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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Nada convicto, mas seguro

      Com tantas depressões, anseio por outras estações.

     A primavera e o verão são sempre as preferidas. E quando mudar a hora, deixando para trás a de outono e a de inverno, melhor será.
     Instalada a vontade de mudança, fico-me, para já, com o sentido da esperança. 
   Tal como o diria Pessoa, "Não sei o que o amanhã trará"; ou, então, repito Régio, no final do seu "Cântico Negro": "(...) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / - Sei que não vou por aí!"
     Há já algum tempo que tenho vindo a expressar uma preferência. Hoje é dia de decisão. 

Cumpra-se o dever com a responsabilidade que se impõe: a de escolher por causa do que não se quer.

     A ideia tem sido a mesma: nada convencido ou convicto da cruz a colocar em ato eletivo; apenas certo da que não vou assinalar. Fico-me pelo seguro (a figura retórica da antonomásia nunca fez tanto sentido), por não querer a desventura (a negação é certa, por ser verdadeira) nem por quem se mostra atacado pela síndrome Calimero.

     O tempo ditará se a escolha foi a devida. Por ora, foi a possível, por não haver outra.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Versos antigos para foto recente

        Versos velhos para foto nova.

        Foi o que deu ir ver o mar (da Granja).

Dezasseis anos depois, apliquei antigos versos a um novo olhar, feito foto (foto VO)

       Agitado que estivesse, não chegava ao fogo que o dominava.

      Regresso a casa, sem o fogo nem a força que a noite escondeu.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Patrono à mesa

     Um jantar natalício com a presença de Laranjeira.

    As mesas estavam primorosamente decoradas, à espera dos convivas. Há cinquenta anos estava um edifício em construção, ainda com a designação de "Liceu Nacional de Espinho"; hoje, num edifício requalificado entre 2008-2011, há um patrono a marcar presença na Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Laranjeira:

Laranjeira no Natal de 2024 do AEML (composição fotográfica VO)

     Rumo aos 50 anos de um tempo e de um espaço a celebrar (mais as pessoas que os viveram), o aroma do fruto (laranja) vem compor o paladar de um licor que tem na árvore (laranjeira) origem, estendendo-se, por jogo evocativo, ao patrono (Laranjeira). Da natureza ao nome próprio, há como que uma transmutação alquímica, sugerindo a criação do elixir da vida ou da imortalidade. Laranjeira, por lembrança e evocação, ganha vida eterna ou prolongada.
     Se, na língua portuguesa, "alquimia" vem do latim alkimia, por sua vez proveniente do árabe al-kimiya (significando "a química"), não será de esquecer que, no grego antigo, khemeía significava "fusão de líquidos".

     Nada como ver no licor de laranja o adocicado sabor que Laranjeira, na vida, não deixou de acidular. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Lua escondida

      Fotografar a noite e o luar pode dar em "pintura".

     Parece mais isso do que fotografia. Diria até que o desfocado resulta em artístico, com os efeitos de luz a compor um quadro, no qual o contraste e o flash da máquina refletem um momento feliz: com ramagem, raiado, difusão de cores e a sensação de que o negro noturno deixa clarear, brilhar e dourar instantes da caminhada.

A ramagem da árvore é o esconderijo da lua (Foto VO)

      É o que dá passear à noite e ver na ramagem de uma árvore o esconderijo da lua "em queda".

     Diz-me uma colega de Ciências Físico-Químicas que "Newton, no séc. XVII, explicou por que razão a maçã cai para a Terra e a Lua não." Lá está: a queda só pode ser metafórica ou a tradução de um efeito de ilusão (de ótica).

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Final de tarde outoniça

     Com tanta notícia de quedas, acidentes e tempestades,...

   Antes de me fechar em casa, no sossego e no conforto que algum descanso possa trazer, fui ao encontro dos sinais de um outono fresco e húmido, arejado, livre de paredes, papéis, obrigações e monitores que nos limitam a alma.
     Foi então que o vi entalado entre as nuvens e o oceano agitado:

Ave, céu, nuvem, sol e mar num tempo outoniço acabado de chegar (Foto VO)

    Tirei a foto, fixei-o nessa imagem: um foco de c(al)or e luz sobre o horizonte, sob um manto de sombra a deslizar lenta, leve e silenciosamente, enquanto ruidosas ondas se atiravam para o areal.
      Uma gaivota foi apanhada. Nela ficou, num recanto e nas alturas que um par de asas conquistou.

      ...há que aproveitar alguma luz e colher a vontade de voar.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

No Dia Internacional da Aviação Civil

       Chega o apontamento fotográfico do dia.

       Parece ironia, mas as aves decidiram celebrar o dia deste modo:

Voos suspensos (foto VO)

       O dia invernoso assim o ditou: à espera de melhor(es) tempo(s).

    Estes passarocos parecem ser do contra, mesmo (logo hoje que oficializa o último dia do presente governo).

sábado, 21 de outubro de 2023

Qual é maior?

    É o que dá caminhar.

    Encontram-se pormenores que importa registar. No dizer de alguns chega a fazer-se do longe perto, nessa vontade que é a de estar mais próximo do mar.

Duas capelas sobre rochedos e areais (Foto VO)

    Aqui está o "Senhor da Pedra" tão à mão que os olhos dizem estar "muito perfeitinho, até no tamanho."
    É assim a ilusão no que se vê e no que se diz.
    Dita a razão que não há qualquer confusão: o que se ouve (dizer) outros olhos não se deixam enganar. Lá longe, mais próximo do mar, há areia, rocha, pedra bem mais real, com tamanhos que não cabem numa maquete exposta pelo município junto dos transeuntes.

    Continue-se a caminhada, enquanto o parco sol deixa e a iminente chuva não se faz sentir.

domingo, 22 de janeiro de 2023

De um final de tarde em braseiro

      Depois da chuva contínua,...

     O sol brilhou hoje, fazendo por momentos esquecer o tempo inverniço (ou invernengo, tanto faz) que nos tem marcado os dias.
      Não fosse o frio sentido ao final, dir-se-ia que as cores do pôr do sol aqueciam o olhar

Entre a terra e o céu, uma estrela cai para a linha do horizonte (Foto VO)

   Espreitando por entre as copas das árvores, essa estrela branca irradiou luz e vestiu-se de um amarelo alaranjado quando caía na linha do horizonte, aqui e além distribuindo raios a rasgar a densidade sombria que da terra se ergue na direção do céu.
     Este parecia estar em braseiro, com as nuvens em tons de fogo e de cinza, entre lume e carvão. Só no alto se via o azul, mais subido, límpido.
     Esta foi mais uma perceção do meu olhar.

      ... regressaram as cores que aquecem o frio inverno e fazem ansiar pelo dourado verão.

sábado, 15 de outubro de 2022

Passear pelo jardim

       Depois do dever (com prazer) o prazer (sem dever).

      A manhã mantém o registo do trabalho, apesar de ser fim de semana. É tempo para lembrar o já cumprido, encarar novos desafios e alguns princípios que valem para qualquer ação educativa:

Apresentação do Projeto 'Geração+' na LIPOR - I (Foto VO)

Pensamento aristotélico na apresentação do Projeto 'Geração+' na LIPOR - II (Foto VO)

     Após uma deslocação até à LIPOR (Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, entidade responsável pela gestão, valorização e tratamento dos Resíduos Urbanos produzidos pelos oito municípios que a integram: Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde), em Valongo, e a propósito do projeto "Geração +" e do "Coração Verde", mal se pode, procura-se que o dever dê lugar ao prazer de...
... respirar,
... alongar o olhar,
... passear,
... estar com quem se quer,
... (re)encontrar antigo(s) aluno(s) e vê-lo(s) bem e com vontade de futuro,
... recuperar vivências passadas na presente  lembrança,
... tomar um pequeno-almoço decente.

Montagem fotográfica - I (Foto VO)

Montagem fotográfica - II (Foto VO)

Montagem fotográfica - III (Foto VO)

Montagem fotográfica - IV (Foto VO)

      No meio da cidade, há um encontro de natureza e humanidade, lembrando que a naturalidade humana ou a humanidade naturais são possíveis, nesse cruzamento em que a expressão natureza humana pode ir do sentido mais literal ao mais metafórico, algures entre o paisagístico e a essência ou a existência do ser.

      Ver coisas bonitas ajuda a "limpar" a alma e o cérebro, mesmo que o cinzento de dia traga um sol matutino feito da luz que as nuvens e o nevoeiro escondem.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Abate dos pulmões... e dos lares

      Quando se fala de ambiente e de preservação do planeta, ...

     É frequente ouvir-se que a Amazónia é o pulmão do mundo. Na importância vital deste amplo espaço para o planeta, regista-se, porém, que a maior parte do oxigénio aí produzido é, desde logo, consumido pela própria floresta amazónica na respiração e na decomposição de animais e plantas. Outros pulmões são essenciais, bem mais dominantes - como os oceanos -, para um planeta tão vasto.
      Diga-se que cada gota está para o mar como cada folha ou ramo germinam da terra. Ambos se complementam e a ameaça de qualquer um deles compromete um equilíbrio necessário.
      Por isso, quando os tempos são incendiários e destruidores do ambiente, faz todo o sentido lembrar, com imagens críticas, o relevo do que se perde:

Era(m) só (de) um mundo mais purificado... Era(m)!

     Cada árvore abatida é um lar destruído, um perigo planetário a aniquilar a sobrevivência dos seres vivos.

      ... fala-se do pulmão que nos ajuda a respirar, mas é bom que não nos esqueçamos do nosso grande lar.

sábado, 16 de abril de 2022

Outras cores no olhar

      A bem do que não se diz.

   Quando me disseram que o mar e o céu eram azuis acreditei. Acrescentavam, ainda, que era azul ora marinho oa celeste. Gostei da cor e do que ela inspira(va): tranquilidade, serenidade, harmonia, espiritualidade. 
     A vida, contudo, lembra-nos que o verso tem o seu reverso. E, nessa medida, o azul também se deu a ver na monotonia, depressão, frieza. Ficou tão próximo do mal, da doença, do fim e da morte que fui à procura de uma paleta e do que esta tinha para me dar em alternativa.
     Busquei, então, novas cores. Descobri-as no olhar e nos matizes que pude contemplar:

Um universo de ouro e prata onde mar e céu ficaram sem azul (Foto VO)

       Encontrei uma bola de luz bem intensa na claridade, um mar brilhante feito de prata e um céu que se firmou de amarelo, laranja e ouro. Na variedade colorida, reparei no que é marinho e celeste sem azul. No momento, nesse instante apreciável dado a ver, tive um mar nos tons da sabedoria divina, enquanto o ouro do amor divino se mostrava para lá, logo acima do horizonte. Um céu de fogo e um oceano de água - dois exatos opostos - complementam-se no quadro natural da vida, evocando sabedoria e amor.
       Pode ter sido este um momento, já familiar a outros também vividos. Fica, por isso, a nota de que há instantes em que os opostos têm sempre a possibilidade de se emparelhar, de se enquadrar - tal como a prata, na representação da lua e do princípio feminino (lunar, passivo e branco), se ajusta ao ouro (por sua vez solar, ativo e amarelo), do princípio masculino. Eis, em suma, a riqueza da diversidade complementar.

     A bem do que se viu e do que possa ser a possibilidade da esperança; o princípio da aproximação, do complemento e da conciliação dos opostos (porque há guerras que não trazem felicidade a ninguém, eventualmente só para aqueles que momentânea e egoisticamente se comprazem em lançar mísseis - sejam reais sejam metafóricos - para destruir o semelhante).

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Um pé de orquídea

      Um presente em tempo (ainda) de aniversário(s).

      Recebi um pé de orquídea pelo dia que ontem foi.
    Etimologicamente, a designação vem do grego όρχις (órkhis) e ειδος (eidos), significando com a forma ou aspeto de testículo - numa clara referência ao formato dos dois pequenos tubérculos que as variadíssimas espécies do género evidenciam.
    Utilizadas, desde passados remotos, em poções curativas, afrodisíacos e efeitos ornamentais, na China antiga, as orquídeas eram associadas às festas da primavera. Não está longe, mas ainda é porvir (ou não estivesse por vir). Hoje, ainda no curso do inverno, quando muito pode falar-se de "primaveras" (apesar de o número já não ser marca da juventude própria ao conceito).
       Há, por agora, uma nota de beleza à porta do salão:

Um pé de orquídea à porta de mais um ano recém entrado (Foto VO)

      Enquanto símbolo da perfeição e da pureza espirituais, é esta flor, por certo, a manifestação de uma amizade que o tempo tem vindo a construir e que fará perdurar.

     Com o agradecimento à F. e ao C., por mo terem gentilmente ofertado neste tempo tão aquariano, de polaridade masculina e à espera de novo espírito. Bem hajam.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O sol brilha e o mar rebola

         O dia faz-se de sol...

      A manhã, ainda fria, enchia-se de luz e, só por isto, parei frente ao mar. Anunciava-se um dia intenso de trabalho. Ofereci-me uns breves instantes, olhando a praia e inspirando a frescura; escutando esse rumorejar salpicado a rebentar no paredão e no areal.

 Instantes de uma manhã junto à praia - I (Foto VO)

         Um branco rasgado impunha-se nos limites de uma queda de água, estendida até à areia que a barrava, sugando-a e devolvendo-a ao azul esverdeado de um manto líquido sempre a ir e voltar.
          
Instantes de uma manhã junto à praia - II (Foto VO)

Instantes de uma manhã junto à praia - III (Foto VO)

       Com o vaivém cíclico, que se via e continuamente se repetia, mais a inquietação desta vida, que pairava na mente e nas ondas se pressentia, inspirei o ar; inspirei-me no mar. Sorvi a energia, ganhei a força. Fui à luta.

Instantes de uma manhã junto à praia - IV (Foto VO)

Instantes de uma manhã junto à praia - V (Foto VO)

       Chegou mais um dia para fazer anos (expressão curiosa para exprimir esse tempo tão singular, mas que não para de se multiplicar e contar).

    As mensagens foram caindo no telemóvel. Precisava dar-lhes resposta mal pudesse. Se alguém ou algo fez lembrar o dia de hoje, quem escreveu merece as palavras e o agradecimento de quem espera pela primavera e vai fazendo primaveras (em grande número). Obrigado a todos os que me acompanha(ra)m e me têm ajudado a sobreviver neste mar da vida.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

2021... vai-te!

       Chegado ao último dia do ano (que não deixa saudades), ficam as cores de mais um pôr do sol.

     A paisagem marinha inspira: a origem da vida, a liberdade dos voos que queiramos dar, a luz no horizonte, o sombrio dos tempos e dos perigosos rochedos.

O último pôr do sol de 2021 - Canidelo (Foto VO)

      De tudo isto se fará, por certo, 2022. De tudo o mais se faça ainda cada novo dia, sempre com a nota positiva do que nos faça viver, aproveitando as cores da natureza.

       Para todos, um oceano de muita saúde com muitas ondas de alegria e cores quentes no horizonte. Bom ano!
 

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Final do dia... às dezoito!

       Quando dizem que os dias vão crescer...

       Uma tela de céu,
       Um sol que se foi,
       Uma luz que persistiu,
       Mais o escuro que se arrolou.
       Eis o que o olhar viu:

À espera que os dias cresçam (Foto VO)

       Sombras chinesas de uma natureza
       tão à mão, tão versátil, tão diversa na sua riqueza.

       Cresçam, cresçam... com luz e sol!

sábado, 20 de novembro de 2021

Natureza em planos e camadas

        A tarde, entre o cinzento e o foco de luz, estava para contemplação.

          E assim aconteceu.
    Primeiro, mais próximo, um mar de prata irradiado de luz chamou a atenção. Vinha ela de um sol encoberto por nuvem densa (é sempre bom saber que ele está lá, apesar da densidade e da persistência do que se mostra sombrio).

Mar de prata irradiado de luz (Foto VO)

         A panorâmica parecia estar em camadas, tal como a vida (ora feita de instantes felizes ora marcada por adversidades).
      Depois, mais distante, via-se um céu num borratão de brancuras dispostas em dispersão espiralizada; em estado de ebulição.

Das brancuras dispersas ao areal banhado na praia Bocamar (Foto VO)

      Foi assim um fim de tarde deixado à liberdade de uns momentos compassados em pé ante pé e por olhares à espera de disparos fotográficos.

        No regresso, havia mais sombra a fazer-se noite.
     

sábado, 13 de novembro de 2021

Roteiro de compensação

     Saindo ao final do dia, quando o sol se foi.

     Tempo de olhar o mar e o  horizonte. Tempo para mim.
     Já não há bola de fogo ou de luz. Aproxima-se o escuro com o relógio a dizer que ainda há tempo para fazer muito.
     Capto o momento numa foto, com o que a natureza me oferece:

Entre Espinho e a Granja - roteiro de compensação (foto VO)

     Eis o que fica: um caminho que, por mais rochoso e nevoento que pareça, tem de levar a alguma luz. Há ondas e marés que, às vezes, são de infortúnio. Existem para que se possa dar valor ao que realmente interessa, àquilo que mitiga a dor.
     Esborratados uns tons quentes no céu, tudo ficará noite, sem vestígios desse calor que compôs a tarde de um dia por aproveitar.

     Tomo um café quente e regresso a casa. Vem o vazio. Deve ser do frio.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Onde o mar começa...

      No ciclo da água, as nuvens dão em oceano (ou este tem muito delas).

      Se, por definição, as nuvens são acumulados visíveis de partículas diminutas de gelo ou água no seu estado líquido, ou a mistura simultânea de ambas, capto-as em foto para ver que o mar começa onde a nuvem acaba. Assim se faz um oceano: com aquilo que a nuvem dá. Por isso, esta, suspensa na atmosfera, após condensação, ou liquefeita, segundo fenómenos atmosféricos, é uma extensão dos tons do mar:

Areal de Bocamar, espraiado entre dunas, nuvens e oceano - I (foto VO)

Areal de Bocamar, espraiado entre dunas, nuvens e oceano - II (foto VO)

       Em "Mar Português", Pessoa escreveu que "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu." Por vezes, o espelho fica baço, sem o brilho que lhe é próprio. Ainda assim, seduz, por essa amplidão que, do mar ao ar, se pinta de algodão, de flocos a esvoaçar até que as cores do perigo e do abismo se insinuam. Altivos, densos e escuros, lá estão eles a impressionar, num sinal do desconcerto e desarranjo do universo, onde parece ver-se ondas no ar ou um mar de nuvens.

       Ao longo do percurso pelo passadiço, vive-se um final de tarde bem outoniço.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Morrer na praia

      O dia iluminou-se com um radioso sol...

     Regressado o bom tempo, revive-se o conforto desses momentos que nos deixam apreciar o final de uma outoniça, mas calorenta tarde, aromatizada pelo iodado vindo do mar, numa combinação a que não falta uma fresca névoa esfumada, a embaciar levemente a paisagem.
     Erguido o olhar para o alto, como para sorver agradecidamente o terapêutico ar, reparei num céu cruzado, que decidi guardar em foto:

Céu cruzado junto à Granja (Foto VO)

     No enlevo do instante, fui subitamente espertado pelo aparato ruidoso de sucessivas sirenes, trazendo o sobressalto e a aflição. Bombeiros, polícia marítima e muitos curiosos deixavam-se ficar na praia. Não era a simetria dos traços nem a variedade das cores celestes que os atraíam. No areal, havia um corpo humano estendido, inanimado. Morto. Tudo tão rápido. Ninguém conseguia explicar o sucedido. Simplesmente caiu, quando caminhava naquela linha de areia que fica entre o molhado e o seco. Foi aí que o corpo encontrou o seu leito de morte, bem próximo daquele outro que dizem ser a origem de tudo, mas que, no seu vaivém ondulatório, nada trouxe a quem deixou definitivamente de ver o espetáculo do céu cruzado, pintado de algum dourado em tela de fundo azul.
      Por vezes, a vida reduz-se a isto: a uma rápida queda sem recobro. Nada resta; nada mais há. Só chão - no caso, areia, a mesma que, na ampulheta, se deixa cair de uma âmbula para outra até esgotar. Tudo acaba, mesmo quando alguém vai em socorro e ao encontro do que já só é um peso inerte, algures deixado, abandonado de todos os sentidos.
     O céu cruzado e a luz ainda quente assistiam a alguém caído, a esfriar à medida que as sombras e o escuro surgiam, extinguindo as cores do dia. Azul, só o das luzes rotativas das viaturas que, agora paradas e em silêncio, haviam trazido socorro a destempo; calor, só o da humanidade dos que prestavam os cuidados derradeiros, ensacando quem partira numa última viagem, já sem horizonte.

      ... até que a vida se apagou. Literalmente, alguém morreu na praia. RIP.

domingo, 20 de junho de 2021

Céu, mar e vegetação gotejados de chuva

       Em vésperas de entrada no verão, há cores, clima e sentir inverniços.

     Dizem que já nada é como era. Não confirmo nem desminto. Há quem queira pôr a natureza à sua medida e ao seu gosto. Hoje não está radiante para os que assim se tomam, nem dá calor aos que só o querem receber.
      A impressão que tenho é a de que o mar anda gotejado de chuva e  a frescura do dia cinzento se faz sentir no gotejamento do vidro.

Uma impressão de céu, mar e vegetação à chuva (Foto VO)

       Não é a primeira vez que o capto, mas uma coisa é dezembro; outra é a entrada do estio, que não rima com frio na ordem do desejar e do sentir. É tão interessante visitar Portugal que até o inverno vem cá de férias passar o verão.

        Hoje foi dia sensaborão, não fosse a foto um registo de alguma animação, ainda sem o cheiro nem o calor do verão.