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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Sobre Arte e o Museu do Prado

     Depois de assistir a um documentário de 2019 intitulado "O Museu do Prado" (TVCine Edition), apetece lá voltar.

       Apresentado por Jeremy Irons e dirigido por Valeria Parisi, trata-se de uma produção para televisão a assinalar a primeira viagem cinematográfica pelas salas, histórias e emoções de um dos museus mais visitados do mundo. Nele encontram-se obras de arte magníficas, contando a história de Espanha desde os Trastâmaras aos Habsburgo, bem como do continente europeu que esteve sob a alçada do império de Carlos V.
Entrada lateral do Museu (estátua de Velázquez)
    Do Salão dos Reinos de Filipe IV (bisneto de Carlos V) ao grande e complexo edifício que abriu as portas madrilenas à arte (primeiro, por mandado de Carlos III de Bourbon, no século XVIII, ao arquiteto Juan de Villanueva; depois reto-mado, após as invasões francesas, por Fernando VII e Isabel de Bragança), destaque para a pintura de Ticiano, Rubens, El Greco, Velázquez, Goya, Dalí - espelhos de tempo e de histórias a (re)descobrir e a (re)viver.
      Aquando dos duzentos anos de abertura ao público (1819-2019), as fachadas principal e lateral do museu estavam em restauro. No interior, eram tantos os espaços e as obras que o tempo esgotou-se na infinitude de pontos de interesse, dos mais antigos aos mais contemporâneos.
      Rever alguns deles neste registo fílmico foi uma boa recordação, por certo. Ainda assim, as cores e as dimensões do autêntico estão para lá do que o ecrã televisivo permite.
     Termina o documentário com uma citação das palavras de Pablo Picasso, diretor do Museu do Prado, em 1936:

"A Arte limpa a alma...

... da poeira da vida quotidiana".

     Lembro-me de ter percorrido alguns dos corredores e das secções do grandioso museu, e ficar com a sensação de que precisava de mais do que dois dias para apreciar tanta herança cultural.

     Entre tantos registos, trouxe este:

"Deposição da Cruz", pintura flamenga (Van der Wayden)

      Um quadro que desafia as linhas da moldura, o espaço da imagem (explorando um efeito claustrofóbico), a própria pintura (apresentando-se com tridimensionalidade, quase como se fosse uma escultura, na composição para lá das linhas convencionais, dos limites retangulares singulares e das linearizações estáticas). Um episódio religioso, bíblico, convoca a reflexão sobre a morte, quase numa coreografia dos corpos inanimados / desfalecidos, sem esquecer o pormenor de uma caveira (ao fundo, aos pés) a impor-se face à grandiosidade das figuras representadas.

        Acho que estou a precisar de um bom banho (de cultura)!

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Fragilidade da vida

      Tema mais do que atual face aos tempos pandémicos que se vivem.

      Camões, no final do canto I, reflete sobre esse tema, mencionando o "... Caminho de vida nunca certo: / Que aonde a gente põe sua esperança, / Tenha a vida tão pouca segurança". Enquanto "fraco humano" ou "bicho da terra tão pequeno", há forças que nos superam (no mar, na terra, no Céu). Não há domínio que nos deixe de testar, a ponto de a pergunta surgir: "Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida...?" Mais do que interrogação (retórica), será a constatação da pequenez e da insignificância humanas face ao poder das forças que gravitam em seu torno, fazendo-as cair de um pedestal antinatural e a todo o momento questionável. E, assim, da temática quinhentista rapidamente se dá o passo para a contemporaneidade.
"Shattering", de Leon Keer
   Leon Keer, artista holandês reconhe-cido pela sua 3D Street Art - essa capacidade de trans-formar uma superfí-cie plana numa obra-prima multiní-vel -, criou um mural para o festival de arte de rua em Helsingborg, na Suécia. Retratando quatro chávenas de chá empilhadas de modo instável, aca-bou por descrever a obra conseguida com as seguintes palavras: "A vida é tão frágil quanto uma xícara de chá"; "Quero mostrar que a nossa vida pode mudar repentina-mente. Podemos perder um ente querido. Ou a nossa casa. Ou outros grandes artistas mundiais, expoentes da cultura. Por isso, nas xícaras de chá, pintei todos os cenários apocalípticos." 
       Desta forma, as chávenas que figuram no mural (as Rörstrand, uma conhecida marca de cerâmica centenária muito popular na Suécia) passam a representar uma realidade aumentada, cada uma delas a propor, metaforicamente, um episódio ilustrativo dos efeitos decorrentes, por exemplo, das mudanças climáticas; das falhas e das perdas que fazem com que a terra e o ser humano estejam prestes a "cair".

       Um caso evidente de arte pedagógica, consciencializadora, preventiva e intemporal na mensagem a transmitir. Na aproximação com Camões, Leon Keer é mais um exemplo contemporâneo de pintura a rimar com literatura.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Um Natal que está para chegar

    Alguns dizem que já chegou há muito!

   Talvez pelas compras, pelos presentes, pelas filas nas lojas, pela azáfama dos preparativos do jantar ou da ceia. A iluminada reunião far-se-á, contudo, na noite escura que chegará. Com mais ou menos embrulho, saco ou laçarote colorido, os fumos das cozeduras mais os cheiros das frituras e doçuras estão para aparecer e animar as casas, cujas janelas embaciadas piscam à luz dos pinheiros enfeitados ou dos candeeiros da rua acesos.
     Hoje, com os votos de boas festas, dou a saber que me cruzei com o Pai Natal:














(Re)Encontro com o Pai Natal,
pelas ruas de Espinho
(Foto VO)


     Cruzei-me com o velho Pai Natal
     numa concorrida rua de Espinho.
     No vermelho e branco do mural,
     faltava o verde tom do azevinho;
     não o da esperança, tão especial,
     adocicada de calor e de carinho,
     no seio de família una, tão igual
     à que de Nazaré a Belém fez caminho.

     Assim (re)nasce o menino, afinal:
     a todo o tempo, com pão e vinho,
     festeja-se, em espírito fraternal,
     a vinda de novo ciclo, tão alvinho
     quanto o inverno queira dar sinal.

   Não vi as renas, não trazia prendas para ninguém, piscava-me o olho e fazia-se pintado de um pensamento a lembrar presença e família.

     Preparando a noite da consoada, sejam a presença e a família razões para ela ser mais celebrada. BOM NATAL!

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Política?! Sim...

       Em busca de uma política de bem comum.

      Não a dos partidos políticos, porque essa já cansa de tão retórica, ilusória, fingida e desacreditada. É mais a dos seres humanos que, em solidariedade e em esforço conjunto e gregário, convocam a noção etimológica da polis, do ser social que aspira ao bem comum, sem a sede de poder.
     Não se trata de governar um estado (longe de mim tal pretensão), mas de educar para valores sociais que permitam a intervenção na realidade, na sociedade enquanto cidadão livre, responsável e respeitador do outro, particularmente daquele que está em situação crítica.

Diapositivo I de um Powerpoint para abordagem de discursos políticos

Diapositivo II de um Powerpoint para abordagem de discursos políticos

    Nisso a arte também tem o seu papel desencadeador, promovendo a leitura, a discussão, a aproximação a sentidos comuns de realidades por vezes bem distintas. Vieira da Silva, pintora portuguesa, é um caso a considerar neste raciocínio. Há histórias trágico-marítimas muito diversas, de tempos bem contrastivos, mas todos convocando o perigo, a fragilidade humana, o caos social.

      Leia-se a arte, relembrem-se os textos, revivam-se histórias da História e, afinal de contas, o(s) tempo(s) repete(m)-se. 

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pela democracia por que se bateu

      Em vida de democracia chega a notícia da morte (já) esperada.

Retrato oficial de Mário Soares (pintado por Júlio Pomar) 
no Museu da Presidência da República
       Faleceu Mário Soares.
   Importante que foi, suscitou adesões e contestações públicas, como todos os grandes que não foram conformistas e que se bateram por aquilo em que acreditavam.
     Estadista (que não quis ser e no que disse não se rever) com lugar na história política portuguesa, manteve-se fiel a uma ideologia independentemente de esta, em vários momentos, ter sido mais ou menos consensual. Na governação e na presidência da república portuguesa, esteve nos momentos mais relevantes do país nos últimos cinquenta anos, sem ter deixado de, anteriormente, intervir ativa e resistentemente contra uma ditadura que o levou à prisão e ao exílio antes de 1974; sem ter desistido de imprimir um cunho libertador de totalitarismos na jovem democracia, desde então.
     O seu protagonismo (que recusou, por princípio) está indissociavelmente ligado ao combate vitorioso da democracia e da liberdade - facto que o coloca, no final dos seus 92 anos, no lado devido da História e numa posição de referência nacional e internacional reconhecidas, pelo socialismo que defendeu e ajudou a fundar em Portugal; pela sociedade democrática e pluripartidária que representou; pela integração europeia plena a que destinou o país.
     O socialista, republicano e laico que assumiu ser submeteu-se ao plebiscito popular, algumas vezes ganhando outras perdendo. Reconheceu que "Só é vencido quem deixa de lutar". Disto não pode, por certo, ser acusado. Por isto ficará na História; do mais, muitas outras histórias se contam e contarão, que não apagam o que foi o seu papel e a sua visão para o país.
   
     Herdeiros que somos do regime por que lutou, resta agradecê-lo a uma das figuras maiores, se não tiver sido a maior de todas na democracia portuguesa.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Aqui respira-se, em Portugal abafa-se"

   Frase de Amadeo de Souza-Cardoso, referindo-se ao "aqui" (deítico) que é Paris.

   Não espanta, portanto, que o documentário, hoje mundialmente estreado e transmitido pela RTP1, seja francês; que Paris se renda a uma exposição dedicada ao pintor português modernista, no Grand Palais (em exibição desde hoje até 18 de julho). Parece que os homens do primeiro modernismo português estão destinados a ser conhecidos desta forma: assim foi com Pessoa, com Mário de Sá-Carneiro,...
   Numa mestria de movimentos, na intensidade do brilho e na policromia das pinturas, a genialidade do jovem português de Manhufe (Amarante) impõe-se no centro cultural europeu de então, bem como nos Estados Unidos - palcos abertos a uma rede de influências marcante e que muito contribuíram para o reconhecimento daquele que se afirmou na sensibilidade estética e artística dos movimentos de vanguarda, pela expressão cubista, futurista e expressionista, sem dela fazer escola, a bem da pluralidade que sempre defendeu.

Vídeo sobre a exposição no Grand Palais (Paris)

   Falece, com apenas 30 anos, em Espinho, em 25 de outubro de 1918. Refugiou-se nesta localidade numa tentativa inútil de escapar à epidemia de Gripe Espanhola (pneumónica), depois de ter auxiliado a mulher e a irmã na mesma luta.
    Seis anos antes vira desaparecer um amigo - Manuel Laranjeira - que conhecera na localidade onde havida passado os verões da juventude, numa casa da família localizada muito perto da praia (praticamente ao lado do atual Casino, e da qual presentemente não resta nenhum vestígio).

     Programa televisivo de relevo para um artista excecional, na breve vida longamente silenciada e praticamente esquecida por um regime que o fechou à visibilidade por ele conquistada.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Hoje deu-me para as lendas

    É o que faz deparar com uma pintura que retrata uma delas.

Imagem no Santuário da Nossa Senhora da Nazaré (foto VO)
    Refiro-me a uma tela setecentista, assinada por Luís de Almeida, que se encontra no San- tuário do Sítio ou na mais conhecida Igreja da Nossa Senhora da Nazaré. A imagem repre- senta a Lenda da Nazaré, narrativa que lembra um episódio de caça protagonizado por D. Fuas Roupinho (Fernão Gonçalves Chuchirrão), com- panheiro de armas e de lutas nos tempos de D. Afonso Henriques. 
    Conta-se que ao amanhecer de 14 de setembro de 1182, o então alcaide do castelo de Porto de Mós caçava junto ao litoral, na proxi- midade das suas propriedades. Ao avistar um veado, começou a persegui-lo. Um denso nevoeiro que se levantara do mar impediu-o de ver como era conduzido para o cimo de uma falésia. Aí, junto a um precipício, reconheceu uma gruta onde era venerada uma imagem de Nossa Senhora com o Menino. Em aflitiva prece, rogou à Santa que lhe valesse. Milagrosamente, o cavalo estacou, firmando as patas traseiras numa rocha suspensa sobre o vazio - o Bico do Milagre. Salvos o cavaleiro e a sua montada, de uma morte certa numa queda de mais de cem metros, foram chamados pedreiros para erguerem uma pequena capela sobre a gruta, como registo de memória do milagre - a Capela da Memória.
     Diz-se ainda que durante os preparativos da construção, entre as pedras lá existentes, foi encontrado um cofre em marfim com algumas relíquias e um pergaminho. Neste se identificavam as relíquias como pertencentes a S. Brás e S. Bartolomeu e se relatava a história da pequena escultura policromada, esculpida em madeira, que no local muita gente venerava: a Virgem Maria, sentada, a amamentar o Menino Jesus, também ele sentado na perna esquerda da mãe. Enquanto a imagem venerada desde os primeiros tempos do Cristianismo em Nazaré, na Galileia (terra natal de Maria), o pergaminho conta também que ela terá chegado a Mérida pelas mãos de um monge grego e, no contexto das lutas entre Muçulmanos e Cristãos, o rei D. Rodrigo tê-la-á trazido para a região do litoral atlântico aquando de uma das suas derrotas.

    E com esta história me fico, não pela popularidade da devoção nem pelos mistérios do pergaminho, mas pela memória de uma pausa de carnaval que me levou até Nazaré (não da Galileia, mas deste cantinho ocidental à beira-mar plantado).

domingo, 25 de janeiro de 2015

De novo, com os olhos e ouvidos nas origens.

    Hoje gostava de estar em Atenas a gritar SYRIZA.

     Espero que amanhã, num tempo mais alargado do que o dia, o grito ecoe para cada medida ou decisão feitas da honestidade e do dever cumprido para o prometido. Basta de sufoco, a bem de alguma esperança. Por maior que tenha sido o erro do passado, para que haja presente com sentido há que abrir a caixa de Pandora.
     Assim se construirá verdade, confiança, referência, ao contrário de muitos que continuamente desdisseram o que os levou ao poder. 
    Assim se alimentará tempo novo, com uma outra forma de fazer as coisas, mais atenta ao Homem e menos ao capitalismo sufocante e castrador em que as instituições de crédito financeiro se tornaram.
    Curioso (ou talvez nem tanto) que tudo esteja a acontecer na Grécia, nesse berço do pensamento democrático original. Se foram muitos os erros anteriores, se ainda há quem não cumpra o que é necessário para o bem comum grego (e, por consequência, europeu), tudo tem que ser feito para responsabilizar os que prevaricam; mas também há que criar vontades, novas vozes, novas caras e dinâmicas de futuro, apostadas na mudança (não no 'statu quo' ou no 'dejá vu').
    Em tempo de novo protagonismo, de um pioneirismo que se quer exemplar para a Europa - continente que muito lhe deve o nome -, gera-se uma causa de dimensão nacional com sentidos e efeitos muito para além da fronteira grega; revê-se o próprio continente, aquele que da Grécia recebeu toda uma civilização (a qual esteve na origem de tudo), segundo rezam a História e os mitos.
"O rapto da Europa", de Peter Paul Rubens (1628-9)
   Nesses tempos dos primórdios, dos deuses da anti- guidade clássica, uma princesa fení- cia se impôs pela beleza, chamando a atenção e as paixões do poderoso deus grego: Zeus. Disso não gostou Hera, a ciumenta mulher do deus principal da mitologia grega. Daí este ter-se transformado num touro, para se apro- ximar da princesa, que, maravilhada, coroou o animal com uma grinalda de flores e acabou por saltar para o seu dorso. Ao senti-la nas suas costas, o taurino e supremo morador do Olimpo desatou a correr em direção ao mar, só parando quando chegou a uma pequena ilha: Creta. Aí, à sombra de um plátano, revelou-se na sua verdadeira forma. Acabaram ambos por dar vida a três crianças: Minos (futuro rei de Creta e um dos juízes do inferno, que ouvia as confissões dos mortos), Radamanto (rei das Cíclades, conhecido pela sabedoria e justiça) e Sarpedão (príncipe da Lícia).
      Hoje, em tempos de crescentes individualismos, fala-se na necessidade de um espírito gregário, de uma natureza associativa (pretendida e nem sempre alcançada) para ultrapassar problemas e crises comuns, numa inspiração apoiada no modelo das ágoras e das ligas que instituíam a união de esforços. Os tempos são efetivamente outros, à espera mais de Radamantos do que de grupos que não pugnam pela felicidade comum.
       Talvez aqui a Grécia ainda tenha uma palavra a dizer. Eu gostava que fosse SYRIZA, pelo que esta coligação possa representar de exemplo para uma saída humanizada e feliz para a austeridade; para a afirmação de uma nacionalidade mais interessada no seu povo do que nas prioridades especulativas de grupos mais focados nas próprias bolsas (e nos respetivos bolsos), em detrimento do bem social comum.

    Num país que tanto deu à Europa (cultural e linguisticamente), talvez ainda esteja a ser preparada (mais) uma lição. Que assim seja, a bem dos homens que nela moram e para que os mesmos, ou outros ainda, saibam que há uma forma diferente de fazer as coisas (sem ter de se cair em igualitarismos duvidosos nem em controlos ameaçadores, perversos e desumanos).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Generosidade de quem dá e para quem dá mais

   Voltando à causa da Maria, sem nunca a deixar de considerar.

    Depois de encontros, de serões, de atividades e momentos solidários, coloca-se em rede virtual mais uma iniciativa para uma causa mais do que justa e urgente, a bem do conforto possível que se possa facultar à Maria do Céu.
    Na sequência da generosíssima oferta do Sr. Fernando Neves, temos um quadro para leiloar - "Encontro de planetas - III" (óleo, com 70X50 cm):

Encontro de Planetas- III, de Fernando Neves (foto VO)

    Trata-se de uma obra que esteve exposta nos 25 anos de iniciativas com artesãos e artistas de Gondomar - ARGO (Festas do Concelho 2014) e figura no respetivo catálogo de divulgação, onde constam nomes como Albertino Valadares, Aurélio Mesquita, Aurora Rodrigues, Hélder Mau, João Ferreira, Linda Correia, Manuel Lima, Zulmiro de Carvalho, entre outros.
   Quem der mais receberá a tela. A generosidade concedida não se fez acompanhar de base de licitação. Começo eu: por cinquenta euros o óleo é meu e já tenho parede para o colocar. A todo o tempo será divulgada a oferta maior, a fazer até ao último dia de fevereiro.

Montagem: imagens do catálogo da Exposição da Associação de Artistas de Gondomar (2014).

    Que este seja o passo primeiro para uma quantia que se quer tão grande quanto a causa que nos move. À imagem de cada um de nós como planeta, fica o voto de que cumpramos o "encontro de planetas", no maior número possível para alimentar a esperança.

     À espera do futuro e dos que contribuírem para a causa, a última palavra só pode ser para o agradecimento mais do que reconhecido ao Sr. Fernando Neves e a firme vontade de que se consiga também valorizar um trabalho que em tudo merece também pelo gesto assumido. Muito obrigado.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

No caso de alguém querer...

     Há quem circule pela cidade a oferecer abraços gratuitamente. Houve já quem oferecesse beijos.

      Aqui ficam uns em verso. São mais poéticos!


                               BEIJOS

«Beijar!» linda palavra!… Um verbo regular
Que é muito irregular
Nos tempos e nos modos…


Conheço tanto beijo e tão dif’rentes todos!…


Um beijo pode ser amor ou amizade
                        Ou mera cortesia.
E muita vez até, dizê-lo é crueldade,
                       É só hipocrisia.

O doce beijo de mãe
É o mais nobre dos beijos,
Não é beijo de desejos,
Valor maior ele tem:
É o beijo cuja fragrância
Nos faz secar na infância
Muita lágrima… feliz;
Na vida esse beijo puro
É o refúgio seguro
Onde é feliz o infeliz.

Entre as damas o beijo é praxe estab’lecida,
Cumprimento banal – ridículos da vida:


(Imitando o encontro de 2 senhoras na rua)


– Como passou, está bem? (Um beijo.) O seu marido?
(Mais beijos.) – De saúde. E o seu, Dona Mafalda?
– Agora menos mal. Faz um calor que escalda,
Não acha? – Ai Jesus! Que tempo aborrecido!…


Beijos dados assim, já um poeta o disse,
Beijos perdidos são.


(Perder beijos! que tolice!
Porque é que a mim os não dão?)


O osculum pacis dos cardeais
É outro beijo de civ’lidade;
Beijos paternos ou fraternais
São castos beijos, só amizade.
As flores também se beijam
Em beijos incandescidos,
Muito embora se não vejam
Os ternos beijos das flores.
Há outros beijos perdidos:
Aqui mesmo,
Há aqueles que os atores
Dão a esmo,
Dão a esmo e a granel…
Porque lhes marca o papel.


– Mas o beijo d’amor?


Sossegue o espectador,
Não fica no tinteiro;
Guardei-o para o fim por ser o «verdadeiro».
Com ele agora arremeto
E como é o principal,
Vai apanhar um soneto
Magistral:


Um beijo d’amor é delicioso instante
Que vale muito mais do que um milhão de vidas,
É bálsamo que sara as mais cruéis feridas,
É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!


Não é um beijo puro. É beijo estonteante,
Pecado que abre o céu às almas doloridas.
Ah! Como é bom pecar co’as bocas confundidas
Num desejo brutal da carne palpitante!


Os lábios sensuais duma mulher amada
Dão vida e dão calor. É vida desgraçada
A do feliz que nunca um beijo neles deu;


É vida venturosa a vida de tortura
Daquele que co’a boca unida à boca impura
Da sua amante qu’rida, amou, penou, morreu.


(Pausa – Mudando de tom)

'O Beijo', de Gustav Klimt (1907-1908)
Desejava terminar
A beijar a minha amada,
Mas como não tenho amada,
(A uma espectadora)
Vossência é que vai pagar…
Não se zangue. A sua face
Consinta que eu vá beijar…

……………………. 

(atira-lhe um beijo)

Um beijo pede-se e dá-se,
Não vale a pena corar…


                                                       in Poesia - Mário de Sá-Carneiro
                                                            organização de Fernando Paixão,
                                                            São Paulo, Editora Iluminuras, 2001

      Por aqui me fico, não sem lembrar esse saber popular que diz que "À honra dos santos se beijam as pedras".

      E para os menos "santos", deixo a versão mais secular e profana: "À boca que se beijou nunca mal se desejou".

sábado, 22 de março de 2014

Pastor rima com pensador e guardador (de rebanhos)

     Admito que depois desta e de já ter respondido a "Quem é Lídia?", é possível esperar todas as perguntas sobre Pessoa e a sua heteronímia.

    Assim me perguntava uma aluna há dias, algo apreensiva pelo facto de ainda não ter resposta para a sua dúvida. 

     Q: Professor, afinal Caeiro era ou não era pastor? Já nem sei que pense.

Imagem: adaptação de um pormenor do mural da Universidade de Lisboa 
com o heterónimo pessoano Alberto Caeiro 
(caricatura de 1958, produzida por Almada Negreiros: 1893-1970)
     R: Nem eu sei que diga, face ao que terá provocado tamanha dúvida. Entre o muito que se leia sobre o assunto (ora com reducionismos ora com ausência de leitura dos próprios versos do poeta), só posso responder que, ao jeito de Caeiro, este era o que escrevia num papel que estava no seu pensamento. No mundo fictivo e metafórico que a literatura cria, todas as possibilidades são válidas nos limites interpretativos (teorizados por Umberto Eco) que os textos / as obras dão a ler. Os versos de Caeiro mostram um ser em contacto com a Natureza, num panteísmo que pode estar na origem de tudo. Para lá disto, tudo é comparável. E porque ser como não é ser, não faz sentido a identificação; só a comparação.
    Pastor... A sê-lo, não o foi em "O Guardador de Rebanhos", por aí ter afirmado que nunca guardou rebanhos (poema I). E se é como os guardasse, tal só é comparável pelo facto de os rebanhos serem as suas ideias, os seus pensamentos feitos de sensações. Desta forma, Caeiro dá-se a ler como pensador (é o mestre heteronímico), por mais que entenda que pensar "incomoda como andar à chuva" (poema I). Na verdade, a sua recusa, por princípio, do pensamento não é levada até ao fim, por continuamente estar no exercício deste, procurando concretizar o que se lhe revela demasiado abstrato. Nesta linha estão muitas das suas comparações.
   Se foi pastor, só se considerou como tal em "O Pastor Amoroso" - a segunda parte de uma trilogia poética também composta por "O Guardador de Rebanhos" e "Poemas Inconjuntos". Nela e nos cerca de oito poemas datados de 1914 a 1930, o poeta de "O amor é uma companhia" (poema V) revela-se frequentemente pelo e no contrário do que deixa ler nas restantes duas. Nesse contrário, compõe a totalidade do que é: um místico feito de realidade (ou materialidade) apreendida graças às sensações; um simples ser na complexidade do que é; a liberdade singular de quem escreve prosa nos seus versos e que entende a poesia como a ciência das sensações. Porque "O pastor amoroso perdeu o cajado" (e nunca mais o encontrou), como o enuncia no poema VIII, resta-lhe ser a expressão da possibilidade de uma arte anunciada como moderna, numa representação livre, aberta à possibilidade significativa que nenhum outro modelo pode dar. Em síntese - um "eu" que não pode ser simples, porque é moderno; que só é aparentemente simples, por essencialmente revelar uma complexidade filosófica típica da profundidade dos mestres.
     Assim, Caeiro é um pastor mas de pensamentos, de ideias; de um conjunto de sensações fundado numa sensibilidade intensa e atenta à eterna novidade do mundo - captada por sentidos complementares ao que a visão dominantemente lhe proporciona; reforçada por pensamentos, pois, para Caeiro, "Amar é pensar" (poema VI). Daí ser "Pastor Amoroso", com o metafórico entendimento dos "rebanhos".

    Na composição deste heterónimo, apenas se antevê uma doxa mínima: a de que as coisas o são, porque reais e captadas pelos sentidos; a de que as coisas existem a cada momento, a cada instante que são percecionadas. À parte isto, Caeiro é como um pastor; a sua alma é como um pastor. É um "guardador de rebanhos", não sendo estes senão pensamentos (até porque eles são mais concretos do que estes). A todo o tempo, Caeiro é uma "qualquer cousa natural".

sábado, 15 de fevereiro de 2014

No dia seguinte...

    Na sequência da festividade, a criação...

    Inspirado no mito que alimenta a vida, Eros ressurgiu.

Montagem de versos à margem da pintura de Edvard Munch: "Cupido e Psiquê" (1907)

    Porque não há dia nem precisa de haver festa - só quem ame e seja amado.
    Verso e poesia.

  Seja Eros seja Cupido, há setas que atingem os frecheiros (independentemente dos nomes e dos 'desastres de amor' que possam causar), quais feitiços que se viram para os feiticeiros. E assim nascem alguns versos.

sábado, 2 de novembro de 2013

Sena e Afrodite Anadiómena, mais outras experiências.

    Afrodite, saída das ondas, é mito clássico para figurar na mais criativa expressão da modernidade.

      Uma pintura anónima do primeiro século (79. d.c.) encontra-se em Pompeia, representando a divindade sobre as águas. A ascendência mítica remonta à civilização egípcia e à deusa Neith ou Nepte, Naus, Nuk ou Nut, numa nau celestial.


     Os versos de Arthur Rimbaud traçam-na com alguma abjeção, mesmo quando a figura poética tenha gravados, nas nádegas, os nomes Clara Vénus. A desconstrução do mito ou a sua reconfiguração preparam uma visão estética e poética assentes na metamorfose, na afirmação do desconhecido e na reinvenção da imagem cultural do mito.
    Na literatura portuguesa, Jorge de Sena tomará a poesia como a possibilidade de transformar o mundo e também a própria linguagem. Os 'Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena' escritos em 1961 são disso exemplo, além de outras experimentações em verso publicadas, por exemplo, em Peregrinatio ad loca infec-ta (1969), em Exorcismos (1972) ou, postumamente, em Visão Perpétua (1982) - todas elas rela-cionadas com a metamorfose da própria língua ao nível do sig-nificante (recorrendo a apócopes, síncopes, formações neológicas das palavras, colagens de segmentos, recuperação de arcaísmos e eruditismos, inversões, invenções lexicais, epítetos clássicos para referências mitológicas).
      Há quem veja neste trabalho criativo a aproximação de Sena a projetos de poesia experimental (na linha de Ernesto de Melo e Castro). Todavia, mais do que produções orientadas para uma dimensão semiótica a construir - nomeadamente, com signos não vocabulares -, a reconstrução da linguagem seniana não apaga muita da materialidade que a língua traz consigo, antes apostando na reminiscência de sonoridades e raízes gregas e/ou alatinadas; na possibilidade significativa da sugestão sonora e da organização morfossintática na própria dimensão sintagmática da língua; na invenção vocabular, potencial no português. 
   Graças a estes mecanismos, visa-se atingir uma significação nova, uma outra semântica, para a qual o poeta orienta, por exemplo, com as «Notas a alguns Poemas» (in Trinta Anos de Poesia, de 1972) ou ainda com as palavras citadas num ensaio de Gastão Cruz (cimo, à direita).

       Na recriação proposta, nas entradas que o leitor ativa para aceder à associação de imagens evocadas no texto (sonora, morfológica, sintática, conhecimentos enciclopédicos), a decifração do enigma faz-se, qual peregrino perseguindo locais e motivos poéticos que, na tensão do aparente nulo significativo, conduzem ao pleno infinito da significação; permitem a experiência radical de, pela conjugação de entradas de leitura, (re)construir um código feito do jogo poético composto de forças e redes de reiteração e dissonância.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Porque estamos a viver num inferno

      Anunciada como a história dos nove círculos, sete pecados e um segredo, o novo romance da Dan Brown já está nas minhas mãos.

    Rendi-me à compra daquele que é já considerado o mais recente sucesso de vendas das livrarias: Inferno, de Dan Brown.
   Escrevendo o nome do autor, pareço estar entre a primeira sílaba e a caminho para o nome de DANte Alighlieri, o poeta que melhor descreveu o retrato de um inferno tão aterrador quanto faminto de paraíso. Assim progride A Divina Comédia, com pouco de cómico, mas anunciando um final feliz; ou, segundo alguns autores, com muito de língua vernácula e dirigida à população geral (por contraste com a formalidade a representar a alta literatura, o cânone clássico exemplificado nas tragédias).
    Depois de O Código Da Vinci, Anjos e Demónios e O Símbolo Perdido, reencontro-me com Robert Langdon numa narrativa plena de mistério, intriga, referências histórico-culturais, codificações e simbologias que vão entretecendo o imaginário leitor e apresentando a cidade dos Médici: Florença.
     E assim me revejo, também, nos lugares visitados, pela lembrança evocando referências locais, artísticas, patrimoniais e monumentais dessa "Firenze" toscana, berço do Renascimento italiano projetado para a Europa trecentista, quatrocentista e quinhentista.
     Diria que estou no paraíso , no entanto, é o inferno que se impõe numa rede de congeminações; de jogos de poder; de retratos de doenças e pandemias; de maniqueísmos que (no confronto do bem e do mal) têm o efeito sensibilizador para grandes questões da Humanidade, mais a previsibilidade de, tal como n' A Divina Comédia, terminar num "happy end".

      Na descoberta do livro e em processo de leitura, sigo os trilhos infernais e romanescos, não muito distantes da vida real em que todos nos encontramos (porque feitos de vida e de sobrevivência, sempre na esperança de tempos melhores, mais justos e mais pacíficos, para que não se revele o que de mais aterrorizador, animalesco e dantesco possa existir na Humanidade).

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Preparando a viagem

      O destino é Moimenta da Beira, ali pelos lados onde Aquilino Ribeiro andou.

     As Terras do Demo - ou não fossem elas as terras de vida "dura, pobre, castigada pelo meio natural, sobrecarregada pelo fisco mercê de antigos e inconsiderados erros e abusos, porque em poucas terras como esta é sensível o fadário da existência." (in prefácio de Aquilino Ribeiro ao livro do Pe. Manuel da Gama, Terras do Alto Paiva, 1940).
Capa de uma edição datada de 1963, contendo o excerto 
transcrito nas páginas 150-151
      Basta ler o livro homónimo (dos finais da primeira década do século XX - 1919) e o sensacionismo descritivo do escritor para perceber um pouco a designação da terra, ocupada de "gente que comia calhaus e ladrava como os cães":

    "Emborcado sobre o mundo, o céu reluzia como uma redoma. Desvendavam-se hortas e quintais. Pelos oiteiros, os vagalhões de sombras corriam que nem reses bravas. Ainda a estrela da manhã pestanejava, mas trémula e apagadiça como pálpebra de menino com sono. Para banda das Antas, havia um estendedoiro de vermelho, a tal "cabra esfolada" de que rezavam os antigos, a prenunciar o bom tempo. As matas, às traseiras das lájeas, lembravam uma parede negra, a suster a noite para a banda de lá. Mas com endireitas do vale, os olhos já iam mais longe pelo espaço que o galope dum bom garrano. Enxergava-se, em baixo, o pano caiado da igreja, e, reparando bem, o macanjo do galo lá no coruto da torre, de crista para o nascente, à espera de salvar ao Sol como um galo verdadeiro. Cantava já para os soutos a melra, que é uma pássara que pega a cantar logo ao depois do rouxinol. Dali a pedaço o cuco, as rolas, a popa e a milheira cantariam, cantariam todos diante da rosa do sol melhor que os senhores padres o tantum ergo. Pouco a pouco a terra descobria-se e seu descobrir tinha um não sei quê de parecenças com a mulher que se despe para se dar. Talvez pelo que nas várzeas e no corpo da mulher há de ôndulas, ganham em luz e guardam de mistério, porque uma e outra foram feitas pelo Pai do Céu para a grande comédia da sujeição. Já luziam os caminhos, traçados no saibro pelo rilhar dos carros, e as paredes ruças à força de ver morrer gentes e dias."


      Pela mão de Mestre Aquilino, revisitarei o percurso do alto Douro, entrarei na alta Beira. E já que a viagem tem pouso na Nossa Senhora da Lapa, farei como os romeiros que despedem caminho fora versos de popularidade e provincianismo, tal como Aquilino nos relembra:

       Adeus, Siora da Lapa
       Adeus, té o ano que vem;
       Façai vós o que vos pido
       E cá vos trarei meu bem!

     Escritor estilista, com uma linguagem entre o vernacular e a erudição, colorida com a oralidade popular dos diálogos beirãos e expressões entre o grotesco e o satírico, há na produção romanesca aquiliana uma versatilidade que compagina o que há de mais tradicional na narrativa com a inovação que todo o século XX iria trazer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Na poesia do (des)amor

      Em vésperas de Dia dos Namorados, o Clube de Poesia da Escola Secundária de Gondomar fez lembrar que é preciso criar...

    Entre vários poemas, deu a conhecer um, de Clarice Lispector (1920-1977), que tem a particularidade de poder ser lido não só de cima para baixo (numa visão desencantada do amor, para não falar mesmo de desamor) como também de baixo para cima (numa versão bem mais encantada, apaixonada e idílica).


     Hoje, a aula destinou-se a explorar este jogo construtivo que a poesia também produz. Há outros, por certo: o das sonoridades, o da medida certa e da palavra certa no sítio certo, o da circularidade da mensagem (numa espécie de ciclo de eterno retorno), o da sensorialidade e do sensacionismo, o da construção de identidades e/ou de contrastes, o do jogo visual, o da ficção...
       Nesta base se falou de amor, se leram poemas de amor, se escolheram versos e se apontaram razões para que os olhos e o coração se fixassem naquelas palavras, naquelas ideias que se viram como singulares, sugestivas.
        
       Eugénio de Andrade dizia que, na produção de um poema, "há um verso que salta". Também nos leitores pode haver um que chame mais à atenção. Fomos todos à procura da razão para essa seleção.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Recomeçaram as aulas

      Aqui e em tantas outras partes do mundo.

     Vivo o reencontro com os meus alunos na segurança e na normalidade que outros jovens, outras crianças no mundo desconhecem. É o caso das que frequentavam a Sandy Hook Elementary School, hoje, segundo algumas notícias, desviadas para um outro estabelecimento de ensino, para que a memória do sucedido seja mitigada.
     Das vítimas, algumas das quais nem tempo tiveram para ser heroínas (pelo sacrifício sofrido), já pouco se faz notícia, no apaziguamento que se impõe (por mais doloroso, retardado ou intermitente que seja). Na América, a questão prioritária centra-se, agora, na discussão política acerca do acesso generalizado ao porte de armas. Simultaneamente, é dado a conhecer como alguns professores passaram a adquiri-las, dominados pelo receio de que semelhante circunstância trágica possa ser repetida. E, por incrível que pareça, há mesmo a procura de ações de formação orientadas para o cenário da utilização de armas.
     A realidade é mesmo distinta e as necessidades são, felizmente, outras neste canto à beira-mar plantado, por mais que haja outras violências, outros problemas, outras "crises". 
     Podem acontecer episódios indesejados, pode haver contingências e contextos vários a ameaçar a promissora ação educativa nas escolas nacionais, mas dominantemente as "guerras" são de outra natureza. Desmotivações, frustrações, desvios, disrupções minam a estabilidade desejada para que ensino e aprendizagem se conjuguem. Há renegociações constantes para que surjam momentos de sorriso; outras vezes, há apenas silêncios (a dizer tudo), olhares entre o desafiante e o condescendente, palmas que se batem não para mostrar agrado, mas a necessidade de se regular o que nem sempre a voz consegue. 
      Nisto me vou revendo, numa contínua necessidade de mostrar que há regras a cumprir, palavras e gestos a evitar, pensamentos (em voz alta) a calar e que, com isso, se está também a formar alguém para uma vida nem sempre justa ou merecida.
      Penso o que não será tudo o que esteja para além disto que ainda considero normal.
      Relembro o poema de Miguel Torga:

Poema de Torga sobreposto no quadro "Sísifo", de Franz von Stuck (1920) 

     Pena haver quem dê sinais de sistematicamente (qual Sísifo provocador) querer destruir as ilusões do pomar, de impedir o logro da aventura e de fazer com que venham à tona algumas atitudes de loucura incompreensível e sem qualquer tipo de reconhecimento!

      Avancemos. Recomecemos no "caminho duro / Do futuro", para que ninguém se fique pela metade num mundo de tantos "Bichos".

domingo, 24 de junho de 2012

Lá se foi a primavera (que há de chegar).

     É cíclico. Foi-se a primavera; vive-se o verão, que terá outono e inverno.

     E há de passar o tempo quente, o da queda da folha, o do cortante frio...
     E depois...


     Quando tornar a vir a primavera 
   Talvez já não me encontre no mundo. 
   Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente 
   Para poder supor que ela choraria, 
   Vendo que perdera o seu único amigo. 
   Mas a primavera nem sequer é uma coisa: 
   É uma maneira de dizer. 
   Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes. 
   Há novas flores, novas folhas verdes. 
   Há outros dias suaves. 
   Nada torna, nada se repete, porque tudo é real. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

Caeiro, por Lívio de Morais (1998)
   Versos do heterónimo pessoano que se entrega à natureza e se assume numa aparente (só aparente) espontaneidade: a da consciência de que passamos, vamos ao sabor do vento, na possibilidade de o ser não ter futuro. Procurando ver o tempo como ele é (na repetição de instantes), sublima-se o real - numa atitude panteísta (divinização da natureza) compaginada com a objectividade e a naturalidade próprias dos mais simples. Assim se cria uma filosofia e um pensamento próprios: os que, paradoxalmente, na ou pela negação se constroem.
    O "guardador de rebanhos" toma-se pelo ser pousado sobre a terra, sobre a natureza intuitiva e sensorialmente apreendida. Na constante novidade e no (a)firmado propósito de viver o instante, constrói-se um pensamento (o do "poder supor"), uma expressão de sentimento ("gostava") e a dimensão de um futuro feito de hipótese, de condição e ficcionalidade ("Quando vier") com a virtualidade e a possibilidade criativas ("choraria"). Presente-se, ainda, a memória de um sentimento, instaurado no exercício criativo e imaginativo que o pensamento propicia ("Vendo que perdera o seu único amigo").
    Depreende-se a pressuposição de uma certeza (futura e receada), perante a dúvida formulada num "agora": a da morte como um dado (mesmo que noutros poemas essa situação seja encarada como algo que o deixa inalterável, que não o "move").

      Na vivência cíclica do tempo-natureza, Caeiro desagua num pseudo-tempo, multiplicado numa sucessão de presentes (talvez um tempo-nada, que se quer sem a consciencialização de um antes ou um depois, para poder dar apenas lugar ao que é ser, existencial). No tudo que Caeiro nega, como princípio, o texto (re)compõe e (re)afirma, na prática.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Melancolia e alquimia linguística

       Assim se intitula uma pintura de Albrecht Dürer (séc. XVI): Melancolia I.
  
    Encarado como o supremo espírito renascentista - artista, filósofo, alquimista e um estudante dos mistérios antigos -, Dürer concluiu a pintura apresentada em 1514, tendo esta sido considerada a obra seminal do renascimento no Norte da Europa.


       A figura de asas, a representar o génio humano, está rodeada de sinais e símbolos marcados pela estranheza lógica; simboliza a tentativa falhada de a humanidade transformar o intelecto humano em poder divino, visível pela dificuldade de compreender todos os símbolos de que o génio dispõe (objectos de ciência, matemática, filosofia, natureza, geometria, carpintaria,...).
      Está mesmo difícil a relação entre cada um dos objectos. Fico-me pelo quadrado mágico (por baixo do sino), com 1514 na última linha. Por que razão(ões) será, para além dos números e cálculos perfeitos?

   Se por trás de Melancolia há uma alquimia linguística, que os estados de tristeza e depressão se transformem em palavras e actos de felicidade no desvelamento dos enigmas e da simbologia que o quadro encerra.