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sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Dia Nacional da Cultura Científica

         Poucos minutos, mas para minha memória futura.

       Uma turma de 10º ano, uma lição de Físico-Química A e o motivo do Diretor na sala de aula: um cartaz assinado que havia motivado dois dedos de conversa sobre Rómulo de Carvalho e o Dia Nacional da Cultura Científica, mais uns poemas que importava partilhar. O convite "Queres vir à aula, amanhã?" foi imediatamente aceite.

Saberes que cruzam letras, planetas, forças e número em abraço

        Há 117 anos, nascia aquele que viria a ser professor de físico-química do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes, Liceu D. João III (Coimbra) e no Liceu Camões; pedagogo, investigador da história da ciência em Portugal... e poeta, sob o pseudónimo de António Gedeão. Há 25 anos celebra-se o "Dia", inspirado neste professor e divulgador de ciência. Também escritor literário. Razões mais do que suficientes para o homenagear. "Pedra Filosofal", "Lição da Água", "Lágrima de Preta" são das mais reconhecidas produções poéticas.
         Li "Impressão digital".
      A propósito dos "olhos", lembrei Camões e "Se Helena apartar / do campo seus olhos / nascerão abrolhos" - os efeitos do olhar de Helena na natureza são transformadores (sejam olhos verdes da "cor do limão" sejam de outra cor, mas "olhos do meu coração"). Os olhos de Gedeão são outros. Mais próximos dos contemporâneos, por certo, com abordagem e orientação temática bem distintas, sublinhando e definindo o que nos singulariza, o que nos faz ser diferentes, tal como uma "impressão digital".
      O tema da relativização do que se vê, da perceção das coisas, do copo meio cheio / meio vazio, da visão otimista em confronto com a pessimista são lições para a vida, para o crescimento do entendimento do universo. É / são saber(es) que o texto / poema dá, vindo(s) de alguém que se fez Homem da Ciência e das Letras, mostrando que a fronteira entre conhecimentos não faz sentido.
António Gedeão, no Parque dos Poetas (Oeiras)
     Ficou o convite para se deslocarem a Oeiras, ao Parque dos Poetas, e verificarem como uma estátua em honra do poeta António Gedeão não desdiz o físico Rómulo de Carvalho, mais os seus tubos de ensaio. Com física ou química, há lugar para a poesia, nas palavras que se atraem, noutras que se afastam - forças que a física designa de atração e de repulsa. Também há flores e escolhos (que rimam com os camonianos abrolhos); pedras pisadas, gnomos e fadas; moinhos e gigantes.

        Um dia que se marcou pela diferença, nas ciências que se complementam, por cruzarem saberes e darem outro sabor - um halo diferente na vida. Obrigado, AMT.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Geologia literária ou literatura geológica

      Quando a natureza se revela inspiradora para as narrativas.

     Pela zona de Lavadores, com o olhar na direção do mar, há uma composição rochosa chamada de "Pedra Moura": um bloco granítico sobre outro afim, com fratura visível provocada pela erosão.

"Pedra Moura" e os pedregulhos de Lavadores (Foto VO)

      Para quem ache ser explicação ou descrição demasiado científica, pode sempre recorrer à lenda - mais uma entre as muitas que povoam o imaginário nacional, com a típica temática da moura castigada (ou não fosse a terra lusa dominantemente cristã).

      Ora, conta a lenda (maneira sempre eficaz de se apagar o narrador e os efeitos que este pudesse introduzir na narrativa) que uma bela e formosa moura (são-no sempre, apesar de punidas, demoníacas e tentadoras) recebeu um grande castigo (lá está - depois dizem que hoje é que somos preconceituosos): trazer pedras das profundezas marítimas até às proximidades do areal (coitada)! Porém, o mar (soberbo) retomava tudo o que lhe pertencia e, com as marés, fazia voltar essas pedras ao fundo marinho (mais fazendo da moura a versão feminina de Sísifo). O esforço persistente da mourisca (afinal, tem alguma virtude) fez que, um dia, de lá trouxesse um penedo, penosa e colossalmente colocado em cima de um outro (uma moura muito hercúlea, portanto). Vencido o mar, lá estão os pedregulhos, desafiando o oceano. É a Pedra Moura de leva...dores ou que lava... dores pelo castigo cumprido (ao que chega o sentido toponímico da história).

     Quem quiser saber dos motivos do castigo, talvez tenha que investigar sobre os tempos do rei Ramiro e do filho, D. Ordonho, mais o rei mouro Alboazer Alboçadam que detinha as terras de Gaia. Há de lá encontrar uma moura formosa (mais vítima do que merecedora de castigo).


domingo, 24 de novembro de 2019

Pontapés e futebol

         Só se fala do homem pelo grande feito futebolístico.

        Depois de conquistar a taça final dos Libertadores - principal campeonato de futebol da América do Sul, frente à equipa argentina do River Plate -, bem como o campeonato brasileirão, o Flamengo treinado por Jorge Jesus é equipa celebrada; Jesus, treinador endeusado.
      Na carreira ascendente ainda em terras lusas, a qualidade do treino não correspondeu à dos discursos. De tão comentado que foi pelo que dizia (mais propriamente pelos erros de fala cometidos), Jorge Jesus chegou a afirmar "Não sou Eça de Queirós" (como se alguma vez o tivesse de ser, para evitar tanto pontapé na correção da língua). Pelo que proferiu hoje, talvez devesse acrescentar que (também) não é Pedro Nunes ou, na forma alatinada, Petrus Nonius.
        É verdade que chegou ao Brasil, viu e venceu, qual Júlio César, mas não terá sido, seguramente, com cálculos matemáticos (muito menos os associados às medições do nónio):

Jorge Jesus, matematicamente falando

       Afirma-se como o catedrático do futebol. Na língua e na matemática está a precisar de aulas de apoio. Dezassete em dezasseis?! Dezassete mais dez (perdendo ou ganhando, tanto dá) resulta em dezasseis?!... E, portanto,... cerca de treze segundos de Matemática pura e... não percebi!

       Com exemplos destes, sublinham-se as múltiplas inteligências - nem todos temos as mesmas nem estão elas desenvolvidas da mesma forma. Jorge Jesus é grande no treino e na gestão desportiva, mas na língua e no cálculo..., portanto,... estou sem palavras!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Bem precioso!

     Seja a água...

     Saber continua a ser uma forma de poder. Ignorância não ajuda a fazer escolhas.

Desconhecimento - fazer do perto longe

     Quando se sabe escolhe-se melhor. Quando não se sabe, as escolhas são tão erráticas que nem se faz a opção pelo que está mais à mão / mais perto.
     Sem água não há ser vivo que sobreviva por muito tempo, com ou sem conhecimento; sem conhecimento também há quem possa não chegar ao destino atempadamente, pondo em risco a existência.

     ... seja o conhecimento.

quarta-feira, 14 de março de 2018

"A vida seria trágica se não fosse engraçada"

     Pensamento tão certo para quem, melhor do que ninguém, sabia do que falava.

     Talvez tivesse razões para pensar ou dizer o contrário, mas optou por desfrutar do pouco que a vida lhe deu e do muito que conquistou. Aos dois ou três anos que resistiria juntou mais de cinquenta. Foi uma equação de conquista, na qual o poder da mente se impôs seja pela vontade de sobreviver seja pelos segredos que desvendou para a Humanidade, nos domínios da física, em particular, e da ciência, em geral.
    No mesmo dia em que Stephen Hawking morre, Albert Einstein celebraria 139 anos; na data em que nasceu (8 de janeiro de 1942) tinham passado 300 anos da morte de Galileu Galilei - coincidências ou intervalos de tempo que não deixam de juntar grandes nomes da ciência, para não falar de factos como os da celebração do dia do (3,141592653589793238462643383...).
     Reconhecido pelo trabalho desenvolvido e pela luta na sobrevivência, Stephen William Hawking procurou uma explicação para o Universo; também para a vida, quando lhe foi diagnosticada esclerose lateral amiotrófica (doença incurável e degenerativa motora que o aprisionou a um corpo que progressivamente deixou de controlar). 
     No filme "A Teoria de Tudo" (2014), com a excelente interpretação de Eddie Redmayne no papel do cientista britânico (o que lhe valeu o óscar de melhor ator em 2015), é possível contactar com esse surpreendente percurso, simultaneamente de degenerescência e de superação:

Trailer de 'A Teoria de Tudo', filme de James Marsh (2014)

      Em cerca de duas horas, o espectador, através do papel de uma personagem de ficção, encara o modo como uma personalidade real dos nossos tempos explorou o seu trabalho científico, focando o estudo daquilo que, cada vez mais, lhe restava menos: o tempo. Limitado no corpo, mas com a cabeça no universo, o nada e o tudo se conjugaram até hoje.


    Aos 76 anos, com a mesma idade de Einstein, Hawking deixa-nos com o seu contributo acerca da natureza da gravidade e da origem do universo; da teoria da singularidade do espaço-tempo, aplicando a lógica dos buracos negros a todo o universo; do seu best-seller Uma breve história do tempo (1988); do seu exemplo de vida, inspirador para todos aqueles que reclamam do que a vida lhes não dá ou lhes tira.

     Alguém que quis ser matemático e se tornou um génio da física. RIP.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ontem foi dia "interestelar"

      Mais um filme para abordar a questão apocalíptica da terra...

      Este é o assunto de apresentação para "Interstellar", filme de Christopher Nolan, que encontrou no cenário da ficção científica e no contexto apocalíptico do planeta terra (dominada por pragas, nuvens de poeira, doenças, fugas de habitantes) mais um pretexto para ir em busca da esperança; construir a base de uma crença humana capaz de se afirmar além do material visível; compor um hino à vida e à(s) possibilidade(s) ilimitada(s) do(s) saber(es) e do(s) afeto(s).
     Numa história de amor, de família - onde os laços mais estáveis dos sentimentos permitem ir além do tempo e do espaço alcançados pela nossa consciência -, os limites, por mais que estes existam, nunca são um fim em si. Constroem-se pontes entre o perigo e a salvação; um planeta devastado e uma estação (Cooper), construída à imagem e semelhança do paraíso que ele podia ter sido; a distância e a proximidade; a crença e a realidade.


    Na força da crença e da potencialidade que pode evitar a extinção da Humanidade, bem como na busca de um mundo onde a vida possa ter continuidade, um engenheiro viúvo (Cooper, interpretado por Matthew McConaughey) vive o difícil dilema de participar numa viagem perigosa (de retorno mais do que duvidoso) ou de permanecer junto dos dois filhos.
   A inevitabilidade do fim é um desafio, com fortes motivações para que este último possa ser superado.
     Vai no mesmo sentido o poema do escritor galês Dylan Thomas: "Odeia, odeia a luz que começa a morrer". Citado pelo professor John Brand (interpretado por Michael Caine), um físico da NASA, fica o convite para se viver com intensidade, na crença que permite esgotar as possibilidades e encontrar respostas para o projeto de uma vida (no caso, a resolução do mistério último da gravidade, viabilizador dessa esperança de salvar a Humanidade de uma iminente ameaça).
    Os testemunhos que abrem o filme permitem, pela técnica de flashback, constatar os problemas que existiram; o final sugere a possibilidade de vida numa outra dimensão, mesmo que esta possa estar ao alcance do conhecimento de uma estante - a que separa um pai de uma filha, mas que pode resultar no elo de ligação que um relógio (também) pode criar: o do tempo feito de afetos.
   À medida que ia vendo o filme, ia-me lembrando de A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos, e dos diálogos entre a personagem Tomás de Noronha e o pai deste; ou das interações criadas com uma mulher iraniana. Em ambos havia explicações para as grandes teorias científicas do tempos contemporâneos - como a Teoria da Relatividade Restrita de Einstein, que assume uma ligação entre o espaço e o tempo encarados como relativos; a Teoria da Relatividade Geral, que resolve as questões da gravidade e estabelece o espaço como sendo curvado, encarando que a massa dos objetos distorce o espaço e o tempo; a Teoria do Tudo, unificadora de abordagens e entendimentos acerca das forças da natureza, inspirada também na Teoria Quântica, apostada na reconstrução dessas forças e dos movimentos associados a partículas invisíveis aos olhos comuns; a Teoria do Caos, enquanto modelo matemático evidenciador de como pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar, numa espécie de progressiva onda, alterações substanciais nas condições finais - num efeito equiparado ao bater de asas da borboleta que provoca a imprevisibilidade num ponto mais distante.
       Muitos saberes, muita inteligência à espera de que a vida lhes dê oportunidade de vingar, para a construção de uma maior consciência de tudo. E na continuidade das gerações está a possibilidade de se progredir.

     Ver a vida não como um fim em si mesmo, mas como o meio para permitir aproximações, acessos a outras formas de desenvolvimento de inteligência e consciência é um sentido de leitura para uma existência que possa manter continuidade com a seguinte, numa espécie de cadeia ininterrupta que ganha maior sentido pela energia emotiva e afetiva que a una. Neste sentido, a vida é "interestelar".

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Da ficção(?) tornada realidade(?)

    O dia é universalmente celebrado pela independência dos Estados Unidos da América, ocorrida em 1776; este ano pode ter-se escrito uma nova página da História da Humanidade.

     A possível descoberta do Bosão de Higgs (genericamente, uma partícula subatómica que confere massa às restantes partículas), também conhecida como a "partícula de Deus", revela-se um passo crucial para a compreensão do universo.
    Segundo o CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire), trata-se de uma partícula nova com características de massa e comportamento semelhante ao Bosão de Higgs: partícula resultante da colisão de outras que, sem massa, se deslocam à velocidade da luz num campo supostamente vazio, conferindo à primeira uma massa visível.

    
      Mais um passo gigante para o Homem.
    E o que era ficção (ou nem tanto) assume-se como realidade. Basta para tanto ler o excerto transcrito da obra Anjos e Demónios, de Dan Brown, romance que inspirou filme homónimo.
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    "- O que significa LHC? - perguntou, esforçando-se por não parecer nervoso.
     - Large Hedron Collider - respondeu Kohler. - É um acelerador de partículas.
     Acelerador de partículas? Langdon conhecia vagamente o termo. Ouvira-o pela primeira vez durante um jantar com alguns colegas na Dunster House, em Cambridge. Um dos membros do grupo, um físico chamado Bob Brownell, aparecera no tal jantar lívido de raiva.
    - Cancelaram-no, os filhos da mãe! - desabafara.
    - Cancelaram o quê? - perguntaram eles em coro
    - O SSC!
    - O quê?
    - O Superconducting Super Collider.
    Alguém encolhera os ombros. (...)
    Quando, finalmente, acalmara um pouco, Brownell explicara que um acelerador de partículas era um grande tubo circular ao longo do qual eram aceleradas partículas subatómicas. Ímanes distribuídos por toda a circunferência do tubo eram ligados e desligados em rápida sucessão de modo a "empurrarem" as partículas até que elas atingiam velocidades tremendas. Na aceleração máxima, as partículas circulavam pelo tubo a mais de duzentos e noventa mil quilómetros por segundo.
   - Mas isso é quase a velocidade da luz! - exclamara um dos professores.
   - Pois é - dissera Brownell. Explicara então que acelerando duas partículas em direcções opostas e fazendo-as colidir, os cientistas conseguiam decompô-las nas suas partes constituintes e ter um vislumbre dos componentes fundamentais da natureza.
   - Os aceleradores de partículas - concluíra Brownell - são essenciais para o futuro da ciência. A colisão de partículas é a chave para a compreensão dos elementos com que foi construído o Universo. (...)

   -  O CERN tem então um acelerador de partículas?, pensava Langdon enquanto o elevador continuava a descer. Um tubo circular para esmagar partículas. (...)
     - O tal acelerador de partículas, fica algures neste túnel? - perguntou Langdon, em voz baixa. (...)
     - Aí o tem.
     Langdon olhou para o tubo, confuso.
     - Aquilo é o acelerador? - O artefacto não se parecia nada com o que imaginara. Com cerca de noventa centímetros de diâmetro, corria em linha recta, horizontalmente, a todo o comprimento visível do túnel, antes de desaparecer na escuridão."

in Dan Brown ([2000] 2005: 72-74) - Anjos e Demónios
cap. XV, 2ª ed., Lisboa, Bertrand Editora
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   Uma possibilidade à espera de confirmação. Cinquenta anos passaram desde a formulação da hipótese e a criação de condições para a constatação da possibilidade. É interessante o cenário, a descoberta, particularmente nos tempos em que se quer tudo tão imediato.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Fórmula de Deus

    Concluída a leitura de A Fórmula de Deus - quarto romance de José Rodrigues dos Santos, originalmente publicado em 2006 -, registo a minha segunda aventura com a série Tomás Noronha.

     De Einstein à prova científica da existência de Deus; entre o Egipto, o Irão, Tibete e Lisboa; na conspiração internacional com a crise nuclear no Irão; na descodificação de cifras ou na relação que o protagonista mantém com a bela Ariana Pakravan (iraniana portadora duma cópia de um velho manuscrito com um título e um poema enigmáticos), de tudo isto se compõe a aventura narrativa assente numa história de amor, numa intriga de perseguições e traição, numa procura espiritual que se cruza com uma revelação mística e as mais recentes descobertas e questões científicas nos domínios da Física, da Matemática e da Cosmologia. 
      Entre a suspeita de que Albert Einstein estava a planear a construção de uma bomba atómica e a constatação de que os registos apenas davam a ler uma fórmula para provar a existência de Deus, muita informação passa, nomeadamente conhecimentos de vária ordem (científicos, teológicos, religiosos, filosóficos, linguísticos, artísticos). Entre eles contam-se:

. a Teoria de Tudo, que  recorre aos contributos da Teoria Quântica para lidar com o domínio das partículas e a noção de que estas últimas, enquanto subatómicas, podem ir de um estado de energia A para um outro (B) sem passarem pela transição desses dois estados (salto quântico), numa espécie de onda - Einstein constrói, assim, uma teoria unificadora (Teoria dos Campos Unificados ou Teoria de Tudo) que apresenta as forças fundamentais da natureza como manifestações de uma força única e que equaciona a força que faz um electrão andar em torno do núcleo como sendo a mesma que faz o sol girar em torno da terra.

. a Teoria do Caos, enquanto modelo matemático que dá conta de como pequenas alterações num estado inicial provocam alterações profundas no produto final (pequenas causas, grandes efeitos) - a metáfora do bater de asas da borboleta é um exemplo disso, pelo efeito de dominó e de onda. Neste sentido, o caos, sendo síncrono, só parece caótico (tem um comportamento determinista, obedece a padrões que o regem por regras muito bem definidas, é causal, mas é indeterminável; previsível a curto prazo e imprevisível a longo prazo).

. os Teoremas da Incompletude, demonstrativos de que um sistema lógico jamais poderá provar todas as afirmações nele contidas (o real é tão totalizador que é inexprimível, ainda que seja verdadeiro; haverá sempre mistério na sua apreensão).

        Além destes dados, registo ainda alguns dos pensamentos que mais me chamaram a atenção na leitura do romance:

"Eu sou os meus pensamentos, a minha experiência, 
os meus sentimentos. Isso sou eu. Eu sou uma consciência (...) 
e a minha consciência, esta noção que eu tenho 
da minha existência, é uma espécie de programa. Percebes? 
De uma certa forma, e literalmente, os miolos são o hardware
a consciência o software." 
(nas palavras do matemático Manuel Noronha, pai do protagonista - pág. 85).
.

"O segredo da vida não está nos átomos 
que constituem a molécula, está na sua estrutura, 
na sua organização complexa. Essa estrutura existe 
porque obedece a leis de organização espontânea da matéria. 
E, da mesma maneira que a vida é o produto 
da complexificação da vida inerte, 
a consciência é o produto da complexificação da vida. 
A complexidade da organização é que é a questão-chave, 
não é a matéria."
(nas palavras do matemático Manuel Noronha, pai do protagonista - pág. 88).

.

"Não é possível provar 
a existência de Deus, 
da mesma maneira que não é possível provar a sua não-existência. 
Nós apenas temos a capacidade 
de sentir o misterioso, 
de experimentar a sensação 
de deslumbramento pelo maravilhoso esquema que se exprime no universo" 
(numa representação das palavras de Einstein para o ministro israelita Ben Gurion - pág. 21) .

.

"A vida descreve-se em dois planos. 
Um é o plano reducionista, 
onde se encontram os átomos, as moléculas, as células, 
toda a mecânica da vida. 
O outro plano é semântico. 
A vida é uma estrutura de informação 
que se movimenta com um propósito, 
em que o conjunto é mais do que a soma das partes, 
em que o conjunto nem sequer tem consciência 
da existência e funcionalidade de cada parte que o constitui.
 [...] se analisar a tinta e o tipo de folha de um exemplar 
do Guerra e Paz constitui uma forma muito incompleta e redutora de estudar esse livro, por que diabo analisar os átomos e as forças existentes no cosmos há-de ser uma forma satisfatória de estudar o universo? Não haverá também uma semântica no universo? Não existirá igualmente uma mensagem para além dos átomos?" 
(nas palavras do matemático Manuel Noronha - págs. 319-321).

      Um livro será sempre uma busca e um encontro. Neste sentido, pode dizer-se que fiz algum caminho, Caso para dizer, que subscrevo o pensamento einsteiniano tão adequado à ciência como à leitura (como se aquela também não se fizesse desta):


       Pensamentos e interrogações que fazem sentido para um leitor das humanidades. Razão para encarar Deus como a semântica de tudo. Assim se busca o sentido das coisas (talvez numa dimensão mais poética, como a que transcende a própria realidade). Assim se enuncia essa fórmula mestra, também designada como "fórmula de Deus".