Mostrar mensagens com a etiqueta Expressão idiomática. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Expressão idiomática. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).

sábado, 24 de janeiro de 2026

Acentuar o que não se deve

       Dizem as gramáticas (sim)...
       
       Nem a palavra nem a sílaba são graficamente acentuadas. 
    Monossílabos tónicos terminados em "u" (por exemplo, "tu") não são acentuados; só os terminados em "a", "e", "o" (seguidos ou não de "s" - como  "vás", "pés", "cós"). Registe-se: nada a ver com "u"(s).
     "Recuo" (conforme o contexto frásico, ora nome ora forma verbal na primeira pessoa do singular do presente do indicativo) também não tem acento. Trata-se de uma palavra paroxítona (grave), tipicamente não acentuada, terminada com o hiato "uo" a não receber acentuação gráfica, tal como outras afins: "arguo", "atuo", "amuo", "duo", "usufruo".
        Espantosamente (ou não), leio em noticiário televisivo (da TVI) o que não devo:

Razões e lições do absurdo: sejam as de Trump sejam as de quem escreve na televisão (Foto VO)

      Se linguisticamente o erro está instalado, fica a positividade do anunciado: o disparate "trumpesco" (de querer comprar a Gronelândia ou de simplesmente tomar posse dela) parece não vir a ter lugar (Será?). Assim deve ser (ao contrário da acentuação)!
       Tanto pelo que o "trumpalhão" pretendia como pelo que se escreveu, há razões e lições que nem ao diabo lembra.

       ... o que certos utilizadores não fazem (pena)!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Animar... a leitura

       Fui convidado a ler, numa turma de 10º ano, um texto sobre o natal... tempo de nascer...

    A proposta da Biblioteca AEML consistia num breve momento de leitura em todas as turmas, enquanto dinâmica enquadrada na feira do livro, mais a abordagem temática do natal e do nascer. 
     Ao final de uma primeira experiência, veio a segunda e, porque não há duas sem três, lá chegou mais uma.
      Inscreveram-se as turmas que quiseram receber o(a) leitor(a). Eis que lhes surge o diretor... para ler.
     Levei comigo o livro (Quinze Poetas Portugueses do Século XX, com seleção e prefácio de Gastão Cruz), apresentei o autor (Jorge de Sena), pedi que me dissessem se o poema trazido tinha alguma coisa a ver com o natal, o nascer; mas, acima de tudo, quis que partilhassem comigo a leitura a fazer. 
     Ensaiado um esquema de animação (escrita a palavra "BRILHA" no quadro; lida em voz alta e em coro, marcando a força, a vontade e a luminosidade que importa ter neste mundo; combinado o momento em que a diriam), foi só oralizar o texto:

"Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, in Fidelidade (1958), com voz e vídeo de VO

     No final, depois de partilharmos a voz na leitura, pronunciaram-se sobre a (in)adequação da escolha; refletiram sobre o que "nasceu" no momento viv(enc)i(a)do; explicaram aproximações e afastamentos de opiniões; concluíram que, no ato de ler, é possível a união, o gosto da emoção, o (re)nascimento do que vale na vida.
       Tiveram cinco minutos (talvez dez) de, espero, luz com a poesia.

   Também eu vivi a luz, o calor, o gosto de estar na sala de aula, com todos eles. Esqueci dores, agruras, urgências, sufocos e senti que todos merecemos experienciar momentos destes mais vezes. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Que caneco!

    Também podia ser caneca, mas, no caso da expressão idiomática, prefere-se a versão masculina.

   É pelo menos assim quando alguém depara com algo inesperado ou indesejável. Quando de uma caneca se trata e nela se estampa um valente erro ortográfico, é mesmo caso para dizer "Que caneco!"

Está negativo! Está mesmo negro! É o caneco! 
(foto partilhada pela MPM, com o agradecimento devido)

    Cedilhar um 'c' acompanhado à direita por 'e' ou 'i' nem ao diabo lembra (também este último é frequentemente tratado, no Brasil e de modo informal, por 'Caneco'). É o sinal da invulgaridade, do estranho, do desequilíbrio, da disformidade. Na escrita, então, o diabo anda à solta, com cedilhas indevidas em muitas palavras. Paciência é uma delas.
     Não há pachorra! Só faltava comprarem a caneca como prenda de natal e oferecerem-ma. Acho que a ia deixar cair logo a seguir.

      Não há PACIÊNCIA! Tenho dito e bem escrito.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Tudo por causa de um saco

    Tempos houve em que reflexão análoga poderia ser sobre os jornais.

    Diários, vespertinos, semanais ou de outra periodicidade, muitos, depois de lidos, acabavam no lixo, mais ou menos imediatamente após reutilização (enquanto papel de embrulho, por exemplo, para não falar do envolvimento do tacho de comida nos piqueniques).
     Hoje, o tópico tem mais a ver com sacos. 
    Sempre que se vai às compras, depois do carrego dos sacos e da arrumação dos bens adquiridos, lá se colocam os ditos num maior, à espera de se lhes dar (novo) futuro.
     Com a festa de ontem, acabei por estar a arrumar sacos: uns para depositar lixo, outros para prendas a dar, alguns para reservar ou mesmo preservar. Entre estes últimos, estão os mais singulares; pode até dizer-se os mais bonitos, para não falar dos mais cultos.
    Sim, há sacos muito cultos. Basta ir à livraria Bertrand, comprar uns livros e... vem logo a vontade de regressar a casa com um saco distinto:

Sem puxar o saco à Bertrand, a venda deste saco é muito apelativa (Foto VO)

     Tenho um alusivo a Pessoa, com versos, pensamentos e imagens que nos fazem admirar a escrita... e o saco.

      Não foi tempo de colocar a viola ao saco, nem de deixar cair o tema em saco roto. Espero não ter enchido o saco ao leitor, mas hoje deu-me para isto - trivialidades -, por ter recebido uma prenda num saco de que gostei.

domingo, 10 de março de 2024

Dia de eleições

      Este é o dia de reafirmação da democracia.

      Um dia que lembra o cravo de há cinquenta anos e tem de apagar sinais da arma que o fez florir.

Que o cravo inspire o ato de escolha, 
na consciência de que o futuro é sempre incerto, mas construído por quem vota.

    Que a escolha se cumpra e se reflita sobre o que não se fez, num caminho em que as incertezas e indefinições se tornaram uma prisão para um país que precisa(va) de muito diálogo e de soluções com maior(es) compromisso(s) - o(s) qual(is), assim o diz a História, surgiu(ram) muitas vezes sem maiorias. 

     Menos abstenção seria já a melhor resposta para quem provocou toda uma situação ainda sem resposta; ainda por provar. Tragicomédias não vão poder ser evitadas, garantidamente, mas que a escolha seja a de fazer progredir um país, livre de forças que o comprometem no que tem de bom. Seja este um país de cravos (destinado que parece estar a não viver num mar de rosas)!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Porque nem tudo é claro, coerente, evidente

    Quando tanto se fala da necessidade de coerência...

    Perceber que a vida tem contrastes é bem visível: mostram-no a noite e o dia, a tempestade e a bonança, o ódio e o amor, a inércia e a ação, o negro e o branco.
   Concluir que muitos deles se complementam é entender que, com antónimos, nem tudo se exclui definitivamente - é o que se pode inferir de expressões como "pôr o preto no branco", onde os termos antónimos convergem para uma noção, um sentido de clareza, explicitação e formalização de situações. 
    Não só a antonímia, enquanto processo de relação lexical, contribui para níveis de  coerência; também o conhecimento enciclopédico, apre(e)ndido e/ou vivido.
      Hoje, foi-me dado a ver que as pedras dão cor, flor, vida natural, ser vivo.

Pedras que dão vida no varandim de um hospital (Foto VO)

    Por estranho que pareça, não se trata de afirmação incoerente. Por literal que não seja, é possível ver o afirmado, pelos vistos mais e melhor do que alguns homens que, precisando de coração para viver, o negam para com os seus pares. Assim o ditam as guerras, os conflitos que por aí grassam no mundo e muitos teimam em não ver o mal que trazem e fazem à Humanidade. 

    ... e o mundo nos dá a ver que as contradições e os contrários não espelham necessariamente incompatibilidades.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Gaivotas em terra

      Ei-las todas alinhadas ao sabor do vento (que não muda nem para).

    Assim as encontrei, ao sair de casa, plantadas na relva que ladeia o "mamarracho" cá do sítio.

Gaivotas em terra... de Espinho (Foto VO)

     Lá diz o povo: "Gaivotas em terra, tempestade no mar". Sim, este anda muito agitado, altivo, tal como o mundo. Até as aves marinhas procuram repouso à espera de melhores dias. Acrescente-se, contudo, que as expressões idiomáticas e os provérbios são frequentemente redutores e culturalmente relativos. Isto é evidente quando na terra a acalmia é só para alguns e a agitação também não é para todos.
    Não é ocasião para lembrar que "uma gaivota voava, voava" (lá chegará!). É momento para deixar a tempestade amainar. Há tempos assim. Deixá-los passar. Hão de mudar.
     Gostava de ser uma destas gaivotas, em sossego. Ter tempo para reler Gaivotas em Terra, obra que David Mourão-Ferreira produziu na estreia da sua ficção narrativa (1959) e com a qual foi galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa. Há nela uma novela intitulada "E aos costumes disse nada" (adaptada, em 1982, ao cinema como "Sem Sombra de Pecado", por José Fonseca e Costa), com um toque de escrita a lembrar prosa queirosiana, um retrato de época e de um país com muitas "tempestades":

       "E os tempos iam maus: quase toda a Europa estava em guerra, quase todo o mundo estava em guerra. Dos meus camaradas do COM, a maior parte tinha sido destacada para os Açores: alguns outros para lôbregas unidades fronteiriças. Eu - talvez graças a influências do meu pai - fora dos raros privilegiados a ficar numa guarnição de Lisboa." 
in "E aos costumes disse nada", de Gaivotas em Terra, Presença, [1959] 1998

     Neste segmento narrativo convergem várias metáforas: as da família, do quartel, da cidade, da guerra (e da sua linguagem), da terra a conviver com o grotesco, com a máscara, com uma formalidade aparente; a contrastar com a antítese e a duplicidade de comportamentos. Transparece uma sociedade que pouco tem de liberdade, na teia do "ser" e do "parecer", à espera de uma outra "tempestade", mais libertadora e geradora de condições de vida mais dignas.
     Pensamentos e reflexões feitos de uma atualidade que cansa (porque há quem teime em não aprender ou se renda ao que não é dever nem poder).
       
      Não sei se estas são as gaivotas que voam, que aspiram ao alto, à mudança; parece-me que não trazem "o céu de Lisboa". Andam mais perto, ameaçadoras. Talvez em qualquer lugar, a qualquer instante, espalhando excrementos corrosivos que importa limpar de imediato (como a "cegueira", as invejas e outros males do mundo). Com Zeca Afonso, o digo: "não há só gaivotas em terra quando um Homem se põe a pensar".

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Quando um ou outro são ambos

        Aquele momento em que te perguntam se é X ou Y e...

    ... a resposta correta compreende os dois termos - situação em que o 'ou' não pode ser, portanto, disjuntivo ou de exclusão dos mesmos.

        Q: É 'parquímetro' ou 'parcómetro'?

      R: Ambos. Caso para dizer que "Venha o Diabo e escolha", que é sempre expressão para admissão de duas hipóteses num cenário de difícil resolução. Reconheça-se, nas palavras questionadas, um processo de composição, no qual a vogal de ligação ('í' ou 'ó') pode ser indiciadora ora de algum motivo etimológico na formação da palavra ora de alguma deriva associada à própria mudança e à utilização dos falantes da língua.
     Tipicamente a vogal de ligação é, nestes casos, uma pista do marcador casual na composição de palavras com radicais latinos ou do grego antigo. Justifica-se, assim, o recurso a duas vogais de ligação: 'o' e 'i'. A última remete para um radical da direita com origem latina e representa uma estrutura de modificação (sem alteração da classe de palavras):

           [fratr] i [cid]a
                                                   [agr] i [cultor]

        Já a primeira escapa à descrição anterior:

                                                   [polític] o [económic]o
                                                   [lus] o [brasileir]o

      Estas tendências generalizantes são, porém, contraditas por exemplos em que 'o' antecede radical de origem latina (ex.: [gen] [cíd]io), em confronto com '[reg] i [cíd]io') ou 'i' é seguido de radical de origem grega (ex.: [veloc] í [metr]o, em contraste com [flux] ó [metr]o).
    Além disto, casos há na língua em que uma mesma palavra composta admite ambas as vogais de ligação, conforme verificável nos seguintes casos: 'organigrama' / 'organograma'; 'parquímetro' / 'parcómetro'; 'taxinomia' / 'taxionomia'. Estes últimos pares de exemplos propõem, por um lado, alguma relativização da consciência etimológica dos falantes; por outro, a consideração de outras lógicas fundadas mais na frequência e na analogia da composição, em particular, e da formação de palavras, em geral.

     Conclusão: há perguntas que apontam para respostas bem complexas, em termos de informação morfológica. Mais inclusão do que exclusão; mais conjunção do que disjunção.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Dia Internacional / Mundial da Dança

      Entre os muitos que a consideram como a 4ª arte, para outros é a 6ª.

    Para lá da sequenciação numérica, importa que a dança é uma das expressões da humanidade a conjugar movimentação do corpo com ritmo, num compasso motivado de tempo e espaço. Entre impulsos nervosos e musculares, expressam-se sentimentos; anima-se o espírito, através de passos e gestos, num casamento musical que chega muitas vezes à dimensão da arte.
       É neste âmbito, geral, que o Dia Internacional ou Mundial da Dança é celebrado, há quarenta anos, neste dia, numa data criada pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, a propósito do nascimento de Jean-Georges Noverre - um dos grandes nomes mundiais da dança nascido em 1727.
 apelando a uma configuração da dança onde também cabem as que dão a imagem cultural de um povo,      Com as suas marcas mais ou menos codificadas em géneros diversificados e recorrentemente combinados (rituais e religiosos, mundanos e populares, guerreiros e de paz, de espetáculo), há danças para cobrir uma grande diversidade de situações - das danças da chuva às da sedução, bem como às do festejo dos eventos humanos,  numa universalidade de causas a todo o tempo convocadas. Desde logo, as do espírito,  as da alma da da busca de poder(es) que, na origem, também evocam o espetáculo, a dimensão do apelo e do mistério sagrado (seja este mais natural seja ele mais associado a entidades mais abstratas). 
     Do sapateado, volteio, balanço, genuflexão, contorção de peito e de cabeça, há uma linguagem, uma gramática da dança que não é estranha à expressão da vida (mesmo quando esta se compõe, também, pelo fim de ciclos).
     Na consciência da passagem do tempo, figuram aqui algumas sonoridades e passos de dança que nos acompanha(ra)m nas últimas décadas:

Estilos de dança contemporâneos ao som de músicas deste e do passado século.

      O escritor e teórico da arte francês oitocentista Charles Baudelaire, afirmou que "A dança consegue revelar tudo o que a música esconde misteriosamente, tendo mais mérito de ser humana e palpável. A dança é poesia com braços e pernas, é a matéria, graciosa e terrível, animada, embelezada pelo movimento". Se a literatura, nas suas origens, tem a expressão poética combinada com a música, desta à dança pouco falta - que o digam as bailias ou bailadas das cantigas de amigo trovadorescas.
       Claro que interessa "Dançar conforme a música" e descobrir que / se "Bem dança a quem a fortuna canta / a quem a fortuna faz som". E se há quem acrescente "Quem pode toca, quem não pode dança" ou "Como se toca, assim se dança", é de constatar que se está perante expressões ou enunciados paremiológicos a traduzir bem esta nossa" dança da vida".

       Numa variação ao "Quem canta seus males espanta", hoje recrio o provérbio "Quem dança muitos bens alcança" - o da animação e o de uma libertação salutar que sejam. 

domingo, 28 de novembro de 2021

Quando faz frio...

         ... vêm as saudades do verão.

     Nada como o frio para virem aquelas expressões tão típicas que o caraterizam na língua. 
   Os franceses falam do tempo frio e cinzento (gris), mas connosco "Está cá um griso que nem te passa!". Costuma dizer-se que "Deus dá o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca" - em versão mais reduzida, ficamo-nos por "Cada um sente o frio conforme a roupa" ou "Dá Deus o frio conforme a roupa" (ficando ao homem a escolha desta última, diga-se, para que Ele não seja responsabilizado por determinismos ou injustiças sociais). 
    "Que briol!" ou a versão "Que barbeiro!" não são menos populares, bem mais intensos na frialdade e na invernia, quando acompanhadas de vento. 

Quem tem brio não tem frio?

     Tem sido isto (ou próximo) nos últimos dias, com a acentuada queda nos valores da temperatura. 
   Lá se foi o verão! Mesmo que se diga "Em (fins de) Agosto dá o frio no rosto", não é o mesmo sentido de sensação. O de novembro e o de dezembro chegam a doer, a gelar, a 'cortar' na pele. Por isso é bom aquecer as mãos nas chávenas, usar os carapins nos pés, proteger as orelhas com o carapuço (até a máscara, tão escusada, resguarda lábios e nariz). Não sejam os alarmismos "amarelos" e "laranjas" com que nos brindam, estão aí os sinais de um outono comum a anunciar inverno.
     "Ande o frio por onde andar, no Natal vem cá parar". Já não estamos longe, portanto. Assim que passar o ano poderá dizer-se "Chuva em janeiro e sem frio vai dar riqueza  ao estio"; ainda assim, e à cautela, bom é que se saiba: "Janeiro frio ou temperado, passa-o enroupado". Não vá o Diabo tecê-las e entre "Noite fria, dia quente, fica o homem doente" (e a mulher, também). Digamos que é princípio válido para qualquer altura do ano. No que toca  a frio, este existe em todo o tempo, a todo o mês. Há mesmo quem defenda março friorento e ventoso como condição necessária e virtuosa: "Janeiro geoso, fevereiro nevado, março frio e ventoso, abril chuvoso e maio pardo fazem o ano abundoso".
     Como nem tudo é frio, vento, chuva ou neve, pense-se no calor, na primavera e no sol, que dizem fazer bem à pele (na dose certa). Certo é que, na moderação, "Guarda do calor o que guardas do frio", até porque "Quem não anda por frio e por Sol não faz seu prol". Não é de espantar, por isso, o conselho de proteção: "Usa sempre cobertor, faça frio ou calor".

    À falta de outro calor, viva-se o que de mais humano há e brinde-se com as malgas da sopa (é sempre uma forma de celebrar convívio, amizade e de tornar os corações bem mais quentes, fazendo esquecer algumas agruras da vida ou outros corações que não aquecem).

domingo, 18 de julho de 2021

Despir a camisola

        Há quem goste de vestir a camisola!

      Esta é uma expressão metaforicamente associada à (sublinhado e a negrito) adesão a causas, a princípios, a instituições. Quem veste a camisola é alguém que participa, defende, dá a cara por algo em que, por norma, acredita.
      Depois há aqueles que, com a mania de tudo recusar e na onda negacionista daquilo que é visto e aceite por muitos, acabam por defender aquilo que, à partida (sublinho, à partida), não quere(ria)m. É nestes momentos que se deve tirar a camisola:

Camisola traidora da causa de quem a vestiu (foto colhida do Facebook)

      Pobres de espírito aqueles que não sabem o que fazem: vestem a camisola que afirma o contrário daquilo que os faz sair à rua (volto a sublinhar).
       Concordo: não há ditadura sanitária. Há necessidade, sim, de se aprender a escrever, para que se passe a mensagem. Neste caso, porém, o erro até surte o efeito desejado, com a cara a não bater com a careta.
        
        Não à  (sublinho, repetidamente) ignorância! Leiam, escrevam, aprendam e rasguem a camisola.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Não perceber patavina!

      Assim o dita a expressão, quando ninguém percebe nada de nada.

     Seja por se tratar da posição mais fácil (dizer que nada se percebe) seja porque a inteligência nem sempre o permite imediatamente (daí não saber 'patavina'), o desconhecimento é zona de entendimento comum na expressão em causa. Também há quem não ligue 'patavina', tanto por não querer saber (nem ter raiva de quem saiba) como por não dar qualquer importância ao que seja.
    Da 'patavina' relacionada com o 'nada', alguns etimólogos defendem tratar-se de termo ligado à cidade romana de Patavium (atualmente conhecida por Pádua). O nosso Santo António (que também dizem ser do mesmo local) terá certamente escapado a esta acusação, mas dizem que os habitantes da zona eram maus falantes do latim. Entre muitos erros e deturpações, a par de algumas marcas de regionalismo, eram eles acusados de 'patavinitas'.
     Tito Lívio (59 a. C - 16 d. C), orador e historiador latino também natural de Pádua, escreveu uma obra que se caracteriza por estar incompleta - História Romana - e que alguns críticos da época acusavam de estar repleta das tais 'patavinitas', dificultando a compreensão generalizada dos textos. Ou seja, nada se percebia da história contada.
    Pelo século XIII, dizia-se também que Pádua era reconhecida por ter uma das mais importantes universidades europeias, particularmente no ensino do Direito, só ombreada pela de Bolonha. Na época medieval, desconhecer a ciência jurídica originária de Pádua – ou seja, "não saber (a escola) patavina" - era o mesmo que não saber nada em tal matéria. Isto é, neste caso, 'patavina(o)', por um lado, não deixava de ser sinónima(o) de tudo; por outro,  nome ou adjetivo relativo aos habitantes de Patavium. Ou seja, juntou-se o 'tudo' ao gentílico, mencionando-se aqueles que eram referência na escola ou no saber jurídicos.
     Nas Bocas do Mundo (2010), editada pela Planeta, é obra de Sérgio Luís de Carvalho que propõe, ainda, que alguns frades de Pádua — os designados 'patavinos' — visitavam Portugal frequentemente, no período medievo. Quando falavam na rua, o povo naturalmente não os percebia - logo, e numa extensão do significado da palavra gentílica, não percebia "patavina". Um raciocínio semelhante associa-se a uma história localizada em tempos mais próximos: por alturas dos séculos XVIII-XIX. Aquando da reforma da Universidade de Coimbra, em 1772, conta-se que o marquês de Pombal convidou Domenico (ou Domingos) Vandelli para vir ensinar Química e História Natural, para Portugal. Natural de Pádua e falando o dialeto da sua cidade (o 'patavi'), o naturalista italiano não se fazia entender junto dos alunos, pelo que estes afirmavam que 'não sabiam patavina' (talvez porque também não ligassem). E, assim, o Diretor do Real Jardim Botânico e lente universitário acaba por, no muito que foi nos tempos de D. Maria I, reduzir-se a (quase) nada.

Imagem do livro setecentista de Domingos Vandelli, oferecido a D. Maria I

      O sentido de nada ou coisa alguma predomina, conforme se faz saber a bom entendedor. De resto, ficam várias histórias. Versões distintas da narrativa contada podem estar na base da expressão em causa; não há verdades absolutas na construção de idiomatismos ou expressões culturalmente marcadas, como são as expressões idiomáticas (a bem de quem não queira ser muito 'patavina').

       Na zona do Minho e das Beiras, há quem entenda o termo como sinónimo de pessoa apalermada, pateta ou idiota. Entre o nada e o insulto, venha o Diabo e escolha!

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Uma farsa vicentina muito atual

     Numa intemporalidade que se impõe, com mais semelhanças do que coincidências.

    Hoje fala-se da emancipação da mulher, de jogos de interesse, de violência doméstica, de máscaras sociais - um tempo contemporâneo que não deixa de viver as heranças de outros séculos, e que Gil Vicente também experienciou no seu.
      
Representação do texto dramático quinhentista vicentino pela Spotlight Produções 
(encenação de João Ascenso)

   Persiste a deceção, quando se opta por ideais, ilusões que, a todo o tempo, caem. Descobrem-se os pretensiosos. Denunciam-se os desajustados, os ingénuos e os inocentes que não veem o mal que está à frente. Fazem-se também aprendizagens, mas o que de mais criticável existe (não se olhar a meios para atingir os fins) não deixa de alimentar a farsa que o comportamento social e humano ainda tem.
     Lida ou visionada a representação da obra, cedo se descobre quem representa o quê, para não referir outras linhas temáticas tão comuns no dramaturgo quinhentista: a crítica ao clero, o casamento como negócio, os subalternos oprimidos, o confronto do profano e do sagrado, o preconceito para com os judeus.
     Além do "Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube", a prova de que as aparências enganam faz sentido para quem se deixa viver nelas, nos ideais ou nas ilusões com que se engana; ou, então, para quem mascara uma vivência que só um "cego" não consegue ver. De tudo isto é feita a Farsa de Inês Pereira (1523), um texto a chegar aos 500 anos com um sentido bem presente.

      Assim se revê a obra vicentina tão atual que chega a parecer que nada mudou na metade de um milénio.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Triangulações gramaticais

      Depois de dois a falar de gramática, interessa lembrar que, segundo expressão idiomática, não há dois sem três.

     O desafio é lançado por uma aluna que, neste contexto de ensino à distância, aproveita a oportunidade para dialogar comigo por mail:

      Q: Olá, professor. Boa noite. Estive a ajudar um amigo com uns exercícios de gramática sobre funções sintáticas e estamos ambos com dúvidas numa alínea. Nesta está escrito "Dói-me a cabeça" e é preciso indicar a função sintática de "me" e "a cabeça". Eu acho que "me" é sujeito e que "a cabeça" é complemento direto, mas o meu amigo diz o contrário. Pode fazer-me o obséquio de me dizer quem está certo? Boa noite, novamente, e obrigada por ler. :)

       R: Olá. Creio que não vou dar razão a nenhum (ai, ai, ai...).
      Nessa frase, 'a cabeça' é o sujeito sintático. Repara que eu poderia substituir esse grupo nominal pelo pronome 'ela' - 'Ela dói-me' > 'A cabeça dói-me'. É o melhor teste de identificação / comprovação.
     Quanto ao 'me' trata-se de um pronome com a função, neste caso, de complemento indireto. A cabeça dói a alguém. "A quem?" - esta seria a pergunta para obter a resposta do elemento que funciona como complemento indireto. Mais: sei que é o complemento indireto porque, no caso da primeira pessoa, é usado o 'me'; no caso da segunda pessoa, seria o 'te' (> Dói-te a cabeça) e, no caso da terceira, seria o 'lhe' (> Dói-lhe a cabeça). Ora, o 'me' aparece na mesma distribuição de um 'lhe' que, na terceira pessoa, é a marca pronominal do complemento indireto. Portanto, 'me' exerce esta função equiparada ao 'lhe'; 'a cabeça' é o sujeito (invertido) da frase.
       Lamento, mas nenhum dos dois está correto!
       Toca a fazer as pazes e façam o favor de ser felizes, com a gramática certa.
       Espero ter ajudado no raciocínio.
       Boa noite.

       Não ficando por aqui, prosseguiu o diálogo assíncrono nestes termos:

        Q: Obrigado pelo esclarecimento, professor.
       Mas ainda tenho uma dúvida: "A cabeça" poderia ser complemento oblíquo? Penso que dizer apenas "Dói-me" não está correto, pois falta algo.

     R: Não, não poderia. Tens razão quando pensas que falta algo. A verdade é que falta o sujeito sintático da frase, enquanto elemento normalmente presente numa oração. Alguma coisa dói; neste caso, a cabeça. Ela (o sujeito da frase, ainda que invertido, pois não se encontra no local típico de início de frase). É este teste de pronominalização que assegura estarmos perante o sujeito sintático.
       O que te deve estar a confundir, a ponto de ainda pensares em complementos, é a posição do sujeito na frase: não é a mais comum (normalmente abre uma frase), mas não te esqueças que há sujeitos invertidos na sintaxe do português. Na verdade, o verbo 'doer' é tipicamente intransitivo. Daí não selecionar obrigatoriamente nenhum complemento. No caso da frase que estás a trabalhar, esse verbo, porém, apresenta uma realização transitiva indireta, ou seja, uma realização na qual se assume um complemento indireto: o 'me' (que aparece no mesmo local de um 'lhe', na terceira pessoa).
       Espero ter satisfeito e esclarecido a tua dúvida.

      E fico-me por aqui, para não ter de explicar que o 'me', noutras frases e com outros verbos, assume também a função de complemento direto. Antes de dar nó, é melhor gerir a informação a transmitir. Não vá isto tornar-se no triângulo das Bermudas e ficar tudo em desgraçada confusão.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Vícios...

        Começa-se bem cedo!

        É o que dá para concluir com o seguinte filme:

Assim começam os vícios (vídeo colhido do Facebook)

        Ao que gosto de café, deve ter sido esta a cara mostrada quando se falava de café, mesmo quando se pudesse oferecer uva (que não sei se ficaria apenas pela fruta, com o avançar da idade)!
     Caso para dizer que "De pequenino se torce o pepino" (e não tem nada a ver com prática de agricultor que cultiva os pepinos e precisa de lhe dar a melhor forma, retirando uns "olhinhos" para que eles se desenvolvam e ganhem bom sabor). Que o diga a criança tão interessada num "pouquinho" de café.

         A bem do consumo do dito (logo eu, que até já tive alunos simpaticamente a trazerem-me um à sala de aula - para não falar da prenda de uma bela chávena de café). Do melhor!

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Da imprescindibilidade de um dicionário

        Sou do tempo em que se pedia um, em suporte livro, para cada sala de aula.

    Hoje, basta um computador ou telemóvel para facilmente se ter acesso ao dito material imprescindível para qualquer aula (de língua ou não).
     Direi que, quando falo de ósculos ou amplexos, os alunos julgam que os estou a insultar. E estou a ser tão afetivo! Só não o sou quando sistematicamente usam o verbo 'meter' onde não devem ou dizem para eu esperar 'um bocado'. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Pintura do poeta Bocage 
no Palacete do Conde de Carcavelos (Braga)
    «Conta-se que Bocage, ao chegar a casa, um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. 
 Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o a tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
-Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo... mas, se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada!
    E o ladrão, confuso, diz:
    - Doutor, afinal levo ou deixo os patos?»

      Sinto-me qual ladrão sem saber o que fazer. Não quero roubar ninguém, mas vou tratar de ir à procura de algumas palavras tão eruditas, tão arcaicas e (neo)clássicas.

      Neo..., sim, seja pelo tempo representado em que foram supostamente ditas (na segunda metade do século XVIII) seja por aquele em que podem vir a ser recuperadas. Amplexos!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

(Re)viver o Natal, a saber a mar.

      O Natal já passou!

      Repete-se, sempre que é possível juntar amigos, ainda que à distância desejada para o bem de todos.
    A vontade dos abraços é grande, os sorrisos e as gargalhadas estão mais contidos, mas escapam sempre aqueles ou aquelas que aquecem o momento.
    O convívio é controlado, mas o instante das trocas de prendas é sempre o mais confuso, por causa do entusiasmo de dar e receber - trocar na vontade do que se fez, do que se comprou, do que se escolheu para o(s) outro(s) que faz(em) parte de nós. É como se revivêssemos esse tempo genuíno da infância e da ânsia de descobrir o que está dentro do embrulho. Rasga-se o papel, abrem-se os sacos, revela-se o que é, agradece-se e promete-se que, no próximo ano, vamos repetir tudo bem juntos (o que já é impensável não acontecer).
    Veio a "Prenda natalícia", como muito mar (que rima com amar - esse sal de vida a temperar a amizade). O verdadeiro natal é estar(mos) junto(s) e dar o que saiba a mar:

Um natal tão típico no atípico que foi - montagem de fotos (VO)

         Com Covid, sem Covid, não interessa. Desde que aconteça!
      (A trabalheira que me deu ir à praia, apanhar conchas e substituir aqueles típicos papeluchos a indicar 'De:...' e 'Para:...'! Que me perdoe o comércio destes tempos, mas gosto mais, é mais natural e também gratuito. Escreve-se o nome dos amigos e sempre se dá uma prenda com um pouco de praia, de mar, a lembrar verão, nestes dias de inverno).

     Já lá vão três dias; mas Natal é quando o Homem quiser (na companhia daqueles com quem queremos conviver)!

sábado, 14 de novembro de 2020

Confusão na bicharada

       Já lá vai o tempo em que gordura era formosura.

     Em tempos em que o padrão de beleza contraria o adágio popular romântico de que "Gordura é formosura", não só questões estéticas como sanitárias motivam preocupações contemporâneas no corpo das pessoas. Dizia-se ser a epidemia do Século XXI (até que o Covid-19 apareceu). Acrescento que é o desconcerto no reino da bicharada:

Do texugo à vaca, quando de pote e baleia se trata - cartoon de Hugo van der Ding

          Estas expressões idiomáticas, de tão animalizadas, são um autêntico desconcerto no reino animal, para dizer que não há conserto possível. Do pote animalizado à vaca que se diz pote, tinha de vir a baleia assumir-se como vaca. Um caos para o Homem, que se diz um pouco deles todos.
 
         Consertemos a gordura, para não entrar em mais confusões ou baralhar o zoo! (Lá vou eu fazer uma caminhada!)

sábado, 7 de novembro de 2020

Depois da Liberdade, o Redentor...


      Apetece-me cantar o "That's the way / ha ha ha ha / I like it / ha ha ha ha..." (Ti ri ri ri ri ri ri ri ri).
      Tempo para dar o passo em frente: vamos lá, Brasil!

Liberdade e Cristo Redentor cumprindo a salvação!

     Tem que se aprender que a arrogância, a prepotência, a presunção, a boçalidade, o autoritarismo e a mentira não são virtudes nem exemplo para ninguém. Por mais que às vezes ganhem, precisam de saber que "não há mal que nunca acabe" (mesmo que o bem nem sempre dure).

      ... vamos tratar de um vizinho que gosta muito de imitar o mal.