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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Corrigindo os erros

    Na 'Grande Entrevista' (RTP1), com Vítor Gonçalves e o Sr. Ministro da Educação, falou-se de erros e também os houve.

   Na muita informação que, quarta-feira passada, pôde aí ser colhida, vou ficar-me por um erro, conforme uma colega mo fez chegar:

Vítor Gonçalves não está a gostar. Será do erro da legenda? (Foto partilhada, com agradecimento à CF)

     Em todos os processos de avaliação há erros, dizia-se um pouco antes. O mesmo acontece com a escrita, particularmente para quem desconheça a natureza convencional e etimológica de muita dela ('corrigir' vem do latim 'corrigere' - com 'g', antes de 'i/e'). Portanto, quando ao minuto 5:45 da entrevista, surge a legenda com erro, a sintonia do tema de discussão e da forma verbal participial erradamente grafada é notória.
      Na prossecução do diálogo, e com mérito para a revisão da RTP1, chega a correção que se impõe: "Os erros são corrigidos de uma forma mais rápida". Efetivamente, em pouco mais de meio minuto (entre as 5:45 e as 6:24), "corrigido" aparece como deve:

   Citação das palavras do Sr. Ministro da Educação, Fernando Alexandre, com a correção devida na RTP1 
(Foto VO)

     Assim se comprova, também, a necessidade de revisão no processo de escrita. A RTP1 teve-a em conta, em pouco tempo, avançando com a grafia correta da palavra.

      Seja a revisão da escrita tão rápida e eficiente como a da avaliação (nos exames nacionais) discutida. A bem de todos.
       

sábado, 18 de julho de 2026

Crise(s)

     Depois da crise e da novela sem fim da digitalização dos exames nacionais,...

     ... outra crise mais duradoura grassa por aí: a da língua nas legendas televisivas. Desta feita, é no CNN Portugal, e no âmbito da sintaxe e do princípio da concordância:

Quando há outro sistema em falha e também tudo tem a ver com correção... da língua (Foto VO)

     Um sujeito singular (Professor) para um núcleo verbal conjugado no plural (apontam)! É erro muito grave para quem aprende português e para quem resolve os famigerados exames; na televisão, parece ser entendido como simples gralha e desatenção, em canais diversos.

     Reescrevo a legenda: Professor aponta falha a domínio da língua. Se quiserem 'apontam', façam com que 'professor' esteja configurado no plural (com 'e+s'), por favor. É uma questão de conhecimento, com o cérebro e o digital (porque, etimologicamente, é com os dedinhos que se escreve).

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Voltando a Aveiro, com Eça e/ou os Queirós

      O dia foi vivido em grupo (grande grupo), com saber, sabor e arte.

     Rumo à Veneza portuguesa, foi-se ao encontro de Eça e das pistas que a família Queirós deixou pela cidade, aquela que se diz ser "lugar das aves" (etimologicamente, 'aviarium').
      O ponto de encontro na Escola Secundária com 3º Ciclo Dr. Manuel Laranjeira refez-se, passada meia hora, na padaria / pastelaria Eça de Queirós, com alguns participantes que aí se juntaram ao convívio. A propósito, lá figura um painel azulejado, com um pequeno trecho de O Primo Basílio (1878): 

"Servia-se muito, com gula; 
depois picava um bocadinho da ponta do garfo, deixava, 
punha-se a comer côdeas de pão 
que barrava de manteiga". 

Na rua Capitão Lebre, na Pastelaria Eça de Queirós, há um painel com citação de O Primo Basílio (Foto VO)

      Na gula, coube um docinho a acompanhar o cafezinho.
   Roteiro na mão, organizado e inspirada e queirosianamente mente produzido pela professora Adélia Reis, o grupo preparou-se para a caminhada. À hora de pagar, veio a pergunta ao empregado do balcão: "Porque é que esta pastelaria tem o nome Eça de Queirós?" A resposta não tardou, apenas com algo de certeira e uma certa marca de familiaridade no trato: "Acho que o Eça morou para estes lados e a rua tem qualquer coisa a ver com ele". Não diretamente, porque na rua Capitão Lebre se localizava - nome caricato para António Tavares Lebre, figura influente local e nacional, um oficial do exército que, na primeira metade do século XX, marcou a vida social de Verdemilho (de que as romarias religiosas eram exemplo e, diz-se, alguma investigação para provar as andanças de Eça por estas paragens, nomeadamente a presença da então criança em Aveiro). 
   É nesta localidade que se situa a "Quinta da Torre", onde Eça passou alguns anos da sua meninice. Há quem o refira como o solar do avô Queirós (o conselheiro e desembargador José Joaquim de Queirós); melhor, contudo, é falar do que resta dessa propriedade: uma fachada velha e degradada do que foi um palacete brasonado, resistindo à desamparada queda final e ainda disputando, com a Torre da Lagariça, o 'locus' inspirador para A Ilustre Casa de Ramires (1900); e talvez o espaço de infância de Carlos n'Os Maias (1888) ou mesmo a memória e o retrato criativos do jacobino e liberal avô Afonso da Maia. 

Por terras de Verdemilho, na busca de vestígios da presença queirosiana (Fotos e montagem VO)

       Junto a um posto de gasolina da Prio, no limite da Avenida Europa, uma rotunda tem no seu centro um monumento ao escritor realista-naturalista, com a cabeça empalada num pilar, um brasão estilizado da família e um excerto do pensamento transcrito das Notas Contemporâneas (publicação póstuma, 1909)): "A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da Terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas". Ironia desta peça de arte: colocar a cabeça do neto como esteve quase para ser a do avô.
       Chegados a Aradas, no cemitério onde se encontra o jazigo do conselheiro José Joaquim de Queirós, percebe-se a singularidade de um monumento fúnebre, por comparação aos circundantes: a ausência de símbolos católicos, cristãos. O espírito e a atuação de quem escapou a uma pena de morte atroz (exilando-se em Inglaterra e regressando com os liberais chegados ao Mindelo) fazem com que a luta contra os miguelistas estivesse mais para os valores e ideais revolucionários, progressistas e maçónicos do que para uma tradição e um conservadorismo religiosos fortes. Fosse por reservas aos primeiros ou por convicção nos segundos, a hipótese de trasladar Eça para a terra do avô parecia requerer um outro lugar de paz, talvez um mausoléu para a nova família constituída pelo casamento, em 1886, com Emília de Castro Pamplona Resende, com quem teve quatro filhos (Alberto, António, Maria e José Maria). A  gosto ou a contragosto de alguns familiares, e da finitude da vida, tal não viria a acontecer e os restos mortais do escritor conheceram as sepulturas de Neuilly, do Alto de São João, de Santa Cruz do Douro (Baião-Tormes) e, por fim, de Santa Engrácia (Panteão Nacional).
      Nas imediações da universidade de Aveiro, a Quinta do Alboi ou dos Santos Mártires foi espaço visto e evocado a partir dos encontros e das práticas maçónicas em que o avô de Eça se viu envolvido, enquanto comandante do Batalhão de Caçadores 10. Perante a tentativa falhada de revolta em maio de 1828, o que conduziu José Joaquim de Queirós para o exílio (evitando-se a condenação à morte pelos miguelistas, com enforcamento, decapitação e exposição pública da cabeça em estacas frente às casas dos capturados), fica a Capela dos Santos Mártires como símbolo de uns mártires religiosos (S. Veríssimo, Máxima e Júlia, romeiros sacrificados nos tempos das perseguições de Diocleciano) que, por extensão, passam também a representar os condenados e revoltosos liberais ou os mártires da Liberdade.
       Após o almoço, junto à ria e no Centro Cultural e de Congressos, chegou a vez da Costa Nova e do palheiro de José Estevão, pai de Luís de Magalhães - grande amigo de Eça. Aí se ia a banhos e aí também foi tratado o casamento do escritor com D. Emília, uma vez que a família Resende também frequentava a Costa. Em carta à já esposa, quando esta e as crianças se encontravam de férias no local e Eça em Paris, refere-se o local: "(...) a Costa Nova - e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães" (escrito de 1883, publicado em Eça entre os seus - Cartas íntimas). O conhecimento do espaço vinha também já das vivências aí mantidas com os avós, a ponto de, em carta a Oliveira Martins (1884), Eça assumir-se como "filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe na ria". Com previsível palheiro próprio ou não, deste último já não restam provas. Fiquemo-nos, portanto, pelo do amigo, logo à entrada, frente à atual marina.
      Última paragem em hotel de luxo: o palacete Valdemouro, hoje Hotel MS Collection Aveiro, um dos mais requintados edifícios oitocentistas da cidade onde viveu a família Queirós. Tornado hotel literário na conhecida "rua Larga" (hoje rua José Estevão), fica o que dizem ter sido morada, nomeadamente, do pai de Eça e da tia Anna Emília. Verdade ou não, nele encontram-se quartos temáticos relacionados com personagens queirosianas, uma sala de receção e de estar com múltiplos sinais da vida e obra do autor (alguns dos quais cedidos pela casa de Tormes), mais um mural com o rosto de Eça (a instalação de arte urbana "Essa é que é Eça", da autoria de Vhils, o graffiter e pintor Alexandre Farto). Entre café, água e limonada, num breve instante de repouso, cumpriu-se um momento de tertúlia inspirado na escrita, no pensamento do escritor e nas vivências na cidade. Pedidas as desculpas pela animação não preparada, mas oportuna e justificada, findou-se a interação com a sugestiva expressão "Ora essa!"

Palacete de Valdemouro, na rua José Estevão (Fotos e montagem VO)

      Fosse Sintra e não nos esqueceríamos das queijadas; sendo Aveiro, lá fomos aos ovos moles, em receita com mais de cinco séculos criada pelas freiras do Convento de Santa Joana (a padroeira) e que, nas palavras de Aquilino Ribeiro, são "Os miríficos e celestiais ovos moles, uma das melhores descobertas de Portugal, depois da Índia". Bons momentos merecem ser prolongados e recordados com um docinho.
        

sábado, 27 de junho de 2026

Reportagens e legendas com muito que se lhe diga

     E para não ficar pelo dizer, cá vai o escrito.

   São muitas as questões levantadas numa breve reportagem televisiva difundida pela SIC (no Jornal da Noite de hoje), a qual vale noticiosamente pela insatisfação criada com todo um processo há muito anunciado com fragilidades evidentes. Desde que, com a digitalização das provas moda, se detetaram falhas incontestadas, ficam este ano agigantados os constrangimentos e as dificuldades com a extensão de procedimentos comuns às provas finais de ciclo, bem como aos exames nacionais. E não se pode afirmar, ou mesmo sugerir, que tal tenha a ver com o funcionamento / a inoperância das escolas ou com o desempenho de alunos e de professores.
     Não se sustenta a fiabilidade e validade de um processo com sinais declarados de disfuncionalidade, tecnológica que seja, quando acompanhados de uma recentralização e de um sentido de avaliação eminentemente técnico, para não dizer francamente despersonalizado (diria, longe da avaliação pedagógica). 
      No meio da contestação e da polémica, ouve-se na mencionada reportagem que o processo de classificação ainda não arrancou (ora porque não se acede aos itens digitalizados, ora porque se acedeu e se deixou entretanto de aceder, ora ainda porque não se atribuiu uma senha ou credencial de acesso); que há professores aposentados convocados para tal; que há troca entre os professores corretores e as disciplinas que lhes estão destinadas; que, por fim, e segundo voz-off , "a tutela já terá alterado o cronograma inicial" (leia-se o cuidado no uso de um futuro composto, a traduzir a modalidade do não certo, de algum distanciamento face ao dito).
    Insustentável é também o jogo desta afirmação da reportagem (com a devida modalização) com a legenda complementar, esta última com a afirmação factual (facto concluído, de aspeto perfetivo) de que "a tutela alterou". Inconsistência e incoerência graves no significado associado: por um lado, a relativização de um futuro composto e, por outro, a perfetividade de um pretérito na ordem do certo e do facto. 
      Ainda mais insustentável, a tocar o absurdo e o ridículo, é o objeto da alteração noticiada:

Incredulidade para um elemento de formação de palavra, no mínimo, inusitado (Foto VO)

   Um cronograma aponta para a ideia de planificação, programação num / com um calendário. Do grego "khrónos" decorre o elemento de formação de palavras "crono" - associado a tempo. Ou seja, um elemento que a etimologia, a história da língua e a própria formação de palavras convocam como conhecimento fundamental a qualquer comunicador dos média (que deve dominar a sua língua), mas que, na escrita da legenda, resultou no que de mais risível há, numa fronteira muito ténue entre o ambíguo escárnio e o assumido maldizer. 
    Nem com mitologia grega isto lá foi, nessa alegoria do deus C(h)ronos, frequentemente representado a fazer girar a roda do zodíaco, numa leitura da passagem do tempo. Tanto conhecimento desperdiçado ou desconhecido!
      
    No final, apetece-me dizer que nem "cornograma / cornómetro" existem (muito menos para planificar / medir chifres, hastes, chavelhos ou apêndices animalescos) nem cronogramas deram lugar, nos dias de hoje, a exemplo de metátese do som [r]. E porque a reportagem em causa não deixa, acima de tudo, de tratar de questões de educação no país, tudo isto se revela muito triste e escusado (porque daqui se cai facilmente no ridículo de assuntos que têm de ser levados muito a sério). No mínimo, bastava um editor ou alguém competente a verificar o que se escreve na televisão.
 

segunda-feira, 9 de março de 2026

A liberdade no (uso do) acento gráfico

     A observação surgiu perante a estranheza do uso.

     É verdade que é mais comum ler-se a palavra sem acento gráfico. Por isso, a mensagem surgiu:

     A: Olá, Vítor!
         De quem me lembrarei, sempre que me deparar com algo como o que está abaixo?
       Guia Geral de Exames 2026: «(...) obrigatoriamente, de atestado médico de incapacidade multiúso (...)»
          É por isso que, por muitos olhos que passem no que escrevemos, nunca são demasiados.

     Tive de responder a desfazer um pouco a certeza nessa estranheza de um 'multiúso', que faz todo o sentido existir, atendendo às convenções ortográficas e de acentuação gráfica contemporâneas.

     B: Bom dia.
         As convenções ortográficas, por vezes, são complicadas. Este é um dos casos.
      Ainda que o uso comum permita a utilização consensualizada da grafia 'multiuso' (com o elemento latino 'multi' e a palavra 'uso' aglutinados), o certo é que, na escrita, há uma regra de acentuação gráfica a determinar que duas vogais juntas em situação de hiato (lidas não como ditongo, numa só emissão de som, mas como vogais diferenciadas foneticamente) fazem com que 'u' ou 'i' sejam graficamente acentuados. É o que acontece, por exemplo, com 'reúne', 'saúde', 'suíça', 'país', 'baú' entre outras palavras.
       Assim, convivem as escritas 'multiuso' e 'multiúso' na língua portuguesa: a primeira, na consciência morfológica e etimológica da (re)composição de um elemento latino com uma palavra atual; a segunda, na ativação das convenções de ortografia e acentuação gráfica. 
     Importa, portanto, que a escrita de uma ou de outra formas surjam coerente e consistentemente nos textos.

Muito uso com ou sem acento - um caso de liberdade na acentuação gráfica (montagem VO)

     Pronto: lá terão que se lembrar de mim na complexidade das relações fonético-grafológicas da nossa língua em combinação com a perspetiva morfológica e algum toque de história da língua e etimologia em deriva.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Triálogos em família

     Conversações linguísticas a três.

     Pergunta o filho qual o contrário de mérito: se desmérito se demérito.
     A mãe está para o primeiro, o filho pretende o segundo. O pai aceita os dois.

Preferível o mérito ao de(s)mérito - a negação instaura a dúvida pela presença de um 's'

    Na verdade, se 'merecer' está para o antónimo 'desmerecer' (com o acrescento do prefixo 'des-'), o mesmo pode aplicar-se, morfologicamente, no par 'mérito/desmérito'.
    Numa perspetiva etimológica, recorrendo à história da língua, encontra-se a razão do 'demérito': no latim, usava-se o termo 'demeritus, -a, -um' (particípio passado de demereo, -ere, com o significado de 'ganhar, merecer, cativar').
   Ambos os termos estão registados em vários dicionários, encontrando-se 'demérito' atestado em textos portugueses desde o séc. XVI; 'desmérito' é mais evidente desde o século XIX. O primeiro está mais para o etimológico e a via erudita com o recurso ao latim (com a família de palavras a destacá-los, por exemplo, em 'demeritório'), enquanto o segundo assenta mais numa consciência morfológica da língua. 

   Se entre marido e mulher não metas a colher, bom é que entre mãe e filho não se crie sarilho. Linguisticamente, quanto a este tópico, reina a paz entre todos.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Preferências...

       Hoje disse uma delas, por diversas vezes.

    Lembro-me  da virtude que existe no equilíbrio, no comedimento, na moderação. Há quem fale em demasia e, por isso, diz o povo, pouco acerta.
   Recorrendo ao sentido etimológico da palavra, pode dizer-se que, inclusivamente, 'moderação' (derivada do latim "moderationis") significa ação de regular ou governar.
      Assim, construo o pensamento:

Tomo o equilíbrio por seguro, 
para não cair na desventura.

      Tenho dito; ou melhor, escrito. 
    Evocando Alexandre O'Neill, diria que "há palavras que nos beijam"; outras são "sem cor". Se o poeta falava da construção poética, digo que também vale para simples pensamento.
     Pareço um clássico, é certo. Na vida, há momentos assim - particularmente quando se sente que há situações ou pessoas com as quais não se pode nem se deve contar nem no presente nem no futuro.

      Sinto-a como necessária nestes tempos, para não cair em excessos (que não trazem felicidade a ninguém).

sábado, 8 de novembro de 2025

Diminuir não é acrescentar

     Isto de colocar um 's' onde ele não existe é, no mínimo, crítico.

   Numa consciência sincrónica de procedimentos morfológicos na língua, é verdade que a negação, a inversão e/ou o contrário do que uma palavra significa se conseguem, frequentemente, com o prefixo 'des-' (alento > desalento; alinhar > desalinhar; amparo > desamparo; atento > desatento; aparecer > desaparecer; atenção > desatenção; calçar > descalçar; construção > desconstrução; crer > descrer; culpar > desculpar; dizer > desdizer; enterrar > desenterrar; encanto > desencanto; entupir > desentupir; fazer > desfazer; instalar > desinstalar; ligar > desligar; necessário > desnecessário; preocupar > despreocupar; provido > desprovido; tratar > destratar; viver > desviver), seja na formação de nomes, verbos ou adjetivos.
    O mesmo não sucede com algumas outras palavras, não obstante o uso destas em rodapé ou legenda televisivos:

Estas legendas andam uma negação completa... na língua (agradecimento à MPM, pela atenção)

    Por certo algo diminui (progressivamente); é o inverso ou o contrário de 'crescer', mas não se constrói, na verdade, com o prefixo 'des-'. Enquanto antónimo de 'crescer', 'decrescer' requer uma abordagem que não pode escapar à história da língua e à noção etimológica do termo: remonta ao latim 'decrescere', que significa "crescer menos, diminuir." Nele há um prefixo latino ('de-'), que indica "afastamento", cuja consciência corrente não está na mesma linha da consciência morfológica sincrónica.
   Neste sentido, é mais por via etimológica ou da história da língua que 'decrescer, decrescendo, decrescido, decrescente, decrescimento' se explicam; complementarmente, o conceito morfológico da família de palavras, neste caso em intersecção com a etimologia, é o que pode ser convocado para que não surjam, na escrita, erros como o assinalado na imagem.
    Enquanto afixo dos mais produtivos no português contemporâneo, “des-” convoca inevitavelmente, para o seu estudo, uma plataforma entre morfologia e etimologia, num entrecruzamento de diversos estádios da língua (com semelhanças formais e semânticas, entre ambos os afixos), na senda do que se prefigura como prefixo neolatino (“des-”) em interseção com alguns elementos formativos de origem latina ('de-', 'dis-' e 'ex').

     Se 'decrescente' se cruza com a 'descida' de algo, não se confundam as sílabas iniciais nem se misture a primeira com um prefixo que, podendo aparecer em muitas palavras portuguesas atuais, está historicamente distante de qualquer crescimento. 

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Nem com Shakespeare isto lá vai...

  O fundo escuro com o texto a branco fez-me lembrar a comédia Twelfth Night.


   Já que do dramaturgo quinhentista / seiscentista inglês se trata, evoque-se a máxima "There is no darkness but ignorance" (Ato IV, cena II), proferida pelo bobo Feste, reforçando a metáfora da ignorância como escuridão.
     Tudo a propósito de uma série documental que tem vindo a passar na RTP2, sobre a vida e obra de William Shakespeare, na perspetiva de muitos estudiosos, investigadores, atores, especialistas na obra produzida e encenada.
       Logo a abrir o programa televisivo, lê-se:

Genialidade só no autor / escritor. Quanto ao resto,... (Foto VO)

     No melhor pano, a nódoa. Gosto do programa, do tema, do autor, da obra, mas no que toca a ascender, fiquemo-nos pela ASCENSÃO (e não o que aparece grafado). Na escuridão da imagem, a ignorância ortográfica.
       Algum conhecimento etimológico faria luz ortográfica: "ascensus" do latim está para ascenso, tal como "ascensio, onis" está para ascensão. Na família de palavras, a aproximação (orto)gráfica é evidente.

     A verdade é que Shakespeare é um dos maiores da literatura. Ascendeu por certo. Evidentíssima ascensão.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Patrono à mesa

     Um jantar natalício com a presença de Laranjeira.

    As mesas estavam primorosamente decoradas, à espera dos convivas. Há cinquenta anos estava um edifício em construção, ainda com a designação de "Liceu Nacional de Espinho"; hoje, num edifício requalificado entre 2008-2011, há um patrono a marcar presença na Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Laranjeira:

Laranjeira no Natal de 2024 do AEML (composição fotográfica VO)

     Rumo aos 50 anos de um tempo e de um espaço a celebrar (mais as pessoas que os viveram), o aroma do fruto (laranja) vem compor o paladar de um licor que tem na árvore (laranjeira) origem, estendendo-se, por jogo evocativo, ao patrono (Laranjeira). Da natureza ao nome próprio, há como que uma transmutação alquímica, sugerindo a criação do elixir da vida ou da imortalidade. Laranjeira, por lembrança e evocação, ganha vida eterna ou prolongada.
     Se, na língua portuguesa, "alquimia" vem do latim alkimia, por sua vez proveniente do árabe al-kimiya (significando "a química"), não será de esquecer que, no grego antigo, khemeía significava "fusão de líquidos".

     Nada como ver no licor de laranja o adocicado sabor que Laranjeira, na vida, não deixou de acidular. 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Estamos nisto! Ortografia do melhor...

      Quando estás preparado para ser informado sobre o que se passa no mundo, ...

       ... as notícias aparecem na sua pior escrita.
    Dúvidas houvesse acerca da influência da oralidade na escrita, os erros comuns na ortografia de palavras como 'feminino', 'ministro', 'príncipe' e afins demonstram-na. Daí que, no plano da correção escrita, seja de abordar estes casos críticos, para que resultem em domínio mais consciente e correto do ato de escrever.
    A televisão começa a dar sinais de como esta competência parece já não ser apanágio do bom exemplo do serviço público e da exposição ao bom uso da língua:

Eis a razão para, sem dúvida(s), preferir o favorecimento, bem escrito (com agradecimento à AC) 

    Claro que não é necessário dominar a etimologia e reconhecer a base latina "PRIvilegium" (embora ajudasse): a leitura de vocabulário frequente permite ver bem as sílabas de "PRIvilégio" (desde logo a primeira de todas); a família de palavras assinala recorrências evidentes em "PRIvilegiar", "PRIvilegiado", "PRIvilegiadamente", "desPRIvilegiado" (pela consciência repetitiva da base); a consulta de um dicionário, hoje, está à mão de qualquer telemóvel ou computador pessoal (com palavras bem grafadas).
      Tão bom seria ver / ler palavras, em primeiro plano, para uma comunicação feliz!

     Talvez por causa do mau exemplo, prefira o favorecimento ao outro termo que, em vez de 'pre', deveria ter 'pri' na sílaba inicial.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A propósito de 'lerdismo'

      Assim alguém falava de (outro) alguém ou algo que não atava nem desatava.

      Foi então o momento de se questionar a origem da palavra. 
    Diga-se que não a encontro dicionarizada, mas faz parte daquela criatividade e potencialidade da língua, morfologicamente motivada até!
   O sufixo 'ismo' permite formar nomes abstratos tradutores do sentido de 'teoria', 'doutrina', 'movimento (artístico, estético, filosófico, político, entre outros)', 'tendência'. E porque não se trata propriamente de algo singular, é de considerar que há vários implicados na questão ou situação, mesmo quando de individualismo se trata (são muitos os que defendem este último e cada vez mais, a julgar pelo que se vai vendo a cada dia). A par da 'lerdeza' e da 'lerdice' (também nomes) ou do 'lerdíssimo' (grau superlativo absoluto sintético do adjetivo), tomaria o 'lerdismo' como mais um derivado sufixal nominal (revelador de uma tendência ou movimento caracterizador dos que são 'lerdos').
     Daí que, para se entender o potencial 'lerdismo' se recorra à base 'lerdo': caraterística depreciativa daquele que é pouco ativo, preguiçoso, que se movimenta lentamente, de modo pouco diligente. No que à inteligência e ao rasgo intelectual dizem respeito, não se distingue muito de quem se assume como parvo, estúpido, tonto, tolo; ou seja, nada esperto.
Entre a preguiça e o caracol, alguém que diga de sua justiça!
      Para quem recorre ou cria a palavra, parece que há alguns assim, ao ver que as coisas sucedem de forma vagarosa, pesada, lenta, numa espécie de inação declarada.
   Entre a hipótese dúbia de que 'lerdo' vem do castelhano trecentista, sinónimo de 'bobo'; do itálico 'lordo', a significar sujo ou porco; do francês quinhentista 'lourd', para referir o que é pesado e estúpido, não andará longe a fonte etimológica latina que, em 'lordus', apontava para movimentos lentos, numa variante de 'lurdus', isto é, aquele que tropeça, que vacila ao andar”, ou de 'luridus', cujo significado inicial era “sujo”.

      Em síntese, fiquemos pelo termo criado para denotar algo que não é desejável, mas que alguns partilham nessa condição do que ou de quem nada faz avançar, mudar, transformar, resolver o que se impõe. Contrariemos a tendência, pois!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Grande Mês!

    Depois de um janeiro que nunca mais acaba(va), começa o mês mais pequeno de todos, mas muito proverbial.

    É o costume: quando se é a menos nalguma coisa, apuram-se outras qualidades.
    Fevereiro é pequeno no número dos dias, mas grande nos provérbios (e nos saberes que se lhe associam):

Se o inverno não faz o seu dever em janeiro, fá-lo em fevereiro.

Quer no começo, quer no fundo, em fevereiro vem o entrudo.

Quando não chove em fevereiro, nem bom prado nem bom centeio.

Os dias bons de janeiro enganam o homem em fevereiro.

O sol de fevereiro matou a mãe ao solheiro.

Neve em fevereiro é mau para o celeiro.

Luar de janeiro faz sair a galinha do poleiro; lá vem fevereiro que leva a galinha e o carneiro.

Lá vem fevereiro, que leva a ovelha e o carneiro.

Janeiro geoso, fevereiro nevado, março frio e ventoso, abril chuvoso e maio pardo fazem o ano abundoso.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Fevereiro coxo, em seus dias vinte e oito.

Fevereiro afoga mãe no ribeiro.

Chuva de fevereiro vale por estrume.

Bons dias em janeiro enganam o homem em fevereiro.

Até ao Natal salto de pardal, de Natal a janeiro salto de carneiro e de janeiro a fevereiro salto de outeiro.

Água de fevereiro mata onzeneiro.

      Depois disto, registe-se também que 'fevereiro' vem do latim (februarìu-), «o mês das purificações», de februáre, «purificar; fazer purificação religiosa»). Há quem defenda que era tempo dedicado a "Februus", a quem os romanos dedicavam sacrifícios para compensar / evitar a escassez do ano.
     Ao estudar o calendário egípcio, no qual constavam 365 dias, Júlio César trocou o calendário lunar pelo solar. Janeiro e fevereiro foram colocados no início da contagem e o imperador distribuiu os dez dias de diferença face ao calendário anterior por vários meses. Claro que julho (o mês de 'julius') não podia ser menor do que outros; mas o de César Augusto também não (agosto). Na alternância dos trinta e dos trinta e um dias nos diferentes meses, dois sucessivos ficaram com trinta e um (os imperiais); o mais pequeno ficou fevereiro, que, de quatro em quatro anos, tem vinte e nove dias, por o ano solar ser um pouco maior do que 365 dias.
      As mudanças de calendário, entre os cálculos precisos dos astrónomos (considerados entre dois equinócios solares) e as decisões dos imperadores romanos ou as dos papas, marcaram fevereiro sempre como o segundo mês (introduzido com o inicial janeiro) num arranjo temporal que nunca se revelou equilibrado nas alternâncias ou no número de dias contados. 

    Purificado ou não, este é mês diferente: "dos gatos" como popularmente se diz; pequeno quanto baste para cedo se chegar à primavera, apesar do inverno que faça sentir.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Um ano perfeito?

       Vamos lá somar os algarismos!

       2023 dá sete! Aí está: 2+0+2+3. Se for 20+23 resulta em 43. Antigamente dizia-se "Noves fora sete".
       Já aqui se tratou da magia do sete. Preferia abordar o ano mágico que está para vir.
       Fica a expectativa. No final, confirma-se ou infirma-se. Faça-se, contudo, para que assim seja: ano de esperança, de perfeição, de magia.
    Segundo as cartas do arcano maior, no Tarot, o sete configura-se com dois cavalos ou dois corpos dianteiros a arrastarem uma espécie de carruagem, montada sobre duas rodas, coberta por um dossel. É como se estivessem fundidos num carro, mas cada um andando para o seu lado (lembrando que, entre o bem e o mal, há o livre arbítrio, a escolha). Vê-se, ainda, um homem coroado, com um cetro na mão direita e a esquerda junto a um cinto dourado, sugerindo um rei ou líder na condução do caminho, do percurso a fazer. Na parte da frente do carro, há um escudo com duas letras, a variar conforme as edições das cartas.
    Designada por "O carro" ou "A carruagem", a carta sete simboliza a contemplação ativa, o repouso, a vitória, o triunfo, a superioridade e a razão. É ainda interpretada como o êxito legítimo, o avanço merecido, talento, dons e capacidade, tato para governar, diplomacia e direção competente, confiança e caminho.
     Há quem se refira às maravilhas do mundo (antigo ou contemporâneo, tanto faz). Independentemente de quais sejam ou de que tempo, são sete - o número entendido como completo e perfeito; o que se define pela totalidade, pela consciência, pelo sagrado e pela espiritualidade. Fechado o ciclo, traz consigo o cenário da renovação. Ao fechar de um ano, abra-se outro, a descobrir, renovado.
      O uso do número sete na Bíblia, por exemplo, aponta para a ideia de plenitude ou a perfeição de algo ou alguém, como se lê: na criação do mundo e o dia de descanso, no Génesis; na persistência do perdão no sete e seus múltiplos, quando, no Novo Testamento (Mateus 18:22), Jesus menciona a Pedro a capacidade de perdoar "até setenta vezes sete”; na plenitude espiritual, representada no livro do Apocalipse (que, representativo do curso de um ciclo, se abre a novas descobertas, tal como o termo o sugere no grego antigo).

       Venha o 2023, mais a magia positiva do sete! Boas saídas, ótimas entradas e o melhor do ano para todos!

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Acerca do outono

    Perguntavam há dias de onde vinha o outono.

    Não se trata do 'onde' locativo, mas da origem etimológica. O latino 'autumnus, -i' dita a formação do adjetivo 'autunal', também proveniente do 'autumnalis, -e', como tudo o que é relativo ao outono.
    E então: é autunal, outonal ou outoniço? 
    Valem os três. O primeiro mais próximo do étimo latino; o segundo com algumas evoluções fonéticas assimilativas em pontos articulatórios vocálicos [+altos]; o terceiro decorrente de um processo morfológico cuja base derivante nominal ('outono') é acrescida de um sufixo que, no português, tem a produtividade significativa de referir aquilo 'que nasce em' (outoniço < nasce no outono); aquilo que indica facilidade ou tendência para (fronteiriço < próximo ou tendente para a fronteira; esquecidiço < tendência para ser esquecido; inverniço < tendência para inverno; reboliço < facilidade para rebolar; gadiço < facilidade para ser domado como gado).

Colorido outoniço com o "intenso colorista"

  Em termos de significado, o outono é polivalente: refere-se à estação do ano, à transição / transitoriedade / mudança / viagem dos ciclos, à época das colheitas, ao tempo da gratidão, ao equilíbrio e descanso terrenos, à reflexão e introspeção, à despedida, à aproximação da velhice, à decadência.

    Viva-se o outono, cumpra-se o ciclo e enriqueça-se o tempo com a variedade dourada das cores outoniças.

domingo, 19 de junho de 2022

Fatiga, fadiga... que cansaço!

       Tempos de canseira.

      Perguntavam-me há dias se o nome associado a quem anda fatigado é fadiga ou fatiga. Respondo que são os dois (e para quem anda cansado é questão que já pouco interessa). Digam ou escrevam como quiserem.
        Claro que o mais habitual é falar ou ler sobre "FADIGA" (mesmo que o adjetivo esteja mais para 't' do que para 'd' - fatigado). Dizer-se 'fadigado' não é impossível, até pela derivação que decorre de 'fadiga' (nome) e 'fadigar' (verbo), isto é, causar ou sentir fadiga ou cansaço; logo, o 'fadigado' torna-se mais do que compreensível.
          Fatigado está mais para o sentido etimológico, que atesta o verbo latino 'fatigare' e o nome 'fatigo'.
     Entre 't' ou 'd' direi que o primeiro está mais para a origem; 'd' para a variação evolutiva, nomeadamente a sonorização que se evidencia na posição intervocálica de [t], com o som surdo lábiodental inicial a ganhar o traço sonoro por influência vocálica. Foi já o que analogamente sucedeu com totu(m) > todopotes > podes, na passagem do latim para o português, só para mencionar exemplos nos quais, também e pelo mesmo motivo, [t] evoluiu para [d]. 
         E, assim, 'fatiga' chega a 'fadiga'. Fica a primeira pela via erudita; vem a segunda por via popular. Reconhecida esta última, se ficarmos por aquela também não está mal. Explica-se, portanto, a possibilidade do apontamento lido nos destaques noticiosos da Microsoft Edge:

Colhido do Microsoft Edge, em "Notícias ao Minuto"

         Com ou sem Boris Johnson, é um dado que a guerra Rússia-Ucrânia já cansa. Bastariam Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky para nos atormentar a mente com o conflito que a todos aflige. Vem também o primeiro ministro britânico contribuir, com a citação feita, para o desalento, afadigando o espírito com sinais dos perigos que não dão esperança.

      Fadiga ou fatiga, o tempo é declaradamente, e por vários motivos, de cansaços (lembrando Campos e "Sobretudo cansaço").

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Um pé de orquídea

      Um presente em tempo (ainda) de aniversário(s).

      Recebi um pé de orquídea pelo dia que ontem foi.
    Etimologicamente, a designação vem do grego όρχις (órkhis) e ειδος (eidos), significando com a forma ou aspeto de testículo - numa clara referência ao formato dos dois pequenos tubérculos que as variadíssimas espécies do género evidenciam.
    Utilizadas, desde passados remotos, em poções curativas, afrodisíacos e efeitos ornamentais, na China antiga, as orquídeas eram associadas às festas da primavera. Não está longe, mas ainda é porvir (ou não estivesse por vir). Hoje, ainda no curso do inverno, quando muito pode falar-se de "primaveras" (apesar de o número já não ser marca da juventude própria ao conceito).
       Há, por agora, uma nota de beleza à porta do salão:

Um pé de orquídea à porta de mais um ano recém entrado (Foto VO)

      Enquanto símbolo da perfeição e da pureza espirituais, é esta flor, por certo, a manifestação de uma amizade que o tempo tem vindo a construir e que fará perdurar.

     Com o agradecimento à F. e ao C., por mo terem gentilmente ofertado neste tempo tão aquariano, de polaridade masculina e à espera de novo espírito. Bem hajam.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Previsão falhada

    Esperemos que não se concretizem os números apontados, até porque a previsão já falhou.

    Para não variar, o final e a abertura do ano dão lugar a balanços e/ou previsões a alimentarem o espetáculo televisivo. Na "ciência" dos dados, há erros que são mais do que evidentes, a julgar pelos rodapés noticiosos:

Previsões que falham - é preciso ter falta de visão na correção da língua.

    A brincar, costumo dizer que para 'ver' há dois olhinhos (apesar de alguns, não os tendo, verem mais do que quem os tem), pelo que dois 'e' fazem a diferença. O contraste 'vêm' (do verbo vir) / 'veem' (ver) é bem distintivo. Etimologicamente, os dois 'e' são a prova de uma síncope que os juntou, até que se processou a contração-crase (vedere > veer > ver).
     'Vem / vê' (terceira pessoa do singular) e 'vêm / veem' (terceira pessoa do plural) são formas verbais, respetivamente, de vir / ver - casos críticos na ortografia, mas que qualquer comunicador deverá reconhecer e usar com correção.

    Com falhas destas, não há peritos que possam resistir. Assim, o que preveem deixa de ter impacto (pela deslocação da atenção de quem lê para o erro). Há quem precise de ficar confinado a ler regras ortográficas.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Já chega! Lá se vai a resiLIência!

         Nada mais parece ter acontecido no país, neste dia.

        A sistemática e repetitiva notícia de o antigo presidente do banco BPP ter sido detido na África do Sul já satura. E diz-se onde estava, de onde veio, por onde passou, como foi surpreendido, se vai ou não ser extraditado, o que vai ou não vai acontecer e até o que pode (ou não) ser a evolução próxima da situação. 
        Entre o que acontecido e o hipotético, tudo se diz, se comenta, se critica e se escreve... mal:

As legendas da desgraça, com a CNN (ou de como a RESILIÊNCIA está fraca)

      Já chega de tanto falar no mesmo assunto, que ainda vai garantidamente render (ou não fosse o detido 'Rendeiro') para os próximos tempos. Já agora, chega também de não ter cuidado naquilo que se dá a ler.
      Seja a origem inglesa (resilience) seja latina (resilio), está lá o 'i' (após o 'l') que falta à CNN - fundamentos etimológicos que nenhuma 'breaking news' poderá esquecer (basta ouvir com atenção o senhor Diretor Nacional da Polícia Judiciária). Que se cite bem o que foi bem dito, e resultou mal escrito.

      Isto da RESILIÊNCIA tem muito que se lhe diga. É preciso ser mesmo resiliente, para aguentar tanto mau uso e desatenção na língua (mesmo em jovens canais televisivos). Esperemos que seja uma mera gralha.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Não é "d'oiro", mas é "doirado"

     Tudo em busca da base da palavra (embora eu preferisse o "oiro").

     Siga-se o raciocínio de onde uma palavra vem, e lá chegaremos ao resultado final.

      Q: Olá, Vítor. Qual é o processo de formação da palavra "doirado"?

O doirado da paisagem, com o doirador responsável ao centro.

    R: Olá. A palavra "doirado" é o particípio passado do verbo "doirar", sendo esta última a palavra base. Embora se trate mais de um caso de flexão do que propriamente de formação, a passagem "doira(r) > 'doirado" ilustra a consideração de afixos gramaticais no final da palavra (sufixos), de modo a construir, a partir da forma do infinitivo, a que surgirá como forma verbal de particípio passado e/ou adjetivo.
     Pelo raciocínio exposto no primeiro parágrafo, fica identi-ficada a base (verbal), a partir da qual se processa a sufixação. Trata-se de sufixos de natureza estritamente gramatical (para as categorias da forma parti-cipial verbal e do contraste de género).
      Não se veja, portanto, o oiro como a origem de tudo na nossa língua, mas o que permite "doirar" e, por sua vez, esta palavra ver o doirado, nomeadamente o que a talha da natureza por momentos ganha (sem ouro; com sol).

     Ou seja, "nem tudo o que doira vem de oiro", pelo menos em termos da natureza. "Doirar" entrou historicamente na língua portuguesa pela forma latina "deauro, -are", estando já aqui assumida a palavra base (doirar), a qual virá a dar lugar a 'doirado'.