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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Corrigindo os erros

    Na 'Grande Entrevista' (RTP1), com Vítor Gonçalves e o Sr. Ministro da Educação, falou-se de erros e também os houve.

   Na muita informação que, quarta-feira passada, pôde aí ser colhida, vou ficar-me por um erro, conforme uma colega mo fez chegar:

Vítor Gonçalves não está a gostar. Será do erro da legenda? (Foto partilhada, com agradecimento à CF)

     Em todos os processos de avaliação há erros, dizia-se um pouco antes. O mesmo acontece com a escrita, particularmente para quem desconheça a natureza convencional e etimológica de muita dela ('corrigir' vem do latim 'corrigere' - com 'g', antes de 'i/e'). Portanto, quando ao minuto 5:45 da entrevista, surge a legenda com erro, a sintonia do tema de discussão e da forma verbal participial erradamente grafada é notória.
      Na prossecução do diálogo, e com mérito para a revisão da RTP1, chega a correção que se impõe: "Os erros são corrigidos de uma forma mais rápida". Efetivamente, em pouco mais de meio minuto (entre as 5:45 e as 6:24), "corrigido" aparece como deve:

   Citação das palavras do Sr. Ministro da Educação, Fernando Alexandre, com a correção devida na RTP1 
(Foto VO)

     Assim se comprova, também, a necessidade de revisão no processo de escrita. A RTP1 teve-a em conta, em pouco tempo, avançando com a grafia correta da palavra.

      Seja a revisão da escrita tão rápida e eficiente como a da avaliação (nos exames nacionais) discutida. A bem de todos.
       

domingo, 19 de julho de 2026

Manipulações

     Não são feitas com mãos, mas com tecnologias "de ponta" (aguçada por intenções dúbias).

     A circulação de uma foto com legenda televisiva imprópria (porque manipulada por Inteligência Artificial - IA), e com impropério, dá conta de como a palavra "pauta" se aproxima bastante de uma outra, retirando-se o grafema 'a' da primeira sílaba. O certo é que o confronto com a emissão do programa difundido quinta-feira passada (dia 16) permite confirmar que de "pautas" se fala e se escreve, sem qualquer confusão possível:

A prova do que o Ministro admite: as pautas; não o que outros querem dar a ler (Foto VO) 

     Contrastada a foto mencionada (que evito expor pela leitura explícita do que nunca realmente existiu) com a agora apresentada, seja para quem se ria / ri da situação seja para quem via /vê o que não pode ser lido, fica o aviso: o assunto motivador da brincadeira não merece o tratamento dado, por um lado; lamentavelmente, atesta-se que não se pode acreditar em tudo o que se lê, por outro. Há que confirmar as fontes, e a que é necessária está ao alcance de muitos, recuando-se no tempo e verificando-se o que foi efetivamente escrito na legenda do canal televisivo "Now" (fosse outro e diria que havia matéria para a rubrica do "Polígrafo SIC", dedicada à constatação da veracidade / falsidade de notícias e conteúdos virais). 
       Tal como diria Camões, "vi claramente visto"; melhor, "li claramente lido". Despistada, portanto, qualquer intenção outra que não a do que foi escrito, apesar de a possibilidade poder ser considerada (na base de legendas insólitas já verificadas).
       Tenho pena que, na mesma emissão, ainda abordando o tema da crise dos exames nacionais e a questão da publicitação dos resultados, surja o «famigerado verbo 'meter'» (hoje tão vulgarmente utilizado, mesmo nos contextos em que para tal não deve ser convocado):  

A crise dos exames nacionais a par de uma outra bem mais alargada: 
a do uso da língua nos canais televisivos (Foto VO)

     'Pôr em risco' / 'colocar em risco' perde, com a legenda escrita, a configuração de expressão fixa, pelo recurso de "meter". Lá diz o povo, "entre marido e mulher não metas a colher", o que deve ser relativizado em contextos muito críticos. Eu digo aos alunos que não se mete no quadro, no papel,... Também embirro com 'mete em risco', pela sua coloquialidade ou familiaridade, pouco desejáveis na comunicação social. Entre as expressões e/ou as combinações mais comuns no uso (assumir, aumentar, avaliar, controlar, correr, estimar, evitar, gerir, identificar, minimizar, mitigar, reduzir o risco), o verbo 'meter' não parece ter lugar; evitá-lo-ia, portanto, para que não se 'meta' em lugares / expressões que não se deve utilizar ou se deve evitar.
     Portanto, enquadro 'meter notas em risco' em construções que evidenciam inadequação nas legendas televisivas, a tocar a impropriedade lexical (das penalizações maiores na escrita dos alunos, a par dos erros sintáticos), face ao exemplo que deveriam assumir. 
      Entre os variadíssimos exemplos que já foram contemplados neste blogue, pode já dizer-se que há matéria para demonstrar / analisar tais falhas em vários domínios linguísticos.

      E continua a questão: a da responsabilidade editorial. Não há quem verifique, sugira, corrija, cumpra o que deve ser uma obrigação na difusão correta e adequada da língua (seja lá qual for o canal). 

sábado, 18 de julho de 2026

Crise(s)

     Depois da crise e da novela sem fim da digitalização dos exames nacionais,...

     ... outra crise mais duradoura grassa por aí: a da língua nas legendas televisivas. Desta feita, é no CNN Portugal, e no âmbito da sintaxe e do princípio da concordância:

Quando há outro sistema em falha e também tudo tem a ver com correção... da língua (Foto VO)

     Um sujeito singular (Professor) para um núcleo verbal conjugado no plural (apontam)! É erro muito grave para quem aprende português e para quem resolve os famigerados exames; na televisão, parece ser entendido como simples gralha e desatenção, em canais diversos.

     Reescrevo a legenda: Professor aponta falha a domínio da língua. Se quiserem 'apontam', façam com que 'professor' esteja configurado no plural (com 'e+s'), por favor. É uma questão de conhecimento, com o cérebro e o digital (porque, etimologicamente, é com os dedinhos que se escreve).

sábado, 27 de junho de 2026

Reportagens e legendas com muito que se lhe diga

     E para não ficar pelo dizer, cá vai o escrito.

   São muitas as questões levantadas numa breve reportagem televisiva difundida pela SIC (no Jornal da Noite de hoje), a qual vale noticiosamente pela insatisfação criada com todo um processo há muito anunciado com fragilidades evidentes. Desde que, com a digitalização das provas moda, se detetaram falhas incontestadas, ficam este ano agigantados os constrangimentos e as dificuldades com a extensão de procedimentos comuns às provas finais de ciclo, bem como aos exames nacionais. E não se pode afirmar, ou mesmo sugerir, que tal tenha a ver com o funcionamento / a inoperância das escolas ou com o desempenho de alunos e de professores.
     Não se sustenta a fiabilidade e validade de um processo com sinais declarados de disfuncionalidade, tecnológica que seja, quando acompanhados de uma recentralização e de um sentido de avaliação eminentemente técnico, para não dizer francamente despersonalizado (diria, longe da avaliação pedagógica). 
      No meio da contestação e da polémica, ouve-se na mencionada reportagem que o processo de classificação ainda não arrancou (ora porque não se acede aos itens digitalizados, ora porque se acedeu e se deixou entretanto de aceder, ora ainda porque não se atribuiu uma senha ou credencial de acesso); que há professores aposentados convocados para tal; que há troca entre os professores corretores e as disciplinas que lhes estão destinadas; que, por fim, e segundo voz-off , "a tutela já terá alterado o cronograma inicial" (leia-se o cuidado no uso de um futuro composto, a traduzir a modalidade do não certo, de algum distanciamento face ao dito).
    Insustentável é também o jogo desta afirmação da reportagem (com a devida modalização) com a legenda complementar, esta última com a afirmação factual (facto concluído, de aspeto perfetivo) de que "a tutela alterou". Inconsistência e incoerência graves no significado associado: por um lado, a relativização de um futuro composto e, por outro, a perfetividade de um pretérito na ordem do certo e do facto. 
      Ainda mais insustentável, a tocar o absurdo e o ridículo, é o objeto da alteração noticiada:

Incredulidade para um elemento de formação de palavra, no mínimo, inusitado (Foto VO)

   Um cronograma aponta para a ideia de planificação, programação num / com um calendário. Do grego "khrónos" decorre o elemento de formação de palavras "crono" - associado a tempo. Ou seja, um elemento que a etimologia, a história da língua e a própria formação de palavras convocam como conhecimento fundamental a qualquer comunicador dos média (que deve dominar a sua língua), mas que, na escrita da legenda, resultou no que de mais risível há, numa fronteira muito ténue entre o ambíguo escárnio e o assumido maldizer. 
    Nem com mitologia grega isto lá foi, nessa alegoria do deus C(h)ronos, frequentemente representado a fazer girar a roda do zodíaco, numa leitura da passagem do tempo. Tanto conhecimento desperdiçado ou desconhecido!
      
    No final, apetece-me dizer que nem "cornograma / cornómetro" existem (muito menos para planificar / medir chifres, hastes, chavelhos ou apêndices animalescos) nem cronogramas deram lugar, nos dias de hoje, a exemplo de metátese do som [r]. E porque a reportagem em causa não deixa, acima de tudo, de tratar de questões de educação no país, tudo isto se revela muito triste e escusado (porque daqui se cai facilmente no ridículo de assuntos que têm de ser levados muito a sério). No mínimo, bastava um editor ou alguém competente a verificar o que se escreve na televisão.
 

domingo, 14 de junho de 2026

Nobre causa em língua pobre

       Assim começou a manhã noticiosa: com nobreza e pobreza.

     A nobreza traduz-se na imagem e na ação dos dadores que generosamente dão o que têm a muitos que precisam. Solidariedade fantástica dos dadores, bem como de todos aqueles que cumprem, no seu trabalho, com uma causa que se impõe para a salvação / sobrevivência / manutenção da vida e da dignidade humanas.

Quando a imagem contradiz a legenda, num canal televisivo nacional - RTP Notícias (Foto VO)

       A pobreza encontra-se mesmo na legenda, como se houvesse brigadas contra as populações (ir de encontro a). E o curioso é que ela é imediatamente contradita pela voz da locução noticiosa, assumindo (e bem) que as brigadas vão ao encontro das populações necessitadas (ir ao encontro de).
    Já aqui se apontou, por mais de uma vez, como a simples troca das preposições / contrações dá em significados completamente contrários: respetivamente, o de esbarrar, chocar, ir contra, por um lado; o de aproximar, estar ao serviço de, por outro.

         A deriva do uso da língua (ainda mais em contexto de comunicação de massas), no que à expressão diz respeito, não pode causar incoerência nos atos: tudo vai ao encontro da causa maior; nunca de encontro a ninguém. Persista a nobreza; erradique-se a pobreza.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Mentiras temporalmente agendadas

       Assim me deram a conhecer. É bom saber.

       Se tivesse de contratualizar o serviço, não o requeria ao fim de semana. Melhor: ao domingo.

Uma partilha de feriado, de uma cúmplice na recolha destas falhas na língua (com agradecimento à MPM)

       Com alguma variação, em Portugal, o típico é o cabeleireiro e o barbeiro serem mais baratos à quarta-feira (pelo menos, no local que frequento). No local publicitado, só para me ver livre das mentiras, já saberia o dia em que não faria a barba nem cortaria o cabelo. Restar-me-iam praticamente quase todos os dias da semana. Exceto o dia santo.
       Ainda assim, como a mente é gasta ao longo da semana em trabalhos, mais vale mudar de barbearia (pode até ser que o barbeiro / cabeleireiro tenha nome mais... tradicional ou comum).

          Nem com a homofonia do "somente" isto vai lá. Só pode ser piada (de sorriso amarelo).

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um 'me' que se distingue pelo recurso à terceira pessoa... e não só!

        Chega o tempo de preparar para provas / exames / testes.

     Por vezes, o confronto com respostas indevidas leva a incertezas que, definitivamente, importa eliminar (seja qual for a fonte destas).
       
       Q: Bom dia, Vítor. 
         Preciso da tua ajuda: na imagem que envio, os pronomes "me" desempenham as funções sintáticas de CD e CI, respetivamente, ou são ambos CI?

Testes / técnicas para a distinção do 'me' são precisos(as). E não só!

          R: Olá.
       Na primeira frase destacada, o 'me' assume a função sintática de CD (complemento direto), dado que, no paradigma das diferentes pessoas gramaticais, esse pronome seria substituível por 'te' / 'o' / 'nos' / 'vos' / 'os'. A pronominalização, na terceira pessoa, por 'o(s)' é a prova da função sintática de CD. Analisando a particularidade da primeira realização frásica, é de verificar que se está perante a base nuclear verbal 'ENSINAR+ALGUÉM+A FAZER'; portanto, 'Ensiná-lo a isso' (de novo, a marca de CD na pronominalização acusativa sublinhada) e não '*Ensinar-lhe a fazer / a ler / a isso'. Trata-se de uma construção ou realização análoga a 'OBRIGAR+ALGUÉM+A FAZER' ou 'LEVAR+ALGUÉM+A FAZER' (obrigá-lo a fazer / levá-lo a fazer), também com CD.
        Não há, assim, como confundir esta realização sintática com uma outra mais próxima da estrutura argumental típica do verbo 'ensinar': ENSINAR+ALGO+A ALGUÉM. Nesta última é que seria possível a pronominalização (dativa) do CI (complemento indireto): 'ensinar-me / te / lhe / nos / vos / lhes algo.
       Na segunda frase, o 'me' funciona como CI (complemento indireto), já que a substituição, na terceira pessoa, corresponderia a 'lhe(s)' - a marca de dativo, associada a CI, com o segmento 'de tudo um pouco' (inversão de 'um pouco de tudo') a funcionar como CD.

        O teste de substituição / pronominalização é uma técnica eficaz na consciencialização do que só, aparentemente, parece igual. Contudo, nem tudo o que parece é (inclusive na gramática da língua).

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Nem sei que pense

     Fizeram-me chegar um "tesourinho". Ou melhor, dois!

     Convenhamos que é necessário muita imaginação, só para pensar nos produtos anunciados:

Nem com "glúteos" nem com sintaxe se faz boa composição de produtos 
(com agradecimento à MPM)

         Que estes tenham o publicitado, soa-me a tendências canibais. No mínimo!
        Acrescente-se a não concordância sintática ("todos os produtos"[plural] e "contém" [singular]).
     É composição explosiva para um cartaz publicitário que deixa muito a desejar. Caso claro de intolerância (e não é alimentar).

     Isto de confundir glúten com glúteos nem com paronímia lá vai. É mais comédia, mesmo!

quarta-feira, 18 de março de 2026

A diferença televisiva entre haver e ouvir

      A relação não é só num sentido.

      É biunívoca mesmo. Confunde-se ouvir com haver e haver com ouvir:

Imagina se houvesse! Talvez se ouvisse mais. Que desgraça! (agradecimento à recolha atenta da ARS)

       A julgar pelas legendas, a presente e outras já detetadas neste blogue, parece não haver diferença, no uso ora de um ora de outro termo.
     No meio disto tudo, já não se trata de uma questão de surdez (por não se ouvir o que há) nem de visão (por não se distinguir graficamente 'houve' de 'ouve'). 
       Homofonias à parte, é preciso não saber do que se fala nem do que se escreve, mesmo!

    É ignorância assumida quanto ao conhecimento e ao uso da língua - assim é num meio de comunicação social e de difusão do que pior existe (do que houve e não se ouve; do que se ouve e não houve).

segunda-feira, 9 de março de 2026

A liberdade no (uso do) acento gráfico

     A observação surgiu perante a estranheza do uso.

     É verdade que é mais comum ler-se a palavra sem acento gráfico. Por isso, a mensagem surgiu:

     A: Olá, Vítor!
         De quem me lembrarei, sempre que me deparar com algo como o que está abaixo?
       Guia Geral de Exames 2026: «(...) obrigatoriamente, de atestado médico de incapacidade multiúso (...)»
          É por isso que, por muitos olhos que passem no que escrevemos, nunca são demasiados.

     Tive de responder a desfazer um pouco a certeza nessa estranheza de um 'multiúso', que faz todo o sentido existir, atendendo às convenções ortográficas e de acentuação gráfica contemporâneas.

     B: Bom dia.
         As convenções ortográficas, por vezes, são complicadas. Este é um dos casos.
      Ainda que o uso comum permita a utilização consensualizada da grafia 'multiuso' (com o elemento latino 'multi' e a palavra 'uso' aglutinados), o certo é que, na escrita, há uma regra de acentuação gráfica a determinar que duas vogais juntas em situação de hiato (lidas não como ditongo, numa só emissão de som, mas como vogais diferenciadas foneticamente) fazem com que 'u' ou 'i' sejam graficamente acentuados. É o que acontece, por exemplo, com 'reúne', 'saúde', 'suíça', 'país', 'baú' entre outras palavras.
       Assim, convivem as escritas 'multiuso' e 'multiúso' na língua portuguesa: a primeira, na consciência morfológica e etimológica da (re)composição de um elemento latino com uma palavra atual; a segunda, na ativação das convenções de ortografia e acentuação gráfica. 
     Importa, portanto, que a escrita de uma ou de outra formas surjam coerente e consistentemente nos textos.

Muito uso com ou sem acento - um caso de liberdade na acentuação gráfica (montagem VO)

     Pronto: lá terão que se lembrar de mim na complexidade das relações fonético-grafológicas da nossa língua em combinação com a perspetiva morfológica e algum toque de história da língua e etimologia em deriva.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a desgraça e a desgraceira

      Assim correm estes tempos. Tão mal!

     Primeiro, acorda-se com notícias de mais um conflito, outro ataque ou nova agressão a um país - o que começa a parecer banal, como se de um jogo estratégico se tratasse. Estratégia até pode ser (a favor de quem se sabe); porém, de jogo nada tem, pela desgraça que resulta para todos.
   Depois, não fosse isto suficiente, lá vem mais uma nota de rodapé / legenda televisiva para a desgraceira dos erros que invadem os olhos dos espectadores / leitores:

Citação de palavras, no mínimo, explosivas... pela construção errada na conjugação do verbo 'haver' 
(com agradecimento pela foto à GR)

    Triste é o desconhecimento de que o verbo 'haver' , enquanto principal, não admite conjugação no plural, inclusivamente com os verbos auxiliares que o acompanham (como é o caso de 'estar', no caso concreto do que se lê no rodapé). 
      Não menos desagradável é a expressão "estar a haver explosões". Sem 'haver', a opção 'acontecer', 'ocorrer' resultaria melhor e já sem problemas no plural de 'estão'.
      Como uma amiga o diz, e bem, "É a loucura!"

     A da guerra, a da língua e a de muitas outras situações que haverá (no singular, sim!) a considerar nos dias de hoje, para desgraça da humanidade.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Regressaram as dores... sem sentido.

     Ainda há pouco entrou o ano e aí estão elas.

    Já havia comentado esta leitura que certo jogador ("joga com a dor") e treinador ("treina a dor") de futebol (aqui, sim, é 'foot' e 'ball') faz com algumas palavras, segmentando o que não é segmentável.
    A campanha da NOS recuperou o senhor (um pouco mais velho) com o mesmo jogo inconsistente (de palavras que não o são) - uma teoria em que só o "mister" Abel Xavier conhece, parece um "master", vende, expande (com os ganhos publicitários), sem ensinar ninguém.

Com anúncios destes pouco se aprende, linguisticamente falando (Foto VO)

     Não é dor no que joga nem no que treina ou vende.
     Para quem entender que se trata de criatividade, é, por certo, de fraca qualidade.
     Em suma, não se atende nem se entende as dores que possam estar a ser criadas.

  Em publicidade tudo vale, independentemente dos valores pedagógicos (que não são garantidamente considerados). Esta é a verdade. Quando um aluno assumir que um jogador é palavra composta, agradeçam à NOS.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Triálogos em família

     Conversações linguísticas a três.

     Pergunta o filho qual o contrário de mérito: se desmérito se demérito.
     A mãe está para o primeiro, o filho pretende o segundo. O pai aceita os dois.

Preferível o mérito ao de(s)mérito - a negação instaura a dúvida pela presença de um 's'

    Na verdade, se 'merecer' está para o antónimo 'desmerecer' (com o acrescento do prefixo 'des-'), o mesmo pode aplicar-se, morfologicamente, no par 'mérito/desmérito'.
    Numa perspetiva etimológica, recorrendo à história da língua, encontra-se a razão do 'demérito': no latim, usava-se o termo 'demeritus, -a, -um' (particípio passado de demereo, -ere, com o significado de 'ganhar, merecer, cativar').
   Ambos os termos estão registados em vários dicionários, encontrando-se 'demérito' atestado em textos portugueses desde o séc. XVI; 'desmérito' é mais evidente desde o século XIX. O primeiro está mais para o etimológico e a via erudita com o recurso ao latim (com a família de palavras a destacá-los, por exemplo, em 'demeritório'), enquanto o segundo assenta mais numa consciência morfológica da língua. 

   Se entre marido e mulher não metas a colher, bom é que entre mãe e filho não se crie sarilho. Linguisticamente, quanto a este tópico, reina a paz entre todos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).

sábado, 24 de janeiro de 2026

Acentuar o que não se deve

       Dizem as gramáticas (sim)...
       
       Nem a palavra nem a sílaba são graficamente acentuadas. 
    Monossílabos tónicos terminados em "u" (por exemplo, "tu") não são acentuados; só os terminados em "a", "e", "o" (seguidos ou não de "s" - como  "vás", "pés", "cós"). Registe-se: nada a ver com "u"(s).
     "Recuo" (conforme o contexto frásico, ora nome ora forma verbal na primeira pessoa do singular do presente do indicativo) também não tem acento. Trata-se de uma palavra paroxítona (grave), tipicamente não acentuada, terminada com o hiato "uo" a não receber acentuação gráfica, tal como outras afins: "arguo", "atuo", "amuo", "duo", "usufruo".
        Espantosamente (ou não), leio em noticiário televisivo (da TVI) o que não devo:

Razões e lições do absurdo: sejam as de Trump sejam as de quem escreve na televisão (Foto VO)

      Se linguisticamente o erro está instalado, fica a positividade do anunciado: o disparate "trumpesco" (de querer comprar a Gronelândia ou de simplesmente tomar posse dela) parece não vir a ter lugar (Será?). Assim deve ser (ao contrário da acentuação)!
       Tanto pelo que o "trumpalhão" pretendia como pelo que se escreveu, há razões e lições que nem ao diabo lembra.

       ... o que certos utilizadores não fazem (pena)!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

De tirar o "chapéu"

     Literalmente; sem mais.

    Dizem os franceses que o acento circunflexo semelha um "petit chapeau"; os portugueses referem-se a ele como "chapeuzinho". De uma forma ou de outra, há que o retirar, quando sinaliza uma sílaba que não é a tónica. Se 'presidencial' não tem [den] como a sílaba mais forte, para quê o acento gráfico sinalizador de sílaba tónica com som fechado?

Presidente e presidencial, sem; só presidência com (com agradecimento da foto à AC)

    Não há que confundir 'presidência' com 'presidencial'. Embora da mesma família de palavras (questão morfológica), fonicamente são termos silabicamente bem distintos quanto à intensidade: a primeira é grave; a segunda, como todas as palavras terminadas em 'l', é aguda. Neste último caso, assim o ditam as regras gramaticais, não há razão para acento gráfico (ex.: mal, fatal, crucial, essencial, fundamental).  

    Ao segundo dia do ano, não me interessa se são oito, onze ou até catorze: os candidatos são presidenciais (sem acento, por certo). Votem no que vos aprouver, sempre tirando o "chapéu" ao que vos parecer mais presidencial (por respeito ou por gramática).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A começar o ano

     Se o início for indício do que aí vem, ...

     2026, à semelhança de anos anteriores, é celebrado com o primeiro banho de mar, na praia grande do Ferragudo
   No apontamento jornalístico, segundo repórter e entrevistados televisivos, o mar está espetacular, melhor do que no verão (apesar das baixas temperaturas do inverno) e não há frio ("Não está frio! Você tem frio? Eu não tenho frio nenhum. Está impecável, está espetacular!").

Legendas infelizes na televisão a abrir o novo ano (foto VO)

     Registo eu que fiquei gélido só de ler a legenda, por várias vezes acionada, ao longo da reportagem.

Muda a imagem, mantém-se o erro. Antes fosse o contrário (Foto VO)

    Alguns dirão que se trata de uma pequena falha no acento; todavia, as implicações sintáticas são mais gravosas, ao colocar-se um sujeito plural em discordância com o singular da forma verbal (mantém - singular; mantêm - plural).

    Boas energias e o bom arranque dos banhos deviam servir para o bom uso da língua. Melhores concordâncias (sintáticas), diria.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Confusão de pessoas... e não só.

     Não. Não eram muitas; uma apenas, erradamente identificada.

    Todos sabemos que, tipicamente, existem três pessoas gramaticais na conjugação verbal (primeira, segunda, terceira), numa relação com o número (singular / plural). Convém é não dizer que uma é outra, particularmente quando do "Bom Português" se trata.
     Fantástico é o facto de todos os interrogados terem assumido que a forma correta, no caso crítico indicado, é "discutirmos". Todos souberam a resposta. Então aquele grupo que afirma "Sem hífen, não há dúvida", "Tem que ser sem hífen, não há hipótese", "A sério?" (insiste a repórter), "Sim" é verdadeiramente do melhor!
     
Da foto, nada a dizer; do que se ouviu televisivamente, foi um susto! (Foto VO)

     Segue-se, então, a explicação: "A forma correta é 'discutirmos' tudo junto" (vá lá!), "Trata-se da terceira pessoa do plural..." (como é que é?!!! De novo?!), "... do infinito pessoal do verbo discutir" (infinito?!!! A sério?!). E lá vem o fecho clássico da rubrica televisiva: "Assim se escreve em Bom Português".
      Ora ainda bem que se escreve em bom português, porque, no que toca ao que se ouve ou se diz, vai muito mal. Péssimo! Não fosse 'nós' a primeira (qual terceira?!!!) pessoa do plural e o 'infinito' estar mais para o finito de conversa, quando não se consegue referir a forma / o modo verbal devidamente (pois de 'infinitivo' se trata).

      Mau momento garantido para o português, que pouco ou nada tem de bom por parte da locução. Às 6:27 da matina, até um ensonado acorda. E já não é a primeira vez que o mal acontece. Lamentável.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Que caneco!

    Também podia ser caneca, mas, no caso da expressão idiomática, prefere-se a versão masculina.

   É pelo menos assim quando alguém depara com algo inesperado ou indesejável. Quando de uma caneca se trata e nela se estampa um valente erro ortográfico, é mesmo caso para dizer "Que caneco!"

Está negativo! Está mesmo negro! É o caneco! 
(foto partilhada pela MPM, com o agradecimento devido)

    Cedilhar um 'c' acompanhado à direita por 'e' ou 'i' nem ao diabo lembra (também este último é frequentemente tratado, no Brasil e de modo informal, por 'Caneco'). É o sinal da invulgaridade, do estranho, do desequilíbrio, da disformidade. Na escrita, então, o diabo anda à solta, com cedilhas indevidas em muitas palavras. Paciência é uma delas.
     Não há pachorra! Só faltava comprarem a caneca como prenda de natal e oferecerem-ma. Acho que a ia deixar cair logo a seguir.

      Não há PACIÊNCIA! Tenho dito e bem escrito.

domingo, 16 de novembro de 2025

Um bom exemplo

     Assim gosto! Com acento e tudo.

     É tão mais comum a ausência de acento, a fazer com que a palavra seja mal pronunciada, que acaba por ser fantástico o reencontro com a boa grafia:

As qualidades do dióspiro acompanhadas da qualidade da escrita 
(na publicidade da Quinta do Pôpa - colhida do Facebook).

     Assim sendo, vou comer um dióspiro como sobremesa. É tempo deles e a satisfação de o(s) ver bem escrito(s) abriu-me o apetite. Acresce o facto de ter múltiplas vantagens para a saúde.

     Aqueles que ficam a olhar para mim incrédulos sempre que digo 'dióspiro' (com a sílaba acentuada reforçada) podem, agora, acreditar que não é mania minha?