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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Podia ser melhor, para ser "bom".

      Isto de representar sílabas não é fácil.

      Em termos prosódicos, são analisados fenómenos fonéticos e fonológicos envolvendo unidades maiores do que os fonemas, como o caso da sílaba, da palavra ou da frase. No primeiro caso, está em causa uma unidade estruturada e organizada que agrupa sons na fronteira da palavra, podendo incluir um ou mais, como, por exemplo, nas sílabas das palavras [a][pren][der] ou [en][si][nar] [por][tu][guês]. 
      Os sons integrados numa sílaba podem ocorrer no seu ataque  - configurados pelas consoante(s) à esquerda do núcleo vocálico -, no núcleo vocálico (vogal ou ditongo) ou na coda da sílaba - consoante à direita do núcleo.
    Ora, no início da rubrica "Bom Português" de hoje, quando se procura verificar qual a sílaba destacada na palavra "tenhamos" (caso interessante, porque, definitivamente, resulta na leitura / na produção oral devida da palavra, quanto ao acento tónico), eis que surge o que não deve:

Há sílabas com amarelo a mais (Foto VO, a partir de emissão televisiva da RTP1)

      Leia-se convenientemente a segunda hipótese como a correta, assumindo a sílaba tónica e a natureza grave da palavra (e não a forma de a tornar esdrúxula, como muitos falantes tendem a oralizar). Até aqui tudo bem.
     O que não está correto é assumir [ten] no primeiro cenário como sílaba, como se de uma nasal se tratasse. A divisão silábica da palavra é [te][nha][mos], pelo que a primeira sílaba à esquerda não está convenientemente representada, na sua configuração gráfica. O 'n', indevidamente assinalado, é parte constituinte de um dígrafo (duas letras a representar um só som) que está para o ataque da sílaba medial [nha], e não para um som de coda da inicial.

        Quando de "Bom Português" se trata, tem de ser melhor. Haja esperança! E tudo faÇAmos para que consiGAmos, oralmente, produzir discursos corretos. TeNHAmos fé!

segunda-feira, 9 de março de 2026

A liberdade no (uso do) acento gráfico

     A observação surgiu perante a estranheza do uso.

     É verdade que é mais comum ler-se a palavra sem acento gráfico. Por isso, a mensagem surgiu:

     A: Olá, Vítor!
         De quem me lembrarei, sempre que me deparar com algo como o que está abaixo?
       Guia Geral de Exames 2026: «(...) obrigatoriamente, de atestado médico de incapacidade multiúso (...)»
          É por isso que, por muitos olhos que passem no que escrevemos, nunca são demasiados.

     Tive de responder a desfazer um pouco a certeza nessa estranheza de um 'multiúso', que faz todo o sentido existir, atendendo às convenções ortográficas e de acentuação gráfica contemporâneas.

     B: Bom dia.
         As convenções ortográficas, por vezes, são complicadas. Este é um dos casos.
      Ainda que o uso comum permita a utilização consensualizada da grafia 'multiuso' (com o elemento latino 'multi' e a palavra 'uso' aglutinados), o certo é que, na escrita, há uma regra de acentuação gráfica a determinar que duas vogais juntas em situação de hiato (lidas não como ditongo, numa só emissão de som, mas como vogais diferenciadas foneticamente) fazem com que 'u' ou 'i' sejam graficamente acentuados. É o que acontece, por exemplo, com 'reúne', 'saúde', 'suíça', 'país', 'baú' entre outras palavras.
       Assim, convivem as escritas 'multiuso' e 'multiúso' na língua portuguesa: a primeira, na consciência morfológica e etimológica da (re)composição de um elemento latino com uma palavra atual; a segunda, na ativação das convenções de ortografia e acentuação gráfica. 
     Importa, portanto, que a escrita de uma ou de outra formas surjam coerente e consistentemente nos textos.

Muito uso com ou sem acento - um caso de liberdade na acentuação gráfica (montagem VO)

     Pronto: lá terão que se lembrar de mim na complexidade das relações fonético-grafológicas da nossa língua em combinação com a perspetiva morfológica e algum toque de história da língua e etimologia em deriva.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

De tirar o "chapéu"

     Literalmente; sem mais.

    Dizem os franceses que o acento circunflexo semelha um "petit chapeau"; os portugueses referem-se a ele como "chapeuzinho". De uma forma ou de outra, há que o retirar, quando sinaliza uma sílaba que não é a tónica. Se 'presidencial' não tem [den] como a sílaba mais forte, para quê o acento gráfico sinalizador de sílaba tónica com som fechado?

Presidente e presidencial, sem; só presidência com (com agradecimento da foto à AC)

    Não há que confundir 'presidência' com 'presidencial'. Embora da mesma família de palavras (questão morfológica), fonicamente são termos silabicamente bem distintos quanto à intensidade: a primeira é grave; a segunda, como todas as palavras terminadas em 'l', é aguda. Neste último caso, assim o ditam as regras gramaticais, não há razão para acento gráfico (ex.: mal, fatal, crucial, essencial, fundamental).  

    Ao segundo dia do ano, não me interessa se são oito, onze ou até catorze: os candidatos são presidenciais (sem acento, por certo). Votem no que vos aprouver, sempre tirando o "chapéu" ao que vos parecer mais presidencial (por respeito ou por gramática).

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Canhão... apontado ao erro.

       Guerra declarada, para que se escreva bem.

      Casos em que a fonética não permite percecionar bem a segmentação da palavra / expressão não permitem validar o desconhecimento de como se deve processar a escrita.
        A sistemática dificuldade em distinguir ' afim' de 'a fim (de)' é questão paradigmática. Entre o que é 'afim' (semelhante ou com afinidade) e 'a fim de' (expressão / conector de finalidade, sinónimo de 'com o objetivo / propósito de') nada há de parecido (ou afim) senão a sonoridade (uma aproximação homofónica que não resulta em homografia). 
      A fim de (ou para) se escrever bem, reconheça-se a segmentação gráfica de 'a fim', bem separada, nem sempre reconhecida na fluência da realização oral da língua. Fica ainda a nota seguinte: o adjetivo 'afim' tipicamente seleciona a preposição 'a' (ser afim a / idêntico a / semelhante a), enquanto a expressão conectiva integra 'de' (a fim de / com a finalidade de / com o propósito de / com o objetivo de). 
     Outro exemplo crítico é o exemplificado no excerto de um aviso de condomínio, no qual se anuncia um novo canhão na porta de entrada e, consequentemente, se informa a entrega das chaves novas (que, coincidentemente, também são novas chaves, porque diferentes):

Um negrito mais separado do que devia; um 'a partir' tão junto que até irrita (Foto VO)

        A confusão entre 'aparte' (fazer um comentário, um aparte) e 'à parte' (colocar alguém ou algo à parte, separado) não chegava! Com o que se dá a ler, junta-se o 'a partir de' (a indicar o ponto de que se parte, o ponto inicial de um estado ou de uma situação).
        Ler o anúncio logo de manhã, fez-me colocar imediatamente uma barra oblíqua entre os termos da expressão, separando o que ninguém (nem Deus) podia ter unido:

Qual é a diferença, qual é ela? Não é só a cor, não! 

       Um canhão novo, chaves novas (não completamente igual a 'novas chaves', mas, enfim...) e um erro que importa evitar, a bem da escrita com correção.

       Não fosse eu ficar à porta, apetecia-me não ir ao escritório onde alguém escreveu o que não devia.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Qual satisfação?!

     Isto de confundir nomes com formas verbais definitivamente não combina com educação.

    Ontem, num programa televisivo em que se discutia os motivos da greve de professores e se avançavam os argumentos mais diversificados, segundo as perspetivas em discussão, houve aquele momento sem qualquer hipótese de demonstrar "carinho" (para citar apenas quem se pronunciou em tais termos):

Uma imagem a fazer perder o sentido e a escrita de uma palavra (com agradecimento à AMT)

   Sem cara nem identificação, lá apareceu um rodapé confundindo o pretendido 'satisfaçam' (forma verbal no presente do conjuntivo) com a indesejada 'satisfação' (nome). No que toca ao domínio da língua portuguesa, não há comunidade educativa que veja as necessidades educativas satisfeitas, desconhecendo-se a ortografia (distintiva na terminação em 'am' e 'ão'), a fonética (tão marcadamente contrastiva entre sílabas tónicas e as que não o são) e a morfologia.
     É ou não é triste ler o que não se deve? Nem o programa conduzido por Carlos Daniel o merece nem Mariana Carvalho (citada) é respeitada no que diz quando se dá a ler tamanha incorreção. 
      Umas aulas de gramática impõem-se em qualquer curso de comunicação, na rádio ou na televisão.

     Uma desgraça nunca vem só, e logo num canal de televisão (RTP1) que se põe a jeito, perdendo a imagem e a razão (e assim prossegue a impunidade de quem escreve para a nação)!

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Escrita de latrina, melhor, de mictório

     Qualquer uma não é das melhores, garantidamente (por mais que não se saiba o que é).

     Quando menos se espera, encontra-se o erro em local que, não sendo dos mais agradáveis, não deixa de ser necessário frequentar pela condição humana que nos aproxima. Entrando num WC público (restaurante), é possível ler o seguinte aviso:

Isso, isso... não reparem (n)o serviço! (Foto VO)

     Cumprido o alerta, apetece dizer que o escrito não anda longe da natureza excrementícia do local, não fosse este último mais para mictório ou urinol. Caso para dizer que se assemelha a cloaca atirada aos olhos, embora o sítio se identificasse mais com o popularmente designado mijarete (do que com a retrete, só para manter alguma rima).
     Para quem escreveu o texto, parece ser difícil reconhecer a típica regra de que a letra 's' entre vogais se lê como [z]. Para quem lê, não obstante o entendimento da mensagem, não há contemplação possível com um serviÇO mal cumprido, em espaÇO que não afasta o embaraÇO, e algum cansaÇO, por ver aquilo por que não tenho nenhum apreÇO.

      Até gostava de, à sexta-feira, dizer que estava "Fora de serviÇo". Todavia, não me deixam!

domingo, 19 de junho de 2022

Fatiga, fadiga... que cansaço!

       Tempos de canseira.

      Perguntavam-me há dias se o nome associado a quem anda fatigado é fadiga ou fatiga. Respondo que são os dois (e para quem anda cansado é questão que já pouco interessa). Digam ou escrevam como quiserem.
        Claro que o mais habitual é falar ou ler sobre "FADIGA" (mesmo que o adjetivo esteja mais para 't' do que para 'd' - fatigado). Dizer-se 'fadigado' não é impossível, até pela derivação que decorre de 'fadiga' (nome) e 'fadigar' (verbo), isto é, causar ou sentir fadiga ou cansaço; logo, o 'fadigado' torna-se mais do que compreensível.
          Fatigado está mais para o sentido etimológico, que atesta o verbo latino 'fatigare' e o nome 'fatigo'.
     Entre 't' ou 'd' direi que o primeiro está mais para a origem; 'd' para a variação evolutiva, nomeadamente a sonorização que se evidencia na posição intervocálica de [t], com o som surdo lábiodental inicial a ganhar o traço sonoro por influência vocálica. Foi já o que analogamente sucedeu com totu(m) > todopotes > podes, na passagem do latim para o português, só para mencionar exemplos nos quais, também e pelo mesmo motivo, [t] evoluiu para [d]. 
         E, assim, 'fatiga' chega a 'fadiga'. Fica a primeira pela via erudita; vem a segunda por via popular. Reconhecida esta última, se ficarmos por aquela também não está mal. Explica-se, portanto, a possibilidade do apontamento lido nos destaques noticiosos da Microsoft Edge:

Colhido do Microsoft Edge, em "Notícias ao Minuto"

         Com ou sem Boris Johnson, é um dado que a guerra Rússia-Ucrânia já cansa. Bastariam Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky para nos atormentar a mente com o conflito que a todos aflige. Vem também o primeiro ministro britânico contribuir, com a citação feita, para o desalento, afadigando o espírito com sinais dos perigos que não dão esperança.

      Fadiga ou fatiga, o tempo é declaradamente, e por vários motivos, de cansaços (lembrando Campos e "Sobretudo cansaço").

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Novo prato, nova escrita, ou o alentejano cada vez mais lento?

       Isto de se escrever conforme a fonética tem muito que se lhe diga.

     Quando um amigo me propõe uma foto com novo menu, deparo com uma escrita curiosa de prato já conhecido:

Um prato do "Lentejo" (com o agradecimento ao MM)

         Não sei se "lentejana" é denominação topónima ou variação para uma característica que se diz ser a lentidão dos alentejanos. Sei é que se fez uma longa crase somada à que já existia: à contração 'à' (carne a uma maneira > a maneira alentejana) acresceu o 'a' de 'alentejana', colado à contração e, entretanto, separado da palavra que lhe diz respeito. Uma crase em duplicado, para não dar aférese!

     Pena é terem-se esquecido da marca gráfica da contração / crase: o acento grave. É o desconcerto da escrita dos tempos. "Hoje" acho que me fico pelo peixe!


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Coisas do oral (ou de homofonias nos discursos)

      Porque nem sempre o que se diz é o imediatamente entendido.

     Aquele momento em que o enfermeiro pergunta quando aconteceu a última refeição e, com a minha resposta, ele põe aquele ar de quem começa a fazer contas.
    O momento do diálogo aconteceu cerca das 9 horas da manhã. Respondi que tinha bebido o último copo de água à hora e meia da manhã. O olhar e o ato de registo parados eram a razão do cálculo a processar-se: "Ora... seis, sete horas, certo? Foi quando bebeu."
   Nego, mas insisto: "À hora e meia, mesmo. A partir daí não ingeri mais nada".
    Veio, então, o "Ah! Ótimo. Foi à hora e meia do relógio".
    Confirmei. Agora, sim, o tempo certo! Não tinha bebido água há hora e meia, mas sim à hora e meia
   Entre a expressão de duração / intervalo de tempo e a da hora precisa do relógio, a diferença é substancial. Que o digam o enfermeiro e a anestesista, mais o paciente; na oralidade, a distinção não se faz. 

     Valha a ortografia para marcar diferenças semânticas e sentidos pragmáticos que viabilizem uma intervenção cirúrgica. Um dia para a história (não da linguística, mas da pessoa operada).

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ler o que não está escrito

     Volto ao Joker, mas, desta feita, nada a dizer do locutor ou da produção do programa.

     A questão é mesmo com o concorrente. Ao ler o que estava escrito na questão da ronda bónus, fê-lo erradamente. Leu conforme habitualmente se fala... mal.

Imagem da emissão de hoje do 'Joker', na RTP1 (Foto VO)

     Lá está o acento gráfico (agudo) na escrita da palavra; lá se identifica (e bem) a palavra como esdrúxula (ou proparoxítona). Ou seja, deve ler-se a palavra com incidência na sílaba destacada: diÓSpiro. Não como o concorrente a disse: diósPIro. É verdade que o comum dos falantes assim o faz (erradamente); até eu o fazia, por vezes, quando ia à feira e comprava nos agricultores da terra ou nas vendedoras de fruta. Se não o fizesse, ainda corria o risco de me dizerem "Olha, olha... o professor que não sabe falar". Eu até acho que sei, mas, se falasse como devia ser, ainda me atiravam com um diÓSpiro à cara.
    Há dias, cruzando-me com um ex-aluno na rua, dizia-me ele que ainda se lembra da aula em que aprendeu, no 12º ano, a dizer diÓSpiro. Se tiver visto o programa televisivo, também terá reparado como a escrita (cara) não bateu com a leitura (careta).

     Talvez seja uma questão de deriva da língua, da mudança que está em curso. Enquanto isso, vou à cozinha buscar e comer um diÓSpiro. Em pleno outono... o tempo dele.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Não há descanso que aguente!

     Terminado mais um ciclo de formação, diria que é tempo do descanso do(s) guerreiro(s).

     Chegar a casa e descansar são do melhor que há quando se cumpre mais um objetivo e se fecha um ciclo de formação, um projeto no qual muitas energias foram investidas para que tudo corresse pelo melhor. E assim parece ter sido, a julgar pelas reações, pelos trabalhos apresentados, pelas solicitações feitas.
        Numa sessão em que também se focou o relevo a dar ao discurso pedagógico - nomeadamente, na formulação de instruções precisas para a revisão textual que se impõe como uma das fases implicadas na pedagogia da escrita -, acaba por ser uma infeliz coincidência ouvir / ler na televisão algo que, por mais que se perceba, não deixa de ser uma questão mal construída para um concurso televisivo destinado a pessoas inteligentes / argutas / astutas. Fosse eu e diria que sabia o que queriam (sem me querer colocar garantidamente na posição destas últimas), mesmo que a pergunta não fosse a devida. Não corresponde, definitivamente, ao que é pretendido. E lá se foi o sossego!
    Contra a imagem não há argumentos (até porque a primeira resulta também em facto indesmentível, para quem quiser aceder ao programa difundido):

Imagem do programa "Joker", difundido na RTP1, pelas 21:45 
(agradecimento da foto à ARS)

        A resposta do concorrente também pode não ser feliz (perguntando o que tal será e associando 'hiato' a um buraco [o que até podia ser, num sentido de espaço / intervalo entre duas gerações, por exemplo], a uma folha [estranho!] e a uma janela [talvez... entre o exterior e o interior]); porém, quem, num concurso, faz as perguntas tem de assumir algum rigor e qualidade no que questiona, de forma a que não haja ruído face à resposta intendida. E pergunta o locutor Vasco Palmeirim: "E que hiato é este?" Na verdade pode haver mais do que um, mas o que se quer está na palavra; não é a palavra. As palavras não se classificam como hiatos ou não-hiatos. Elas contêm ou não hiatos, ou seja, e respetivamente, sequências de vogais que constituem sílabas distintas ou sequências de vogais que resultam em ditongos. Há hiato quando duas vogais se pronunciam em sílabas diferentes (como em 'raiz' - [ra][iz], 'país' - [pa][ís], 'ainda' - [a][in][da], por oposição a 'pais' [pais], 'leis' [leis] ou 'água' [á][gua]).
     Deste modo, tinha a interrogação de respeitar o seguinte enunciado: "Qual destas palavras apresenta / contém / é constituída por um hiato?"

     Uma coisa é ser; outra é ter ou ser constituída por. Um exemplo (mais um) de como os concursos mereciam alguma regulação linguística antes de irem "para o ar". Este "joker" merecia que saltasse um "palhaço" entre o concorrente e o apresentador, com riso histriónico a dizer "Asneira! Burrice! Asnice!" ou (por oposição à habitual 'resposta corretíssima')"Pergunta incorretíssima!"

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Abraço (ou beijo) paternal

     Apetece-me dizer que "responde o pai".

     Depois de ler o apontamento à mãe, por que motivo não pode ser o pai a responder?

     
Apontamento no Facebook, logo após o exame de Português - 12º ano

    Filho(a), na macroestrutura textual (numa dimensão de conteúdo, de dados informacionais e de articulação lógica) , até podes tirar boa nota; porém, em termos microestruturais (particularmente os ortográficos), não te auguro um bom futuro. Até já andas a comer letras (Coitado do Fernando)! Pode ser que tires positiva! A não ser que as orientações de correção assumam que a ortografia não deve ser penalizada. Já aconteceu com algumas provas nacionais (as de aferição, por exemplo). Para teu bem, pode ser que venha a generalizar-se a outras situações de avaliação. Tem fé!
     Parabéns pela vírgula do vocativo (de que muita gente se esquece); pela escrita correta de 'mãe', 'o', 'de', 'Saiu' (com a maiúscula devida), 'Saramago' (com outra maiúscula adequada e necessária), 'que, 'ter' e 'vou' (apesar de ainda fazeres confusão com 'vô'). Até já gosto que, em vez de 'bué da fixe' tenhas utilizado 'bue da ben' (não é o desejável, mas já revela alguma progressão).
     Há frases curtas (bem melhores do que os extensíssimos exemplos de respostas só com uma frase em 10 linhas e um só ponto final, para quem se lembra dele). 
     És capaz de melhor. Pensamento positivo. 
    Nada como acreditar no melhor dos mundos, particularmente aquele em que a escrita venha a ser fonética! 
     Para já, não é.
     Abç.

     A rir se corrigem os costumes! (Não sei quem disse isto, mas tinha toda a razão!)
    

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Depois das eleições

      Findo o ato eleitoral para o Parlamento Europeu...

      Entre palmas, palminhas, abraços, sorrisos e beijinhos, temo a evolução do que nisto vai dar, mesmo quando há colorido a mais. E a julgar por alguns locais de voto, nem sei que escreva!


(Fotografia de Cristina Carvalho, junto a uma secção de voto lisboeta)

 Circula pelos 'posts' do Facebook (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=217738442528374&set=a.109575993344620&type=3&theater); dizem que o registo fotográfico foi feito lá para os lados da capital. No mínimo, anedótico; no máximo, um aumentativo ortograficamente mal resolvido (mas lá que o grafema 'x' pode ser lido como [ks], não há dúvida nenhuma).
       Nem assim se contraria a abstenção (não muito distinta, segundo o escrevente em causa, do conceito de abstinência).

       Só falta ouvir dizer que a culpa é do Acordo Ortográfico (AO).

sábado, 20 de outubro de 2018

Trocas e baldrocas

      Mais trocas... sem que deixem de ser baldrocas.

     É engano e chega a ser fraude publicitária. 
    Trocar a ordem das letras / sons numa sílaba é um dado comum para quem ainda está a aprender as regras da escrita; talvez até para quem tenha ou revele problemas de processamento da escrita ou de reconhecimento de sons, com a sílaba PRE / PER a ser dos casos mais frequentes na confusão. Contudo, o mesmo não se pode dizer para quem tem a responsabilidade de divulgar produtos e jogar com a linguagem / a língua, com efeitos persuasivos (nomeadamente, os de levar à compra de algo).

Anúncio publicitário FNAC no seu pior!

     Tivesse eu a intenção de adquirir uma máquina fotográfica e teria logo desistido da ideia, perante o que um certo espaço comercial me deu a ler. Numa só linha, dois erros - troca de sílabas numa palavra; falta de acento gráfico noutra. Teria razão para pedir o livro de reclamações ou exigir um bom desconto. Reclamação oral garantida. Não haver uma pessoa, desde o chefe ao empregado, que seja capaz de verificar os erros, no mínimo, é vergonhoso / fraudulento.

     A PERSpetiva precisa de ser corrigida. Porque não há erro que constitua um bom negócio nem foto que resulte com a PERSpetiva errada. Triste de quem não evita baldrocas e as dá a ler ao público em geral. Não é caso único, mas situação garantidamente a evitar, para a boa imagem da empresa em questão. Pode lá haver partilha possível!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Grassa não tem graça

     Podia ser jogo de palavras, mas é mais do que isso. É constatação de vocabulário a dominar.

    Quando dizia hoje, numa aula, que "Grassa nos nossos dias o discurso da desgraça", uma aluna comentava que não percebia a frase; perguntava mesmo qual era a piada. Pedi esclarecimento para a questão formulada e a reação foi imediata: "Não há graça nenhuma na desgraça, pois não?"
     A oralidade tem destas coisas: representar uma palavra a partir do que se ouve e se (re)conhece, mesmo que tal não seja o que alguém diz. Confundir "grassa" com "graça" não é nada engraçado, mas, por vezes, até pode dar para rir. Contudo, o silêncio na turma era geral (fosse pelo reparo ao professor fosse porque ninguém percebia a "piada"). A forma verbal do verbo 'grassar' (alastrar, desenvolver, propagar) não foi sequer entendida, por ser frequentemente desconhecida por quem reduz ao máximo o léxico que usa (tão restrito quanto o verbo 'meter' dar para tudo, mesmo quando tal não é possível).
     Na homofonia dos termos, tornou-se previsível a reação discente, além de se constituir como uma oportunidade para se explicar a diferença das palavras, repondo uma coerência no enunciado dito que não foi (re)construída por quem o escutou.
      São vários os exemplos a que podia aqui recorrer (alguns dos quais foram já mencionados em apontamentos anteriores). O seguinte vem muito a propósito:

Exemplos homofónicos para toda a gente ver
     
     A escrita é bem mais facilitadora na distinção; a oralidade convoca uma semelhança sonora a todo o tempo causadora de problemas ortográficos. A falha na leitura é fator impeditivo de boas práticas de escrita e, também, na aquisição de vocabulário, é certo, embora muitos outros possam ser acrescentados. Grassa por aí uma multiplicidade de razões que, não tendo graça, muito tem a ver com a limitação lexical dos nossos jovens. 

     Mais vale cair em graça do que ser engraçado, diz o povo! Talvez o diga porque grassa por aí muita coisa sem graça nenhuma ou sem interesse absolutamente nenhum, mas que muitos julgam mais engraçada ou interessante do que o que realmente é (nada se aprendendo com ela).

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como?! Assim?!

       Isto de fonética e fonologia tem tudo a ver com SONS.

       Não com letras!
      Os grafemas estão para a escrita. Os sons estão para a oralidade. E se uma letra admite vários sons (veja-se a letra 's' que admite quatro realizações sonoras: [s] em 'sapato', [z] em 'rosa', [ʃ] em 'espinho' ou [Ʒ] em 'as batatas'), quando se faz o estudo da fonética e da fonologia é ao nível sonoro que tudo interessa. Portanto, há que distanciar da escrita e da tirania que esta apresenta quando se fonética e fonologia se trata.

         Q: A passagem de 'assi' para 'assim' pode ser um exemplo de paragoge?

        R: Claramente não. Trata-se de um exemplo perfeito de nasalização.
          Ninguém lê 'assim' como [ɐ'sim], mas sim como [ɐ'sĩ]. Ou seja, não é o som [m] que está em causa, mas sim a nasalização da vogal 'i' (que deixa de ser apenas oral para passar a oral nasal). É a aparência da grafia que parece apontar para o adição final de um som; contudo, não é isso o que acontece. É a vogal final que adquire um traço diferencial (de ressonância nasal) na sua produção.
         A letra 'm' pode ser lida como o som [m] em 'mesa' ou 'acima'. Por sua vez, em 'assim', 'fim' ou 'importar', a escrita não pode confundir o som transmitido - e que é sonora ou foneticamente a representação feita por um til ([ɐ'sĩ], ['fĩ], [ĩpur'tar]), a marcar o traço da nasalidade.

         Mais um caso que mostra que nem tudo o que parece é (não é processo fonológico de adição, mas sim de alteração na natureza da vogal oral que já lá está /estava e que passa / passou a ter um traço novo - o da nasalidade).

terça-feira, 13 de junho de 2017

Sem santo nem poeta

     Quando me preparava para escrever sobre Santo António ou a data de nascimento de Pessoa, fiquei sem santidade (como se alguma vez a tivesse) e perdi a poesia.

      Não há milagre ou santo nem poesia ou poeta que resistam. É tão mau que nem ao Diabo (vá de retro, Satanás!) lembra. Tudo num só dia. É obra (ingrata)!
       Para começar, logo pela manhãzinha, não há luz ao fundo do túnel para quem escreve as legendas na RTP:

As legendas da RTP no seu pior (I)

     Coitadas das timas (nome), que deixaram de o ser (até porque nem na notícia o foram) por passarem a forma verbal (vitimas). Lá se foi a palavra esdrúxula, porque a quiseram tornar grave. É grave... muito grave!
       E por falar em esdrúxulas (ou proparoxítonas), três minutos depois, mais duas pérolas:

As legendas da RTP no seu pior (II)

       Não é bom falar de vidas, é certo; porém, confundi-las com a forma do verbo dividir no presente do conjuntivo (segunda pessoa do singular: dividas)...! Quer-se o nome; não o verbo. Para terminar, e ainda no mesmo rodapé, último (adjetivo) a ser confundido com a forma verbal de 'ultimar' (eu ultimo, tu ultimas, ele ultima...). É a sílaba tónica distinta (em termos fónicos) e a acentuação gráfica (em termos ortográficos) que fazem a diferença.
       Um minutinho depois, é a vez de novo caso crítico:

As legendas da RTP no seu pior (III)

     Nova esdrúxula que o devia ser enquanto nome (tráfico), e sai nova forma verbal grave (eu trafico, tu traficas, ele trafica,...). Isto de traficar nunca deu bom resultado!
      Quando tudo parecia crer que havia alguma coisa contra a acentuação gráfica das esdrúxulas (tão elementar quanto obrigatória no português), surgem, duas horas depois, duas falsas esdrúxulas com o mesmo problema (o da ausência de acentos):

As legendas da RTP no seu pior (IV)

As legendas da RTP no seu pior (V)

       'Queda às' em vez de 'Queda nas' é questão menos problemática, quando, por comparação, se conclui que não há queda nenhuma, efetiva, para a acentuação gráfica - inclusive das palavras terminadas com encontros vocálicos habitualmente proferidos em ditongo crescente (casos de tio e de água, ou as chamadas "falsas esdrúxulas").
        Não fosse isto suficiente, falta o momento de "Última hora". Na festa, tudo se passa e muito se consente; mas no que toca à sua notícia, para além da falha / troca de letra ou grafema (se > de), a discordância sintática é evidentemente contraproducente:

As legendas da RTP no seu pior (VI)

     As comemorações, na justa medida, sempre animaram e não há santo que tal mude: a concordância no plural é processo de coesão frásica tipicamente verificado e normalizado na língua. Contudo, na cabeça de alguns nem sempre tal se verifica, para mal dos pecados de quem tem que os ler, quando escrevem (MAL).

      Nem Fernando nem António nos livram, por mais santos ou poetas que tenham sido. É muito mau receber isto tudo num só dia. Dizem que à dúzia é mais barato, mas, definitivamente, já à meia a imagem do canal do "Bom Português" sai bastante comprometedora. Mais uma imagem que não dá para comprar.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Partilhas...

     Na sequência da sessão de formação de hoje, uma colega fez-me chegar um vídeo (que agradeço, pelo momento e pela boa disposição criada).

    Claro que estas coisas, por mais cómicas que sejam, podem tornar-se sérias - nomeadamente quando são tão publicitadas e divulgadas, a ponto de serem imitadas por muitos falantes.
     Vejamos: um empresário quer cantar uma música gospel, gravar um disco e sai uma frase muito 'sui generis'. Ei-la:

Vídeo recolhido do Youtube - com agradecimento, pela lembrança, à DB.

     O atropelo fonético é mais do que audível e a consciência morfológica é muito reduzida, se não for comprometida. Não é, por certo, nenhuma realização normalizada ou padronizada; mas, a verdade, é que estas produções singulares não deixam de introduzir fatores de instabilidade que podem traduzir-se em fenómenos evolutivos. Espero que daqui a uns séculos não se esteja a dizer / escrever 'árveres', 'árbiris' ou 'árberes', nem 'nozis' em qualquer das variedades do português, de tão popular que a produção se tornou.
      Veio isto a propósito de quê? Da perda da consciência morfo(fono)lógica de alguns termos, como 'dióspiro' (que já ninguém praticamente diz de modo correto, nem assim escreve), bem como de fenómenos morfológicos típicos de algumas regiões ou variedades do português que muitos desconhecem. Não sendo realizações-padrão hoje (tal como o gerúndio flexionado - que problematiza a classificação de forma verbal não finita), quem sabe o que estas poderão vir a ser nos próximos séculos. À maneira de Probo, quero registar 'árvores' não ''árbis'; 'nós' não 'nozis'.

      Discussões que surgem de dúvidas, questões, esclarecimentos que vão surgindo nas horas que se vão dedicando à formação - sobre morfologia (mas com 'cãibras' na língua, 'fuga' da palavra ou  quando 'tá enrolando tudo'). Calma! Devagarinho!

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Confusões... nada históricas (na língua, pelo menos)!

     Quando se procura abordar questões de História da Língua, na sua evolução fonética, dá nisto.

     Particularmente, tudo acontece porque frequentemente se confunde o domínio fonético (som) com o da grafia (escrita) e há a tendência para reproduzir erros.

   Q: A propósito dos fenómenos fonológicos de adição, a palavra 'home' é um bom exemplo para dar conta de uma paragoge do 'm' (home > homem)? Obrigado.

      R: Naturalmente, não é um bom exemplo, porque nem caso de adição (ou de inserção) se trata.
        Tomando como ponto de partida 'home' (que na forma arcaica da língua também teve a variante 'ome'), o que sucede na evolução 'home > homem' não é um caso de acrescentamento sonoro, mas a consideração de um traço de nasalidade na sequência vocálica final. Quando muito trata-se de um processo de nasalização - alteração de uma vogal / sequência vocálica final (coda silábica), a ponto de ganhar o traço nasal [~].
       Nesta medida, o 'm' é um simples grafema (letra) para registar, em termos de convenção ortográfica, a nasalidade presente no que poderia ser a representação fonética da palavra: [ˈɔmɑ̃j]

       E depois disto interessa-me dizer que da forma arcaica 'ome' para 'home(m)' também não houve nenhuma prótese (até porque o grafema 'h' não traduz nenhuma dimensão sonora como, por exemplo, no inglês, marcado pela aspiração).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Piadas homofónicas

     Pena que alguns não percebam que a piada também pode resultar de um jogo linguístico.

    Mostraram-me hoje uma imagem que circula pelo Facebook, na qual aparece um diálogo com "um erro". 
    Quando pedi a explicação, até fiquei satisfeito pelo facto de terem detetado como 'conserto' (no sentido de correção, arranjo, remendo, reparação) se escreve com 's' ou como esse verbo tinha um 'e' de som diferente (aberto) do nome 'concerto' (fechado). Tive pena, porém, que não fossem um pouco mais longe:


    À falta de melhor, conduzi os denunciadores desta "prevaricação" linguística para uma consulta no Google e pedi-lhes que pesquisassem sobre o autor indicado: Zack Magiezi. "Deve ser italiano", diziam uns. "Não! Zack é inglês", corrigiam (?) outros. Descobriram que era brasileiro, nascido em São Paulo, e autor de uma página de Facebook (Estranheirismo), além de poemas e criações literárias. Com os dados da autoria e da escrita, instalou-se a dúvida: "E um autor dá erros?" Lá acrescentei que até pode(ria) dar, mas a verdade do conhecimento dominado estava no parêntesis final.
     Surgiu, então, o comentário: "Pronto! É uma piada inteligente!"

     Acrescentei: "Uma verdadeira piada homofónica". Descobriram, então, que devem ler o texto até ao fim, inclusive os parêntesis (que não são tão secundários ou pouco essenciais quanto alguns os querem fazer ser), para distinguir os jogos com base na homofonia do desconhecimento / erro linguístico. Ficaram, por fim, de me trazer um erro de língua a valer.