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domingo, 9 de outubro de 2022

Em jeito de balanço e de lembrança

      Publicado na Newsletter do Jornal Plural, eis o meu testemunho.

      Não sendo novo, porque advém do final do ano letivo anterior, segue-se o registo do que foi viver sob a égide de um projeto intitulado "Mar Pedagógico - Inclusão é a Condição", que marcou o Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira:

Registo da Newsletter do Jornal Plural do AEML
      
Transcrito da Newsletter do Jornal Plural (outubro 2022)

     Passado o tempo, fica a lembrança de muitos momentos que permitiram fechar 2021-22 em festa e no sonho de que é possível viver o mundo com todos, assim nos deem a oportunidade de dar as mãos, construir redes e fazer obra.

      Em novo ano letivo em curso, que venham outras marés e se viva a escola de e para todos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Dia de Reis no século passado e no presente

     Depois do Natal e da passagem de ano, chega a vez do Dia de Reis.

    Já lá vai o tempo em que a festividade dos reis ficava abrangida pela pausa letiva (e ninguém ficou traumatizado ou aprendeu menos por isso). Hoje, é na vizinha Espanha que se dá importância aos ditos, com a troca de prendas natalícias precisamente na passagem da véspera para o dia de hoje. Faz sentido, atendendo ao facto de os três reis magos - Belchior, Gaspar e Baltazar - também terem levado, ofertado ao menino ouro, incenso e mirra.
     Há mais de um século, outros reis ofereceram ao menino "Futuro" a Democracia, o Socialismo e até mesmo o Niilismo. Trata-se de uma ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro, publicada no jornal A Paródia, à data de 7 de janeiro de 1904.

Os Reis (e os presentes), ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro (1904)

   Numa alusão aos Reis Magos, Bordalo Pinheiro recriou o episódio do Novo Testamento, num paralelismo com os monarcas da Europa do início do século passado. Montando camelos, vão adorar o "Futuro". Levam-lhe 'ismos' de cariz muito ideológico: o rei de Inglaterra (Eduardo VII) leva o socialismo e a democracia; o czar da Rússia (Nicolau II), o neocristianismo e o niilismo; Francisco José da Áustria, o socialismo; o Kaiser Guilherme II da Alemanha, a social-democracia; o rei de Itália (Vítor Manuel III), o anarquismo e o socialismo; Afonso XIII de Espanha, o cantonalismo e o iberismo; o rei sueco, o separatismo. 
   Um não é soberano: o presidente francês (Loubet).  Oferece o cosmopolitismo e o socialismo. Digamos que, na procissão, este era um a fazer alguma diferença.
     Hoje, a diferença talvez residisse numa dádiva mais comestível:

Os três reis magos e o outro, que não é mag(r)o - tradução e adaptação VO

     Há reis que sabem aproveitar a oportunidade! 

    Não sei se o Futuro ficou bem servido com estes reis (mais um presidente). Hoje diria que o monarca maior seria aquele que presenteasse a atualidade com mais humanismo, sentido de justiça e saúde.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Mau... muito mau mesmo!

       Jornalismos...

      A quantificação do plural vale por dois: pelo bom jornalismo que vale por muitos, na seriedade, na responsabilidade e na qualidade de escrita que “agarram" qualquer leitor; pelo que, na falta das virtudes anteriores, cai no erro, no mínimo, e induz quem lê a opinar sobre dados falsos. Em vez de informação, propaga-se a ignorância da fonte, multiplicada pelas vozes que, do assunto, pouco ou nada sabem.
     O furo jornalístico de que Os Maias deixam de ser leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário sai tão “furado" e falso quanto a obra não ter sido tal desde a implementação dos então novos programas de 2010/2011. Agora, na discussão pública das “Aprendizagens Essenciais” para o 11° ano, mantém-se como possibilidade, conforme os programas em vigor desde 2015-16 (leia-se Os Maias ou, sublinhe-se 'ou', A Ilustre Casa de Ramires).
       Perante o absurdo da conclusão jornalística, não será de esperar que tivesse havido leitura do documento nem sequer uma investigação que fundamentasse a posição de muitos professores que optam pela abordagem do primeiro romance face a qualquer outro queirosiano, em termos de lecionação. Também não sei se haveria capacidade para reconhecer que uma obra tão madura e excecionalmente construída por Eça seja uma mais-valia acumulada de sensibilidades estéticas, muito para lá da expressão realista-naturalista a que o autor tem andado associado; uma produção romanesca que tanto retrata criticamente a sociedade da segunda metade do século XIX como reflete comportamentos e percursos de desilusão tão comuns ao século XXI; uma narrativa que ensina mais pelo que dá a ler (no conteúdo e na língua) do que por qualquer análise mais estrutural ou estilística que dela se faça.
       Sendo assim, quase como Eça criticamente o aponta nas primeiras páginas de Uma Campanha Alegre, assumo que, a exemplo de notícias como a identificada, e repetida por congéneres, a imprensa está longe de cumprir o seu papel. Se nos finais de oitocentos, cito, "A imprensa é composta de duas ordens de periódicos: os noticiosos e os políticos", nas primeiras décadas do século XXI persistem as mesmas (talvez acompanhadas por uma terceira ordem, mais desportiva), na generalidade com a inegável falta de qualidade seja de escrita seja de informação. Será este um caso de noticioso (sensacionalismo inútil) ou de político (talvez politiqueiro)? Seja qual for, muito terá a aprender com as raríssimas exceções de jornalismo de qualidade (para as quais, obviamente, estas palavras não são destinadas), por talvez se terem inspirado em Os Maias e/ou, definitivamente, terem descoberto como afastar-se do mau exemplo que o jornal "A Tarde" ou "A Corneta do Diabo" representam. 
     Casos como os destas notícias, divulgando e fomentando conclusões contrárias às "Aprendizagens Essenciais", só podem resultar de jornalistas que ou não leram a obra queirosiana (nem o documento educativo em discussão pública) ou, se o fizeram, não conseguiram ver nela mais do que uma simples história de incesto (nem as implicações educativas que ousaram noticiar). E de língua, nada aprenderam, a ponto de não saberem o significado de um 'ou'. Diria, uma aprendizagem essencial.

       "Alguns jornais contaram este mês, com uma indignação ingénua, que na devota cidade Braga alguns missionários vendiam aos fiéis cartas inéditas da Virgem Maria" (Uma Campanha Alegre - XXXVII, pág. 223) - escreveu Eça. Um jornal contou hoje, entre o espanto e a indignação ingénuos, que Os Maias iam deixar de ser leitura obrigatória no ensino secundário - escrevo eu. Heresias (quando não são mentiras declaradas)!


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Não uma, mas um FACE com História

      Pode ser uma sexta-feira treze, mas hoje houve mais realeza (com a presença de "Sua Alteza" o rei D. Carlos) e excelência do que azar.

    Pelas 10:30, foram assinalados os 120 Anos da Concessão do Alvará Régio à Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª, no edifício onde atualmente se situa o Fórum de Arte e Cultura de Espinho (FACE) - Museu Municipal de Espinho. Aí se encontra uma exposição permanente com evidências da visão progressista e da importância nacional e internacional da antiga fábrica de conservas espinhense, que recebeu um prestigioso alvará nos finais do século XIX (1895). Passados cinco anos do vergonhoso Ultimato britânico imposto a Portugal (inviabilizando o 'Mapa Cor-de-rosa'), Espinho, um lugar da freguesia da Anta à época, dava mostras de um sinal de desenvolvimento do país, da industrialização, do progresso e da aposta na excelência, sob a divisa "Melhorando sempre" e a ponto de os produtos produzidos e exportados desta "Real Fábrica de Conservas Alimentícias" passarem a estar à mesa do rei.
     A efeméride foi ainda abrilhantada por dois eventos:
   . uma dramatização com História, levada a cabo por um par de atores do Teatro Popular de Espinho - "Entrevista a El-Rei D. Carlos":

 
Excerto da dramatização levada a cabo no FACE

  . o lançamento do Jornal "Real Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª", numa edição impressa à escrita da época.

Primeira página do jornal, reproduzindo o Alvará Real
      Do balanço final da atividade, que contou com a presença de alunos e professores da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, fica o registo do que eram a jorna (salário do trabalho diário) e o jornaleiro (o trabalhador que recebia a jorna); as condições do trabalho numa fábrica (entre o final do século XIX-início do XX, conforme um painel fotográfico revelador dos que se vestiam na especialidade laboral exercida ou dos que indiferenciada-mente aguardavam pelas necessidades do trabalho diário); o sentido estratégico da visão assumida pelos proprietários (que organizaram a fábrica por secções - conserva de sardinha, de frutas, de legumes, de caça, de doces, entre outros produtos, para além da produção das embalagens e da estampagem publicitária); o exemplo, o testemunho e a reflexão de que, mesmo em tempos críticos, o engenho, a audácia e a parceria constituem fatores primordiais para o desenvolvimento, o sucesso e o prestígio conquistados pelo trabalho.
    Uma ótima iniciativa na oportunidade e na mensagem, não esquecendo a companhia.

      Entre regeneradores e progressistas (tão alternada e ciclicamente revistos na governação do país na segunda metade do século XIX); entre crises nacionais e oportunidades económicas; entre trabalhadores especializados e outros que esperavam a sorte do dia, ficam aqui alguns apontamentos da(s) História(s) que o tempo repete.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

"E a ideia até foi minha"...

    A frase é tão batida, nos últimos dias, que chegou a minha vez de a citar.

   A razão para o fazer não é boa (como, aliás, nenhuma pode ser quando alguém tanto precisa de se assumir como autor de soluções milagrosas, no mínimo, discutíveis), por decorrer da leitura de uma notícia relacionada com a aplicação de critérios pelos professores corretores dos exames de Português de 12º ano.
    Confrontei-me com a informação graças ao seguinte registo noticioso digital:

in http://www.noticiasaominuto.com/pais/421513/exames-de-portugues-tiveram-diferentes-criterios-de-correcao
(consultado no corrente dia, pelas 21:30)

    Depois de o ler, pensei no seguinte: se a qualidade da informação noticiada estiver na proporção da qualidade da correção escrita, tenho muito a duvidar acerca do que está escrito. Senão, vejamos:


    i) quem escreve deve saber encadear o texto de autor com discursos citados, de modo a não comprometer uma regra fundamental do português: não separar nunca por uma só vírgula o complemento do seu elemento predicador subordinante (neste caso, o adjetivo 'garantida');
      ii) um sujeito composto ("a existência de critérios diferentes para corrigir respostas idênticas e a falta de formação para aplicar os critérios de classificação do IAVE") deve dar lugar a um verbo conjugado no plural (não 'levou', mas 'levaram').

   Fico-me por aqui, para não tratar de outras questões (por exemplo, ambiguidades sintáticas, paragrafação dúbia). Os exemplos anteriormente indicados são suficientes para a responsabilidade editorial sair lesada (seja por quem escreveu seja por quem validou o que foi publicitado); a qualidade informativa acabar, no mínimo, relativizada.
   Abordar questões de correção do português num texto mal escrito é informação caída em descrédito.
    Por ora, mais não escrevo, embora sublinhe que a existência de professores interessados em desenvolver um trabalho profissionalmente responsável, oportuno e atempadamente realizado motiva a construção de equipas, parcerias que, colaborativamente, constituem os chamados "amigos / profissionais críticos" enquanto realidade mais próxima, atenta e imediatamente disponível do que a virtualidade digital, distanciada, sem cara e sempre mediada.

    Retomando a notícia, pergunto-me se os responsáveis editoriais dos mass media não deveriam encarar com mais seriedade e profissionalidade o uso da língua, rodeando-se de pessoas (mais) competentes na validação dos registos que public(it)am.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Notas, chumbos e o mais que estará para vir

     A nova ou notícia de hoje é a recomendação do Conselho Nacional da Educação sobre os chumbos a evitar.


    Segundo David Justino, antigo Ministro da Educação e atual presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a avaliação baseada nas notas dos exames assume "um efeito de influência" na avaliação dos alunos ao longo do ano, dado que "é necessário evitar". Até aqui, tudo pacífico. Para quem vê as práticas como a exclusiva preparação para os exames é bom que se leia estas palavras; para quem não saiba que as escolas são induzidas, por variadas formas, a comportar-se dessa forma, estas são sementes lançadas a terreno estéril.
     Junto com isto, volta a velha discussão entre as diferenças da avaliação contínua e da avaliação sumativa externa, questão mais do que conhecida, mas a todo o tempo retomada (quando não distorcida). E depois, de novo, as tabelas, as estatísticas, os gráficos e as comparações, numa espécie de agenda subliminar que pelos meses de fevereiro a abril volta à crista de uma onda revista lá pelas marés de setembro-novembro. A par disto, ressoam pelos corredores das escolas discursos (entre outros ruidos que em nada favorecem o clima e o ambiente de estudo e trabalho) a sublinhar o interesse de, cada vez mais, haver quem tudo faça para que as leituras de duas modalidades avaliativas coincidam: são os testes feitos à moda dos exames (muitos dos quais aplicados em 90 minutos, quando seriam de prever 120+30); são as médias de exame discutidas e misturadas com as médias de ano e/ou de períodos; são as práticas reduzidas ao que "interessa para exame" (se sai ou não sai, para não falar nas apostas feitas quanto às certezas do que este venha a contemplar). Tanto esbracejar em areia movediça e tanta discussão para colocar muito e diferenciado assunto num só saco! (Uma estratégia para nada ser feito foi sempre a de fazer divergir a discussão para múltiplos pontos, de modo a que nenhum seja tratado, pela consciência da pequenez humana face à grandeza e à grandiosidade dos problemas).
    Atrofiados por questões de gabinete(s), lá vão os professores (eu) trabalhando o melhor que podem (posso) no meio de tanta poeira e vento lançados à / na escola, numa consciência crescente de que estão (estou) cada vez mais sozinhos (só, mesmo) face a autoridades máximas, organismos centrais que parecem deleitar-se com convicções por vezes tão infundadas na realidade escolar comum concreta quanto assentes em modelos teóricos que tão pouco têm de generalizáveis. Aos que aqui descobriram o filão de ouro respondem outros países - considerados modelo para algumas coisas, outras não - que, tendo já passado pela experiência, já só nela veem o ouro dos tolos, composto de embaraços e impedimentos quer ao estímulo quer ao sucesso.  
    E os alunos lá estão, longe de tudo isto e tão mais do que isto; muito para além dos números e das percentagens, com tanto do que ainda vão dando ou querendo (felicidade, talvez, a minha por ainda os ver assim e ter muitos que assim são, por ainda verem algum sentido naquilo que fazem e naquilo que lhes é dado a fazer); à espera de ter indicações precisas do que fazer; com as interrogações  e as reações e papéis típicos dos adolescentes que os professores (eu) também foram (fui); numa postura entre a convergência e o desafio (quando não é de desautorização, à semelhança do que acontece com outros poderes que o deixaram de ser, por terem perdido os meios de o ser) à autoridade que têm à frente.
     Leio nos escaparates, nas primeiras páginas, nos títulos, nas citações (admito que descontextualizadas) que a «'Cultura da nota' desvaloriza processos que promovem aprendizagem». Nem sei que pense: a frase tanto dá para a má nota - que rotula, que estigmatiza, que inviabiliza a possibilidade ou a motivação para participar noutra oportunidade - como para a melhor de todas elas - nem sempre a refletir o rigor e a exigência (ou o mérito e a excelência) tantas vezes aflorada - porque literalmente feita apenas de "flores" superficiais e não apoiada ou alicerçada na "terra" - em situações, formações, alternativas, certificações apressadas, discursos de sucesso educativo (como se este fosse apenas um, particularmente o da aprovação e o do diploma conseguidos de qualquer modo). Depois o fim dos "chumbos", das "retenções", das "reprovações", das "não aprovações" são designações que também podem significar a banalização, a indiferenciação, a falta de necessidade e de brio para se ultrapassar falhas, dificuldades, disfunções, desafios que nem só o tempo ajuda a resolver. Um autêntico "laissez faire laissez passer", educando para uma vida em que só ilusoriamente não há constrangimentos, entraves, dificuldades, adversidades - muitos deles a motivar um real e reconhecido esforço, a superação, sem que tenha de chegar necessariamente à transcendência.
       Tempos de caricatura, tão próximos da realidade:


     A novidade não é nenhuma - é uma nova velhíssima e grotesca. A preocupação é mesmo a do dinheiro, a do custo que representa a retenção (numa versão mais material e culpabilizadora) ou a do investimento que uma formação alternativa possa representar (noutra versão, politicamente mais correta). A pessoa, o aluno - na sua individualidade, singularidade - é uma outra perspetiva. Só que esta fica nas mãos do docente que terá outros tantos para encarar, numa heterogeneidade e diversidade (quando não de inconsistente inclusão) muito além de qualquer percentagem que alguém quererá atingir na massa anónima mais internacional(izada) possível.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

As coisas que um português aprende...!

     Dizem que esta é a divulgação que se faz de Portugal (turístico) no Brasil.

     Desconheço a fonte jornalística (a julgar pelo aparato gráfico), circula pelo facebook, mas não me espanta que se leiam coisas destas, quando já ouvi dizer que somos um "reino" (sem rei nem roque, acrescento) da Península Ibérica ou até de Espanha; que pertencemos à Madeira (talvez como canteiro ou jardim de um outro Jardim, sabe-se lá por quanto tempo); que temos a capital em Angola (possivelmente lá pelo Huambo que foi Nova Lisboa).


      Cá está um precioso texto, verdadeira peça artística para qualquer linguista, arquiteto, historiador (inclusive de arte), geógrafo ou qualquer outro ser interessado em cultura (que, de tão generalista, está liberta dos condicionalismos do tempo, do espaço e dos mitos fundacionais).

       Valha o facto de Lisboa estar em ascensão, porque, quando estiver em queda (será futuro?), já andará lá pelo Índico, como província da China e finalmente governada por D. Sebastião. Haja paciência (a bem do turismo)!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

E vai mais uma...

    Entre tanta regra, é preciso acrescentar outra.

    Primeiro: leio, em Português do Brasil, o que as escolas não ensinam.


    Segundo: penso.
    Terceiro: registo.
   Até concordo com algumas das regras aqui apontadas. Podem ser boas considerações para os alunos levarem em linha de conta (quantas vezes já não as ouviram da minha boca, em versão mais ou menos sinonímica).
    Devo, contudo, sublinhar que o autor deste texto bem poderia pensar em adicionar um dado mais, a julgar pela escrita, mais precisamente pela pontuação (com vírgula) do texto. Há bons exemplos para demonstrar subordinadas relativas restritivas (que não podem apresentar vírgula); tanto sujeitos como complementos indevidamente separados do núcleo verbal do predicado (na ordem direta e na ordem inversa); encaixes no meio da frase só com vírgula na abertura (quase nunca no fecho), para mencionar apenas os casos mais críticos.
    Caso para dizer que algo mais a escola e as restantes oportunidades de aprendizagem não ensinaram a este jornalista.

    E, assim, mais uma regra que a escola do autor do texto não ensinou: REGRA 12 -  as vírgulas não se semeiam nos textos. Entre alguma variação possível, há casos que nunca devem acontecer: separar, com uma só vírgula, complementos / argumentos do respetivo verbo selecionador; separar sujeitos do núcleo verbal do predicado; separar relativas restritivas do núcleo nominal constituinte da referência.

sábado, 20 de agosto de 2011

Artigo (não notícia) de última hora!

       Este é o resultado de quem vai às compras e vê as prendas embrulhadas num jornal.

      É então que, no acto de desembrulhar para tudo emalar, os olhos pousam na página de jornal (é que nem tempo tive para comprar uma revista).
       É favor ler!


      Se não perceberem não há problema. Bem-vindos ao clube! É assim que um professor se torna um iletrado (valha-me Deus!, ou melhor, Alá! Se em terra de Roma sê romano, em terra de mouro sê muçulmano). Tudo é tão relativo.
      Há pormenores que, contudo, não deixam de se fazer marcar:
     1) a atenção dada a um artigo sobre educação, escola, professores, conforme o sugerido pela imagem (mas por que motivo não fui buscar outra? Espero que, ao menos, falem bem dos professores e do esforço que fazem para partilhar o que sabem);
      2) a grafia é espantosa, nos contornos consonânticos que apresenta (porque, diz o guia, os pontinhos correspondem a vogais - se ele o diz, para já dou por certo; contudo, hei-de confirmar, dado também ter ouvido dizer que os portugueses conquistaram Ceuta no século XIV... pronto também um seculozito a mais ou a menos... o senhor só confundiu os algarismos da data - 1415 - com os do século... nada que os alunos também não façam, na melhor das hipóteses), todos eles em variedade gráfica conforme se coloquem no início, no meio ou no final da palavra;
      3) o espaço de parágrafo à direita, então, é um primor (é como na televisão ter o travessão do discurso directo à direita, também...), prova de que a orientação da escrita e da leitura é contrária à nossa no que toca às letras (porque, quanto aos números, é tal qual nós lemos, da esquerda para a direita - não fossem os nossos algarismos árabes).

      Digamos que estas compras até foram muito culturais.
   

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Quando nem tudo está dito ou feito

      Este é um bom exemplo do que não é uma notícia completa, na qual nem tudo é dito (sabe-se lá por que motivo).

      Hoje, lia-se numa notícia do jornal Público (página 7) o seguinte (leia-se a notícia):
   A subida da média dos alunos autopropostos (em cinco disciplinas) parece ser apontado como um sinal de estranheza, quase a significar que mais vale nem ser aluno interno. E a orientação argumentativa não anda muito longe disso quando, no segundo parágrafo do texto, se lê explicitamente o que cabe na designação de autoproposto: alunos externos que anularam a matrícula devido a excesso de faltas ou a falta de aproveitamento; alunos oriundos dos cursos profissionais.
      Pena é que este parágrafo não tenha sido mais desenvolvido, contemplando um exercício de pesquisa e de recolha de dados que reflectisse mais correcta e completamente esta tipologia de alunos. Na verdade, muitos outros cenários cabem aqui, mas admito que só quem trabalhe numa escola possa contemplá-los. 
     Não vou falar aqui de alunos que, frequentando o ensino particular ou privado, acabam por se autopropor a exame(s) em escolas oficiais públicas - aliás, esta distinção, para este caso, não é deveras relevante. Centro-me no contexto da escola pública, por si só, visando exemplificar várias situações que vão além do que se lê na notícia para "autopropostos".
      É o caso dos alunos que se inscrevem em exame depois de terem frequentado (como assistentes) todo um ano lectivo de aulas (trabalhando como se fossem internos), na esperança de verem melhorada uma prestação que não lhes permitia obter uma boa classificação pela média de dois /três anos numa disciplina - lembro-me de uma aluna que, no décimo ano, tinha um resultado suficiente numa disciplina; no décimo primeiro começou a revelar uma proficiência e um desempenho crescentes que a levaram a anular a matrícula no 12º, para conseguir uma nota superior em exame àquela que pudesse vir a obter com a média final da classificação interna e a de exame.
     É o caso dos que, tendo ficado com disciplinas por concluir, nelas se inscrevem como internos e acabam por assistir a todo um ano de aulas de outra(s) disciplina(s) e, depois, candidatam-se como externos ao exame desta(s) última(s), para melhoria de nota - mais uns casos conhecidos.
    É também o caso dos alunos que, com sucesso relativo, preferem esperar um ano na entrada para o ensino superior, investindo exclusivamente numa disciplina específica que lhes permita o acesso ao curso pretendido como primeira prioridade (e não de segunda escolha) na universidade. Isto para não falar daqueles que, já no superior, voltam aos bancos da sala de exame de 12º ano, para subir a média a uma disciplina que lhes permita redefinir o percurso ou fazer transferência no ensino superior - mais uns quantos casos. 
      Como acredito que estes três cenários conhecidos não sejam tão pontuais nem tão exclusivos da escola em que lecciono, não me espanto com o título "Média dos autopropostos foi superior à dos alunos (em cinco exames)". Admiro-me é que não seja dito tudo o que há a dizer. É que os autopropostos cada vez mais são alunos (a tempo inteiro) e, por vezes, bons, tentando atingir o patamar do muito bom. E, assim, as médias sobem, naturalmente. E ainda bem.

      Talvez assim a leitura fosse mais consistente e conclusiva, menos redutora e imperfeita. Quase apetece dizer que é mais um caso de uma notícia para "o povo ler" (e eu sou do povo; por isso, li).

domingo, 17 de julho de 2011

Notícias para o povo ler

     Passada a tormenta, a bonança ainda vem longe.
     
    Ao folhear um jornal de há dois dias, retomei um tópico que tem vindo a ser mais do que discutido nos últimos dias: os resultados dos exames.
     Em termos de balanço, lia-se o seguinte num dos artigos noticiosos do dia:


     A cor, vem a questão negra da situação; a preto, e como título principal, nomeia-se a disciplina que nem tem tido os piores resultados nos últimos anos, mas notícia é notícia e, portanto, quando se falha, aí vai logo para primeiro plano o que correu mal; logo abaixo, três conclusões da jornalista, as quais ascendem a uma espécie de subtítulo ou parágrafo destacado.
     Depara-se, então, com o 'alunos... já não sabiam identificar um complemento directo'.
     É verdade que não. Também não o tinham que fazer, porque o que se pretendia era mesmo a identificação de um sujeito sintáctico. E não dos mais imediatos, considerando que o contexto frásico proposto corresponde a uma questão crítica no ensino da gramática.
     Quanto a isto, basta relembrar a instrução:
     
     GRUPO II
     2.2. "Indique a função sintáctica desempenhada pela expressão «a indiferença e a hostilidade» (linha 27)."

     A remissão para o texto implicava um segmento "... até que vinham a indiferença e a hostilidade...", no qual existe um fenómeno de inversão entre o sujeito e o predicado (subordinados). Naturalmente, a função de sujeito seria determinada pela pronominalização admissível ( > vinham elas), pois não seria possível a de complemento directo ( >*vinham-nas), ou pela regra da concordância tipicamente desencadeada pelo sujeito ( > vinha a indiferença).
     Trata-se de um caso de enunciado subordinado com características de um caso de construção inacusativa, ou seja, de uma oração (subordinada) cujo núcleo verbal ou predicador não requer complementação acusativa.
   Curioso é o facto de alguns colegas me terem dito que abordaram estes casos em aula. Interessante é saber que os próprios alunos reconheceram a falha e que haviam trabalhado este cenário, mais os testes que permitiriam identificar a função solicitada.
   O que falha? Muita coisa. Uma delas: a tensão da situação e do imediatismo de resposta (induzida até pela tipologia de resposta curta), que poderia ser contrariada pela solicitação da aplicação de um teste comprovativo; outra, o processamento cognitivo requerido, com um foco de atenção num aspecto crítico algo distinto da percepção automatizada (porque habitual, mais recorrente)  para encontrar um complemento directo na posição pós-verbal - o que se pode revelar algo próximo da irreflexão, da inconsciência e do desconhecimento de que a localização pós-verbal de um segmento não se associa exclusivamente ao complemento directo; uma terceira, a aplicação do teste da questão ('O que é que vinha?'), certa e imediatamente relembrada pelos alunos, mas não exclusiva do complemento directo (pois essa mesma interrogação também corresponde à do sujeito sintáctico não humano).

   Assim o que parecia não o era; os testes de identificação permitiriam fazer as devidas distinções, caso tivessem sido aplicados e reconhecidos como marcantes para um conhecimento mais explícito (e consciente) da língua. Conclusão: "os alunos já não sabiam", porque o caso também não era dos mais simples; porém, disto basta dizer que eram cinco pontos a menos, não a razão plena do insucesso propagado. O caso é bem mais complexo, como o apontei anteriormente.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Encontro ASA (28/02/2009)

   Lê-se, na versão digital do Público (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367116 - última consulta em 01.03.2009, pelas 22:46)


Carlos Reis
Novos programas de língua portuguesa vão adaptar-se às tecnologias

28.02.2009 - 14h44 Lusa

Miguel Madeira (arquivo)

     O coordenador da equipa responsável pela concepção dos Novos Programas de Língua Portuguesa, Carlos Reis, considerou hoje no Porto que as alterações metodológicas, didácticas, científicas, sociais e técnicas dos últimos anos motivam "reajustamentos" nos programas e, nalguns casos, "alterações substanciais".
     A revalorização dos textos literários, enquanto "repositórios de uma cultura, de uma memória cultural e de um legado estético" e as alterações na linguagem introduzidas pelas tecnologias de informação e comunicação são dois aspectos tidos em conta nos novos programas. Carlos Reis falava no "Encontro Pedagógico" organizado pelas edições ASA para discutir os "novos programas e desafios da Língua Portuguesa".
     "Há 20 anos, as tecnologias de informação e comunicação, os textos electrónicos e o trabalho em rede praticamente não existiam. Estes programas têm isso em conta, sendo certo que todas essas ferramentas e linguagens interferiram e interferem no modo como se fala e como se escreve e a escola tem de estar atenta a isso", sublinhou.
    Segundo Carlos Reis, a escola "estar atenta" não significa "reprimir, ignorar ou proibir", mas sim "saber trabalhar com isso de forma criteriosa, ou seja, julgando, avaliando e hierarquizando as coisas". Carlos Reis presidiu ao encontro organizado pela ASA que teve como objectivo contribuir para um maior esclarecimento sobre os novos programas e sobre os possíveis modelos da sua abordagem, bem como facultar informação prática relevante sobre o Dicionário Terminológico, contemplado nesses programas.
     O ano lectivo 2010/2011 é apontado como um ano de mudança no que respeita às práticas pedagógicas inerentes à Língua Portuguesa, no seguimento da concepção de Novos Programas para a disciplina. O programa do encontro incluiu apresentações e debates subordinados aos temas "Novos Programas de Língua Portuguesa (2.º e 3.º Ciclos)", "Manuais de Língua Portuguesa e os Novos Programas", "História de uma Aula e dos Percursos a que um Texto Levou", "Do Saber a Gramática ao Saber-fazer na Língua" e "Progressão(ões) no Ensino da Gramática".
     A elevada adesão ao encontro, cerca de 500 pessoas, levou, entretanto, a organização a promover duas novas sessões: no Porto, no dia 28 de Março, no Hotel Mélia, de Gaia; em Lisboa, ainda com data e local a definir.

    O meu pequeno contributo fica registado pelo título da comunicação que fechou o encontro dinamizado, na Fundação Cupertino de Miranda, pela Asa Editores: "Progressão(ões) no Ensino da Gramática". A aposta foi da Isabel Castiajo (uma amiga que se cruzou comigo na Escola Secundária de Gondomar). Da comunicação fica aqui uma síntese.