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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Nada convicto, mas seguro

      Com tantas depressões, anseio por outras estações.

     A primavera e o verão são sempre as preferidas. E quando mudar a hora, deixando para trás a de outono e a de inverno, melhor será.
     Instalada a vontade de mudança, fico-me, para já, com o sentido da esperança. 
   Tal como o diria Pessoa, "Não sei o que o amanhã trará"; ou, então, repito Régio, no final do seu "Cântico Negro": "(...) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / - Sei que não vou por aí!"
     Há já algum tempo que tenho vindo a expressar uma preferência. Hoje é dia de decisão. 

Cumpra-se o dever com a responsabilidade que se impõe: a de escolher por causa do que não se quer.

     A ideia tem sido a mesma: nada convencido ou convicto da cruz a colocar em ato eletivo; apenas certo da que não vou assinalar. Fico-me pelo seguro (a figura retórica da antonomásia nunca fez tanto sentido), por não querer a desventura (a negação é certa, por ser verdadeira) nem por quem se mostra atacado pela síndrome Calimero.

     O tempo ditará se a escolha foi a devida. Por ora, foi a possível, por não haver outra.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Para que conste do que sou capaz

      Nunca um pensamento foi tão coincidente com a realidade.

      Foi o que me deu para concluir quando li a imagem que me fizeram chegar:

Se fosse tudo uma questão de capacidade...! (imagem colhida do Facebook)

      Fico-me entre o cómico (não sei se pelo inesperado se pelo despropósito) e o dramático (não sou só eu a pensar assim; até mais novos). 
   Ainda falta algum tempo no meu caso (isto se não for muito, caso decidam alterar a idade de "ingresso" para mais tarde).

       Quando comecei a minha vida profissional, a expectativa de então era a de já estar aposentado. Agora fico sentado... a trabalhar e à espera.

sábado, 5 de abril de 2025

Partilha do não desejado

      Há textos que não deviam ser escritos.

     Este é um deles. Eu, pelo menos, gostaria de não o ter feito, se tal significasse que não havia motivo para tal.
      Teve que ser lido:

O texto que ninguém quer escrever nem ler - https://carruagem23.blogspot.com/2025/04/partilha-do-nao-desejado.html 
(Foto VO)

     É sempre um momento de aperto no coração, de embargo na voz e que, na memória do vivido, traz a consciência de um tempo que prossegue sem a presença desejada, mas com o sinal do que o professor David Rodrigues define como "a grande provedora do tempo": a gratidão devida.
      É esta a vida (na qual subsiste a morte).

     Assim foi na Igreja Matriz de Espinho. À MCM. RIP. 

sábado, 4 de janeiro de 2025

Um filme, um ator e uma mensagem fantásticos

      Percebe-se por que motivo é considerado um dos dez mais do ano (passado).

     Na linha dos filmes de espírito detetivesco, Conclave (2024), dirigido por Edward Berger e baseado num romance de Robert Harris (2016), revela-se uma película a descobrir praticamente até final da sessão. Do mistério inicial, a resolver, ao insólito final, convergente com vários sinais da película a lembrar o mito do eterno feminino no seio da igreja, há todo um enredo feito dos ingredientes da corrupção, do jogo de interesses e dos segredos na cúria papal, num contexto relacionado com a morte de um Papa e a consequente seclusão do colégio de cardeais para a eleição de um outro.
  Num micro-universo constituído essencialmente por homens poderosos, muitos são os sinais de como a presença feminina também funda o enredo, a resolução e o final da história, numa afirmação de que os "olhos" e os "ouvidos" discretos de quem não deixa de ser e estar presente são essenciais ao desenrolar de tudo.
    No papel do decano responsável pela organização do conclave, a personagem Thomas Lawrence (interpretada por um mais do que oscarizável Ralph Fiennes) enfrenta um jogo de forças que converge para um núcleo de ação, cruzando a função de uma alta instância supervisora do Vaticano; de um homem que assume a responsabilidade dos seus atos, mesmo quando não se vê talhado para tal; de pessoa marcada por desequilíbrios, dúvidas e incertezas e nisso vê a fonte e a força do próprio mistério divino e da própria fé. Entre candidatos mais moderados e outros mais fundamentalistas e tradicionais, move-se este peão apontado pelos seus pares também como potencial ocupante do trono de Pedro (na sequência da responsabilidade, da firmeza, do rigor e da confiança de atuação, a par das palavras que, numa das suas homilias, encorajam o colégio a abraçar a dúvida e a incerteza, e portanto, o traço de uma igreja humana, que muitos querem apagar em favor de uma força e de um poder muito questionáveis).

Filme protagonizado por Ralph Fiennes e dirigido por Edward Berger - Conclave (2024)

      A progressão dos atos eletivos até ao aparecimento do fumo branco, prenunciado pela imagem de um consenso sugerido pelos guarda-chuvas brancos dos cardeais que caminham para a decisão final, não tem na escolha do novo Papa Inocêncio (XIII, se não fosse ficção, protagonizado por Carlos Diehz, como cardeal Benitez) o seu fim. Há mais uma revelação derradeira a fazer: a que volta a colocar, por um lado, a afirmação do eterno feminino no seio da igreja e, por outro, citando Inocêncio, a aceitação da diferença, da tolerância, do conhecimento do vivido e do experienciado como fonte de autoridade e de confiança. O discurso do novo Papa, ainda antes de o ser, é revelador de como a guerra não pode ser alimentada com mais guerra; o ódio não pode gerar novos e mais ódios. A sua verdade, partilhada com o Decano, é a simplicidade de uma afirmação que faz todo o sentido da aceitação: "Eu sou tal como Deus me fez", com o sabido, o conhecido, o vivido, o desconhecido, os feitos e os defeitos (se o são!) e tudo o que não caiba nos cânones de uma igreja que, por vezes, se afastou da humanidade.

      A cena final do Decano a colocar a tartaruga no local natural subentende a mensagem da escolha certa no lugar certo - mesmo quando de um Papa diferente se trata (no que é, no que se dá a ver, no que tem e no que se identifica), para lá de qualquer binarismo de género a que o humano tende limitativamente a reduzir perante uma natureza tão diversa.

sábado, 7 de outubro de 2023

Impérios de Guerra (que não são o quinto, definitiva e infelizmente)

      Após o início declarado de mais um conflito na Humanidade.

      A Organização das Nações Unidas (ONU) aponta cerca de 9.700 civis mortos na Ucrânia desde a invasão russa há 21 meses. Hoje, dia 7 de outubro, dá-se mais um passo para repetir o apontamento numa outra guerra, já com muitas histórias e muita perda de vidas.
    A Guerra Israel - Hamas (re)iniciada tem contornos tão intensamente violentos que todos já deviam saber a História e ter aprendido a lição maior: poupar vidas, particularmente a do Homem comum (que somos todos)! Qualquer guerra, em qualquer tempo, ponto geográfico ou na base de qualquer credo (religioso ou outro), é o maior ladrão de vidas. E quem a promove, provoca, perpetra sabe-o, num altar de poder que não considera o sentido prático e comum do que é sofrer. Está(ão) aqui o(s) maior(es) ladrão(ões)

Império de Trevas (ou como o peixe grande e assombroso da guerra se alimenta dos mais pequenos)

      No capítulo V do Sermão do Bom Ladrão, proferido em 1655, na Misericórdia de Lisboa (quando o queria ter feito na Capela Real), Padre António Vieira lembra o seguinte:

    “Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?”  

      Nem quatrocentos anos (e pelos vistos não são muitos!) para se continuar a ler tão atuais palavras, que referem cadeias de ladrões tão diferentes e constantes no crime maior à Humanidade. A evolução, se a houve, parece ter ficado na subtileza do furto... que deu frutos. Se Adão se fez ladrão recebeu o inferno; mas há ladrões maiores que, por não serem ou não se acharem Adões, conseguem chegar ou andar pelo(s)paraíso(s) - para além dos fiscais, os de uma Terra que não é de todos (ou que será mais de uns do que de outros).
     Continuo com o exemplo inspirado(r) do “Pai Grande” - ou Payassu, como os índios o designavam -, dos primeiros a reconhecer um sentido de justiça argumentativamente apurado, também o valor da diferença, da tolerância entre os homens e no que os define; e ainda a defesa da miscigenação dos idiomas, numa legitimação tanto do culto "pulcro" como dos registos comuns do "belo" ou do "bonito", para não falar das sonoridades escutadas em todas as cores da sua ação missionária. A aproximação fazia-se também, então, a um Quinto Império (com um Papa "angelicus" e um imperador cristão), abraçando judeus, cristãos, muçulmanos numa espécie de paraíso, a construir em vida entre os homens e não a doutrinar como prémio a alcançar depois da morte (atualidade tão inquestionável).

       É preciso focar a causa e não o efeito. Tem de ser um português a relembrar tal, desde há séculos até ao presente, numa voz que recorde o valor do "abraço"? A cultura da paz é construção de valor difícil, quando devia ser escolha maior de todos os humanos, aproximando-os na comunicação, na comunhão, na união contra o que o ameaça (e não da perdição). Afinal, citando Steinbeck, toda a guerra é um sintoma do fracasso do homem (melhor, de alguns deles) enquanto ser pensante.
 

sábado, 3 de junho de 2023

Felicidade(s)

      Aprender a ver o positivo: uma questão de perceção, sem o propósito de reclamação.

   Quando o sentido crítico surge pela negativa e se fica pela declaração de impossibilidades injustificáveis, o foco do pessimismo instala-se (condicionado ou limitado  a ver e a ler o que não traz esperança).
      E se o que parece menos se tornasse mais?
      Tudo se revela com a seguinte imagem de "As Filas da Vida":

Imagem colhida do Facebook, à espera de uma leitura da esperança.

    Procurar na esquerda a confirmação do comum impede de ver na direita o que esta ainda consegue (de)mo(n)strar. Poucos, mas bons, aí estão os que interessam: os que ajudam e os que incentivam.
     No meio não está a virtude (e garanto que nada tem a ver com a construção "brasileira" do título da porta, que escancaradamente é aberta por quem frequentemente nada tem a ver com o assunto). 
     Entre os que fofocam (bisbilhotam ou mexericam - venha o Diabo e escolha o léxico!) ou criticam, domina essa maioria por vezes tão inoperante, tão improdutiva! Está aí para estagnar, impedir avanços, dificultar caminhos, adiar o que interessa alterar a pretexto de formalismos e formalidades desajustados. Como se um papel fosse só por si mais importante do que o que nele pudesse estar escrito. 

      Prefiro a lateralidade de leitura que, iniciando na direita, destaca o que importa. Seguir para a esquerda é consciencializar dessa evidência de peso improdutiva. Não me fico pelo que esta última dá (ou melhor, não dá), particularmente quando o bem de muitos e/ou dos que mais precisam fica à mercê de uma não resposta. 

segunda-feira, 20 de março de 2023

Sem açúcar

        Assim bebo o café (e também o chá).

       Hoje, porém, não se trata de outra coisa senão lembrar o café, ainda que a propósito de um pacote de açúcar (não é a primeira vez que recorro a eles para produzir um comentário - entre os positivos e os negativos, há doçuras para vários graus):
 
Um pacote de açúcar a lembrar café e alguém mais (Foto VO)

      À semelhança de muitos outros dias, trago comigo a pequena e doce dose, para não consumir. Simplesmente, ao ler a publicidade nele contida, relembro uma pessoa que hoje parte desta vida. É difícil encontrar alguém que, nestes tempos e na passagem do próprio tempo, seja tão consensual quanto a virtudes, a ponto de o considerarem simples, afável, atento, encantador, sorridente, alegre, humilde, bem sucedido e com forte preocupação social. Difícil juntar todos estes ingredientes num só ser humano.
      Comendador da Ordem Infante D. Henrique (2006) e da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial (1995), Rui Nabeiro ficou conhecido como o Senhor Delta Café. Hoje é notícia pelo seu falecimento. Felizmente foi um dos que, em vida, viu reconhecido o importante papel que teve para muitos. Teve prémios, teve agruras e, inteligentemente, conviveu com ambos.
    Apoiando-me na mensagem publicitada, apetecia-me mudá-la: "E se o café desafiasse a mortalidade?" As boas pessoas não deveriam nunca deixar este mundo (até para contrariar aquelas outras que, ficando, só fazem e vivem em guerra com tudo e todos).
       
       Que esteja em paz pelo bem que fez e soube ser.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Dia Internacional da Mulher

       Um dia, que é o de hoje, devendo ser igual a todos os outros.

      Entre tantos assuntos importantes no mundo e na vida, um outro - a condição da mulher - se marca no presente, essa instância de tempo que, mais do que o agora e o hoje, se deve traduzir pela intemporalidade. 
      A esse propósito, ficam aqui as palavras de um poeta que, entre muitos temas, versou a mulher na sua plenitude. Por ele ser homem, não deixou de a ver no que tem de humanidade em busca de igualdade, equidade, liberdade, justiça, alma mater dedicada aos seus, independentemente de os ter carregado no ventre ou os ter acolhido no seu seio familiar, sem olhar ao género que lhes coube.

Retrato a carvão do poeta José Carlos Ary dos Santos
MULHER

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

Pormenor do cartaz alusivo à efeméride (Escola Superior de Saúde - Cruz Vermelha Portuguesa)

       Palavras que a poesia e a literatura dedicam à mulher (nesta expressão que a língua dá ao género feminino).
 
        Um feliz dia internacional da MULHER (para hoje e sempre), dando à luz e/ou trazendo luz à HUMANIDADE, para que nunca se veja ou se ouça desigual e/ou sozinha.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Inteligência Artificial (e Chat-GPT)

     Muito se voltou a falar de AI ultimamente.
    
    Hoje alguém me dizia que começámos a ter noção da Inteligência Artificial (AI) com uma máquina de calcular.
    Não sei há quanto tempo foi, mas associo AI a um filme, de Steven Spielberg:

Filme protagonizado por Haley Joel Osment (pequeno David) e Jude Law (Gigolo Joe)

    Terá sido já há cerca de vinte anos. Ficou a imagem de um mundo altamente tecnológico e a mensagem de como a máquina e a emoção eram ingredientes para uma história com muito para se dizer / discutir. Uma criança-robô mostrava-se e queria ser amada em pleno século XXII, num mundo de protótipos surgido após a subida das águas do mar (decorrente do aquecimento global) e de uma mãe sofrida, pela perda de um filho, a qual decide adotar um androide.
    Vivemos uma realidade tão próxima do ficcionado que está a apetecer-me rever o filme, para dele relembrar a lição.

      Prevejo algumas reações e sentimentos algo adversos da minha parte com esta deificação da máquina e dos dispositivos que se dizem eficazes e fantásticos. Continuo a suspeitar que será mais um a não me libertar de trabalho. Suspeito que vá dar mais. Não gosto!

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Em vésperas do dia da liberdade

      Hoje foi dia para todos se mostrarem mais bonitos.

     Entre os que hesitaram e os que assumiram a ação libertadora, ficou a nota de que, após deliberação governamental e homologação presidencial, a partir de hoje, já não é obrigatório o uso de máscara nos estabelecimentos de ensino (https://dre.pt/dre/detalhe/decreto-lei/30-e-2022-182432341), segundo o decreto-lei publicado ontem em Diário da República.
    Desta forma, ficaram atestadas condições para se dispensar o uso de máscara no interior dos espaços escolares, não obstante a atenção e os cuidados que ainda interessa garantir face à persistência de algumas condições de infeção (agora consideradas reguláveis, bem diferentes das que vitimizaram muitos daqueles que sofreram o que alguém chamou de "uma gripezinha", em tempos que não o era).
    Têm sido crescentes os sinais de libertação, felizmente! O de hoje foi mais um para a ansiada retoma de uma normalidade a todo o tempo sujeita a avaliação e com a concessão geral que deve pautar comportamentos. Dois anos saturantes, limitadores, em que só os olhos revelavam emoções, passaram a dar lugar a rostos descobertos, ao reconhecimento do que Camões outrora chamou 'gesto' (doce e humilde). Que, hoje, os gestos (temporal e semanticamente distintos) sejam comedidos, para que os rostos se mantenham literalmente "desmascarados".
       Assim se recriou Banksy, a partir do que hoje se vive:

Banksy recriado (do coração desejado à máscara mal-amada)

      Deixá-la voar, essa máscara que não trouxe cor à vida - garantiu-a, é certo, salvaguardando todos de situações bem mais críticas. Que não seja ela o coração original que a menina parece querer agarrar. Bom seria que não retrocedêssemos! Saibamos reconquistar o bem perdido, sem comprometer cuidados que ainda se impõem.

      Possa ser este o passo, o gesto que nos traga alguma sanidade, com liberdade aliada a responsabilidade. Assim o rosto se mostre livre.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Começou a guerra...

     Depois dos passos que estão a ser dados para vencer "uma guerra", chegou outra, bem mais literal.

    A memória humana é bem curta! Quando se afirmava a pé juntos que a humanidade ia ser melhor; depois de se ter vindo a lutar contra um vírus que ainda por aí grassa, um país entra em guerra com outro. A Rússia ataca, invade a Ucrânia, criando na Europa um clima de conflito aberto, ameaçador. Bombardeamentos, explosões, mortes, combates, fugas, desespero humano são consequências de um ato com todos os sinais de fascismo e autoritarismo recriados à semelhança histórica do século passado; também de outros que inspiraram reflexões (ainda) tão atuais:

   “É a guerra aquele monstro que se sus-tenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto me-nos se farta. É a guerra aquela tempes-tade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.”
Padre António Vieira, 
Sermão histórico e panegírico (nos anos da rainha D. Maria Francisca de Sabóia)
citado in Aníbal Pinto de Castro, XV Colóquio de História Militar, 2005, p. 103

    Há cerca de 83 anos, em 15 de março de 1939, tropas alemãs invadiram a Boémia e a Morávia, sob o pretexto de alegadas privações sofridas por alemães a viver nas regiões norte e oeste da fronteira da Checoslováquia (os Sudetos). A libertação só aconteceria dezasseis anos depois, com o que a História nos deu a provar com a Europa nazi.
     Mais contemporaneamente, a iniciar o século, as palavras de Mia Couto relembram, em O Último Voo do Flamingo (2000), que "a guerra nunca partiu":

    "As guerras são como as esta-ções do ano, ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda".

      Bom seria que nos tornássemos "gente grande".

    Coincidências que não se querem tão dolorosamente duradouras, a bem da paz e dos povos, da Humanidade, mas que alguns homens teimam engonçar de forma despótica - "Imagine all the people living life in peace" (John Lennon).

domingo, 19 de dezembro de 2021

Histórias de fadas com verdade(s) para crianças e adultos

     Sentidos pedagógicos de muitos livros para crianças residem na mensagem para todas as idades.

    Tive já oportunidade de referir como a literatura para jovens e crianças é frequentemente associada ao mundo adulto. Senti-o na mensagem lida de As Fadas do Bosque das Cores e das Estórias - um livro que mostra como um mundo dividido às cores é seguramente mais pobre do que o profuso colorido do bosque; como o diferente também atrai e se descobre; como as fadas também são humanas na(s) aprendizagem(ns); como ler e ouvir histórias é oportunidade para criar laços, partilhar, comunicar / comungar valores.

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - I 

     Se, no início, está tudo ordeiramente arrumado num conformismo sem aventura, tudo muda, a determinada altura, abrindo-se novas perspetivas - é tempo de (re)aprender. Até porque grupo formado não quer ver ninguém afastado, mesmo quem, às vezes, na cor diferente que tem, se quer afirmar pela individualidade a que tem direito:

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - II

   Em cerca de sessenta páginas, valoriza-se a diversidade, a inclusão, a memória, a preservação, as mudanças do(s) e no(s) tempo(s), o sentido da descoberta e da alegria. Lembra-se que tudo o que é bom não apaga o seu reverso:

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - III

    Porém, tudo pode dar lugar a um novo ciclo:

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - IV

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - V

    Tal como as árvores que da raiz e do rebento chegam, por renovação, à alta copa, o significado da amizade ganha contornos mais amplos, múltiplos, diferenciados, caso se queira fazer desta procura, aproximação, vivência plural, em visão e acolhimento multicolor num só arco (de renovadas e diferentes íris) e num só bosque (a que todos pertencemos).

As Fadas do Bosque..., com ilustrações de Cristina Pinto - VI

     Em tempos de tolerância, diversidade e inclusão em constante (re)construção, o arco-íris do "vermelho lá vai violeta" (vermelho-laranja-amarelo-verde-azul-anil-violeta) recria-se num bosque cheio de letras, artes e cores: o castanho-amarelo-azul-verde-vermelho-rosa-roxo das sete fadas, que revelam a magia de aprender com e quais seres humanos.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

67 anos depois - o reconhecimento oficial

      Uma cerimónia e uma homenagem justas para "Um Justo entre as Nações" português.

       Um exemplo humano a reconhecer, sem dúvida. Pena que, oficialmente, seja passado tanto tempo e depois de a voz da consciência interior ter sido confrontada com a injusta miséria infligida no final da vida. Como mais vale tarde do que nunca, chegou a devida homenagem, porque se impunha. Não foi no mês do nascimento (julho) nem no da morte (abril) Qualquer outro serve, pois este é um homem para lembrar a todo tempo pelo que fez; pelo testemunho que deu.

Aristides de Sousa Mendes - o cônsul de Bordéus (1885-1954)

    Aristides de Sousa Mendes causou incómodo ao poder, desrespeitando o dever de um diplomata: obedecer às diretrizes de um governo nacional(ista) mais interessado em se aliar à força maior da(s) ditadura(s) do tempo. Recusou seguir as ordens de Salazar (e o conluio que acabava por ter com Hitler). Teve um processo disciplinar por isso; sofreu, sabendo que ia ser castigado. Todavia, foi numa cultura de desobediência, e de consciência, que acabou por dar uma lição ao mundo: devolveu, com os vistos que assinou, a vida a milhares de perseguidos; olhou o outro na sua diferença e na sua desgraça, respeitando-o e libertando-o de uma morte certa à mão dos nazis. Fê-los chegar a Lisboa, tornada porta da esperança e da liberdade para mais de dez mil pessoas.

Jardim dos Castanheiros, junto à Casa do Passal
com árvores plantadas por judeus que visitaram a localidade e homenagearam o seu "salvador" (Foto VO)

     Foi este o legado de um homem. Ou melhor, de um Homem; de um Português, que assumiu um ato de consciência excecional: o de que sempre esteve certo (por mais que os poderes do tempo não o apoiassem).

     Hoje, precisamente há 81 anos, era lida uma sentença que castigava um justo; hoje, neste mesmo dia, um corpo mantém-se longe da capital, na sua terra de Carregal do Sal (Cabanas de Viriato), enquanto uma lápide evocativa é colocada no Panteão Nacional. Relembra um ser humano que salvou a vida de muitos outros e fez da sua a luta por valores e causas com sentido(s) de Humanidade. 


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Morrer na praia

      O dia iluminou-se com um radioso sol...

     Regressado o bom tempo, revive-se o conforto desses momentos que nos deixam apreciar o final de uma outoniça, mas calorenta tarde, aromatizada pelo iodado vindo do mar, numa combinação a que não falta uma fresca névoa esfumada, a embaciar levemente a paisagem.
     Erguido o olhar para o alto, como para sorver agradecidamente o terapêutico ar, reparei num céu cruzado, que decidi guardar em foto:

Céu cruzado junto à Granja (Foto VO)

     No enlevo do instante, fui subitamente espertado pelo aparato ruidoso de sucessivas sirenes, trazendo o sobressalto e a aflição. Bombeiros, polícia marítima e muitos curiosos deixavam-se ficar na praia. Não era a simetria dos traços nem a variedade das cores celestes que os atraíam. No areal, havia um corpo humano estendido, inanimado. Morto. Tudo tão rápido. Ninguém conseguia explicar o sucedido. Simplesmente caiu, quando caminhava naquela linha de areia que fica entre o molhado e o seco. Foi aí que o corpo encontrou o seu leito de morte, bem próximo daquele outro que dizem ser a origem de tudo, mas que, no seu vaivém ondulatório, nada trouxe a quem deixou definitivamente de ver o espetáculo do céu cruzado, pintado de algum dourado em tela de fundo azul.
      Por vezes, a vida reduz-se a isto: a uma rápida queda sem recobro. Nada resta; nada mais há. Só chão - no caso, areia, a mesma que, na ampulheta, se deixa cair de uma âmbula para outra até esgotar. Tudo acaba, mesmo quando alguém vai em socorro e ao encontro do que já só é um peso inerte, algures deixado, abandonado de todos os sentidos.
     O céu cruzado e a luz ainda quente assistiam a alguém caído, a esfriar à medida que as sombras e o escuro surgiam, extinguindo as cores do dia. Azul, só o das luzes rotativas das viaturas que, agora paradas e em silêncio, haviam trazido socorro a destempo; calor, só o da humanidade dos que prestavam os cuidados derradeiros, ensacando quem partira numa última viagem, já sem horizonte.

      ... até que a vida se apagou. Literalmente, alguém morreu na praia. RIP.

sábado, 22 de maio de 2021

Hoje, depois de ontem, com versos de séculos

     Ontem foi o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento; hoje fica a lembrança da celebração.

      A ocorrência do dia celebrado a 21 de maio, segundo proclamação da Assembleia Geral da ONU há dezanove anos (com a "Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural", onde se reconhece esta última como património comum da humanidade), deve repetir-se a cada dia pelo significado que tem para o bem-estar de todos em todos os tempos. 
    Celebrar a diversidade cultural é respeitar e defender valores fundamentais como a liberdade, a democracia, a tolerância, a igualdade, a não discriminação, o respeito pelo estado de direito, os direitos humanos, a solidariedade entre povos, o sentido de paz e de fraternidade harmoniosas.
  Enquanto imperativo ético, no respeito pela dignidade humana e pela aceitação de valores diversos e multiculturais, sublinha-se com esta efeméride a aprendizagem do que é a vivência conjunta, integrada e inclusiva; a luta contra estereótipos culturais, preconceitos e fundamentalismos, num diálogo contínuo enquanto garante de um generalizado desenvolvimento sustentável.
      Assim também o pensou Camões, como o sugere, por exemplo, "Endechas a Bárbara Escrava":

Montagem de imagens e declamação do poema camoniano "Endechas a Bárbara Escrava".

     Uma composição poética contraposta às tendências dominantes dos padrões de beleza num tempo clássico, quando os traços da pele clara e dos cabelos louros se impunham; a singularidade de uma "Pretidão de Amor", de uma negritude que, afinal, não é bárbara (por mais que desta tenha o nome próprio). Assim se marcava a diferença nessa expressão versificatória da corrente tradicional, bem distinta da medida nova (mais superlativizadora do ideal feminino dos "Ondados fios de ouro reluzente"):

Padrões de beleza camoniana bem contrastivos 
("Endechas a Bárbara Escrava" e o soneto "Ondados fios d'ouro reluzente")

    Numa versão musicada por Zeca Afonso e interpretada por Sérgio Godinho, a conhecida trova escrita em redondilha menor progride numa melodia que se vai intensificando na harmonização sonora, sem deixar de sublinhar a excecionalidade da figura retratada.

Interpretação de Sérgio Godinho, para a letra de Camões e a música de Zeca Afonso

     O canto poético quinhentista traduziu um pensamento que se mostra atual, contemporâneo, liberto de preconceitos, feito dessa universalidade revista num "Todos diferentes, todos iguais". Nada melhor para literariamente relembrar o dia que passou.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Fragilidade da vida

      Tema mais do que atual face aos tempos pandémicos que se vivem.

      Camões, no final do canto I, reflete sobre esse tema, mencionando o "... Caminho de vida nunca certo: / Que aonde a gente põe sua esperança, / Tenha a vida tão pouca segurança". Enquanto "fraco humano" ou "bicho da terra tão pequeno", há forças que nos superam (no mar, na terra, no Céu). Não há domínio que nos deixe de testar, a ponto de a pergunta surgir: "Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida...?" Mais do que interrogação (retórica), será a constatação da pequenez e da insignificância humanas face ao poder das forças que gravitam em seu torno, fazendo-as cair de um pedestal antinatural e a todo o momento questionável. E, assim, da temática quinhentista rapidamente se dá o passo para a contemporaneidade.
"Shattering", de Leon Keer
   Leon Keer, artista holandês reconhe-cido pela sua 3D Street Art - essa capacidade de trans-formar uma superfí-cie plana numa obra-prima multiní-vel -, criou um mural para o festival de arte de rua em Helsingborg, na Suécia. Retratando quatro chávenas de chá empilhadas de modo instável, aca-bou por descrever a obra conseguida com as seguintes palavras: "A vida é tão frágil quanto uma xícara de chá"; "Quero mostrar que a nossa vida pode mudar repentina-mente. Podemos perder um ente querido. Ou a nossa casa. Ou outros grandes artistas mundiais, expoentes da cultura. Por isso, nas xícaras de chá, pintei todos os cenários apocalípticos." 
       Desta forma, as chávenas que figuram no mural (as Rörstrand, uma conhecida marca de cerâmica centenária muito popular na Suécia) passam a representar uma realidade aumentada, cada uma delas a propor, metaforicamente, um episódio ilustrativo dos efeitos decorrentes, por exemplo, das mudanças climáticas; das falhas e das perdas que fazem com que a terra e o ser humano estejam prestes a "cair".

       Um caso evidente de arte pedagógica, consciencializadora, preventiva e intemporal na mensagem a transmitir. Na aproximação com Camões, Leon Keer é mais um exemplo contemporâneo de pintura a rimar com literatura.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

     Um dia que não pode ser desconsiderado na memória da Humanidade, por mais que o tempo passe.

     Entre os livros que se leram, os filmes que se viram, as palestras a que se assistiram, as viagens que se fizeram, nada se equipara ao vivido.
     Tenho algumas memórias acerca do dia lembrado, felizmente, nada comparado com os que sofreram na pele os acontecimentos hediondos da História. Ainda assim, são memórias minhas entre a revolta e o medo de que esses tempos tenham existido e de que possam vir a repetir-se por ação consciente do Homem, desconsiderando e humilhando o seu semelhante.
    O mais próximo que estive dessa realidade foi ter viajado e ter observado sinais de uma vivência que atualmente se pode dizer museológica, mais de sessenta anos depois, em Sachesenaushen, em Auschwitz, em Birkenau. Pisar o chão que foi percorrido por judeus, e não só, conduzidos ora para trabalhos forçados (em condições de sobrevivência desumana) ora para a morte, é uma memória necessariamente distante do sofrimento real, por mais que este possa ser mostrado aos olhos de um turista. Cada passada em chão de terra e cascalho é ouvida nesse caminho que foi o de centenas de milhares forçados a um infortúnio frequentemente fatal. Faltam as sirenes, as luzes de denúncia e perseguição; os gritos dos militares e o ladrar dos cães; a chuva ou a neve ou o vento ou todos eles combinados; a verdadeira fome e sede (tanto de pão como de justiça); as fortes agressões físicas e psicológicas; o céu escuro da noite ou o cinza diurno dos folículos negros da chaminé caindo e com cheiro a carne queimada. 
       Pode ainda sentir-se o peso do momento; nunca será o do tempo da recordação.

À entrada "O trabalho liberta", em Sachsenhausen (Foto VO)

        O Campo de Concentração de Sachsenhausen, pequeno na comparação com os congéneres polacos, é um desses espaços-museu, na Alemanha. Ativo desde meados de 1936 (numa inauguração simultânea com os Jogos Olímpicos de Berlim) a abril de 1945, tem o nome Sachsenhausen, na cidade de Oranienburg, em Brandemburgo. Foi aí que se confinaram ou liquidaram em massa, primeiro, os opositores políticos ao regime de Hitler; depois, judeus, ciganos, homossexuais, Testemunhas de Jeová, além de milhares de prisioneiros de guerra.

Memorial das vítimas de Sachsenhausen (Foto VO)

        O memorial às vítimas - primeiro, às mãos dos nazis, depois, à mão dos serviços secretos soviéticos - é um belo registo escultórico dos tempos sórdidos então vividos pelos prisioneiros. Numa das várias placas espalhadas pelo campo, lê-se uma das maiores lições a tirar do que foi experienciado:

Pensamento de um prisioneiro do Campo de Concentração de Sachesenhausen (Foto VO)

"E eu sei mais uma coisa - que a Europa do futuro 
não pode existir sem comemorar todos aqueles, 
independentemente da nacionalidade, que foram mortos naquele tempo, 
com todo o desprezo e ódio; que foram torturados até à morte, 
famintos, gaseados, incinerados e estrangulados..."

          Em plena Berlim, entre as muitas evidências do que foi o centro da II Grande Guerra, um outro sinal das atrocidades infringidas pode ser contemplado:

Memorial dos Judeus, em Berlim (Foto VO)

       Em terreno inclinado, 2711 lajes de cimento compõem o "Memorial do Holocausto", construído entre 2003-2004 e inaugurado em maio de 2005, numa homenagem aos judeus vitimizados no holocausto europeu. São cerca de 20.000 metros quadrados com blocos de tamanho distinto, onde os turistas se passeiam, se cruzam numa espécie de labirinto aberto - um monumento da desgraça passada a divertir os que presentemente parecem estar a jogar às escondidas.
       Não há A Lista de SchindlerA Vida é Bela ou O Pianista que se equipare a cada passo calcorreado nestes locais de desgraça humana, hoje encarados como uma topografia de horrores, de roteiros de sinais de tragédia distante.
     Foram imensas as vítimas, muitas mais as desgraças que só alguns puderam, de algum modo, contrariar. No caso português, há o exemplo recentemente lembrado com o "Dia da Consciência".

      Está anunciado para o Porto um Museu do Holocausto, o único da Península Ibérica. Quero lá ir, certamente, quando a pandemia não for tão trágica; porém, os ares alemães e polacos serão sempre mais autênticos para um genocídio humano que o regime nazi impôs ao Mundo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Uma questão de imaginar!

        Circulam pelo Facebook imagens inspiradoras.

       Uma delas tem o título da canção de John Lennon, mais a imagem de rosto deste músico, com uma "anomalia narina". Há quem diga ser obra desse famoso desconhecido contemporâneo - Banksy -, mas nada tem sido provado nesse sentido (antes pelo contrário).

Arte de rua, lembrando a utopia (imagem colhida do Facebook: Imagine | Ha! Tea 'n' Danger (wordpress.com))

       Seja como for, é obra de parede, de arte urbana, bem ajustada aos nossos tempos: um hino a uma utopia, sempre necessária ao ser humano. Hoje, por razões óbvias, a imaginação está para um mundo sem pandemia:

 Imagine all the people
Living life in peace

...

Imagine all the people
Sharing all the world

        As palavras de Lennon, na sua voz ou na de Chris Martin, são um elixir para os dias tristes dos últimos tempos.

        Imagina o dia em que nos veremos livres da Covid-19!

sábado, 16 de janeiro de 2021

O poder da polissemia e da argumentação

       Nunca a polissemia foi tão argumentativa na mensagem institucional.

       Em tempos com números tão assustadores (nos infetados e nas mortes), há palavras que marcam a sua polissemia, na conjugação com a força impactante da imagem:

A disjunção (ou) não pode ser escolha - tem de ser apelo à vida.

     Proveniente do latim (patiens, -entis), o termo 'paciente' admite realização tanto nominal como adjetival. Seja para significar o que se conforma ou resigna, o que tem paciência, o que tranquila e serenamente aguarda, o que persiste, seja para designar o que padece ou se submete a tratamento médico, bom seria que não significasse aquele que vai sofrer a (pena de) morte.
       Há na publicação institucional uma disjunção ('ou') que não pode dar lugar a escolha ou hipótese. Argumentativamente só pode resultar no convencimento, na persuasão, no apelo à vida.

      Por ora,  a realidade é dura. Fica a esperança de que os tempos venham a ser outros, mais tranquilos, mais serenos, sem a doença nem a morte. A impaciência e o receio andam por aí, mas o valor da vida tem de prevalecer. Fique(m) em casa.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A melhor resposta

        Na sequência, não de uma pergunta, mas de um comentário torpe, ignóbil.

     Depois de um candidato a presidente da República ter comentado sobre os "lábios muito vermelhos" (de forma insultuosa e insidiosa) de uma também candidata à presidência, a melhor resposta foi dada por um jovem:

Uma imagem que vale por si só contra a falta de tudo de um candidato a presidente da República

      Pintando os lábios de um vermelho bem vivo, assumiu solidariedade para com as mulheres que se sentiram, e bem, ultrajadas pelo comentário indecoroso, falocrata, absurdo; afirmou a inclusão, mostrando que esses mesmos lábios não separam homem de mulher, independentemente da cor (por vermelho que seja); revelou que é bem melhor um homem de lábios pintados de vermelho do que humanos que mais parecem ovelhas negras runhosas.
       Melhor (a bem das ovelhas, tão mais preferíveis e inofensivas face a tais humanos, tão sórdidos e vis): uma resposta à altura de quem é grande, quando tem de se confrontar com a pequenez de espírito, de educação e de humanidade. 
       Encaremos a questão no seu absurdo: houve, há sempre alguém que tem gostado de ouvir burros ou asnos a (a)zurrar, ornear, ornejar, rebusnar... tudo palavras lindas aos ouvidos dos prosélitos.

       Há limites, mesmo para quem, como eu, sou mais azul! Viva o vermelho! (Cada vez mais se vive o sentido de se votar pela democracia, contra discursos e comentários próprios de visões de índole facciosa, cínica e autocrática).