So Nice", em estilo jazz!

Do álbum "Quiet Nights" (2009), "So Nice" - uma versão do "Samba de Verão"

     "SO NICE"

Someone to hold me tight
That would be very nice
Someone to love me right
That would be very nice
Someone to understand each little dream in me
Someone to take my hand and be a team with me
So nice life would be so nice
If some day I find
Someone who would take my hand and samba through life with me

Someone to cling to me stay with me right or wrong
Someone to sing to me some little samba song
Someone to take my heart and give his heart to me
Someone who's ready to give love a start with me
Oh yes that would be so nice, nice
Should it be you and me
I could see it would be nice


      E depois disto, nada como o brasileiríssimo tema de Marcos Valle (1964), no registo de bossa nova e na voz de Caetano Veloso. É o "Samba de Verão" em português.

Caetano Veloso, em registo de bossa nova para "Samba de Verão"

     SAMBA DE VERÃO

Você viu só que amor
Nunca vi coisa assim
E passou, nem parou
Mas olhou só pra mim
Se voltar, vou atrás
Vou pedir, vou falar
Vou dizer que o amor
Foi feitinho p'ra dar

Olha, é como o verão
Quente o coração
Salta de repente para ver
A menina que vem

Ela vem, sempre tem
Esse mar no olhar
E vai ver, tem de ser
Nunca tem quem amar
Hoje sim, diz que sim
Já cansei de esperar
Não parei nem dormi
Só pensando em lhe dar

Peço, mas você não vem, bem!
Deixo então, olho o céu, falo só, mas você vem

      Regresso ao trabalho que me espera (com ou sem verão, longe do entusiasmo e fartinho de ver tanta incorreção).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aproxima-se o Natal ou o natal

      Este é o natal que eu não queria.

     Vendo os que correm atrás da(s) última(s) compra(s), são também visíveis os que não saem à rua nem vão atrás dela(s); os que não correm porque permanecem deitados sobre um cartão (talvez de uma caixa de encomendas desses bens que outros compram numa loja qualquer), na melhor das hipóteses sob um cobertor, a esconder o frio, a fome e a vergonha.
     Então recordo a voz de Paulo de Carvalho, a música de Fernando Tordo e os versos de Ary dos Santos:

 
Vídeo de Fernando Filipe, para uma versão de "(Natal) Quando o Homem Quiser"

       QUANDO UM HOMEM QUISER

Tu que dormes à noite na calçada do relento 
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento 
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme 
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume 
e sofres o Natal da solidão sem um queixume 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Natal é em Dezembro 
mas em Maio pode ser 
Natal é em Setembro 
é quando um homem quiser 
Natal é quando nasce 
uma vida a amanhecer 
Natal é sempre o fruto 
que há no ventre da mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar 
tu que inventas bonecas e comboios de luar 
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei 
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei 
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Ary dos Santos, in As Palavras das Cantigas
([1989] 1995)

     Outras versões (e outras vozes) noutros tempos... e permanece o natal que já antes existia:

Versão do projeto musical 'Rua da Saudade'
(Gentes da Gente, numa montagem de César Azeitona)

     E, afinal, este natal persiste (há muito)...

     E não devia.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Há cem anos...

     Um século passado e a voz não se apagou.

    Considerado por muitos como "The Voice", Frank (Francis Albert) Sinatra nasceu em 1915. Foi caso de sucesso pela década de 40 desse século, popularizando géneros musicais como o swing, o blues, o jazz, saídos dos salões, bares e locais em que habitualmente se ouviam para os espaços de espetáculo mais abrangentes, menos seletivos. Hoje poucos são os ouvidos que não tenham escutado algumas notas dos seus êxitos.
    "Night and Day" (1932), "Let it Snow" (1945), "Fly me to the moon" (ou "In other words", 1954), "Moon river" (1961), "My way"(1967), "New York, New York" (1977) são muitos entre os variadíssimos títulos musicais que frequentemente se lhe associam, mesmo tratando-se (apenas) de versões que o "mister blue eyes" acabou por celebrizar (mais do que os cantores originais). 


Música de Henry Mancini e letra de Johnny Mercer
(óscar para a melhor canção do filme Breakfast at Tiffany's, interpretada por Audrey Hepburn)

       MOON RIVER

Moon river, wider than a mile
I'm crossing you in style some day
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're going
I'm going your way

Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end
waiting, round the bend
My Huckleberry friend
Moon River, and me

     "Come Fly with Me" (1958), "Strangers in the Night" e "Something Stupid" (1966) são outros êxitos de uma lista infinda que coube na voz dessa estrela (ainda) à vista dos transeuntes no Passeio da Fama. Aí se lembra não só o que Sinatra cantou mas também o que representou (na vasta filmografia que compõe a sua carreira).

    "The best is yet to come" (1959) foi a última melodia cantada em público - de novo uma versão. Figura esse título-pensamento na lápide do cantor (falecido em 1998), como se a morte não impedisse o anúncio do futuro.

domingo, 15 de novembro de 2015

Imagine...

     Já que falei na canção no apontamento anterior...

    ... aqui fica não o original, mas uma versão de um espetáculo acústico dos Coldplay no Teatro Belasco (Los Angeles), num tributo a Paris e às vítimas do massacre de sexta-feira passada (dia treze, de horror, não de simples azar).

"Imagine", de John Lennon, num tributo dos Coldplay

   Esta, sim, seria a canção a cantar por e para todos os que sofrem num mundo feito de injustiças, desigualdades e afronta à própria dignidade humana. Melhor do que qualquer hino nacional, por certo (porque mais universal).

     Que a universalidade e a harmonia musicais apazigúem o que alguns homens quiseram destruir.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Uma letra de canção muito útil

    Na sequência da comemoração do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura, há dois dias, fica para memória futura a canção da Rádio Comercial.

   Numa versão da cantiga dos D.A.M.A ("Às vezes") e com a colaboração de Vasco Palmeirim, chegou aos ouvintes "Às Vezes (Escuto e Observo Erros de Português)" - uma ideia criativa para lembrar que não se deve maltratar o Português. Assim se ouviu uma letra útil em registo paródico naquele que foi o dia promovido pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) para a celebração do idioma que a une e a justifica:

Um segmento do que se pode ver / ouvir em https://youtu.be/65Eysv1vR4Q

     E porque a rir se dizem grandes verdades, fica uma combinação interessante do "top" dos erros que grassam por aí na escrita e na fala do idioma de Camões. Muitos são os exemplos comuns às chamadas de atenção formuladas nas aulas de Português.
    Outros casos poderiam ter sido considerados. Por exemplo, o verbo 'METER' em tudo quanto é sítio, sem que tal seja possível. Lembro-me também, por exemplo, de ainda há poucos dias ter alertado, por mais de uma vez e para grande espanto de alguns alunos, que a expressão "ter A VER com" nada tem a ver com o verbo HAVER. Normalmente, a primeira aparece mal grafada, até por os falantes tenderem a produzir mal a respetiva realização sonora (abrindo o som [a], o que não deveria acontecer).

     Seja esta letra de canção decorada como muitas outras e haverá a esperança de que alguns destes erros não sejam mais cometidos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

De 'Feed the world' a 'Heal the world'

      É umas das canções do século XX já com várias versões. E na letra diz que é de Natal.

     Resultando da articulação do (espírito de) Natal com causas sociais, aí está uma melodia ajustada a várias gerações.
   A versão original é do grupo Band Aid, uma comunhão de músicos britânicos e irlandeses organizada em 1984 pelo irlandês Bob Geldof (vocalista dos Boomtown Rats) e pelo escocês Midge Ure (guitarrista dos Ultravox). O objetivo era a obtenção de fundos destinados à causa da fome que vitimava a Etiópia. Assim foi lançado "Do They Know It's Christmas?"


It's Christmas time, and there's no need to be afraid 
At Christmas time, we let in light and we banish shade 
And in our world of plenty, we can spread a smile of joy 
Throw your arms around the world at Christmas time 

But say a prayer to pray for the other ones 
At Christmas time, it's hard, but when you're having fun 
There's a world outside your window 
And it's a world of dread and fear 
Where the only water flowing is the bitter sting of tears 
And the Christmas bells that ring there 
Are the clanging chimes of doom 
Well, tonight, thank God it's them instead of you 

And there won't be snow in Africa this Christmas time 
The greatest gift they'll get this year is life 
Where nothing ever grows, no rain or rivers flow 
Do they know it's Christmas time at all? 

Here's to you, raise a glass for everyone 
Here's to them underneath that burning sun 
Do they know it's Christmas time at all? 

Feed the world 
Feed the world 

Feed the world, let them know it's Christmas time 
And feed the world 
let them know it's Christmas time 
And feed the world 
let them know it's Christmas time 
And feed the world 
let them know it's Christmas time...

    Cinco anos depois, surgiu nova versão com a designada 'Band Aid II', numa continuidade da ação solidária para combater nova onda de fome na Etiópia. Novas vozes deram-se a ouvir, tais como as Bananarama, Cathy Dennis, Jason Donovan, Kevin Godley, Glen Goldsmith, Kylie Minogue, The Pasadenas, Chris Rea, Cliff Richard, Lisa Stansfield, Technotronic e Wet Wet Wet, entre muitos outros:


      Mais quinze anos e aparece nova versão, com a 'Band Aid 20', intentando chamar a atenção para a região de Darfur. 2004 foi o ano para integrar músicos como Daniel Bedingfield, Justin Hawkins (The Darkness), Chris Martin (Coldplay), a par de veteranos como Bono (U2), George Michael e Paul McCartney.


      2014 tem a Band Aid 30:


[One Direction:]
It's Christmas time, there's no need to be afraid
[Ed Sheeran:]
At Christmas time, we let in light and we banish shade
[Rita Ora:]
And in our world of plenty we can spread a smile of joy
[Sam Smith:]
Throw your arms around the world at Christmas time
[Paloma Faith:]
But say a prayer and pray for the other ones
[Emeli Sandé:]
At Christmas time it's hard but while you’re having fun
[Guy Garvey:]
There’s a world outside your window and it’s a world of dread and fear
[Dan Smith:]
Where a kiss of love can kill you
[Angelique Kidjo:]
Where there’s death in every tear
[Chris Martin:]
And the Christmas bells that ring there are the clanging chimes of doom
[Bono:]
Well, tonight we’re reaching out and touching you

[Seal:]
Bring peace and joy this Christmas to West Africa
[Ellie Goulding:]
A song of hope where there’s no hope tonight
[Sinéad O'Connor:]
Why is comfort to be feared, why is to touch to be scared?
[Bono:]
How can they know it’s Christmas time at all?

[One Direction:]
Here’s to you
[Olly Murs:]
Raise a glass to everyone
[Bastille:]
Here’s to them
[Sam Smith:]
And all there is to come
[Rita Ora:]
Can they know it’s Christmas time at all?
[All:]
Heal the world
Let them know it’s Christmas time again

    Uma nova letra, com outra roupagem melodiosa para um velho êxito musical; com vozes que - ora vindas do passado (Bono participou já na primeira versão) ora afirmadas no presente (One Direction, Rita Ora, Ellie Goulding, Seal, Sinéad O'Connor, entre outros) - dão novo grito ao "Feed the world". São estes os "Band Aid 30", desta feita voltados para uma epidemia mais atual: a do Ébola.

     Boas razões haveria se não houvesse nova versão para esta canção. Assim seria mais Natal.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

No final de um feriado

     São tão poucos (os feriados) que têm de ser bem aproveitados.  Contudo, no final,...

   ... fica sempre aquela sensação de saber a pouco, tal como qualquer fim de semana a dar lugar a uma segunda-feira.
     Assim, a poucas horas de um sono (que dará lugar a mais uns dias de trabalho) e já cansado (por antecipação), recordo os versos de Pessoa:


      A par da poesia, a melodia.
   Já cantados por Zeca Afonso e Cristina Branco, os versos dão lugar a versões (musicais) - duas interpretações para tempos que o poeta da Geração de Orpheu não viveu, mas que, como qualquer ser humano, pôde espelhar nalguma da insatisfação progressiva (de qualquer era) que o poema traduz:
     Assim se ouviu o poema na voz de um cantor de intervenção:


     Na rememoriação de abril, fica a mesma letra com outra entoação e nova emoção - ainda com a repetição da primeira estrofe, fazendo lembrar, na canção, que sempre é possível mudar o cansaço e o "sono" com o espírito da revolução:


    Seja em tempos de ditadura seja nos da democracia, seja ainda no fim de um tempo ou instante feliz que um feriado representou, fica a forte consciência desta metafórica regressão da e na vida: não há bem que sempre dure. Se a viagem de comboio é sinónimo de passagem, sintomático é o processo de progressivo apagamento, cansaço e adormecimento, na descendente animação dos viajantes. Depois da euforia ruidosa (marcada nas sonoridades consonânticas, nos risos e no entusiasmo sugeridos na estrofe inicial), a contenção e a moderação surgem nos silêncios criados (na estrofe segunda) até que a ironia se impõe (na estrofe final e, particularmente, no verso "Mas que grande reinação!"), lembrando que o tudo também dá em nada. Assim se prossegue nesta metáfora da vida: euforia, moderação, disforia; força juvenil, moderação adulta e velhice tão próxima da infância.
     Mudanças no espírito (e também no físico); trajetos, percursos, viagens, numa viagem que se faz também com o tempo e em qualquer idade.

    O que podia ser uma simples viagem de comboio (o que ficaria sempre bem nesta "carruagem") resulta numa leitura outra - a de um viajante que, por ora, está "à janela" (a ver passar), "nem sim nem não", talvez à espera de chegar... Onde? Quem sabe, a Portimão ou ao período de férias que não cabe num feriado, não! 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Bem que podia ter ganhado...

     Não se ouviu o que era merecido: "And the Oscar goes to U2 and Ordinary Love".

   Por mais comum ("ordinary") que seja, o amor merece melhor. E quando é cantado pelos U2, o sentimento ganha outra harmonia e cor. 

     

      ORDINARY LOVE

The sea wants to kiss the golden shore 
The sunlight warms your skin 
All the beauty that's been lost before wants to find us again 

I can't fight you any more, it's you I'm fighting for 
The sea throws rock together but time leaves us polished stones 

We can't fall any further 
If we can't feel ordinary love 
And we cannot reach any higher, 
If we can't deal with ordinary love 

Birds fly high in the summer sky and rest on the breeze. 
The same wind will take care of you and I. 
We'll build our house in the trees. 

Your heart is on my sleeve 
Did you put it there with a magic marker? 
For years I would believe that the would couldn't wash it away 

'Cause 

We can't fall any further 
If we can't feel ordinary love 
And we cannot reach any higher 
If we can't deal with ordinary love.

Are we tough enough for ordinary love? 

      A canção não ganhou o "Oscar", mas o momento da cerimónia foi um dos vencedores, também pela evocação natural da figura de Madiba:


      Entretanto, no programa americano 'Tonight Show', apresentado por Jimmy Fallon, a música foi apresentada ao vivo, numa versão acústica, em ondas de efusiva aproximação à 'Ordinary People':


      Sem arranjos ou aplicações que subvertessem a qualidade do momento, ficou o registo do que se faz bem.
     Também na vida nem sempre vencem os melhores. O tempo faz com que estes vinguem pela qualidade do que fizeram / fazem. É uma questão clássica.

      Da banda sonora do filme "Mandela: um longo caminho para a liberdade", esta canção foi lançada pouco antes do falecimento do político sul-africano - fonte de inspiração para a banda que dedicou a música ao amigo de longos anos; fonte de inspiração também para a humanidade " 'cause can't reach any higher if we can't feel / deal with ordinary love".

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Uma canção de Natal

       De canções de natal, muito se pode ouvir, desde as mais clássicas às mais contemporâneas.

      No mês em que morreu, fica também o apontamento de uma composição de John Lennon, dedicada a esta festividade universal, capaz de juntar gente de várias raças e diversos credos:


HAPPY CHRISTMAS (WAR IS OVER)

So this is Christmas
And what have you done?
Another year over
And a new one just begun

And so this is Christmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The old and the young

A very merry Christmas
And a happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear

And so this is Christmas
For weak and for strong
For rich and the poor ones
The world is so wrong

And so happy Christmas
For black and for white
For yellow and red ones
Let's stop all the fight

War is over over
If you want it
War is over
Now

      E, para terminar, uma versão ao vivo e em grupo (dos The Corrs) da mesma canção:


      Fosse esta utopia aplicada da letra de canção à ação dos homens e de quem os governa, e o mundo seria bem melhor para todos: "A very merry Christmas / And a happy New Year / Let's hope it's a good one / Without any fear".

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Cansado do inverno

    Ainda há pouco entrou e já me cansou.

    Decididamente o inverno não é a minha estação, por muito que nela tenha nascido. Nos rigores de que já deu sinais, fico ansiando pela primavera. Por isso, enquanto ela não vem, resta-me a audição dela, pelo que os The Gift têm dado a ouvir desde 2012:

A partir da atuação ao vivo dos The Gift no Jornal das 8 da TVI (7de fevereiro de 2012)

       PRIMAVERA

Sábado à noite não sou tão só
Somente só
A sós contigo assim
E sei dos teus erros
Os meus e os teus
Os teus e os meus amores que não conheci

Parasse a vida
Um passo atrás
Quis-me capaz
Dos erros renascer em ti

E se inventado o teu sorriso for
Fui inventor
Criei um paraíso assim

Algo me diz que há mais amor aqui
Lá fora só menti
Eu já fui de cool por aí
Somente só, só minto só

Hei de te amar, ou então hei de chorar por ti
Mesmo assim, quero ver-te sorrir...
E se perder, vou tentar esquecer-me de vez, conto até três
Se quiser ser feliz....

Se há tulipas
No teu jardim
Serei o chão e a água que da chuva cai
Para te fazer crescer em flor, tão viva a cor
Meu amor eu sou tudo aqui...

Sábado à noite não sou tão só
Somente só
A sós contigo assim
Não sou tão só, somente só

Hei de te amar, ou então hei de chorar por ti
Mesmo assim, quero ver-te sorrir...
E se perder vou tentar esquecer-me de vez, conto até três
Se quiser ser feliz

     Numa versão mais orquestrada, ainda que em vídeo de imagem fixa, fica o registo da mesma canção, na voz da Sónia Tavares.


      Até nos sons a primavera é melhor do que o rigor invernoso.

sábado, 30 de novembro de 2013

Depois de uma noite feita de "Oh, les beaux jours" (ou "Happy Days")

        Só por ter sido trauteada, hoje a música não me sai da cabeça.

     A meio da representação de "Ah, os dias felizes" (1960-61) surgem os acordes da "Viúva Alegre" (1905), composta pelo austríaco Franz Lehár (1870-1948).
      Beckett construiu a personagem Winnie enquanto mulher que faz o balanço de um percurso de vida, composto das memórias, lembranças que o discurso e a linguagem permitem reconstituir; na encenação de Nuno Carinhas, associou-se-lhe a música e uma das composições ouvidas é a de Lehár.
      É dessa melodia que hoje não me livro:


      No dueto do tenor espanhol Plácido Domingo e da soprano porto-riquenha Ana Maria Martinez, fica esta versão da valsa que popularizou Lehár.

     Melodia para uma história de amor feita de encontros e desencontros, principalmente construída para emocionar”.

domingo, 27 de outubro de 2013

A televisão do nosso fim de semana...

       O dia foi de sol, até que a noite veio.

       E com ela veio o lixo televisivo. Depois de uma tarde que habitualmente é ocupada com espetáculos de uma qualidade muito discutível (quer por quem apresenta quer por quem programa o alinhamento), não há praticamente nada que dê alento a quem já só tem a consciência do final de um fim de semana sempre curto e tem de se preparar para uma semana de trabalho (o que, digamos, nos tempos que correm, já não será mau de todo).
        Triste é a constatação de que um filme como Ghandi (de Richard Attenborough, com a data de 1982 e protagonizado por Ben Kingsley) passa depois da meia hora, até umas horas incomportáveis para quem tem de trabalhar no dia seguinte; que O Leitor (de Stepehn Daldrey, 2008) concorre num canal da cabo, de novo em horário impróprio para trabalhadores. Dois exemplos que gostaria de rever e que ficarão para uma próxima oportunidade.
       Do balanço televisivo noturno fica apenas o exemplo do que, apesar do aliciamento para uma pretensa fama, ainda conta com o que o ser humano possa fazer de bom e de bem: cantar e com qualidade. Um exemplo: Teófilo Sonnemberg, no "Factor X", da SIC:


       Uma interpretação e uma voz negra em boca e rosto brancos, com "At last" (de Etta James); depois, um outro tema, a pedido do público já rendido, com letra e música portuguesas no que de melhor têm ("Chuva", de Jorge Fernando).

        Hoje não houve chuva, mas a música (que a canta) embalou-me até cair nos braços de Morfeu.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Versões que o tempo aprimora

       Quando o tempo faz rejuvenescer...

       Há quem suspire pela fonte da juventude, ansiando pelo regresso a momentos que não voltam.
       Há quem faça do velho, ou antigo, novo (restaurando).
      Na música, há versões que fazem ganhar o que nem sempre o original tem. No caso de "You make me feel brand new" talvez o "soul" seja o mesmo, num ritmo de balada inconfundível para letra em registo de carta (escrita entre as pontes da amizade e do amor). Há, todavia, em duas das suas versões notas de uma harmonia vocálica e instrumental bem distintas.
     A mais antiga é versão dos "The Stylistics", grupo norte-americano dos anos setenta, lançando um sucesso mais concretamente com a data de 1974:



      Décadas mais tarde, mais precisamente em 2003, chega a versão dos "Simply Red", na voz de Mick Hucknall:


     YOU MAKE ME FEEL BRAND NEW

My love,
I'll never find the words, my love
To tell you how I feel, my love
Mere words could not explain
Precious love,
You held my life within your hands
Created everything I am
Taught me how to live again

Only you
Came when I needed a friend
Believed in me through thick and thin
This song is for you
Filled with gratitude and love

God bless you
You make me feel brand new
For God blessed me with you
You make me feel brand new
I sing this song 'cause you
Make me feel brand new

My love,
Whenever I was insecure
You built me up and made me sure
You gave my pride back to me
Precious friend
With you I'll always have a friend
You're someone who I can depend
To walk a path that sometimes ends

Without you
Life has no meaning or rhyme
Like notes to a song out of time
How can I repay
You for having faith in me


     Duas versões para dois tempos num só sentimento que ganha com a fluidez do próprio tempo.

     Entre o rejuvenescimento e o agradecimento, há alma bastante para harmonizar no curso de uma vida feita de muitos e variados caminhos.