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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Regressaram as dores... sem sentido.

     Ainda há pouco entrou o ano e aí estão elas.

    Já havia comentado esta leitura que certo jogador ("joga com a dor") e treinador ("treina a dor") de futebol (aqui, sim, é 'foot' e 'ball') faz com algumas palavras, segmentando o que não é segmentável.
    A campanha da NOS recuperou o senhor (um pouco mais velho) com o mesmo jogo inconsistente (de palavras que não o são) - uma teoria em que só o "mister" Abel Xavier conhece, parece um "master", vende, expande (com os ganhos publicitários), sem ensinar ninguém.

Com anúncios destes pouco se aprende, linguisticamente falando (Foto VO)

     Não é dor no que joga nem no que treina ou vende.
     Para quem entender que se trata de criatividade, é, por certo, de fraca qualidade.
     Em suma, não se atende nem se entende as dores que possam estar a ser criadas.

  Em publicidade tudo vale, independentemente dos valores pedagógicos (que não são garantidamente considerados). Esta é a verdade. Quando um aluno assumir que um jogador é palavra composta, agradeçam à NOS.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Sem santos nem milagres na língua

    Não podia ser de outra forma, quando se repete o erro.

  Que dizer daquele algoritmo que vai comandando a nossa vida, ao clicar-se num produto / assunto / tema / apontamento, e tem um "agente inteligente" que não vê a ignorância perpetuada num convite que só pode ter uma resposta?!

Até pode ser o bom Portugal, mas, no que toca ao Português, vai muito mal (colhido do Facebook)

Além do país, adore-se também a língua, para que não seja incorretamente usada (colhido do Facebook)

Nem com Santo António isto lá vai! Não há santo que valha ao bom uso da língua (colhido do Facebook)

   Claro que não me sentaria - eis a resposta!
  Sentar-me-ia se houvesse a consciência de como fazer um convite corretamente. Não adianta  a referência a terras, a santos; a apresentação de carinhas larocas e comidinhas apetecíveis, de chorar por mais. Nada disso me convence. Está em causa o mau uso do português, que, no condicional ou no futuro, é mal falado ou escrito até por ministros.

E não é que insistem?! Mudam as caras e as iguarias, mas mantém-se o erro crasso (colhido do Facebook)

  O condicional pronominalizado tem, tipicamente, o pronome entre a base verbal e a sua terminação. "Sentar-te-ias" devia ser a forma a ler; não aquela que a inteligência artificial (AI) e um algoritmo infeliz não descobriram, ainda, para usar corretamente na fala e/ou na escrita. 

Nossa Senhora de Fátima nos acuda, nos salve da persistência declarada no erro (colhido do Facebook)

  Caso para dizer que não há ruralidade nem iguaria que resistam. 
  Futuro e condicional pronominalizados são deveras casos críticos da língua
  Nem com a AI isto vai lá!

    Triste daqueles que não veem nalguns registos da inteligência artificial, sublinhe-se, a artificialidade que só o espírito humano pode melhorar / corrigir / fazer vingar como virtuosa.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Quando um ou outro são ambos

        Aquele momento em que te perguntam se é X ou Y e...

    ... a resposta correta compreende os dois termos - situação em que o 'ou' não pode ser, portanto, disjuntivo ou de exclusão dos mesmos.

        Q: É 'parquímetro' ou 'parcómetro'?

      R: Ambos. Caso para dizer que "Venha o Diabo e escolha", que é sempre expressão para admissão de duas hipóteses num cenário de difícil resolução. Reconheça-se, nas palavras questionadas, um processo de composição, no qual a vogal de ligação ('í' ou 'ó') pode ser indiciadora ora de algum motivo etimológico na formação da palavra ora de alguma deriva associada à própria mudança e à utilização dos falantes da língua.
     Tipicamente a vogal de ligação é, nestes casos, uma pista do marcador casual na composição de palavras com radicais latinos ou do grego antigo. Justifica-se, assim, o recurso a duas vogais de ligação: 'o' e 'i'. A última remete para um radical da direita com origem latina e representa uma estrutura de modificação (sem alteração da classe de palavras):

           [fratr] i [cid]a
                                                   [agr] i [cultor]

        Já a primeira escapa à descrição anterior:

                                                   [polític] o [económic]o
                                                   [lus] o [brasileir]o

      Estas tendências generalizantes são, porém, contraditas por exemplos em que 'o' antecede radical de origem latina (ex.: [gen] [cíd]io), em confronto com '[reg] i [cíd]io') ou 'i' é seguido de radical de origem grega (ex.: [veloc] í [metr]o, em contraste com [flux] ó [metr]o).
    Além disto, casos há na língua em que uma mesma palavra composta admite ambas as vogais de ligação, conforme verificável nos seguintes casos: 'organigrama' / 'organograma'; 'parquímetro' / 'parcómetro'; 'taxinomia' / 'taxionomia'. Estes últimos pares de exemplos propõem, por um lado, alguma relativização da consciência etimológica dos falantes; por outro, a consideração de outras lógicas fundadas mais na frequência e na analogia da composição, em particular, e da formação de palavras, em geral.

     Conclusão: há perguntas que apontam para respostas bem complexas, em termos de informação morfológica. Mais inclusão do que exclusão; mais conjunção do que disjunção.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Certeza escusada (e mais do mesmo)!

     Desta feita, temos uma de catálogo!
Um erro tão desnecessário! 
(com agradecimento à G.V.)   
   É de catálogo, porque está num (Catálogo 20 anos do El Corte Inglês - pág. 44), conforme o apresentou uma amiga, depois da sua leitura de jornal de fim de semana e de ter visto o meu apontamento sobre o 'A PARTIR DE'.
   É por estas e por outras que, quando me dizem 'COM CERTEZA', pergunto logo a seguir "Tudo junto ou separado?" Felizmente, têm respondido acertada-mente na maioria das vezes, mas fico com dúvidas quanto à segurança dos respon-dentes, ai isso tenho! Ficam tão perturbados com a inusitada pergunta que, não sei se por esta se por dificuldade na resposta, mostram alguma incerteza.
    Bastaria pensar que 'SEM CERTEZA' (nunca grafado junto) é o contrário de quem a tem (também com escrita separada).
     Um pontapé na escrita (sem que haja ponta de pé), que dói aos olhos e à mente.

     Depois das aféreses dos nossos dias, não andamos longe das aglutinações históricas que resultaram em 'embora' (< em boa hora), 'vinagre' (<vin acre), 'aguardente' (< água ardente) ou 'fidalgo' (< filho de algo'), só para mencionar algumas das mais conhecidas.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Diz o "Bom Português"!

       Não é uma gramática, mas...

       Tudo por causa de reuniões e da realização do verbo 'reunir-se':

RTP Ensina e excerto do programa "Bom Português"

       Caso para dizer que algum povo acerta. Seja lá qual for o grupo, conselho ou associação, estes reuniram-se. E não adianta dizer que "soa" mal. Eu é que fico a suar de cada vez que corrijo isto. 

      ... às vezes dá jeito (e a televisão acerta).

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Completivas encadeadas

       Isto de classificar subordinadas tem algo que se lhe diga.

       Particularmente, quando elas se apresentam em vários níveis de análise.

        Q: Boa noite, Vítor.
          Aqui vai uma frase para análise: "soube perceber o que estava em causa". Qual é a classificação da oração sublinhada?
          Obrigada.

     R: O sublinhado apresenta uma subordinada completiva associada ao verbo 'perceber', um predicador subordinado face ao verbo 'saber' (o predicador da frase matriz, como elemento subordinante). 
       Com essa frase afirma-se que 'alguém soube perceber ALGUMA COISA / ALGO', pelo que o elemento destacado / sublinhado, relativamente à estrutura argumental do verbo 'perceber' (transitivo direto), corresponde ao seu complemento direto.
       De salientar que se trata de um complemento direto de segundo nível (N2), oracional, incluído numa oração já por si subordinada e encadeada numa subordinada anterior (N1) introduzida pela forma verbal 'perceber'. A frase considerada evidencia uma subordinante com a seguinte estrutura: (ALGUÉM) SOUBE ALGUMA COISA. Esta 'alguma coisa' funciona como complemento direto de 'saber', estando esta função configurada numa subordinada completiva não finita infinitiva ('perceber o que estava em causa'). Por sua vez, esta subordinada é constituída por um elemento predicador ('perceber') e o seu complemento direto (oracional - 'o que estava em causa' - pronominalizável pelo pronome 'isso' [= o que estava em causa]).
        Esquematicamente, representa-se a construção (com subordinadas encadeadas) da seguinte forma:

Esquema representativo dos dois níveis de subordinação (B1 e N2) na frase analisada.

        Assim, o sublinhado indicado é um complemento inserido num segundo nível de predicação, com o núcleo predicador a selecionar complemento direto.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A propósito do 'é que'

     Retomemos a noção de construção clivada no português e o operador 'é que'.

     Já lá vai algum tempo. Pronunciei-me sobre a questão já há alguns anos. Uma nova questão permite-me recuperar esse escrito.
 
    Q: Olá, Vítor! A professora da filha de uma colega classificou como pronome relativo o "que" presente nesta frase: "Por isso é que tens de ir à escola". Sinceramente, eu não concordo; no entanto, também não sei como o classificar quanto à classe de palavras. Vejo que está associado à forma verbal "é", pelo que, para mim, é uma expressão de realce. Será que me podes dar uma ajuda, por favor? 

    R: Olá. Com a expressão 'é que', estamos perante um processo de gramati-calização, ou seja, um  processo de mu-dança linguística pelo qual uma pala-vra muda de estatu-to, passando a ser equacionada em ter-mos mais funcionais ou gramaticais. Mais do que a classifi-cação dos termos quanto à classe de palavras, estes valem pela funcionalidade de realce / destaque atribuída a um segmento discursivo-textual. 
   Assim, enquanto unidade, a expressão em causa proporciona uma funcionalidade discursiva própria, tomando-se o 'que' como um operador de uma estrutura ou construção clivada ou de clivagem (cf. M.ª Helena Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, 2003, págs. 685-694). Concordo contigo quanto a este 'que' não ser um verdadeiro pronome relativo. A sua classificação situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto, do que no da tradicional gramática da frase. Neste sentido, é no âmbito de um alto grau de gramaticalização e do estudo do que João Andrade Peres e Telmo Móia designam de construções enfáticas ou construções de foco (Áreas Críticas da Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, p. 91, nota 12) que nos devemos situar.
      Ainda que, nalguns estudos, se aborde o 'é que' como expressão em construção aparentada com as relativas livres (e daí a eventual classificação mencionada na tua questão), creio estarmos perante uma situação bem distinta no exemplo dado. Distinguiria bem os exemplos seguintes:

(i) O queijo (é que) foi comido pelos convivas.
(ii) Os convivas (é que) comeram o queijo.
(iii) O que é que a jovem comprou? (< O que comprou a jovem?)
(iv) Porque (é que) fizeram isso?
(v) Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Se i a iii podem ser encaradas como construções aparentadas com as orações relativas (com o 'que' eventualmente a destacar o constituinte retomado de uma frase - o sujeito da passiva em i e o da ativa em ii; o complemento direto em iii, depreendido como o objeto interrogado), o mesmo já não sucede em iv e v, mais associadas a sentidos pragmáticos decorrentes de atos de fala.
     Atendendo ao exemplo v, 'é que' funciona como introdutor de um ato de fala que sai realçado ou enfatizado no seu conteúdo na sequência de uma razão ou motivo a dar lugar a uma necessidade (consequente). É o que se pode depreender na relação dialógica dos enunciados A e B:

(vi) (A) - Ainda não sei ler / escrever.
       (B) - Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Num só enunciado, vi A e B poderia ter a seguinte configuração, se resultante de um só enunciador para com o seu enunciatário:

(vi a) Ainda não sabes ler / escrever. Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Face à constatação / asserção de um dado (primeira sequência de vi a), surge o conselho consequente (segunda sequência), destacado face ao ato de fala anterior (tomado como premissa para um raciocínio consequente). Responsável pelo realce / destaque atribuído ao ato consequente , 'é que' (enquanto unidade) proporciona uma funcionalidade discursiva própria, específica ao 'que', tomado como um operador do que os estudos linguísticos designam estruturas ou construções clivadas
      Em suma, a classificação deste 'que' situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto e da pragmática do que no da tradicional gramática da frase. Encaixa-se na definição proposta, no Dicionário Terminológico, para a entrada 'Marcador discursivo', onde se encontram os operadores discursivos com a função de reforço argumentativo.

      Apetece dizer que há níveis distintos de análise na língua. Convocar classificações típicas para realizações linguísticas que requerem níveis de análise mais complexos não me parece ser a prioridade de trabalho para determinado tipo de alunos e de situações de aprendizagem, onde as regularidades devem ser mais exploradas (particularmente quando o objetivo de estudo parece ser o da classificação e não o da análise de especificidades nas condições de produção discursiva). Espero ter ajudado.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Não é "d'oiro", mas é "doirado"

     Tudo em busca da base da palavra (embora eu preferisse o "oiro").

     Siga-se o raciocínio de onde uma palavra vem, e lá chegaremos ao resultado final.

      Q: Olá, Vítor. Qual é o processo de formação da palavra "doirado"?

O doirado da paisagem, com o doirador responsável ao centro.

    R: Olá. A palavra "doirado" é o particípio passado do verbo "doirar", sendo esta última a palavra base. Embora se trate mais de um caso de flexão do que propriamente de formação, a passagem "doira(r) > 'doirado" ilustra a consideração de afixos gramaticais no final da palavra (sufixos), de modo a construir, a partir da forma do infinitivo, a que surgirá como forma verbal de particípio passado e/ou adjetivo.
     Pelo raciocínio exposto no primeiro parágrafo, fica identi-ficada a base (verbal), a partir da qual se processa a sufixação. Trata-se de sufixos de natureza estritamente gramatical (para as categorias da forma parti-cipial verbal e do contraste de género).
      Não se veja, portanto, o oiro como a origem de tudo na nossa língua, mas o que permite "doirar" e, por sua vez, esta palavra ver o doirado, nomeadamente o que a talha da natureza por momentos ganha (sem ouro; com sol).

     Ou seja, "nem tudo o que doira vem de oiro", pelo menos em termos da natureza. "Doirar" entrou historicamente na língua portuguesa pela forma latina "deauro, -are", estando já aqui assumida a palavra base (doirar), a qual virá a dar lugar a 'doirado'.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Passiva, sim... sem agente! (nova versão)

      Lá está... a mensagem vai passando (com mais uma passiva sem agente).

   Tudo porque nem tudo o que parece é, por mais semelhança que haja.

      Q: Vítor, na frase 'O processo foi reclassificado por via administrativa', o 'por via administrativa' pode ser considerado um complemento do adjetivo?

       R: Garantidamente, não.
       Um complemento do adjetivo é uma expansão de um adjetivo. Ora, na frase dada, 'reclassificado' não é adjetivo, mas, sim, a forma verbal principal (no particípio passado) antecedida pelo verbo auxiliar da passiva.
        A construção passiva em causa é configuradora de uma ativa ('Reclassificou-se o processo por via administrativa') que, na transformação operada, mantém o modificador do grupo verbal original ('por via administrativa').
     Assim, para o sujeito 'O processo' é apresentado o predicado ('foi reclassificado por via administrativa'), com o complexo verbal do verbo auxiliar ('foi'), o verbo principal ('reclassificado'), mais o modificador do grupo verbal ('por via administrativa') a integrar esse mesmo predicado.
        Se é verdade que muitos adjetivos, na língua portuguesa, são formados a partir da forma de particípio passado dos verbos, em termos sintagmáticos não se deve confundir os primeiros com os segundos, particularmente em construções passivas (cujo complexo verbal tem de assumir, pelo menos, dois verbos - o auxiliar e o auxiliado / principal).

       Uns diriam complemente agente da passiva! Nunca. Outros diriam complemento do adjetivo! Muito menos. Fiquemo-nos pelo modificador do grupo verbal (a traduzir o modo, isto é, como foi feita a reclassificação), retirável da frase e sem o qual esta última se manteria correta.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Passiva sim... sem complemento agente

       São perguntas que têm vindo a acontecer desde há algum tempo... e agora mais ainda!

       Comecemos por uma delas:

       Q: Vítor, na frase "O povo foi reconhecido pela sua lealdade", pode classificar-   -se o sublinhado como complemento agente da passiva?

        R: Não, seguramente. 
    Não se pode confundir ou associar o grupo preposicional 'por X ( > pela sua lealdade) a complemento agente da passiva, apesar de a frase estar configurada numa construção passiva (o complexo verbal 'foi reconhecido' confirma-o). A função sintática proposta não tem cabimento, a partir do momento em que a expressão 'a sua lealdade', desde logo, não pode ser tomada como agente, enquanto papel temático semântico. Trata-se, no fundo, da causa implicada na construção ativa subjacente: "Alguém reconheceu o povo pela sua lealdade" (> por causa da sua lealdade).
   O agente da ativa ('Alguém') encontra-se elidido na frase passiva ('por alguém'), dada a sua indeterminação. Nestes contextos frásicos, o complemento agente da passiva não aparece configurado na transformação passiva. Esse 'por alguém' seria, sim, o agente do processo de reconhecimento; a lealdade é a propriedade reconhecida no objeto da ativa ('o povo'), tornado sujeito na construção passiva.
      Não é, portanto, possível entender a causa da ativa (prefigurada num modificador) como agente da passiva. São funções sintáticas com papéis semânticos bem distintos.
      Situação análoga encontra-se abaixo esquematizada:

Frases com sintagmas e constituintes afins, mas funções sintáticas distintas

      Se, no primeiro caso, o professor elogia o aluno, no segundo, as notas não elogiam o João (são, antes, a causa do elogio). Não se confunde, assim, um complemento agente da passiva (primeiro caso) com um modificador (segundo), apesar de sintagmaticamente aparecerem frases com os mesmos constituintes.
      Por isto, é crítico aquele discurso que assume 'por alguém / algo / alguma coisa' como a função sintática questionada. A frase sugerida é um bom exemplo dessa generalização errada. Outras mais há. Bom será que se chame a atenção para o cuidado a ter nos exemplos a trabalhar com os alunos.

      Já tive a oportunidade de abordar este problema em apontamento anterior. A mesma atenção é aqui requerida, para que não se veja sempre o grupo preposicional final da ativa ('por+X') como complemento de um agente (semanticamente ausente; sem o traço da intencionalidade e do cumprimento de uma situação verbal relacionada com uma ação ou um processo).

sexta-feira, 7 de maio de 2021

A propósito de 'decisões' (no plural ou no singular)

     Nem as decisões são necessariamente pacíficas nem sempre são seguidas da mesma função sintática (interna).

        Perguntam-me qual é a função e digo que tudo depende da expansão.

       Q: Olá, Vítor. O nome 'decisão' é acompanhado de 'complemento de nome' ou de 'modificador do nome'?

        R: Depende do que vier na expansão à direita.
        O nome 'decisão(ões)' associa-se ao verbo 'decidir', tipicamente de natureza transitiva (Alguém DECIDE alguma coisa). Se o verbo seleciona um complemento (direto), o mesmo sucede com o nome respetivo. Acontece que a estrutura argumental do verbo 'decidir' implica um agente (quem decide) e um tema (o que é decidido). Logo, caso o nome 'decisão(ões)' seja expandido à direita por esse agente e/ou tema, ter-se-á um complemento de nome, como se verifica em i, ii, iii:

(i) A decisão ministerial foi polémica. (< O Ministério decide algo.)

(ii) Os alunos respeitaram a decisão do professor. (< O professor decidiu algo.)

(iii) A decisão de libertação foi a adotada pelo juiz. (< O juiz decidiu libertar o prisioneiro.)

    Todavia, há expansões que não correspondem a tais papéis semânticos. Nestes casos, estaremos perante modificadores do nome. É o que se verifica em iv e v:

(iv) A decisão correta nem sempre é fácil de ser tomada.

(v) Não vou aceitar uma decisão injusta.

      Estes últimos sublinhados não correspondem aos papéis semânticos anteriores (são antes avaliações / apreciações relativas à 'decisão'), pelo que configuram modificadores do nome (no caso, restritivos).

     Concluindo, a bem da função, veja-se o que vem a seguir à decisão.      

quarta-feira, 5 de maio de 2021

E, agora, o complemento do advérbio

         Já que perguntam, eu respondo. Espero que bem!

         Tudo a propósito da expansão (à direita) do advérbio.

        Q: Posso concluir que tudo o que vem à direita de um advérbio é o complemento do advérbio? Estas novidades...! Onde posso estudar isto?

         R: São novidades decorrentes de estudo e de aprofundamento, que merecem algumas distinções para não caber tudo no mesmo saco.
       À semelhança dos nomes e dos adjetivos, nem tudo o que surge à direita (por expansão) do advérbio é um complemento (de lembrar que grupos nominais ou grupos adjetivais também podem ser expandidos por modificadores do nome / do adjetivo). Só alguns tipos de nomes ou adjetivos (enquanto núcleos) requerem um complemento, conforme já se adiantou em apontamentos anteriores.
          Ora, no caso dos advérbios, consideram-se, entre os que selecionam complementos, os seguintes:

(i) os formados com '-mente' e que, a partir da base derivante, decorrem de adjetivos que também selecionam complemento, pela estrutura argumental (quer do adjetivo quer do advérbio)
ex. 1: o adjetivo 'independente' seleciona um complemento (independente de algo / alguém)
o advérbio 'independentemente' assume o mesmo comportamento sintático
Independentemente da tua opinião, já sei o que vou fazer.

ex. 2: o adjetivo 'relativo' implica ' ser relativo a algo / alguém' 
o advérbio 'relativamente' seleciona, de igual modo, um complemento
Relativamente ao assunto abordado, não concordo com o que foi dito. 

ex. 3: o adjetivo 'paralelo' implica uma relação com algo com que referencialmente concorre
o advérbio 'paralelamente' requer um complemento
Paralelamente à situação vivida, Bernardo Soares contrapõe a realidade sonhada. 

(ii) advérbios como fora, dentro, perto, longe, acima, abaixo que implicam uma coordenada ou referência local / espacial ou afim
ex. 1: os advérbios mencionados implicam 'perto / longe de X', 'fora / dentro de X' 
Ele permaneceu dentro da sala quando todos saíram.
Conheço muita gente que gosta de viver perto do mar.

(iii) advérbios como depois, antes expandidos por uma coordenada ou referência temporal que com eles concorrem
ex. 1: os advérbios mencionados implicam 'antes / depois de X' 
Depois da aula, foram todos conviver.
Antes do inverno, o outono também tinha sido rigoroso.

(iv) construções com advérbios de modalidade apreciativa / avaliativa que selecionam um complemento (de tipo oracional) 
Felizmente que a situação não ficou mais complicada!
Certamente que não vais fugir ao assunto!

(v) construções com advérbios como mais, menos, configurando enunciados de lógica comparativa
Ele estudou muito, mais do que os restantes alunos da turma!
Ela anda a comer muito pouco, menos do que o que deve.

(vi) construções com alguns advérbios que integram locuções conjuncionais subordinativas adverbiais (seguidas de um complemento de tipo oracional)
Sempre que chove, os guarda-chuvas saem à rua.
Ele é muito veloz, tão célere que fico cansado só de ver.

      Com os sublinhados a assumirem-se como complementos do advérbio, apresentam-se os exemplos típicos de uma função sintática interna ao grupo adverbial (que tem o advérbio como núcleo). Destacam-se, ainda, as preposições que abrem a expansão do núcleo adverbial.
     Atendendo às Aprendizagens Essenciais consideradas para o ensino secundário, ao nível do 12º ano estão contempladas (na gramática) atividades de análise sintática com explicitação de funções sintáticas internas à frase, ao grupo verbal, ao grupo nominal, ao grupo adjetival e ao grupo adverbial. É neste último grupo que deve ser abordado o complemento do advérbio, quando de tal se trata (e não do modificador do advérbio).
    Na base do acima exposto e na distinção de expansões do núcleo adverbial que não sejam complementos, pode a exercitação deste conteúdo ocorrer com tipologias de exercícios diversificadas:

a) reconhecimento da função sintática interna em exercícios de seleção (escolha múltipla)
ex. 1
Assinale a frase cujo sublinhado assume a função interna do complemento do advérbio.
a) Hoje de manhã o céu não estava nada amistoso.
b) Naturalmente, quero a chuva longe de mim.
c) O trabalho ficou concluído ontem pela noitinha.
d) Todos se portaram impecavelmente naquele dia

b) identificação da função sintática interna em exercícios de seleção (associação) distintiva (face a outros complementos e aos modificadores correspondentes)
ex. 2

c) construção compositiva da função sintática por transformação da frase ou um seu segmento
ex. 3
Reconstrua as frases propostas, substituindo os sublinhados por um advérbio seguido do seu complemento.
a) Com o calor sentido, todos ficaram no exterior da casa.
b) Graças a Deus que a turma toda se portou espetacularmente no museu.
c) Ao contrário do desfecho esperado, o final da história até foi feliz.
d) Vou tirar umas férias em conjunto com a minha família.

       Depois das propostas formuladas, interessa dizer que, para estudar esta função sintática interna, as fontes mais acessíveis são as Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian (vol. II, pp. 1583-1590), e Gramática da Língua Portuguesa, da Caminho (pp. 419-432).

    Novidades a trabalhar, por certo, mas com a sustentação que os mais recentes contributos da linguística trazem para uma categoria bastante heterogénea e complexa, pela versatilidade de posição na frase, pela variabilidade de modificação de constituintes (não só dos verbos) e pela derivação/composição do termo nuclear.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Ciclos deformativos

      Aproximam-se tempos de publicidade para o melhor (?!) dos mundos.

     Tudo é possível, nada é melhor, o céu é o limite e o que esteja para além dele também. Já se ouviram estes discursos ao longo de décadas e, agora, estão para (re)começar nessa campanha estratégica do que vão ser ciclos de formação de vários grupos editoriais. O pretenso interesse da formação conjuga-se com o inegável caminho a fazer para motivos económico-financeiros que se impõem. E tudo parece valer, desde que a adoção de projetos editoriais se venha a concretizar.
      Fica a cargo de quem participa nessas sessões formativas a verdadeira avaliação. Não é pela editora ou pelos nomes de capa surgidos (alguns a validar / certificar o impensável) que as escolhas se devem pautar. Antes pelo conteúdo. E no que ao ensino do Português diz respeito, ele chega a ser basilar.
      Começo por avaliar os ciclos formativos... ou deformativos:

Confusão de pronomes com determinantes não é bom exemplo de formação
(slide exposto numa sessão de um ciclo formativo editorial para docentes)


      Se é disto que se apresenta a professores do ensino básico e/ou secundário ou que se vai propor em novos projetos, muita atenção é necessária na hora de escolher o que possa vir a ser um material auxiliar de ensino-aprendizagem. Convém que auxilie; que não complique ou dê em erro ou área crítica, promovendo a confusão de classes de palavras básicas, para o público que se destina.
      Que sejam alunos a confundir determinantes com pronomes (possessivos ou de outra subcategoria que seja), ainda vá que não vá! Autores de projetos ou de formações para docentes a causar tal desacerto ou desconcerto é caso bem mais sério, por mais sustentados que estejam em contributos linguísticos ainda sujeitos a problematização e consensualização (no âmbito da investigação e não da linguística aplicada ao ensino).
      Tratando-se de uma formação para docentes do ensino básico e secundário, interessará ver o nome 'abraço' antecedido dos determinantes 'o seu'; conclua-se como o pronome estaria 'em vez do núcleo nome' (/ grupo nominal). Esta é a transposição típica e consensual no discurso pedagógico-didático dos ensinos básico e secundário. Outras trarão uma confusão que, por ora, não interessa muito operacionalizar, na perspetiva de uma gramática pedagógica. Deixemos certas questões para o domínio académico ou para linhas de investigação sujeitas a discussão.

      Não vá o Diabo tecê-las, vou já alertando para que, futuramente, não tenha que mandar riscar alguns manuais. (E, já agora, que não se fique com a ideia de que todos os adjetivos relacionais configuram complementos de nome, como se lê no fim, pois isso levar-nos-ia mais longe neste comentário).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Triangulações gramaticais

      Depois de dois a falar de gramática, interessa lembrar que, segundo expressão idiomática, não há dois sem três.

     O desafio é lançado por uma aluna que, neste contexto de ensino à distância, aproveita a oportunidade para dialogar comigo por mail:

      Q: Olá, professor. Boa noite. Estive a ajudar um amigo com uns exercícios de gramática sobre funções sintáticas e estamos ambos com dúvidas numa alínea. Nesta está escrito "Dói-me a cabeça" e é preciso indicar a função sintática de "me" e "a cabeça". Eu acho que "me" é sujeito e que "a cabeça" é complemento direto, mas o meu amigo diz o contrário. Pode fazer-me o obséquio de me dizer quem está certo? Boa noite, novamente, e obrigada por ler. :)

       R: Olá. Creio que não vou dar razão a nenhum (ai, ai, ai...).
      Nessa frase, 'a cabeça' é o sujeito sintático. Repara que eu poderia substituir esse grupo nominal pelo pronome 'ela' - 'Ela dói-me' > 'A cabeça dói-me'. É o melhor teste de identificação / comprovação.
     Quanto ao 'me' trata-se de um pronome com a função, neste caso, de complemento indireto. A cabeça dói a alguém. "A quem?" - esta seria a pergunta para obter a resposta do elemento que funciona como complemento indireto. Mais: sei que é o complemento indireto porque, no caso da primeira pessoa, é usado o 'me'; no caso da segunda pessoa, seria o 'te' (> Dói-te a cabeça) e, no caso da terceira, seria o 'lhe' (> Dói-lhe a cabeça). Ora, o 'me' aparece na mesma distribuição de um 'lhe' que, na terceira pessoa, é a marca pronominal do complemento indireto. Portanto, 'me' exerce esta função equiparada ao 'lhe'; 'a cabeça' é o sujeito (invertido) da frase.
       Lamento, mas nenhum dos dois está correto!
       Toca a fazer as pazes e façam o favor de ser felizes, com a gramática certa.
       Espero ter ajudado no raciocínio.
       Boa noite.

       Não ficando por aqui, prosseguiu o diálogo assíncrono nestes termos:

        Q: Obrigado pelo esclarecimento, professor.
       Mas ainda tenho uma dúvida: "A cabeça" poderia ser complemento oblíquo? Penso que dizer apenas "Dói-me" não está correto, pois falta algo.

     R: Não, não poderia. Tens razão quando pensas que falta algo. A verdade é que falta o sujeito sintático da frase, enquanto elemento normalmente presente numa oração. Alguma coisa dói; neste caso, a cabeça. Ela (o sujeito da frase, ainda que invertido, pois não se encontra no local típico de início de frase). É este teste de pronominalização que assegura estarmos perante o sujeito sintático.
       O que te deve estar a confundir, a ponto de ainda pensares em complementos, é a posição do sujeito na frase: não é a mais comum (normalmente abre uma frase), mas não te esqueças que há sujeitos invertidos na sintaxe do português. Na verdade, o verbo 'doer' é tipicamente intransitivo. Daí não selecionar obrigatoriamente nenhum complemento. No caso da frase que estás a trabalhar, esse verbo, porém, apresenta uma realização transitiva indireta, ou seja, uma realização na qual se assume um complemento indireto: o 'me' (que aparece no mesmo local de um 'lhe', na terceira pessoa).
       Espero ter satisfeito e esclarecido a tua dúvida.

      E fico-me por aqui, para não ter de explicar que o 'me', noutras frases e com outros verbos, assume também a função de complemento direto. Antes de dar nó, é melhor gerir a informação a transmitir. Não vá isto tornar-se no triângulo das Bermudas e ficar tudo em desgraçada confusão.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Que arrepio!

       É o que dá ler o feed de notícias de algumas páginas do mundo virtual.

     Acontece que nem sempre o virtual anda de mãos dadas com a virtude. É o que se verifica no seguinte caso:

Citação de arrepiar (colhido do feed de notícias na página da Microsoft Edge)

       Dá mesmo para arrepiar! Não saber colocar o pronome (clítico) na posição devida dá para ficar com cara, no mínimo, como a da imagem.
        Tipicamente, ele é colocado à esquerda do verbo (cl-V) nas seguintes situações:

i) frases com predicação negativa 
   (ex.: Faz-se > Não se faz / Disse-se > Nunca se disse);

ii) frases em que o sujeito antecede o verbo e é configurado por um sintagma nominal existencial ou com quantificação universal 
    (ex.: Alguém a avisou / Tudo o incomoda / Nenhum colega me ajudou);

iii) frases em que o sujeito antecede o verbo e se configura com palavras como apenas, até, mesmo, , também.
    (ex.: Os colegas ajudaram-no > os colegas o ajudaram / Os amigos criticaram-no > Mesmo os amigos o criticaram);

iv) frases onde compareça uma conjunção a abrir uma subordinada
     (ex.: Os alunos fizeram o trabalho > Os alunos fizeram-no > Quando os alunos o fizeram / O jovem viveu a situação > O jovem viveu-a > Ele disse que a viveu / Fazes o favor? > Faze-lo? > Ela perguntou se o fazes.);

v) frases com uma sequência relativa deslocada (antecipada face ao pronome)
     (ex.: Dirigi-me a quem me apoiou > A quem me dirigi? /  O João disse-te que não havia aulas > Quem te disse que não havia aulas? / Apresentaste-me uma pessoa > A pessoa que me apresentaste; A pessoa a quem me apresentaste);

vi) Frases com uma sequência inicial tomada como foco
     (ex. Sabe-se pouca coisa dele > Dele se sabe pouca coisa / Convenceram-no a desistir por essa razão > Por essa razão o convenceram a desistir).

      Já  me basta corrigir os alunos que cometem o erro (que o cometem, sublinho). Porque o faço é razão que me assiste profissionalmente. Ler publicidade ou feeds noticiosos, como o apresentado, até me arrepia.

     A bem da colocação dos pronomes, tanto na escrita como na oralidade (embora esta última se apresente como mais "libertina" e não menos libertadora - concessões de imediatismos indesejados).

domingo, 17 de janeiro de 2021

Dúvidas na planificação da gramática

       Tanta coisa há a resolver que, às vezes, escapa a todos o essencial.

     Perguntavam-me há dias algo sobre a planificação de conteúdos gramaticais nas "Aprendizagens Essenciais" do Português, no nível secundário:

      Q: Olá, Vítor! O complemento do advérbio faz parte das Aprendizagens Essenciais (AE)? E o valor temporal? Agradecia que me esclarecesses, por favor, pois achava que não.

    R: Olá. A leitura das Aprendizagens Essenciais, quanto ao domínio da gramática, no ensino do Português do nível secundário, propõe algumas especificidades para cada um dos anos de escolaridade (10º, 11º e 12º anos). Fazendo uma abordagem comparativa dos conteúdos propostos, é possível verificar o conjunto de dados seguinte:

Leitura comparativa do domínio gramatical nas Aprendizagens Essenciais de Português (Secundário)

      Este é o "programa" gramatical referenciado para os três anos de escolaridade do secundário (10º à esquerda; 11º ao meio; 12º à direita).
      Ora, quando no ano terminal deste nível de ensino se lê "Realizar análise sintática com explicitação de funções sintáticas internas à frase, ao grupo verbal, ao grupo nominal, ao grupo adjetival e ao grupo adverbial", uma função sintática interna ao grupo adverbial é precisamente a do complemento do advérbio. Pode mesmo indicar-se que há uma progressão, complexificação neste ponto do domínio, pois, no 11º ano, interessa "Sistematizar o conhecimento dos diferentes constituintes da frase (grupo verbal, grupo nominal, grupo adjetival, grupo preposicional, grupo adverbial) e das funções sintáticas internas à frase" (ao nível superior da frase, portanto), enquanto no 12º o foco se situa ao nível interno dos grupos, para além do da frase. De referir, ainda, que já no 10º ano se prevê o trabalho do complemento do nome e do adjetivo (isto é, funções sintáticas internas ao grupo nominal e adjetival, respetivamente).
        Quanto ao valor temporal (depois da abordagem dos valores modais, no 10º ano, e dos aspetuais no 12º), não se poderá dizer que desapareceu do "programa" (se confrontarmos com o que acontecia nas Metas de Aprendizagem). Trata-se de um conteúdo gramatical que acabará por, implicadamente, ter de ser abordado a propósito dos processos de coesão textual contemplados no 11º e 12º anos (nomeadamente, quando se tem de utilizar / abordar / explicitar a correlação de tempos na construção de enunciados e a localização das situações nestes referidas).
        Uma leitura comparativa mais completa das Aprendizagens Essenciais, iniciadas há dois anos no 10º ano de escolaridade e alargadas ao 12º no presente ano letivo, pode ser encontrada aqui, de acordo com os domínios de aprendizagem considerados no ensino secundário.

       Hoje em dia, a preocupação é capacitar os professores de competências digitais (até se responde a um inquérito que visa diagnosticar os níveis de competência docente nesse domínio). Anuncia-se formação futura para tal, como prioritária; esquece-se que pouco disso vale, quando a formação didática e específica é tida como algo mais do que adquirido, do tipo "o ar que respiramos".

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A propósito de choques... (no plural)

      "Chocada" por chocado, resta dizer que já somos dois em choque!

     Lido um 'briefing' noticioso do dia, chama-me a atenção o título de alguém que se diz chocado. Acabei por ficar da mesma forma, mal assimilei o conteúdo do texto:

Um 'briefing' a correr o risco de nunca mais acabar...

      Nem sei por onde começar. Vamos por ordem. 
    Primeiro, uma construção relativa que não dá lugar à devida anteposição do pronome 'se' ( > "... dentro do qual... se mantém..."); depois o conectivo aditivo "não só... mas também..." que, na sua composição correlativa, não deve dar lugar a separação por vírgula; por fim, a extensão frásica de todo o apontamento a encadear orações sucessivas, umas atrás das outras, num comboio que parece não ter fim. Bem digo aos alunos que, ao escreverem, duas / três linhas, há que parar, para dar fôlego à escrita e o leitor não sufoque. Duas, três orações e chega! Colocar ponto e recomeçar a construção de novo período com pensamento completo (princípio-meio-fim). Não só a extensão excessiva começa a comprometer a inteligibilidade informativa como também o erro se torna previsível: aquele 'onde' a retomar 'autoridades gregas' é, no mínimo, duvidoso. E, logo a seguir, está para surgir nova subordinada introduzida por um 'que', mais uma coordenada com um 'e', e sabe-se lá o que mais virá (viria).

       Pelos vistos, o choque não é só da Srª. Secretária de Estado. É também meu, por um 'briefing' que não é tão breve quanto isso. Portanto, um mau exemplo de escrita.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Função sintática do 'que'

         E na base do estudo vem a dúvida: o 'que' tem função sintática!!! Como chegar a ela?

       São necessárias algumas dicas, para garantir alguma eficácia de resposta. "Gostava de acertar", dizem alguns. Outros dizem que não acertam mesmo, já na desistência. Há mesmo quem diga "Não percebo!"

      Q: Não percebo muito bem como é que um 'que' pode ter função de sujeito. A de complemento direto ainda entendo, mas a de sujeito...!!!

       R: Primeiro de tudo, interessa saber o seguinte: o 'que' tem função sintática enquanto pronome relativo, não como conjunção. Esta última pode fazer parte de uma oração subordinada que, toda ela, assume uma determinada função (não o "que" conjuncional):

         i) Penso que esta matéria é fácil
           ('que': conjunção subordinativa completiva > 'que esta matéria é fácil': função de complemento direto)

    Quando se está perante o pronome relativo (a retomar um antecedente), ele sozinho desempenha uma função na oração subordinada.
    Para chegar a tal função, interessa fazer o seguinte percurso: (i) assinalar a subordinada, (ii) verificar o elemento retomado pelo 'que', (iii) reconstruir a oração subordinada com princípio-meio-fim, mais o elemento retomado, (iv) identificar a função do elemento retomado pelo 'que' nessa reconstrução (é essa a função sintática do 'que').
       Veja-se o raciocínio para um primeiro caso:

     (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O miúdo aproximou-se do cão que ladrou.'
      (ii) 'que' retoma 'o cão'
      (iii) A oração subordinada, com o elemento retomado, ficaria 'O cão ladrou'
      (iv) Como 'O cão' é o sujeito da oração subordinada, então o 'que' desempenha a função de sujeito (dessa oração subordinada; ou seja, um sujeito sintático de segundo nível de análise).

      Repare-se, agora, noutro exemplo:

      (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O exame que os alunos vão resolver pode ser fácil.'
       (ii) 'que' retoma 'O exame'
      (iii) A subordinada com o elemento retomado, ficaria 'Os alunos vão resolver o exame'
      (iv) Como 'o exame' é o complemento direto da oração subordinada' o 'que' tem essa mesma função (na subordinada, sublinho).

     Deve, portanto, considerar-se que, neste tipo de questão, está em jogo um segundo nível de análise das funções - não ao nível da oração subordinante, mas, sim, da subordinada. Por sua vez, e porque o 'que' é um pronome (relativo), este desempenha uma função nessa subordinada (que deve ser objeto de reconstrução com o elemento retomado da subordinante).

      Ler a instrução do que vai ser resolvido é demasiado importante, para todas as situações e neste caso em particular. Não se trata de classificar a oração subordinada (toda), mas apenas de uma palavra nela incluída: o "que". Caso para dizer que um 'que' (pronome relativo) pode fazer a diferença.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Vir ou ver?

       Com 'intervir', não há confusão!... Ou melhor, parece que sim!

      Se não é uma questão de ver (viu), mas sim de vir (veio), por que razão os meios de comunicação social não conseguem ver mais longe?
     Tudo por causa de uma breve da SIC-Notícias, que mais parece o uso de pessoas pouco instruídas:

Maltratados o centro de apoio mais a língua portuguesa (SIC Notícias)

    É erro morfológico comum, a julgar por apontamentos anteriores nesta "carruagem". Num canal de comunicação social, mais crítico é, por ser órgão que deve primar pelo bom uso da língua.

    Quando se ler ou ouvir falar da qualidade excecional do canal, é bom que se relativize a pretensão. InterVEIO, senhores, interVEIO! (Isto para não focar o espaço, que é mais evacuado do que despejado).

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Belezas maiores

      No regresso a casa, uma construção com um cartaz publicitário chama a atenção.

      Tanto chama a construção (cujo projeto é anunciado numa foto interessante) como o cartaz. Uma, por boas razões; o outro nem tanto.
      Assim, se lê no último:

Cartaz publicitário junto à construção de um edifício - Granja (Foto VO)

      Se a qualidade da construção for na proporção da correção linguística, diria que há defeito. A "Beleza" (que até se justifica maiusculizada quando diz respeito à qualidade suprema, na sua dimensão abstrata) fica comprometida com a adjetivação que se lhe sucede. Obviamente, 'óbvio(a)' escreve-se com acento gráfico, na convenção gráfica daquelas "falsas esdrúxulas" que marcam a nossa língua - as palavras terminadas em encontros vocálicos caracterizados por ditongos crescentes (como ´lítio', ´ébrio', 'água').

       É preciso alma, mestria e paixão na escrita, para que esta possa ter efeitos sublimes (ou, no mínimo, convincentes) em quem lê. Caso contrário, a beleza sai minúscula.