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domingo, 16 de novembro de 2025

Um bom exemplo

     Assim gosto! Com acento e tudo.

     É tão mais comum a ausência de acento, a fazer com que a palavra seja mal pronunciada, que acaba por ser fantástico o reencontro com a boa grafia:

As qualidades do dióspiro acompanhadas da qualidade da escrita 
(na publicidade da Quinta do Pôpa - colhida do Facebook).

     Assim sendo, vou comer um dióspiro como sobremesa. É tempo deles e a satisfação de o(s) ver bem escrito(s) abriu-me o apetite. Acresce o facto de ter múltiplas vantagens para a saúde.

     Aqueles que ficam a olhar para mim incrédulos sempre que digo 'dióspiro' (com a sílaba acentuada reforçada) podem, agora, acreditar que não é mania minha?

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Tempo deles...

       ... dos dióspiros, pois então.

O fruto da discórdia linguística (foto VO), com agradecimento à VS.
    E, antes que digam que é erro, convém alertar para o facto de a palavra estar bem escrita. DIÓSPIROS, sim senhor, com acento gráfico no primeiro 'o', é verdade.
   Verdade, verdadinha é que ninguém o diz tal como deve ser - que é como quem diz, tal como se escreve: a palavra é esdrúxula (assim o dita o dicionário), mas toda a gente a pronuncia como se fosse grave (com a sílaba tónica no 'pi'). Não é de admirar, portanto, que, por influência da fala (incorreta), também quase todos escrevam (erradamente) o termo, sem o acento gráfico que se impõe.
     Ainda hoje falei do caso aos meus alunos, até para que ganhem a noção de como a língua se encontra em mudança no estádio sincrónico em que nos encontramos, a ponto de atualmente já ninguém ter consciência de que deve escrever-se 'dióspiro' e não 'diospiro'; de que deve dizer-se a palavra como proparoxítona (acento fónico esdrúxulo) e não paroxítona (grave).
       
       Ofertaram-me seis dióspiros. Um (dióspiro) já foi! Quando acabarem (os dióspiros), posso comprar mais (dióspiros), mas vou preparar-me para falar de forma errada (não vá a vendedora pensar 'Olha, olha... Professor de Português e a falar tão mal). Ironias da evolução da língua (viva).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Festa!!!!!

      Hoje foi dia de aniversário e da centésima lição. Dois coelhos (metafóricos) para uma cajadada (nova metáfora) só!

       Vai um professor pelo corredor fora, a preparar-se psicologicamente para nova aula, e, ao abrir a porta da sala de aula, é impedido de entrar.
      Tudo foi preparado para celebrar dois momentos felizes, mais um: o de não haver a típica aula. Três em um!
    Entre balões, fitas de carnaval, bolo e sumo, registou-se, mesmo assim, o sumário: "Celebração da centésima lição. Convívio e animação". Sopradas as velas - umas para o aniversariante, outras para a centena de aulas -, foi tempo de cortar o bolo e de o comer. Era delicioso; a companhia, também.
     Alguma música, q.b. Ainda se falou de "trance", mas os vizinhos (mais uma metáfora) não podiam ser incomodados com decibéis fora de comum (não fossem entrar em hipnose). Logo, ficou-se por versões bem mais "light".
      Para memória do evento, registou-se no quadro o seguinte apontamento, entre várias outras anotações:


      Não escreveria melhor.
      A vida é séria, o trabalho também e uma festinha às vezes sabe muito bem.
  O bolo merecia fotografia; porém, como faltava a vírgula do vocativo (para chamamento do aniversariante), o professor de Português atribuiu má nota à escrita; classificação excelente no sabor!

   Agradecimentos a todos os que tornaram possível o momento de confraternização e que contribuíram, no final, para a limpeza devida.

sábado, 22 de dezembro de 2012

No tempo delas...

       A época de Natal parece propícia a complexidades ou dúvidas da língua.

      Já foi aqui discutida a questão do Pai Natal (no que toca à variação em número). Hoje o motivo é mais comestível.
      Entre as iguarias da mesa natalícia, contam-se, dizem uns, as filhós, dizem outros, as filhoses.
     E uns e outros têm razão, considerando que há dicionários que admitem, respetivamente, a entrada filhó e filhós (ambas no singular): Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa, Verbo, 2006); Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2001 / Lisboa, Círculo de Leitores, 2002); Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa / Editorial Verbo, 2001); Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves (Coimbra, Coimbra Editora, 1966). 
      O facto de haver dicionários que só admitem a entrada 'filhó', de que é exemplo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo (Lisboa, Bertrand Editora, 1996), leva a admitir que esta terá sido a forma original, como, aliás, na década de trinta do século passado, Vasco Botelho do Amaral o implicita no seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa (Porto, Editora Educação Nacional, 1938), ao registar o seguinte:

«Ouve-se com frequência: "Não é por aí que vai o gato às filhoses." 
O plural de filhó é filhós. Mas esta forma é tomada vulgarmente por singular. 
E o povo diz filhoses por analogia com nozes, vozes, etc. 
Em português também já houve os plurais ouríveses, arrozes, etc. 
Escrever filhoz é erróneo.»

Foto apresentada no blogue magiadoce 
(in http://magiadoce.blogspot.pt/2010/12/filhoses-da-beira-baixa.html)

     Assim, contemporaneamente toma-se o singular 'filhós' como variante de 'filhó', cada um dos termos apresentando a sua flexão no plural: o último com a simples adição do sufixo gramatical 's'; o primeiro com a adição deste mesmo sufixo antecedido de um 'e' epentético, tipicamente presente na formação do plural das palavras terminadas em 'r', 's' e 'z'. 
     Sobre este processo de uma forma plural poder também designar o singular, Evanildo Bechara refere-o como "plural cumulativo", na Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 2002, pp. 128-129).

       Concessões que o tempo atribui a uma língua viva, a que os utilizadores não são obviamente estranhos interessados.