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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Corrigindo os erros

    Na 'Grande Entrevista' (RTP1), com Vítor Gonçalves e o Sr. Ministro da Educação, falou-se de erros e também os houve.

   Na muita informação que, quarta-feira passada, pôde aí ser colhida, vou ficar-me por um erro, conforme uma colega mo fez chegar:

Vítor Gonçalves não está a gostar. Será do erro da legenda? (Foto partilhada, com agradecimento à CF)

     Em todos os processos de avaliação há erros, dizia-se um pouco antes. O mesmo acontece com a escrita, particularmente para quem desconheça a natureza convencional e etimológica de muita dela ('corrigir' vem do latim 'corrigere' - com 'g', antes de 'i/e'). Portanto, quando ao minuto 5:45 da entrevista, surge a legenda com erro, a sintonia do tema de discussão e da forma verbal participial erradamente grafada é notória.
      Na prossecução do diálogo, e com mérito para a revisão da RTP1, chega a correção que se impõe: "Os erros são corrigidos de uma forma mais rápida". Efetivamente, em pouco mais de meio minuto (entre as 5:45 e as 6:24), "corrigido" aparece como deve:

   Citação das palavras do Sr. Ministro da Educação, Fernando Alexandre, com a correção devida na RTP1 
(Foto VO)

     Assim se comprova, também, a necessidade de revisão no processo de escrita. A RTP1 teve-a em conta, em pouco tempo, avançando com a grafia correta da palavra.

      Seja a revisão da escrita tão rápida e eficiente como a da avaliação (nos exames nacionais) discutida. A bem de todos.
       

domingo, 19 de julho de 2026

Manipulações

     Não são feitas com mãos, mas com tecnologias "de ponta" (aguçada por intenções dúbias).

     A circulação de uma foto com legenda televisiva imprópria (porque manipulada por Inteligência Artificial - IA), e com impropério, dá conta de como a palavra "pauta" se aproxima bastante de uma outra, retirando-se o grafema 'a' da primeira sílaba. O certo é que o confronto com a emissão do programa difundido quinta-feira passada (dia 16) permite confirmar que de "pautas" se fala e se escreve, sem qualquer confusão possível:

A prova do que o Ministro admite: as pautas; não o que outros querem dar a ler (Foto VO) 

     Contrastada a foto mencionada (que evito expor pela leitura explícita do que nunca realmente existiu) com a agora apresentada, seja para quem se ria / ri da situação seja para quem via /vê o que não pode ser lido, fica o aviso: o assunto motivador da brincadeira não merece o tratamento dado, por um lado; lamentavelmente, atesta-se que não se pode acreditar em tudo o que se lê, por outro. Há que confirmar as fontes, e a que é necessária está ao alcance de muitos, recuando-se no tempo e verificando-se o que foi efetivamente escrito na legenda do canal televisivo "Now" (fosse outro e diria que havia matéria para a rubrica do "Polígrafo SIC", dedicada à constatação da veracidade / falsidade de notícias e conteúdos virais). 
       Tal como diria Camões, "vi claramente visto"; melhor, "li claramente lido". Despistada, portanto, qualquer intenção outra que não a do que foi escrito, apesar de a possibilidade poder ser considerada (na base de legendas insólitas já verificadas).
       Tenho pena que, na mesma emissão, ainda abordando o tema da crise dos exames nacionais e a questão da publicitação dos resultados, surja o «famigerado verbo 'meter'» (hoje tão vulgarmente utilizado, mesmo nos contextos em que para tal não deve ser convocado):  

A crise dos exames nacionais a par de uma outra bem mais alargada: 
a do uso da língua nos canais televisivos (Foto VO)

     'Pôr em risco' / 'colocar em risco' perde, com a legenda escrita, a configuração de expressão fixa, pelo recurso de "meter". Lá diz o povo, "entre marido e mulher não metas a colher", o que deve ser relativizado em contextos muito críticos. Eu digo aos alunos que não se mete no quadro, no papel,... Também embirro com 'mete em risco', pela sua coloquialidade ou familiaridade, pouco desejáveis na comunicação social. Entre as expressões e/ou as combinações mais comuns no uso (assumir, aumentar, avaliar, controlar, correr, estimar, evitar, gerir, identificar, minimizar, mitigar, reduzir o risco), o verbo 'meter' não parece ter lugar; evitá-lo-ia, portanto, para que não se 'meta' em lugares / expressões que não se deve utilizar ou se deve evitar.
     Portanto, enquadro 'meter notas em risco' em construções que evidenciam inadequação nas legendas televisivas, a tocar a impropriedade lexical (das penalizações maiores na escrita dos alunos, a par dos erros sintáticos), face ao exemplo que deveriam assumir. 
      Entre os variadíssimos exemplos que já foram contemplados neste blogue, pode já dizer-se que há matéria para demonstrar / analisar tais falhas em vários domínios linguísticos.

      E continua a questão: a da responsabilidade editorial. Não há quem verifique, sugira, corrija, cumpra o que deve ser uma obrigação na difusão correta e adequada da língua (seja lá qual for o canal). 

sábado, 18 de julho de 2026

Crise(s)

     Depois da crise e da novela sem fim da digitalização dos exames nacionais,...

     ... outra crise mais duradoura grassa por aí: a da língua nas legendas televisivas. Desta feita, é no CNN Portugal, e no âmbito da sintaxe e do princípio da concordância:

Quando há outro sistema em falha e também tudo tem a ver com correção... da língua (Foto VO)

     Um sujeito singular (Professor) para um núcleo verbal conjugado no plural (apontam)! É erro muito grave para quem aprende português e para quem resolve os famigerados exames; na televisão, parece ser entendido como simples gralha e desatenção, em canais diversos.

     Reescrevo a legenda: Professor aponta falha a domínio da língua. Se quiserem 'apontam', façam com que 'professor' esteja configurado no plural (com 'e+s'), por favor. É uma questão de conhecimento, com o cérebro e o digital (porque, etimologicamente, é com os dedinhos que se escreve).

sábado, 27 de junho de 2026

Reportagens e legendas com muito que se lhe diga

     E para não ficar pelo dizer, cá vai o escrito.

   São muitas as questões levantadas numa breve reportagem televisiva difundida pela SIC (no Jornal da Noite de hoje), a qual vale noticiosamente pela insatisfação criada com todo um processo há muito anunciado com fragilidades evidentes. Desde que, com a digitalização das provas moda, se detetaram falhas incontestadas, ficam este ano agigantados os constrangimentos e as dificuldades com a extensão de procedimentos comuns às provas finais de ciclo, bem como aos exames nacionais. E não se pode afirmar, ou mesmo sugerir, que tal tenha a ver com o funcionamento / a inoperância das escolas ou com o desempenho de alunos e de professores.
     Não se sustenta a fiabilidade e validade de um processo com sinais declarados de disfuncionalidade, tecnológica que seja, quando acompanhados de uma recentralização e de um sentido de avaliação eminentemente técnico, para não dizer francamente despersonalizado (diria, longe da avaliação pedagógica). 
      No meio da contestação e da polémica, ouve-se na mencionada reportagem que o processo de classificação ainda não arrancou (ora porque não se acede aos itens digitalizados, ora porque se acedeu e se deixou entretanto de aceder, ora ainda porque não se atribuiu uma senha ou credencial de acesso); que há professores aposentados convocados para tal; que há troca entre os professores corretores e as disciplinas que lhes estão destinadas; que, por fim, e segundo voz-off , "a tutela já terá alterado o cronograma inicial" (leia-se o cuidado no uso de um futuro composto, a traduzir a modalidade do não certo, de algum distanciamento face ao dito).
    Insustentável é também o jogo desta afirmação da reportagem (com a devida modalização) com a legenda complementar, esta última com a afirmação factual (facto concluído, de aspeto perfetivo) de que "a tutela alterou". Inconsistência e incoerência graves no significado associado: por um lado, a relativização de um futuro composto e, por outro, a perfetividade de um pretérito na ordem do certo e do facto. 
      Ainda mais insustentável, a tocar o absurdo e o ridículo, é o objeto da alteração noticiada:

Incredulidade para um elemento de formação de palavra, no mínimo, inusitado (Foto VO)

   Um cronograma aponta para a ideia de planificação, programação num / com um calendário. Do grego "khrónos" decorre o elemento de formação de palavras "crono" - associado a tempo. Ou seja, um elemento que a etimologia, a história da língua e a própria formação de palavras convocam como conhecimento fundamental a qualquer comunicador dos média (que deve dominar a sua língua), mas que, na escrita da legenda, resultou no que de mais risível há, numa fronteira muito ténue entre o ambíguo escárnio e o assumido maldizer. 
    Nem com mitologia grega isto lá foi, nessa alegoria do deus C(h)ronos, frequentemente representado a fazer girar a roda do zodíaco, numa leitura da passagem do tempo. Tanto conhecimento desperdiçado ou desconhecido!
      
    No final, apetece-me dizer que nem "cornograma / cornómetro" existem (muito menos para planificar / medir chifres, hastes, chavelhos ou apêndices animalescos) nem cronogramas deram lugar, nos dias de hoje, a exemplo de metátese do som [r]. E porque a reportagem em causa não deixa, acima de tudo, de tratar de questões de educação no país, tudo isto se revela muito triste e escusado (porque daqui se cai facilmente no ridículo de assuntos que têm de ser levados muito a sério). No mínimo, bastava um editor ou alguém competente a verificar o que se escreve na televisão.
 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Podia ser melhor, para ser "bom".

      Isto de representar sílabas não é fácil.

      Em termos prosódicos, são analisados fenómenos fonéticos e fonológicos envolvendo unidades maiores do que os fonemas, como o caso da sílaba, da palavra ou da frase. No primeiro caso, está em causa uma unidade estruturada e organizada que agrupa sons na fronteira da palavra, podendo incluir um ou mais, como, por exemplo, nas sílabas das palavras [a][pren][der] ou [en][si][nar] [por][tu][guês]. 
      Os sons integrados numa sílaba podem ocorrer no seu ataque  - configurados pelas consoante(s) à esquerda do núcleo vocálico -, no núcleo vocálico (vogal ou ditongo) ou na coda da sílaba - consoante à direita do núcleo.
    Ora, no início da rubrica "Bom Português" de hoje, quando se procura verificar qual a sílaba destacada na palavra "tenhamos" (caso interessante, porque, definitivamente, resulta na leitura / na produção oral devida da palavra, quanto ao acento tónico), eis que surge o que não deve:

Há sílabas com amarelo a mais (Foto VO, a partir de emissão televisiva da RTP1)

      Leia-se convenientemente a segunda hipótese como a correta, assumindo a sílaba tónica e a natureza grave da palavra (e não a forma de a tornar esdrúxula, como muitos falantes tendem a oralizar). Até aqui tudo bem.
     O que não está correto é assumir [ten] no primeiro cenário como sílaba, como se de uma nasal se tratasse. A divisão silábica da palavra é [te][nha][mos], pelo que a primeira sílaba à esquerda não está convenientemente representada, na sua configuração gráfica. O 'n', indevidamente assinalado, é parte constituinte de um dígrafo (duas letras a representar um só som) que está para o ataque da sílaba medial [nha], e não para um som de coda da inicial.

        Quando de "Bom Português" se trata, tem de ser melhor. Haja esperança! E tudo faÇAmos para que consiGAmos, oralmente, produzir discursos corretos. TeNHAmos fé!

domingo, 14 de junho de 2026

Nobre causa em língua pobre

       Assim começou a manhã noticiosa: com nobreza e pobreza.

     A nobreza traduz-se na imagem e na ação dos dadores que generosamente dão o que têm a muitos que precisam. Solidariedade fantástica dos dadores, bem como de todos aqueles que cumprem, no seu trabalho, com uma causa que se impõe para a salvação / sobrevivência / manutenção da vida e da dignidade humanas.

Quando a imagem contradiz a legenda, num canal televisivo nacional - RTP Notícias (Foto VO)

       A pobreza encontra-se mesmo na legenda, como se houvesse brigadas contra as populações (ir de encontro a). E o curioso é que ela é imediatamente contradita pela voz da locução noticiosa, assumindo (e bem) que as brigadas vão ao encontro das populações necessitadas (ir ao encontro de).
    Já aqui se apontou, por mais de uma vez, como a simples troca das preposições / contrações dá em significados completamente contrários: respetivamente, o de esbarrar, chocar, ir contra, por um lado; o de aproximar, estar ao serviço de, por outro.

         A deriva do uso da língua (ainda mais em contexto de comunicação de massas), no que à expressão diz respeito, não pode causar incoerência nos atos: tudo vai ao encontro da causa maior; nunca de encontro a ninguém. Persista a nobreza; erradique-se a pobreza.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A diferença televisiva entre haver e ouvir

      A relação não é só num sentido.

      É biunívoca mesmo. Confunde-se ouvir com haver e haver com ouvir:

Imagina se houvesse! Talvez se ouvisse mais. Que desgraça! (agradecimento à recolha atenta da ARS)

       A julgar pelas legendas, a presente e outras já detetadas neste blogue, parece não haver diferença, no uso ora de um ora de outro termo.
     No meio disto tudo, já não se trata de uma questão de surdez (por não se ouvir o que há) nem de visão (por não se distinguir graficamente 'houve' de 'ouve'). 
       Homofonias à parte, é preciso não saber do que se fala nem do que se escreve, mesmo!

    É ignorância assumida quanto ao conhecimento e ao uso da língua - assim é num meio de comunicação social e de difusão do que pior existe (do que houve e não se ouve; do que se ouve e não houve).

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a desgraça e a desgraceira

      Assim correm estes tempos. Tão mal!

     Primeiro, acorda-se com notícias de mais um conflito, outro ataque ou nova agressão a um país - o que começa a parecer banal, como se de um jogo estratégico se tratasse. Estratégia até pode ser (a favor de quem se sabe); porém, de jogo nada tem, pela desgraça que resulta para todos.
   Depois, não fosse isto suficiente, lá vem mais uma nota de rodapé / legenda televisiva para a desgraceira dos erros que invadem os olhos dos espectadores / leitores:

Citação de palavras, no mínimo, explosivas... pela construção errada na conjugação do verbo 'haver' 
(com agradecimento pela foto à GR)

    Triste é o desconhecimento de que o verbo 'haver' , enquanto principal, não admite conjugação no plural, inclusivamente com os verbos auxiliares que o acompanham (como é o caso de 'estar', no caso concreto do que se lê no rodapé). 
      Não menos desagradável é a expressão "estar a haver explosões". Sem 'haver', a opção 'acontecer', 'ocorrer' resultaria melhor e já sem problemas no plural de 'estão'.
      Como uma amiga o diz, e bem, "É a loucura!"

     A da guerra, a da língua e a de muitas outras situações que haverá (no singular, sim!) a considerar nos dias de hoje, para desgraça da humanidade.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Regressaram as dores... sem sentido.

     Ainda há pouco entrou o ano e aí estão elas.

    Já havia comentado esta leitura que certo jogador ("joga com a dor") e treinador ("treina a dor") de futebol (aqui, sim, é 'foot' e 'ball') faz com algumas palavras, segmentando o que não é segmentável.
    A campanha da NOS recuperou o senhor (um pouco mais velho) com o mesmo jogo inconsistente (de palavras que não o são) - uma teoria em que só o "mister" Abel Xavier conhece, parece um "master", vende, expande (com os ganhos publicitários), sem ensinar ninguém.

Com anúncios destes pouco se aprende, linguisticamente falando (Foto VO)

     Não é dor no que joga nem no que treina ou vende.
     Para quem entender que se trata de criatividade, é, por certo, de fraca qualidade.
     Em suma, não se atende nem se entende as dores que possam estar a ser criadas.

  Em publicidade tudo vale, independentemente dos valores pedagógicos (que não são garantidamente considerados). Esta é a verdade. Quando um aluno assumir que um jogador é palavra composta, agradeçam à NOS.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).

sábado, 24 de janeiro de 2026

Acentuar o que não se deve

       Dizem as gramáticas (sim)...
       
       Nem a palavra nem a sílaba são graficamente acentuadas. 
    Monossílabos tónicos terminados em "u" (por exemplo, "tu") não são acentuados; só os terminados em "a", "e", "o" (seguidos ou não de "s" - como  "vás", "pés", "cós"). Registe-se: nada a ver com "u"(s).
     "Recuo" (conforme o contexto frásico, ora nome ora forma verbal na primeira pessoa do singular do presente do indicativo) também não tem acento. Trata-se de uma palavra paroxítona (grave), tipicamente não acentuada, terminada com o hiato "uo" a não receber acentuação gráfica, tal como outras afins: "arguo", "atuo", "amuo", "duo", "usufruo".
        Espantosamente (ou não), leio em noticiário televisivo (da TVI) o que não devo:

Razões e lições do absurdo: sejam as de Trump sejam as de quem escreve na televisão (Foto VO)

      Se linguisticamente o erro está instalado, fica a positividade do anunciado: o disparate "trumpesco" (de querer comprar a Gronelândia ou de simplesmente tomar posse dela) parece não vir a ter lugar (Será?). Assim deve ser (ao contrário da acentuação)!
       Tanto pelo que o "trumpalhão" pretendia como pelo que se escreveu, há razões e lições que nem ao diabo lembra.

       ... o que certos utilizadores não fazem (pena)!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Noite ou manhã escuras à espera do templo

      Acordar com a prisão de Nicolás Maduro.

      Seja essa a expressão para pôr fim a quem encabeçava, até ontem, na ação ou na concessão, uma situação que não dignificava todo um povo a gritar por liberdade; a mostrar a possibilidade de um outro caminho, entretanto barrado pelo autoritarismo imposto por um regime pouco ou nada democrático; só discursivamente popular.
     A esperança e a resistência venezuelanas são a afirmação da possibilidade; são o sentido daquilo que não se quer vivido e se deseja mudar: despotismo, injustiça, desigualdade, oportunismo.
      Seja esta a oportunidade que não se quer perdida!
     Ainda assim, no meio das celebrações, quero continuar a acreditar que os fins não justificam os meios usados. Nascido o dia, sinto que continuo na escuridão. Por isso, lembro vozes e música portuguesas a sinalizar o caminho: "que o amor nos salve nesta noite escura".

Composição para as "noites escuras" vividas fora do "templo do mundo", com as vozes de
Pedro Abrunhosa e Sara Correia (programa televisivo "Em Casa d' Amália", 10-11-2023 - RTP1)

      Mais um passo para a "trumpalhada" que vivemos - uma noite muito escura, onde as estrelas tudo têm de brilho falacioso, pautado por interesses extremados e extremistas: "uma luz que cala". Quero acreditar que "ninguém nesta terra é dono do templo", que "ainda há frutos sem veneno".
       Seja este o dia feito "semente [que] será fruto pela vida fora."

     Não se aplauda ou legitime o que, sendo dito, não é senão o interesse de alguns ou de quem o diz - afinal, não muito diferente do que já existia e, talvez, se tenha derrubado ilusória ou momentaneamente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A começar o ano

     Se o início for indício do que aí vem, ...

     2026, à semelhança de anos anteriores, é celebrado com o primeiro banho de mar, na praia grande do Ferragudo
   No apontamento jornalístico, segundo repórter e entrevistados televisivos, o mar está espetacular, melhor do que no verão (apesar das baixas temperaturas do inverno) e não há frio ("Não está frio! Você tem frio? Eu não tenho frio nenhum. Está impecável, está espetacular!").

Legendas infelizes na televisão a abrir o novo ano (foto VO)

     Registo eu que fiquei gélido só de ler a legenda, por várias vezes acionada, ao longo da reportagem.

Muda a imagem, mantém-se o erro. Antes fosse o contrário (Foto VO)

    Alguns dirão que se trata de uma pequena falha no acento; todavia, as implicações sintáticas são mais gravosas, ao colocar-se um sujeito plural em discordância com o singular da forma verbal (mantém - singular; mantêm - plural).

    Boas energias e o bom arranque dos banhos deviam servir para o bom uso da língua. Melhores concordâncias (sintáticas), diria.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Confusão de pessoas... e não só.

     Não. Não eram muitas; uma apenas, erradamente identificada.

    Todos sabemos que, tipicamente, existem três pessoas gramaticais na conjugação verbal (primeira, segunda, terceira), numa relação com o número (singular / plural). Convém é não dizer que uma é outra, particularmente quando do "Bom Português" se trata.
     Fantástico é o facto de todos os interrogados terem assumido que a forma correta, no caso crítico indicado, é "discutirmos". Todos souberam a resposta. Então aquele grupo que afirma "Sem hífen, não há dúvida", "Tem que ser sem hífen, não há hipótese", "A sério?" (insiste a repórter), "Sim" é verdadeiramente do melhor!
     
Da foto, nada a dizer; do que se ouviu televisivamente, foi um susto! (Foto VO)

     Segue-se, então, a explicação: "A forma correta é 'discutirmos' tudo junto" (vá lá!), "Trata-se da terceira pessoa do plural..." (como é que é?!!! De novo?!), "... do infinito pessoal do verbo discutir" (infinito?!!! A sério?!). E lá vem o fecho clássico da rubrica televisiva: "Assim se escreve em Bom Português".
      Ora ainda bem que se escreve em bom português, porque, no que toca ao que se ouve ou se diz, vai muito mal. Péssimo! Não fosse 'nós' a primeira (qual terceira?!!!) pessoa do plural e o 'infinito' estar mais para o finito de conversa, quando não se consegue referir a forma / o modo verbal devidamente (pois de 'infinitivo' se trata).

      Mau momento garantido para o português, que pouco ou nada tem de bom por parte da locução. Às 6:27 da matina, até um ensonado acorda. E já não é a primeira vez que o mal acontece. Lamentável.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

One man show e seus companheiros

    Uma boa forma de terminar o dia: com um concerto no Super Bock Arena (ou o mais familiar Pavilhão Rosa Mota, que alguns ainda lembram como Palácio de Cristal). 

      O espetáculo (porque foi concerto e porque foi fantástico) assumiu-se como festa, um dos da celebração dos vinte anos de carreira de Miguel Araújo. Um outro acontecerá em Lisboa, mas o(s) do Porto é(são) sempre o(s) "da terra" do músico, enquanto homem do Norte, bem próximo da Finisterre (só para lembrar a "Serenata do Norte").
    São vinte anos para muitas canções daquele que é hoje considerado um dos mais reconhecidos e notáveis compositores, guitarristas e intérpretes do panorama musical português. Também um comunicador nato, tanto no registo sério como no da ironia e da comédia, numa multifacetada interação com o público que reage e se compromete com o espetáculo (como, por exemplo, quando é convidado a dançar uns passos de valsa, em fila de cadeiras que nem uma volta permite). Não poderia ser de outra forma, pela qualidade e familiaridade demonstradas: é o cantor, é a banda, são as músicas (com letras partilhadas), é o cenário luminoso e colorido conjugado com os ritmos e as mensagens transmitidas,... É o espetáculo pleno de energia e força convocadas.
        
Três momentos do espetáculo que foi o concerto do Miguel Araújo (montagem fotográfica VO)

      Um balanço de vinte anos não se faz sozinho: subiram ao palco o filho; artistas e amigos de uma vida, como João Só, António Zambujo, Os Quatro e Meia, Rui Veloso, Os Azeitonas, os Kapa (e, entre todos, uns quantos médicos bem vozeados, como se houvesse necessidade de assistência ou acompanhamento do imenso público que vibrava com o repertório musical do artista, dos amigos, dos familiares, com alguma nota de Beatles e de Rolling Stones).
       Fica um breve apontamento vídeo de um concerto fora de série, num fim de outubro que fica para memória de quem experienciou o evento:

Apontamentos de um espetáculo enérgico, com música/músicos de grande qualidade

     Assisti, há uns anos, a um espetáculo transmitido na RTP1 que, pela sua diferença, me captou a atenção e me prendeu ao televisor. Estar no espetáculo, hoje, ao vivo, sem filtros, é um outro envolvimento contagiante, uma outra sinergia, regeneradora das forças que o cansaço de um dia de trabalho parece fazer esgotar. 

     Amanhã, por certo, ficará a sensação de não ter dormido tudo; porém, haverá reforçado motivo para lembrar a excecionalidade de um concerto bem português. (Com agradecimento ao MA, família e amigos - todos tão musicais!).

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

De mal a pior

      De tanto se falar mal na saúde e da ministra...

      ... até a língua fica doente, com os maus usos que lhe dão.
      O último, captado em rodapé televisivo, é prova da chaga (dis)ortográfica que assoma a ira de qualquer leitor:

Algo vai mal e não é só na saúde. Ponha-se ordem sem ouvir ninguém. Basta ler! (Foto VO)

      Isto de confundir o verbo 'haver' com o 'ouvir', numa das formas mais homofónicas de ambos (houve / ouve) é erro que considero impensável. Resta a esperança de quem o cometeu nem sequer ter pensado antes de escrever.
     Por isso, relembro as sábias palavras de Bento Jesus Caraça (matemático, pedagogo, anti-fascista, nascido em 1901 e falecido em 1948):

"... se não receio o erro 
é porque estou sempre pronto a corrigi-lo."

       Cure-se o que ainda possa ter remédio. Creio que haverá tarefeiros na área da comunicação a necessitar também de regulação.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Nem com Shakespeare isto lá vai...

  O fundo escuro com o texto a branco fez-me lembrar a comédia Twelfth Night.


   Já que do dramaturgo quinhentista / seiscentista inglês se trata, evoque-se a máxima "There is no darkness but ignorance" (Ato IV, cena II), proferida pelo bobo Feste, reforçando a metáfora da ignorância como escuridão.
     Tudo a propósito de uma série documental que tem vindo a passar na RTP2, sobre a vida e obra de William Shakespeare, na perspetiva de muitos estudiosos, investigadores, atores, especialistas na obra produzida e encenada.
       Logo a abrir o programa televisivo, lê-se:

Genialidade só no autor / escritor. Quanto ao resto,... (Foto VO)

     No melhor pano, a nódoa. Gosto do programa, do tema, do autor, da obra, mas no que toca a ascender, fiquemo-nos pela ASCENSÃO (e não o que aparece grafado). Na escuridão da imagem, a ignorância ortográfica.
       Algum conhecimento etimológico faria luz ortográfica: "ascensus" do latim está para ascenso, tal como "ascensio, onis" está para ascensão. Na família de palavras, a aproximação (orto)gráfica é evidente.

     A verdade é que Shakespeare é um dos maiores da literatura. Ascendeu por certo. Evidentíssima ascensão.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Pedro Lamares na Laranjeira

       Chegou o momento de o rever: um ex-aluno da escola.

      O reencontro aconteceu graças à iniciativa do grupo disciplinar de Português, que preparou, junto com a Coordenadora da Biblioteca do Agrupamento e o Departamento de Línguas, uma sessão para o programa que constituiu a celebração da Semana da Língua Portuguesa (onde se inclui o dia 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa).

Reencontros num "Passei por aqui" que honra o AEML (com Pedro Lamares)

     Um ex-aluno da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira deu-se a conhecer aos que hoje frequentam o agrupamento, numa interação que se pautou pela abordagem de vários tópicos: a formação, as opções académicas e profissionais, o posicionamento político, o gosto pela poesia, a apresentação de programas televisivos, entre outros.
        Nascido em Portimão, Pedro Lamares cedo mudou para a Granja, tendo estudado em Espinho. Cruzou-se com as artes plásticas, a escola de jazz do Porto (1996/97), o curso de preparação para licenciatura em música sacra, até que chegou ao teatro (com formações em vários pontos do mundo). Conta, no seu currículo, a participação no Filme do Desassossego, de João Botelho (2010), onde assumiu o papel de Fernando Pessoa. Em 2015, é convidado para apresentar o programa televisivo Literatura Agora (RTP2), onde "diz" (e não declama) poesia.

Interação de Pedro Lamares com o público que assistiu ao (re)encontro

    Foram praticamente duas horas de uma conversa próxima, à qual assistiram alunos e professores, brindados com a simpatia de quem partilhou o gosto pela leitura (nesse encontro feliz do leitor com os textos, pela janela do sentido e não pelos formalismos de análise tecnicista), a natureza expressiva do discurso teatral e das experiências de leitura poética (mais ou menos marcadas por escolas e por diferentes modos de oralizar os textos), o elogio da aposta nos cursos das literaturas e humanidades. No princípio de tudo, uma visão e uma posição face ao mundo, focadas no exercício de uma cidadania comprometida com os valores que dignificam a pessoa. Em suma, uma lição para muitos, na qual a experiência de vida se cruza com o sentido (inter)artístico e político das causas comuns.
     Não terminou o encontro sem que fosse dada a conhecer uma poetisa a descobrir: Filipa Leal (jornalista, escritora portuense). Lido o poema "Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis", ecoaram os rituais desse 'topus' literário da partida, seus motivos (imigração) e efeitos (autocontrolo), junto das que muito a sentem.
     
Espaço de cidade, espaço de mundo para o ser humano do século XXI 
(poema de Filipa Leal dito por Pedro Lamares)

       Realidade tão atual em texto tão contemporâneo: "É tanto o que se pede a um ser humano no século XXI!" 

        Manual de despedida para mulheres sensíveis 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito, 
não chorar para não enfraquecer o emigrante, 
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo, 
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas 
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala 
que não pode levar mais de vinte quilos 
(quanto pesará o coração dele? e o meu?), 
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, 
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia 
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre, 
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda 
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui), 
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe, 
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas 
e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar, 
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes, 
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar, 
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente, 
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem, 
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico, 
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez, 
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado, 
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal. 

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um. 
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro. 
Mas que não chore. 
                                                  
                                                   in Vem à Quinta-feira (2016: 48)

        E, no fim de tudo, despediu-se com o sorriso e a empatia que o caracterizam. Sem chorar.

    Mais uma figura de relevo nacional passou pelo agrupamento (ontem e hoje) e deixou o seu testemunho a quem o acompanhou.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Ainda Camões, pelos 500 anos

      A propósito de uma das pérolas televisivas que ainda se encontra na RTP3: Visita Guiada.

      Refiro-me ao programa de Paula Moura Pinheiro (temporada 14, episódio 14), que se debruçou sobre a coleção do último rei português (D. Manuel II), dedicada à obra camoniana e depositada em Vila Viçosa. Caso para dizer, Portugal herdou uma obra do desventurado rei, que se viu exilado da pátria com a deposição da monarquia e a implantação do regime republicano.
      A morte precoce do monarca em 1932 (42 anos) não permitiu concluir o projeto de estudo e pesquisa dos textos de Camões, numa linha de recolha das edições diversas de Os Lusíadas e das Rimas, ao longo dos séculos. Se nos finais do século XIX haviam sido inúmeras e grandiosas as celebrações nacionais d' "O Poeta" (na continuidade de uma consagração que já vinha do século XVI), o vigésimo não o seria menos na contínua afirmação de um escritor que se tornou símbolo de pátria, de língua, de cultura, de lusofonia (assim o prefigura o feriado do 10 de junho).
    Num apontamento do programa televisivo, a Professora Doutora Isabel Almeida partilhou com a apresentadora o facto de não se conhecer um manuscrito, a caligrafia, uma assinatura de Camões. O estádio de formação da escrita autógrafa é um mistério no que ao príncipe dos poetas português diz respeito. Daí a questão da importância da fixação de texto, do confronto das versões múltiplas com que a literatura tem vindo a trabalhar; daí a diversidade editorial que enriquece e se multiplica na difusão e divulgação poéticas; daí a própria dificuldade de ter certezas sobre o que o poeta escreveu, numa dispersão que se compagina ora com a tradição oral ora com a da cópia manuscrita (não assinada) em coletâneas.
    Investigações diversas apontam para a atribuição indevida de alguns sonetos ao nosso poeta universal. "A fermosura desta fresca serra" é um dos exemplos, com alguns estudiosos a assumirem uma autoria distinta: a do poeta D. Manuel de Portugal, contemporâneo de Camões.

Um poeta sem boca, pelo que (não) cantou?! Melhor sorte tivera!
(moeda comemorativa dos 500 anos de Camões, por José Aurélio)
A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos oferece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.

    Sempre questionei muita coisa acerca deste soneto, nomeadamente a sua inserção em linhas de leitura que o perspetivam no seio dos poemas que representam a figura da mulher amada e da sua presença / ausência como condição para a inspiração do poeta. O anafórico final "Sem ti", frequentemente apontado como tópico de ausência da mulher amada, sempre entendi como mais coincidente com a leitura da ausência da pátria - desse "locus" personificado e reconfigurado em tantas referências de elementos naturais, ambientais (que, distantes / ausentes, têm seus efeitos adversos no eu lírico) - do que a de qualquer figura feminina que pudesse ser mais ou menos inspiradora. Agora, o soneto não ser de Camões é apontamento forte, para um texto que o próprio escritor teve como razão maior para ser poeta; para versos tradutores de uma necessidade que a ausência não permite.

      Estudos de Leodegário Azevedo Filho reconhecem, num crivo de critérios filológicos muito rigoroso, a redução substancial de textos produzidos por Luís de Camões (em número inferior a cem poemas). E se "Amor é fogo que arde sem se ver" for mais um a não figurar entre eles? Talvez não seja grande o mal, pensando que a lírica quinhentista fez conviver grandes poetas que se confundiram, espelharam, citaram, imitaram nos modelos (intertextuais) que adotaram.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Lei da falta de atração

      A ocorrência de erros televisivos está a mudar (o que não significa necessariamente felicidade).

   Em termos estatísticos, pode concluir-se que a maioria dos erros lidos nas legendas ou nos rodapés televisivos está para questões de desrespeito da ortografia, de impropriedade na seleção vocabular / lexical ou de incorreção morfológica.
  Não deixa de aparecer um ou outro caso distinto, nomeadamente no que à falha sintática diz respeito, particularmente na concordância de número. Hoje deparo com um outro:

No seio dos aproveitadores, há quem aproveite muito mal na SIC Notícias (Foto VO).

     É a declarada falta de atração.
    É comum assumir-se que a presença de um 'não' ou de um 'que' faz com que os elementos clíticos colocados junto a um verbo sejam atraídos, a ponto de os antecipar na construção da frase (ex.: 'Estuda-se' vs 'Não se estuda' / 'Faz-se algo' vs 'Diz-se que se faz algo').
   Ora, quando tal não acontece (como exemplificado na foto), viola-se definitivamente a correção no uso do português (variedade continental europeia), o que significa que seria bom os comunicadores sociais ou quem trabalha nessa área consultarem uma gramática. Não faria arrepiar tanto os leitores das legendas ou dos rodapés.

     Falha a atração, deforma-se a construção, distrai-se a intenção e compromete-se a comunicação.