Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Antes dos 70

     Na preparação do meio século de carreira.

     A voz dos Trovante, a voz de um percurso a solo pode continuar a cada vez que se cantar com o ritmo e a cadência musical familiar das canções que, coletivamente, se reconhecem. A marca deixada no cancioneiro da música portuguesa acompanha lutas grandes e pequenas, dentro e fora de portas.
    O dia nasce com a notícia da morte de Luís Represas, na discrição do que foi uma doença prolongada a pôr fim ao espetáculo ao vivo. Persistirá na memória dos que veem e ouvem as suas composições, letras e canto, mesmo estando agora "Fora de mão" (álbum de 2003):

Da voz que nos deixa à música que nos faz ouvir há décadas

    Sem querer trair a autoria inspiradora, diria que "As ruas da minha cidade abriram" não os olhos, mas os ouvidos, para se ficar a saber o que não se queria: partiu "sem deixar destino ou direção."

DA PRÓXIMA VEZ

As ruas da minha cidade 
abriram os olhos de encanto para te ver passar
As pedras calaram os passos 
e as casas abriram janelas só para te ouvir cantar
Porque há muito muito tempo não vinhas ao teu lugar
Ninguém sabia ao certo onde te procurar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Quisemos saber como estavas, 
se a vida tinha tomado bem conta de ti
Ou se a vida teve medo 
e eras tu que a levava refugiada em ti
Cada verão que passava sentíamos-te chegar
Como era possível que o sol se atrevesse a brilhar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Deves trazer tantas histórias, 
tantas que algumas ficaram caídas por aí
Outras, eu tenho a certeza, 
o teu fogo na alma queimou, deixaram de existir
Só queremos saber se és a mesma que vimos partir
Não existe mundo lá fora que te possa destruir
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

     Lembro-o por terras de Espinho, num palco junto ao casino, em concerto de verão, há mais de quinze anos. Soam muitas cantigas de sucesso, nas melodias e pelos propósitos da composição (por todos nós, por Cuba ou por Timor).

     "Se houver próxima vez não esqueças / leva contigo recordação...". Um dia, a festa será algures no universo. RIP.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Uma tarde cinéfila

       Duas horas de um espetáculo musical a lembrar muito da sétima arte.

      Num concerto de homenagem a Ennio Morricone e a 100 anos de cinema, o público foi brindado com algumas das bandas sonoras mais famosas de todos os tempos, desde "Casablanca", "E Tudo o Vento Levou", "África Minha", “Braveheart” até às mais recentes de "Star Wars", "Titanic", "Gladiador" ou "O Senhor dos Anéis".
     Com interpretação da Royal Film Concert Orchestra, um maestro "nuestro hermano", animador, bailarino e saltitão conduzia toda a orquestração, a revelar-se imensa, numa sincronia de instrumentos, de ritmos, de gestão de intensidades musicais - tudo a cativar os espectadores, a ponto de os colocar a "tocar" (cantando, por exemplo, "The Good, the Bad and the Ugly", de Morricone).

Montagem vídeo com vários apontamentos do espetáculo - Coliseu do Porto: 31/01/2026

     De Ennio Morricone (compositor e maestro italiano), conhecido como "Il Maestro" e autor de mais de quinhentas composições para filmes ou séries televisivas (com Óscar honorário em 2006 e Óscar de melhor banda sonora em 2016, pelo filme "Os Oito Odiados"), ouviram-se melodias marcantes: "Once upon a time in the West", "Cinema Paraíso", "The Ecstasy of Gold", "A Missão" (com a celestial composição "Gabriel's Oboé"), entre outras.

Ennio Morricone no concerto de Munique de 2004, conduzindo a orquestração da sua "A Missão"

     O aplauso final, repetido, de pé foi um sinal do bem-estar conseguido, das emoções vivenciadas, das cenas fílmicas que, de olhos fechados, se recordavam à medida que os acordes musicais iam sendo associados às fitas das "nossas vidas". 

     No tudo que de bom e divertido aconteceu, faltou apenas um enquadramento cénico de fundo, fosse o visionamento de algumas cenas dos filmes, fosse um fundo mais sugestivo. Ficou o foco na música e na orquestração.
 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Dia ou noite... de reis e de rainhas..., com príncipes e princesas

     Há quem diga que devia ser feriado; pelo vivido hoje, não.

     Até porque, se o fosse, não teria, por princípio, acontecido o que registo.
     Não foi a noite de reis. 
   Foi a noite do dia de reis, com muitas rainhas e outros tantos muito especiais - o primeiro dia de entrega dos diplomas no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), para os 4º, 5º e 6º anos, na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC). 116 alunos(as) a receberem o aplauso e o diploma pelo sucesso de qualidade conseguido (excelência académica, mérito desportivo e reconhecimento de valores) em três das escolas do AEML. 

Um dos diplomas atribuídos (Excelência Académica), a par de outros.

       Outros dias e outros anos de escolaridade virão com o decorrer da semana; mas tudo começou com grande emoção.
     Falhou a intensidade da música, mas a dança ensaiada sem qualquer barreira, a tímida melodia, o gesto e o ritmo demonstrados, a mensagem do "Gosto de ti" (de André Sardet) e uns jovens encadeirados a dançar com quem não aparenta tais limitações foram ingredientes para um momento comovente, magnífico, a fazer acreditar que o mundo pode ser tão melhor! Todos unidos por uma t-shirt branca com um coração rubro se mostraram conquistadores de um público que assistia no respeito do silêncio, da diferença, na consciência de que estavam juntos por e para uma causa maior, independentemente das fragilidades existentes.
       As palmas pelos diplomas atribuídos não apagaram um silêncio construído em união e com coração.
     Não ouvi chamar nenhum Belchior, nem Gaspar, nem Baltazar, mas havia muitos nomes de pequenos reis e rainhas que, no ano letivo 2024-2025, trouxeram, do ouro, o brilho do orgulho sentido; da mirra, o aroma da humanidade; do incenso, o exemplo do esforço e da transcendência de todos os que procuram superar-se no estudo, no desporto, nos valores que a escola pública assume na formação integral e integrada de futuros cidadãos (respeitáveis, trabalhadores, colaborativos, inclusivos, solidários). Já o são e prometem continuar a ser.
       Hoje, no dia da adoração de reis (e por que motivo não acrescentar rainhas?), a todos os presentes, importou destacar a estrela da gratidão: aos(às) alunos(as) reconhecidos(as)  pelo mérito / sucesso de qualidade no desempenho das aprendizagens feitas; aos(às) professores(as) envolvidos(as) no acompanhamento dessas aprendizagens, representados(as) pelos(as) Diretores(as) de Turma presentes, alguns(mas) vindos(as) de outras escolas, após um dia de trabalho(s); aos assistentes técnicos e operacionais, tantas vezes a dar a mão e o coração nos corredores, no recreio e nos espaços que nem sempre são letivos. Gratidão também aos (às) Encarregados(as) de Educação e familiares das crianças e jovens que, entre esforços e cansaços, têm sabido ir além do esfumar dos dias, lembrando que a verdadeira fama requer esforço; que o sucesso só aparece antes de trabalho no dicionário; que o alimento serve não só o corpo mas também o espírito, engrandecendo todos os que sabem olhar para a esquerda, a direita, para a frente e para trás, encontrando o outro, aquele que caminha junto, em grito de apoio, de solidariedade, de inclusão (sem egoísmos e com foco no bem comum).
       Manuel Laranjeira, patrono do agrupamento, enquanto escritor, afirmava, numa carta ao amigo Luiz Pinto Ribeiro (05.03.1904), que não aspirava a "homem célebre"; que "escrevia para satisfazer uma necessidade pessoal que é dizer aos outros o que pensa da vida e dos homens" (in Cartas, Lisboa, Relógio d'Água, [1943] 1990, p.26).
    Penso da vida e dos homens... que o orgulho (bom) assenta na realização, no reconhecimento e na felicidade pessoais em prol do bem comum; que a ambição (boa) se funda no que possa fazer-se para o bem da comunidade; que o percurso a cumprir, independentemente das pedras no caminho, se quer na continuidade do bem que se viva e das aprendizagens que se querem conquistadas na vida para a felicidade todos.

      Por todos os momentos e por um especial, logo o inicial, este foi um verdadeiro dia de reis e rainhas. Com a gratidão devida a quem organizou, participou e permitiu viver um instante que fez a diferença do dia no AEML.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Noite ou manhã escuras à espera do templo

      Acordar com a prisão de Nicolás Maduro.

      Seja essa a expressão para pôr fim a quem encabeçava, até ontem, na ação ou na concessão, uma situação que não dignificava todo um povo a gritar por liberdade; a mostrar a possibilidade de um outro caminho, entretanto barrado pelo autoritarismo imposto por um regime pouco ou nada democrático; só discursivamente popular.
     A esperança e a resistência venezuelanas são a afirmação da possibilidade; são o sentido daquilo que não se quer vivido e se deseja mudar: despotismo, injustiça, desigualdade, oportunismo.
      Seja esta a oportunidade que não se quer perdida!
     Ainda assim, no meio das celebrações, quero continuar a acreditar que os fins não justificam os meios usados. Nascido o dia, sinto que continuo na escuridão. Por isso, lembro vozes e música portuguesas a sinalizar o caminho: "que o amor nos salve nesta noite escura".

Composição para as "noites escuras" vividas fora do "templo do mundo", com as vozes de
Pedro Abrunhosa e Sara Correia (programa televisivo "Em Casa d' Amália", 10-11-2023 - RTP1)

      Mais um passo para a "trumpalhada" que vivemos - uma noite muito escura, onde as estrelas tudo têm de brilho falacioso, pautado por interesses extremados e extremistas: "uma luz que cala". Quero acreditar que "ninguém nesta terra é dono do templo", que "ainda há frutos sem veneno".
       Seja este o dia feito "semente [que] será fruto pela vida fora."

     Não se aplauda ou legitime o que, sendo dito, não é senão o interesse de alguns ou de quem o diz - afinal, não muito diferente do que já existia e, talvez, se tenha derrubado ilusória ou momentaneamente.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Está para chegar (novo ciclo)

      Depois da despedida (saída), a entrada.

       Fecha 2025; abre 2026.
      Entre um e outro, entre o balanço e as expectativas, parte-se para novo ciclo, no alinhamento do tempo, dos caminhos e das passagens, que se cumprem em percursos, mudança e esperança.
     Com música,... a lembrar harmonias no final de um ano e o desejo de união e amizade para um outro:

Uma balada de bondade e amizade, que começou por ser uma secular cantiga escocesa (para os que migravam)

        Eis a letra cantada:

Should auld acquaintance be forgot,
and never brought to mind?
Should auld acquaintance be forgot,
and auld lang syne?

For auld lang syne, my dear,
for auld lang syne,
we’ll tak’ a cup of kindness yet,
for auld lang syne.

And there’s a hand, my trusty friend!
that gives a hand to thine!
we’ll tak’ a cup of kindness yet,
for auld lang syne.

      Com outros versos, num grafismo sugestivo de movimento, afirme-se novo ciclo que se (re)abre a cada estação, a cada vivência que vale por isso: por se orientar para a vida.

Movimentos na direção de mais um ciclo (poema VO) 

     Virá o momento em que os "bons velhos tempos" darão lugar a nostalgia, a saudade de um bem passado, inspirando presente e futuro, no que há de bom a lembrar, a viver, a conseguir.

      Um bom 2026 para todos. Com saúde, união, bondade e amizade, na humanidade e no humanismo de um mundo que pode (sempre) ser melhor (se baseado na verdade e na dignificação dos seres).

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

One man show e seus companheiros

    Uma boa forma de terminar o dia: com um concerto no Super Bock Arena (ou o mais familiar Pavilhão Rosa Mota, que alguns ainda lembram como Palácio de Cristal). 

      O espetáculo (porque foi concerto e porque foi fantástico) assumiu-se como festa, um dos da celebração dos vinte anos de carreira de Miguel Araújo. Um outro acontecerá em Lisboa, mas o(s) do Porto é(são) sempre o(s) "da terra" do músico, enquanto homem do Norte, bem próximo da Finisterre (só para lembrar a "Serenata do Norte").
    São vinte anos para muitas canções daquele que é hoje considerado um dos mais reconhecidos e notáveis compositores, guitarristas e intérpretes do panorama musical português. Também um comunicador nato, tanto no registo sério como no da ironia e da comédia, numa multifacetada interação com o público que reage e se compromete com o espetáculo (como, por exemplo, quando é convidado a dançar uns passos de valsa, em fila de cadeiras que nem uma volta permite). Não poderia ser de outra forma, pela qualidade e familiaridade demonstradas: é o cantor, é a banda, são as músicas (com letras partilhadas), é o cenário luminoso e colorido conjugado com os ritmos e as mensagens transmitidas,... É o espetáculo pleno de energia e força convocadas.
        
Três momentos do espetáculo que foi o concerto do Miguel Araújo (montagem fotográfica VO)

      Um balanço de vinte anos não se faz sozinho: subiram ao palco o filho; artistas e amigos de uma vida, como João Só, António Zambujo, Os Quatro e Meia, Rui Veloso, Os Azeitonas, os Kapa (e, entre todos, uns quantos médicos bem vozeados, como se houvesse necessidade de assistência ou acompanhamento do imenso público que vibrava com o repertório musical do artista, dos amigos, dos familiares, com alguma nota de Beatles e de Rolling Stones).
       Fica um breve apontamento vídeo de um concerto fora de série, num fim de outubro que fica para memória de quem experienciou o evento:

Apontamentos de um espetáculo enérgico, com música/músicos de grande qualidade

     Assisti, há uns anos, a um espetáculo transmitido na RTP1 que, pela sua diferença, me captou a atenção e me prendeu ao televisor. Estar no espetáculo, hoje, ao vivo, sem filtros, é um outro envolvimento contagiante, uma outra sinergia, regeneradora das forças que o cansaço de um dia de trabalho parece fazer esgotar. 

     Amanhã, por certo, ficará a sensação de não ter dormido tudo; porém, haverá reforçado motivo para lembrar a excecionalidade de um concerto bem português. (Com agradecimento ao MA, família e amigos - todos tão musicais!).

quinta-feira, 21 de março de 2024

Já foi a 21, agora dizem que é a 20

     Seja o dia que for, é Dia Mundial da Poesia.

   Ontem, alguém me dizia "Amanhã, temos poema". As palavras, ao som de alguma "diretividade" disfarçada de constatação futurologista, ecoaram na mente como dever a cumprir.
   Hoje deu-me para isto, nuns breves minutos de final de tarde, para descomprimir:

Composição poética com Vivaldi a acompanhar

    Deus me valha, mais a generosidade dos leitores. Já da música, é do melhor barroco para a celebração do dia.

     Perdoai-o, Senhor, que ele não sabe o que faz (com tanto que há para fazer)!

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Gaivotas em terra

      Ei-las todas alinhadas ao sabor do vento (que não muda nem para).

    Assim as encontrei, ao sair de casa, plantadas na relva que ladeia o "mamarracho" cá do sítio.

Gaivotas em terra... de Espinho (Foto VO)

     Lá diz o povo: "Gaivotas em terra, tempestade no mar". Sim, este anda muito agitado, altivo, tal como o mundo. Até as aves marinhas procuram repouso à espera de melhores dias. Acrescente-se, contudo, que as expressões idiomáticas e os provérbios são frequentemente redutores e culturalmente relativos. Isto é evidente quando na terra a acalmia é só para alguns e a agitação também não é para todos.
    Não é ocasião para lembrar que "uma gaivota voava, voava" (lá chegará!). É momento para deixar a tempestade amainar. Há tempos assim. Deixá-los passar. Hão de mudar.
     Gostava de ser uma destas gaivotas, em sossego. Ter tempo para reler Gaivotas em Terra, obra que David Mourão-Ferreira produziu na estreia da sua ficção narrativa (1959) e com a qual foi galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa. Há nela uma novela intitulada "E aos costumes disse nada" (adaptada, em 1982, ao cinema como "Sem Sombra de Pecado", por José Fonseca e Costa), com um toque de escrita a lembrar prosa queirosiana, um retrato de época e de um país com muitas "tempestades":

       "E os tempos iam maus: quase toda a Europa estava em guerra, quase todo o mundo estava em guerra. Dos meus camaradas do COM, a maior parte tinha sido destacada para os Açores: alguns outros para lôbregas unidades fronteiriças. Eu - talvez graças a influências do meu pai - fora dos raros privilegiados a ficar numa guarnição de Lisboa." 
in "E aos costumes disse nada", de Gaivotas em Terra, Presença, [1959] 1998

     Neste segmento narrativo convergem várias metáforas: as da família, do quartel, da cidade, da guerra (e da sua linguagem), da terra a conviver com o grotesco, com a máscara, com uma formalidade aparente; a contrastar com a antítese e a duplicidade de comportamentos. Transparece uma sociedade que pouco tem de liberdade, na teia do "ser" e do "parecer", à espera de uma outra "tempestade", mais libertadora e geradora de condições de vida mais dignas.
     Pensamentos e reflexões feitos de uma atualidade que cansa (porque há quem teime em não aprender ou se renda ao que não é dever nem poder).
       
      Não sei se estas são as gaivotas que voam, que aspiram ao alto, à mudança; parece-me que não trazem "o céu de Lisboa". Andam mais perto, ameaçadoras. Talvez em qualquer lugar, a qualquer instante, espalhando excrementos corrosivos que importa limpar de imediato (como a "cegueira", as invejas e outros males do mundo). Com Zeca Afonso, o digo: "não há só gaivotas em terra quando um Homem se põe a pensar".

sábado, 11 de março de 2023

Voltas que duas vidas dão

      Uma balada italiana, no seu melhor. 

    Não sei se é pela língua, se pela musicalidade, se pela interpretação, se por versos que traduzem muito de uma realidade que gostaria de ver contrariada.
    Do ritmo embalatório inicial ao crescendo poderoso do ritmo e da voz, Marco Mengoni vence o festival de San Remo, fazendo caminho para a Eurovisão. Fá-lo pela segunda vez, depois da passagem de uma década, quando representou a Itália com "L'Essenziale". Regressa com "Due Vite":

Representante da Itália no Festival da Eurovisão (2023)

      Duas vidas: a real e a da inconsciência (a lembrar muitos tópicos pessoanos, diria). Letra e melodia numa conjugação perfeita.

      DUE VITE

Siamo i soli svegli in tutto l'universo
E non conosco ancora bene il tuo deserto 
Forse è in un posto del mio cuore dove il sole è sempre spento 
Dove a volte ti perdo, ma se voglio ti prendo 
Siamo fermi in un tempo così, che solleva le strade 
Con il cielo ad un passo da qui, siamo i mostri e le fate 
Dovrei telefonarti, dirti le cose che sento 
Ma ho finito le scuse e non ho più difese 

Siamo un libro sul pavimento in una casa vuota chе sembra la nostra 
Il caffè col limone contro l'hangover, sеmbri una foto mossa 
E ci siamo fottuti ancora una notte fuori un locale 
E meno male

Se questa è l'ultima canzone e poi la luna esploderà 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
E tu non dormi 
E dove sarai? 
Dove vai quando la vita poi esagera 
Tutte le corse, gli schiaffi, gli sbagli che fai 
Quando qualcosa ti agita 
Tanto lo so che tu non dormi, dormi, dormi, dormi, dormi mai 
Che giri fanno due vite 

Siamo i soli svegli in tutto l'universo 
A gridare un po' di rabbia sopra un tetto 
Che nessuno si sente così 
Che nessuno li guarda più i film 
I fiori nella tua camera 
La mia maglia metallica 

Siamo un libro sul pavimento in una casa vuota che sembra la nostra 
Persi tra le persone, quante parole senza mai una risposta 
E ci siamo fottuti ancora una notte fuori un locale 
E meno male 

Se questa è l'ultima canzone e poi la luna esploderà 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
E tu non dormi 
E dove sarai? 
Dove vai quando la vita poi esagera 
Tutte le corse, gli schiaffi, gli sbagli che fai 
Quando qualcosa ti agita 
Tanto lo so che tu non dormi 
Spegni la luce anche se non ti va 
Restiamo al buio avvolti, solo dal suono della voce 
Al di là della follia che balla in tutte le cose 
Due vite guarda che disordine 

Se questa è l'ultima canzone 
(Canzone e poi la luna esploderà) 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
Tanto lo so che tu non dormi, dormi, dormi, dormi, dormi mai 
Che giri fanno due vite
 
     Perdidos entre as pessoas... quando a vida exagera... quando a música não chega... as voltas que duas vidas dão.

      Um candidato à vitória, por certo. Assim seja!

sábado, 18 de dezembro de 2021

Adele no seu melhor

      O concerto em Los Angeles, difundido na RTP2, ontem.

     Um espetáculo construído a partir do exterior do Observatório Griffith, com a cantora a apresentar os seus sucessos e novas melodias do seu mais recente álbum (30) - ingredientes para êxito garantido no Adele - One night only. Transmitido pela CBS a 14 de novembro, chega a Portugal cerca de um mês depois.
     Toda a ambiência criada, numa espécie de concerto íntimo, privado (para amigos, familiares e alguns convidados), num anfiteatro ao ar livre, revelou-se espetacular (ou não se tratasse de um espetáculo), no jogo de luz (com reflexos, projeções e sombras), na localização e na panorâmica, na orquestração, no coro, na composição de todo o evento! Começando com Hello e culminando com Love is a game, esta foi a oportunidade de assistir à voz e interpretação poderosas e deslumbrantes da artista britânica. Entre os temas anunciados como inéditos, mas hoje já tomados como hits, ouviu-se Easy on me ou I Drink Wine. Juntaram-se composições já conhecidas desde o álbum de estreia 19 (caso de Make you feel my love), nomeadamente a que deu voz a um dos filmes de James Bond.

Segmentos do espetáculo Adele - One Night Only

      Um final de tarde que deu em pôr-do-sol, noite de cores e luzes, mais uma estrela que encantou o público que assistia ao show. Um programa entusiasmante (o que seria se fosse ao vivo em direto)!
       
      O programa televisivo faz-se acompanhar de alguns segmentos de entrevista exclusiva, conduzida por Oprah Winfrey, na qual Adele deu a conhecer alguns aspetos do seu percurso de vida pessoal e profissional.

domingo, 14 de novembro de 2021

Porto Sentido 'cum bozes da naçõue"

      Hoje a manhã começou com uma canção familiar.

     Foi a vez de ouvir um "Porto Sentido", essa canção-hino de Carlos Tê e Rui Veloso (surgida no álbum Rui Veloso, de 1986), numa versão diferente, com várias vozes nacionais. Uma homenagem (mais do que merecida) da Rádio Comercial, ao jeito do que já fez para Carlos do Carmo, agora pelos quarenta anos de carreira de Rui Veloso, esse "Chico Fininho do rock português, cantor e intérprete de mão cheia que também é Manuel Gaudêncio (conforme o ditam os nomes do meio).

Versão de 'Porto Sentido', em homenagem aos 40 anos de carreira de Rui Veloso

      É dessa letra-hino, cantada por populares 'de cor e salteado', que se faz esta versão tão nacional e tão emotiva. O 'Porto Sentido' - tanto na leitura da cidade que sente orgulho (pelo que é) como na do "milhafre ferido na asa" - é a expressão de uma invicta, de uma resistente, de uma urbe que "se estende até ao mar" e se faz mundo, apesar dessa posição segunda a que foi votada.

    PORTO SENTIDO

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende até ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

     Assim se projeta a "capital do Nuórte", com cantores nacionais (de vários géneros e registos) dando-lhe voz.

    Uma "artista" fecha a versão: a mãe do cantor, a Srª. D. Emília Gaudêncio, que se "anuncia", com os seus 97 anos, no Coliseu.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Cantigas... com música (pois está claro!)

      É o que pode ser feito para não se ficar pela letra.

     Quando tanto se fala de cantigas de amor e de amigo e se fica pela letra (poema), nada como apresentar algumas propostas cantadas, para que a noção da poesia enquanto texto e música seja validada.
   Com um breve registo fílmico, compõe-se a exemplificação de quatro trechos musicais, com sonoridades medievas:

Quatro cantigas da lírica trovadoresca (de amor e de amigo)

     Solicita-se a audição na base de algumas pré-questões:
     (i) identificação da cantiga (pelo verso inicial) e do autor;
     (ii) classificação quanto ao género;
     (iii) indicação sumária do assunto tratado;
   (iv) caracterização da melodia escutada (recorrendo a adjetivos sugestivos, a construções do tipo 'Esta música parece-me X', ou outra);
   (v) sentimentos vivenciados pelos alunos aquando da audição e devida justificação.

     Tomadas as notas devidas, conduz-se o resultado para a construção de uma apreciação crítica (isto depois de se ter exemplificado este género textual, com a leitura de um exemplo e a sistematização dos aspetos mais relevantes).
      Passa-se do modelo à planificação de um texto a produzir: um parágrafo com a descrição objetiva do objeto (a atividade de escuta das melodias abordadas em i-iii); outro com o comentário crítico (associado às tarefas iv-v); um final, numa espécie de balanço acerca da atividade dinamizada.
      Segue-se a textualização (a ocorrer na modalidade de oficina; a acontecer em tempo complementar, com a definição de um intervalo de tempo razoável para produção e posterior entrega).
       E assim se dinamiza um trabalho que pode ser intitulado "Notas medievais em pleno ano 2021" ou "Aura medieval em plena aula do século XXI".

        No mínimo, ouviram-se músicas para as tão faladas "cantigas", que vinham só com texto.

sábado, 16 de outubro de 2021

Se eu quiser falar com Deus

       Um cenário, uma hipótese cheia de condições.

       Assim o compôs Gilberto Gil, nessa melodia que figura em "Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)", de 1981, mas que, já um ano antes, era apresentada já num programa televisivo brasileiro: 'Fantástico':

Excerto vídeo relativo ao programa televisivo "Fantástico"

SE EU QUISER FALAR COM DEUS

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

    Com uma carreira musical iniciada nos finais dos anos cinquenta (1959), o cantor, compositor, instrumentista, e também político brasileiro (foi ministro da Cultura no seu país, entre 2003 e 2008), é reconhecido pela sua contribuição na música popular brasileira, contando já na sua carreira prémios como os "Grammy Awards - Best Contemporary World Music Album" (1998, com o disco 'Eletracústico') e o de "Best World Music Album" (2005, com "Quanta Live"), mais o "Grammy Latino" (em 2001 e 2002, pelas raízes criadas na música brasileira).

      Em 1999, foi nomeado "Artista pela Paz", pela UNESCO - motivo mais do que justo para ser uma referência mundial.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Uma questão de imaginar!

        Circulam pelo Facebook imagens inspiradoras.

       Uma delas tem o título da canção de John Lennon, mais a imagem de rosto deste músico, com uma "anomalia narina". Há quem diga ser obra desse famoso desconhecido contemporâneo - Banksy -, mas nada tem sido provado nesse sentido (antes pelo contrário).

Arte de rua, lembrando a utopia (imagem colhida do Facebook: Imagine | Ha! Tea 'n' Danger (wordpress.com))

       Seja como for, é obra de parede, de arte urbana, bem ajustada aos nossos tempos: um hino a uma utopia, sempre necessária ao ser humano. Hoje, por razões óbvias, a imaginação está para um mundo sem pandemia:

 Imagine all the people
Living life in peace

...

Imagine all the people
Sharing all the world

        As palavras de Lennon, na sua voz ou na de Chris Martin, são um elixir para os dias tristes dos últimos tempos.

        Imagina o dia em que nos veremos livres da Covid-19!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

"Não há guitarras nem cantar de amigo..."

      Não começa da melhor forma o ano, para a música portuguesa (e do mundo).

    Anunciada a morte de Carlos do Carmo, não se pode dizer que seja uma surpresa, dada toda a preparação da despedida artística em novembro passado, em concertos no Porto e em Lisboa. Feito o agradecimento público a quem o acompanhou como cantor, chegava o tempo de um afastamento e uma preparação para a hora que hoje se cumpriu. 58 anos de carreira sóbria, rigorosa e consolidada; 81 de idade são sinais de um percurso humano cuja previsibilidade pode ser confirmada, mas nunca desejada.
    Dizem que foi o renovador do fado. Fosse este último interpretado mais ou menos como canção, teve sempre a sonoridade rítmica, vocal e instrumental típica que identificou Carlos do Carmo como fadista de renome. Também com a sua ação persistente, em muito contribuiu para que o fado conquistasse a categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO (numa declaração aprovada em novembro de 2011, no VI Comité Intergovernamental, em Bali, na Indonésia).
    Aqui fica um registo do que foram as minhas primeiras memórias para esse grande intérprete nacional (e não só). Foi a experiência de um Festival da Canção Português, todo cantado por Carlos do Carmo. Algumas das cantigas concorrentes, não tendo vencido, acabaram por se tornar músicas para todo o tempo, em várias versões (o caso de "No Teu Poema", "Estrela da Tarde"). A vencedora, "Uma Flor de Verde Pinho", contava com a participação de Manuel Alegre (autor da letra) e José Niza (composição musical), versando já sentidos, símbolos e referências da cultura, história e literatura portuguesas (com as "flores de verde pino", de D. Dinis; os amores de Pedro e Inês; o "fogo amor" camoniano; o mar da diáspora nacional):

Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival RTP da Canção)

UMA FLOR DE VERDE PINHO

Eu podia chamar-te pátria minha 
Dar-te o mais lindo nome português 
Podia dar-te um nome de rainha 
Que este amor é de Pedro por Inês. 

Mas não há forma não há verso não há leito 
Para este fogo amor para este rio. 
Como dizer um coração fora do peito? 
Meu amor transbordou. E eu sem navio. 

Gostar de ti é um poema que não digo 
Que não há taça amor para este vinho 
Não há guitarras nem cantar de amigo 
Não há flor, não há flor de verde pinho. 

Não há barco nem trigo, não há trevo 
Não há palavras para dizer esta canção. 
Gostar de ti é um poema que não escrevo. 
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

       Assim se representou Portugal na Eurovisão, em Haia (Holanda), em 1976:

      Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival da Eurovisão, em Haia)

     Recentemente galardoado com o Grammy Latino de Carreira (2014), a Rádio Comercial prestou-lhe uma merecidíssima homenagem, convocando várias vozes nacionais de diferentes gerações para cantar um dos seus fados mais populares, dedicado à cidade que o viu nascer e morrer: "Lisboa, menina e moça".

      Homenagem a Carlos do Carmo (numa feliz iniciativa da Rádio Comercial)

     À hora da morte, sublinhados os valores profissionais e humanos, fica o sentido de uma grande perda coletiva perante um caminho artístico e humano bem cumpridos e largamente reconhecidos.
     

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Tão a (des)propósito!

        Há coisas que, de tão sérias, acabam por se tornar ridículas. Alguém assim as faz.

      Com a crescente taxa de infetados do Covid-19, tornam-se necessárias algumas medidas que façam parar a proliferação deste vírus que se alastra, afeta, infeta, mata, sem que se consiga perceber por onde anda. Daí, contudo, a considerar que uma aplicação eletrónica pode ser a panaceia, nem ao Diabo lembra (particularmente quando a aplicação só é ativável em smartphones, nem para todos acessível, ou quando ela depende dos registos nela reportados).
      Anunciá-la como medida fundamental é, no mínimo, questionável; no máximo, discutível e inútil. Diria intolerável, quando de concretização prática não generalizável ou controlável.
      Começo a acreditar na razão de uma letra de canção:

Uma letra de canção "futurista" com uma máscara já anunciada no cantor (imagem colhida do Facebook)

      Conan Osíris, foste um visionário!
    Tudo porque o Stayaway Covid é encarado como uma solução estruturante para a questão. Enfim! (Entre os milhões que vêm da Europa, deve haver verba para entregar a cada português um smartphone compatível com a decisão governamental).

      Não sendo assim, é bom que se saiba que há quem não tenha comida para subsistir quanto mais para ter um smartphone. Há prioridades de ação human(itári)a que não podem passar por decisões segregadoras dos mais vulneráveis. Conceitos e decisões de democracia pouco sociais, viáveis ou sustentáveis.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Um dueto com "olhos de Deus"

        Uma versão musical que, em dueto, resulta numa peça singular.

        A letra de Pedro Abrunhosa e o canto de Ana Moura são combinação perfeita para um fado-canção que ganha também com a interpretação do compositor. Assim se apresentou televisivamente (na TVI, primeiro, na RTP-1, hoje, em "A Casa d'Amália") esta composição tão genuína nas sonoridades e no texto:

Versão em dueto de "Tens os olhos de Deus" 
(emissão televisiva da TVI)

TENS OS OLHOS DE DEUS

Tens os olhos de Deus
E os teus lábios nos meus
São duas pétalas vivas
E os abraços que dás
Rasgos de luz e de paz
Num céu de asas feridas
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Dos teus olhos de Deus

Num perpétuo adeus
Azuis de sol e de lágrimas
Dizes: fica comigo
És o meu porto de abrigo
E a despedida uma lâmina
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Embarca em mim

Que o tempo é curto
Lá vem a noite
Faz-te mais perto
Amarra assim
O vento ao corpo
Embarca em mim
Que o tempo é curto
Embarca em mim

Tens os olhos de Deus

E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento
Que cada beijo trouxer
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Nos teus olhos de Deus

Habitam astros e céus
Foguetes rosa e carmim
Rodas na festa da aldeia
Palpitam sinos na veia
Cantam ao longe que sim
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Vídeo oficial do original (no álbum "Moura", de 2015)

         O cruzamento com a boa música portuguesa tem acontecido a diferentes tempos, mas com zonas comuns de reconhecimento. A voz de Ana Moura tem sido uma das constantes.

          Do álbum "Moura" (o sexto, da fadista - 2015) vem o original. Cinco anos depois, está aí umas das composições, com novas interpretações.

sábado, 9 de maio de 2020

"Enquanto houver ventos e mar"

       Também podia ser "Enquanto houver estrada para andar".

       Nestes tempos, há sempre um momento para dar atenção a belíssimas letras de canção.
       E quando delas se fazem ótimas interpretações, repete-se a audição.

Jorge Palma ao vivo - Coliseu dos Recreios (20.11.2007)

A GENTE VAI CONTINUAR

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso 
o que lá vai já deu o que tinha a dar 
quem ganhou, ganhou e usou-se disso 
quem perdeu há-de ter mais cartas para dar 
e enquanto alguns fazem figura 
outros sucumbem à batota 
chega aonde tu quiseres 
mas goza bem a tua rota 

Enquanto houver estrada para andar 
a gente vai continuar 
enquanto houver estrada para andar 
enquanto houver ventos e mar 
a gente não vai parar 
enquanto houver ventos e mar 

Todos nós pagamos por tudo o que usamos 
o sistema é antigo e não poupa ninguém 
somos todos escravos do que precisamos 
reduz as necessidades se queres passar bem 
que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo 
e a liberdade é uma maluca 
que sabe quanto vale um beijo 

Jorge Palma (letra e música)

Versão de Mafalda Veiga, acompanhada ao piano por Jorge Palma.

       Esta é uma canção de momento, de poesia a responder à realidade; a ensinar-nos a sobreviver.

       Isso mesmo - entre o poder ser e o ser fica o título: "A gente vai continuar".

sábado, 25 de abril de 2020

Celebrar a liberdade (ansiando pela libertação)

       Há sempre razões para celebrar a liberdade surgida da ditadura.

       Para que não se esqueça o passado mal vivido e se tenha presente as conquistas conseguidas, faz sentido celebrar este dia, aquele que "acordou" sem o peso dos grilhões do autoritarismo e do despotismo; do controlo e do poder ditatoriais que não dão felicidade nem permitem afirmar a dignidade humana; do medo da perseguição.
       Hoje, sem a liberdade de movimentos desejada, persiste a liberdade da democracia. Confinados, sim, mas livres do jugo político que alguma ideologia possa representar - aspirando à libertação, porém, com a liberdade garantida.
       Este é o 25 de abril dos tempos da pandemia. Ainda assim, 25 de abril: aquele que precisou de vítimas, de heróis, de canções e de poemas "de guerra" em "vozes de rebate" (com o diria Antero de Quental, em "A um Poeta"); de luta contra a resignação; de espírito de resistência.
      A poesia e o canto, comprometidos com a revolução (seja esta qual for), fazem ainda sentido. Hoje também é preciso "acordar" as mentalidades para a mudança de comportamentos; para os cuidados que trarão o desconfinamento necessário a uma vida com mais cor, dando-nos maior liberdade. 
   Por isso, relembro "Acordai", canção heroica, um dos hinos nacionais de resistência, que contribuíram para exaltar a liberdade e motivar quem lutava contra o salazarismo. Inicialmente publicada em 1946, foi silenciada pela Censura; contudo, muitos resistentes a divulgaram, de forma subreptícia, em encontros clandestinos ou em países de exílio. Hoje partilho-a sem "a dor / dos silêncios vis" de outrora; antes com a distância dos que, limitados, não são servis:

ACORDAI

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

A voz de Teresa Salgueiro 
com os versos de José Gomes Ferreira e a música de Fernando Lopes Graça

       Acordai ou a cor dai a este dia (sem frenesins), pelo que foi, pelo que é e pelo que poderá e deverá continuar a ser, sem que nada acinzente a democracia.

       Outro dia poderá ser mais feliz, mas tem este a liberdade há quarenta e seis anos conquistada.
        

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Rumo ao Sul

    Soa a viagem. É fado numa das maiores vozes da atualidade.

    Foi na sequência do programa televisivo "Em Casa d' Amália" (RTP 1) - uma tertúlia dedicada ao grande nome nacional do fado - que tive a oportunidade de reencontrar a melodia em causa, na voz de Ana Moura.

Vídeo oficial de "Rumo ao Sul" (2009)

                     RUMO AO SUL


Estou na estrada de volta p'ra onde eu já não quero ir
No escritório esta tarde foi tudo p'ra me deprimir
A buzina apressada de um carro que me quer passar
Na portagem um rosto indiferente diz-me p'ra pagar

Rumo ao sul, sem amor, devagar
O meu sonho faz-se ao mar
Sem amor, rumo ao sul
O meu céu perdeu o azul

Volto as costas às luzes brilhantes da cidade-mãe
Sou a sombra impiedosa do apego a quem já não se tem
Sei que ao fim desta estrada há uma casa que suponho ter
E a vontade indomável que teima em me querer perder

     Editado no álbum "Leva-me aos fados" (2009), trata-se de uma composição do também fadista Jorge Fernando. É letra de desânimos e cansaços; também de perdas, de fugas e de liberdades a conquistar.

      Dois versos tão próximos de mim: "O meu sonho faz-se ao mar" e "O meu céu perdeu o azul".