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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Triálogos em família

     Conversações linguísticas a três.

     Pergunta o filho qual o contrário de mérito: se desmérito se demérito.
     A mãe está para o primeiro, o filho pretende o segundo. O pai aceita os dois.

Preferível o mérito ao de(s)mérito - a negação instaura a dúvida pela presença de um 's'

    Na verdade, se 'merecer' está para o antónimo 'desmerecer' (com o acrescento do prefixo 'des-'), o mesmo pode aplicar-se, morfologicamente, no par 'mérito/desmérito'.
    Numa perspetiva etimológica, recorrendo à história da língua, encontra-se a razão do 'demérito': no latim, usava-se o termo 'demeritus, -a, -um' (particípio passado de demereo, -ere, com o significado de 'ganhar, merecer, cativar').
   Ambos os termos estão registados em vários dicionários, encontrando-se 'demérito' atestado em textos portugueses desde o séc. XVI; 'desmérito' é mais evidente desde o século XIX. O primeiro está mais para o etimológico e a via erudita com o recurso ao latim (com a família de palavras a destacá-los, por exemplo, em 'demeritório'), enquanto o segundo assenta mais numa consciência morfológica da língua. 

   Se entre marido e mulher não metas a colher, bom é que entre mãe e filho não se crie sarilho. Linguisticamente, quanto a este tópico, reina a paz entre todos.

domingo, 19 de junho de 2022

Fatiga, fadiga... que cansaço!

       Tempos de canseira.

      Perguntavam-me há dias se o nome associado a quem anda fatigado é fadiga ou fatiga. Respondo que são os dois (e para quem anda cansado é questão que já pouco interessa). Digam ou escrevam como quiserem.
        Claro que o mais habitual é falar ou ler sobre "FADIGA" (mesmo que o adjetivo esteja mais para 't' do que para 'd' - fatigado). Dizer-se 'fadigado' não é impossível, até pela derivação que decorre de 'fadiga' (nome) e 'fadigar' (verbo), isto é, causar ou sentir fadiga ou cansaço; logo, o 'fadigado' torna-se mais do que compreensível.
          Fatigado está mais para o sentido etimológico, que atesta o verbo latino 'fatigare' e o nome 'fatigo'.
     Entre 't' ou 'd' direi que o primeiro está mais para a origem; 'd' para a variação evolutiva, nomeadamente a sonorização que se evidencia na posição intervocálica de [t], com o som surdo lábiodental inicial a ganhar o traço sonoro por influência vocálica. Foi já o que analogamente sucedeu com totu(m) > todopotes > podes, na passagem do latim para o português, só para mencionar exemplos nos quais, também e pelo mesmo motivo, [t] evoluiu para [d]. 
         E, assim, 'fatiga' chega a 'fadiga'. Fica a primeira pela via erudita; vem a segunda por via popular. Reconhecida esta última, se ficarmos por aquela também não está mal. Explica-se, portanto, a possibilidade do apontamento lido nos destaques noticiosos da Microsoft Edge:

Colhido do Microsoft Edge, em "Notícias ao Minuto"

         Com ou sem Boris Johnson, é um dado que a guerra Rússia-Ucrânia já cansa. Bastariam Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky para nos atormentar a mente com o conflito que a todos aflige. Vem também o primeiro ministro britânico contribuir, com a citação feita, para o desalento, afadigando o espírito com sinais dos perigos que não dão esperança.

      Fadiga ou fatiga, o tempo é declaradamente, e por vários motivos, de cansaços (lembrando Campos e "Sobretudo cansaço").

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Uma questão de "*perar" (porque 'quem *pera sempre alcança' ou '*despera')

     Estará a acontecer mais um caso de evolução da língua?

    A frequência de uso do verbo '*tar' é tão comum na oralidade que já foi aqui, mais do que uma vez, denunciada pelas evidências do escrito - bem reveladoras de falha na consciência morfológica (deformação na consciência da base da palavra) e fortes implicações com a sintaxe (confundindo o verbo copulativo ou o auxiliar 'estar' com o verbo principal ou o auxiliar 'ter').
     Hoje, à semelhança de outros dias, a interação foi fantástica, a julgar pela reprodução do diálogo:

     - Ó professor, *pere.
     - Se faz favor, é bonito e eu gosto.
     - *Pere, se faz favor.
    - Não *pero nada, porque não sei o que é isso de *perar. Verbo tão estranho! Eu *pero, tu *peras, ele *pera, nós *peramos, vós *perais, eles *peram! (a gargalhada começa a ser geral). E se fosse no imperfeito do conjuntivo? Se eu *perasse, se tu *perasses, se ele *perasse, se nós *perássemos, se vós * perásseis, se eles *perassem! (mais gargalhada). Ai, e o pretérito perfeito composto! Eu tenho *perado, tu tens *perado, ele *tem perado... (continuam a gargalhar, até que o olhar sério e a pergunta mudam o registo, aind mantendo a brincadeira) Como seria o futuro?
      - Eu *perarei, tu *perarás, ele *perará... (responde uma)
      - Muito bem! E o condicional?
     - Esse é o tempo das Marias (coitados dos Manéis desta vida!): eu *peraria, tu *perarias, ele *peraria...
     - Bem, isto está a soar-me a peras a mais!
     - É cada fruta, professor!
     - Tens razão, é melhor parar, antes que façamos uma salada muito pouco variada e indigesta!

     Para terminar o momento, lá foi o reparo:

      - Espere, por favor, caríssimo X!

     E lá veio a resposta que daria outra conjugação:
     
      -   *Tá bem, professor.

      Alguns, mas só alguns, riram-se, bem cientes de que eu já não "*tava" a ficar muito bem.

     Quando abordar os processos de evolução fonológica, vou pensar se não será melhor começar já a abordar a aférese dos sons na sílaba inicial de 'EStar' e 'ESperar'. Quase me apetece dizer, em variação paremiológica, 'Quem *pera tem *perança' ou, então 'Quem *pera *despera'.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Mais do mesmo

       Depois do nabo, continua a luta (falta saber se com nabos se com nabiças).

       Dizem que não há tempo mais oportuno do que este, a julgar pelo texto seguinte:

A oportunidade do ato de 'desinfetar'

    Concordo que desinfeção é palavra de ordem, nos dias de hoje. Todavia, no que à expressão popular e regional diz respeito, entenda-se 'desinfetar' como sinónimo de 'desaparecer'. E que bom seria que o Corona vírus desinfetasse da nossa vida. Melhor ainda se, na escrita, a vírgula do vocativo não fosse esquecida.

         Assim tem de ser!
   
     Deve haver um vírus na memória de quem escreve estas coisas. Chama e não virgula! Santa paciência!

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Passando

     Já houve receita, música, cinema de animação, poesia,...

     ...  agora é tempo de passagem, de "reveillon" com algumas notas ortográficas (sem acordo) e imagens muito literais ou concretas (do que possa ser chamado por Alberto Caeiro de "virar da esquina").
     Nada como ir à procura de um espaço e dar uma "virada" para o novo ano.
     Na busca do espaço, encontrei um:

Imagem colhida do Facebook

     (Ao que chega o "reveillon"! Ainda bem que há vaga!)
     Para a "virada" que se impõe, num português muito à variedade continental não europeia (do Brasil), já ensaiei uma:

Imagem colhida do Facebook

     (A verdadeira passagem... pelos lençóis!)

     Resta desejar a todos umas boas saídas, melhores entradas e uma vivência de todo um novo ano com saúde e paz. BOM VINTE VINTE.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Verbo 'tar' (só na oralidade com bastante informalidade)

     Lê-se (está escrito) no Expresso Curto, de hoje!

     Já escrevi sobre esta minha embirração: a do verbo 'tar'. Já também sobre ela falei a muitos alunos. E antes que me digam que têm razão, que podem escrever 'tou, tá(s), tamos, tais, tão' ou 'tive, tiveste, teve, tivemos, tivestes, tiveram' na conjugação do verbo 'estar', é bom que se lembrem que na oralidade informal, em casa ou com os amigos muita coisa pode acontecer; com o professor de Português é que não (só em jeito de brincadeira)! Como as aulas e os exames não são para brincar, faça-se a devida chamada de atenção, para que não haja surpresas na avaliação / classificação.
     Todo o excurso surge a propósito da imagem à esquerda e do título lido. Tudo ficaria mais simples se a jornalista em questão colocasse um apóstrofo no início da palavra ('tão), sugerindo que algo (uma sílaba) estaria elidido; ou, então, as aspas convenientes para dar conta de uma citação, de um verso transcrito de uma letra de canção. Não que, neste último caso, não seja de se escrever 'estão'; porém, no contexto de uma letra que sugere uma conversa com um "amigo", com vocabulário e expressões conjugadas com o destinatário e a situação (familiar, cúmplice), tudo se torna mais aceitável. Basta ouvir a canção e, em particular, a letra de Chico Buarque:

Chico Buarque, do álbum Meus Caros Amigos (1976)

         MEU CARO AMIGO

Meu caro amigo, me perdoe, por favor 
Se eu não lhe faço uma visita 
Mas como agora apareceu um portador 
Mando notícias nessa fita 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
Muita mutreta pra levar a situação 
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça 
E a gente vai tomando que também sem a cachaça 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar 
Nem atiçar suas saudades 
Mas acontece que não posso me furtar 
A lhe contar as novidades 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
É pirueta pra cavar o ganha-pão 
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro 
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu quis até telefonar 
Mas a tarifa não tem graça 
Eu ando aflito pra fazer você ficar 
A par de tudo que se passa 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
Muita careta pra engolir a transação 
Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho 
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever 
Mas o correio andou arisco 
Se me permitem, vou tentar lhe remeter 
Notícias frescas nesse disco 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
A Marieta manda um beijo para os seus 
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças 
O Francis aproveita pra também mandar lembranças 
A todo o pessoal 
Adeus!

    Com esta modinha brasileira 'tão' e 'tá' fazem todo o sentido, nas palavras (ousadas) dirigidas ao "meu caro amigo", aquele confidente com quem se desabafa, numa intimidade que se pauta pela amizade, pela cumplicidade e pela confiança (mas que não convém a uma ditadura militar brasileira, criticada e denunciada como "esse rojão", para não falar em qualquer outro contexto político brasileiro coincidentemente crítico e adverso). Fora dela, fiquemo-nos pela adequação de uma norma a situações mais regradas e formais - para que a coisa não fique "preta!" As variedades da língua devem ser consideradas no pluriformismo e na versatilidade que os falantes dela revelam, não esquecendo a avaliação, a adequação e o ajustamento que nelas se impõem.

     A bem de quem está em contexto de avaliação e de classificações (internas ou externas) que podem marcar uma vida. (Es)tá?

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como?! Assim?!

       Isto de fonética e fonologia tem tudo a ver com SONS.

       Não com letras!
      Os grafemas estão para a escrita. Os sons estão para a oralidade. E se uma letra admite vários sons (veja-se a letra 's' que admite quatro realizações sonoras: [s] em 'sapato', [z] em 'rosa', [ʃ] em 'espinho' ou [Ʒ] em 'as batatas'), quando se faz o estudo da fonética e da fonologia é ao nível sonoro que tudo interessa. Portanto, há que distanciar da escrita e da tirania que esta apresenta quando se fonética e fonologia se trata.

         Q: A passagem de 'assi' para 'assim' pode ser um exemplo de paragoge?

        R: Claramente não. Trata-se de um exemplo perfeito de nasalização.
          Ninguém lê 'assim' como [ɐ'sim], mas sim como [ɐ'sĩ]. Ou seja, não é o som [m] que está em causa, mas sim a nasalização da vogal 'i' (que deixa de ser apenas oral para passar a oral nasal). É a aparência da grafia que parece apontar para o adição final de um som; contudo, não é isso o que acontece. É a vogal final que adquire um traço diferencial (de ressonância nasal) na sua produção.
         A letra 'm' pode ser lida como o som [m] em 'mesa' ou 'acima'. Por sua vez, em 'assim', 'fim' ou 'importar', a escrita não pode confundir o som transmitido - e que é sonora ou foneticamente a representação feita por um til ([ɐ'sĩ], ['fĩ], [ĩpur'tar]), a marcar o traço da nasalidade.

         Mais um caso que mostra que nem tudo o que parece é (não é processo fonológico de adição, mas sim de alteração na natureza da vogal oral que já lá está /estava e que passa / passou a ter um traço novo - o da nasalidade).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Obrigado, RAP!

     Com o agradecimento devido à OC, também, por me ter feito chegar aos olhos (porque de leitura se trata) a última crónica de Ricardo Araújo Pereira (RAP, sem que de música se fale).

        Estava eu a ler a dita cuja tão contentinho - porque de Linguística não deixa de ser (mesmo que em registo cómico) -, e eis senão quando sou abalroado pela bombástica novidade: "... já quase ninguém se chama Vítor".
       Se do "vós" pouco se pode argumentar quanto ao desuso (mais do que evidente), do Vítor nem sei que diga! Vítor Pereira, com desgosto, vai deixar de treinar e comentar futebol, para não falar de um outro que nem vai mais apitar ou arbitrar! E Vítor Oliveira (não eu), no momento também a treinar lá para os lados de Portimão, está aqui está a fugir para África! É certo que Vítor Baía já não defende as balizas do Futebol Clube do Porto, mas não deixa de ser por aí muito badalado à conta de outras eventuais aspirações. Ainda desiste! E o Chefe Vítor Sobral?! Larga a cozinha. Até Vítor Norte vai deixar o teatro, com a tragédia anunciada! Para isto, muito deve ter contribuído Vítor Gaspar, com uma subida tão brutal nos impostos que nenhum paizinho nem nenhuma mãezinha de juízo quiseram dar tal nome a um seu descendente. Resta ao Senhor Padre Vítor Melícias rezar, a bem do bom nome que já foi de Papa e de Santo.
     Segundo o RAP, estou em desuso. Estou aqui estou tal igual (como diria Mia Couto) a arcaísmo. Bem... pior seria se o meu nome fosse grafado com 'c' (em verdade vos digo que nada tem a ver com o Acordo Ortográfico). Por isso, sempre que me apresento, digo "Muito prazer, Vítor Oliveira, sem 'c' e com acento no 'i'". Sempre dá um ar de modernidade, mais fresco e desempoeirado, não sei se percebeis (cá está o vós).
      Hoje, sinto-me, portanto, "avis rara" com a crónica "Até que o vós me doa" do RAP, publicada na revista Visão:

(clicar na imagem para aumentar o texto)

    Depois disto, não vos riais, que para mim é assunto muito sério! O desuso do pronome (que mais parece majestático, face ao banalizado 'vocês') e a raridade dos "Vítores" precisam de uma comissão de trabalho e de estudo já, para não falar de uma petição imediata, visando a resolução de duas questões críticas nacionais. Pelo menos, a dos "Vítores", claro está!

     E para ir ao encontro do RAP, antes que vos vades embora (este conjuntivo do verbo 'ir' na segunda pessoa do plural é um primor!), ficai sabendo que o nosso cronista da "Boca do Inferno" (vira essa boca para lá!) muito usou e abusou do "Vítor" (ou melhor, do "Senhor Vítor"). Tantas vezes o disse que disso não fez vitória. Imaculada Conceição me valha (por o dia feriado ser dela), com uma ajudinha de São Vítor, ora pois então!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Tudo a dobrar

    A questão decorre de uma dúvida levantada por uma posição extremada na escrita de uma palavra pouco comum, mas já com algum uso.

     Este é um dos casos que o uso vai já impondo alterações. Provas de que a língua está viva.

    Q: A palavra 'duplex' leva acento no 'u'? Disseram-me que essa é a forma correta de escrever a palavra.

      R: Na verdade, sempre encarei a escrita "duplex" como correta. Instalada a dúvida, pesquisei em alguns dicionários e acabei por chegar à conclusão de que ambas as formas, acentuada e não acentuada, são aceitáveis. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista as duas formas (dúplex e duplex), o mesmo acontecendo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Igual situação pode ser ainda encontrada no Vocabulário Ortográfico do Português (ILTEC).
    Uma nota, contudo, deve ser tida em consideração: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa não deixa de registar que 'duplex' é a forma mais usada, mas não a preferida por outros dicionários. Estes seguem a versão acentuada, numa fidelidade à origem etimológica do termo latino (duplex, ĭcis), com o significado de "duplo, dobro, dobrado" e com a sílaba [du] mais longa / intensa do que [plĭ].
      Estamos, portanto, perante mais um caso de alguma deriva na língua portuguesa, à semelhança do que já acontece com outras palavras que apresentam oscilação de pronúncia (Oceania / Oceânia, pudico / púdico, tulipa / túlipa) e entradas dicionarizadas com ambas as formas.
      Para a tendência do uso 'duplex' não será certamente estranha a vulgarização / frequência em função da forma reintroduzida e emprestada do inglês, também grafada sem acento:


     Ora, a tendência da pronúncia estará para assumir a palavra mais como aguda do que grave; daí o 'duplex'. Quem quiser ser mais etimológico que vá pelo 'plex' e pela respetiva fonética - no mínimo incomum pela sonoridade de palavra grave. Em qualquer dos casos (o do uso, o da etimologia), haverá sempre razão para a constatação da língua viva, em constante evolução.
    

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Quem se lembra de tal à hora de jantar?

     Eis que me chega novo pedido de comentário, formulado por uma colega atenta a estes "trocadilhos" gráficos divulgados pelo Facebook.

     Numa imagem que circula pelo facebook, partilha-se, com o famoso "kkkkkkkk" (a representar o riso gutural dos "danadinhos para a brincadeira"), o aviso:
    Que se me oferece dizer? Que a criatividade linguística dos utilizadores (menos conscientes e/ou mais intuitivos ou, ainda, os mais divertidos e criativos, a julgar pelo 'assinado eu') é fantástica, mesmo que ela decorra de situações de erro. 
    Na verdade, muita da criatividade da língua surge neste último contexto. O dado é historicamente comprovável, até pela própria evolução do latim vulgar, atestada num registo como o "Appendix Probi" (terceiro de um conjunto de cinco apêndices, da autoria do gramático Probo, a dar conta de fenómenos de evolução glosados na perspetiva da sua gramaticalidade / agramaticalidade relativamente ao latim falado nos séculos III a IV). Hoje, em português e para olhos que não estejam a ver bem, sempre há uns óculos para compor a situação; e se ambos os termos sublinhados existem na nossa língua, é porque alguém deixou de, no latim, dizer o gramatical oculus e passou a utilizar o agramatical oc'lus (glosa 111, a revelar a síncope da vogal pós-tónica, indesejada para Probo) para se referir aos olhos. Assim, por via popular, nos chegam os olhos (< oc'lus); por via erudita, os óculos (< oculus). O mesmo sucedeu com auris non oricla (se hoje dizemos 'orelha' estamos mais para a forma dita agramatical do que para a base correta).
       O erro na imagem dada a ver/ler pode ser impeditivo do que se queira transmitir; porém, a leitura em voz alta repõe, na mente do leitor, a mensagem: "Fui almoçar".
    De novo, há a possibilidade de alguma interferência de um registo sonoro do português não europeu (mais familiar, por exemplo, ao da variedade do Brasil), que pode conduzir o falante a tentar registar, por escrito, o que lhe parece ser aquilo que familiarmente lhe é dado a ouvir. A par disto, considera-se ainda a inconsciência lexical (que vê duas palavras - 'ao mossar' - onde só existe uma - 'almoçar') e ortográfica (indiferenciação na grafia 'ss' / 'ç'). Alguma história da língua e a noção de alguns fenómenos de evolução fonética (contando com a deteção de dissimilação, síncope, palatalização) também ajudariam à correção pretendida.
      A par de tanta inconsciência, mais acrescento: quanto mais rápida for a produção oral da palavra 'almoçar' mais próxima fica a sílaba [al] do que aparece grafado na imagem como 'ao' (o que pode induzir o falante menos instruído à escrita de um ditongo foneticamente representado como [aw]).
    Instalada a comédia linguística, interessa dizer que ela só faz sentido por não se encontrar vulgarizado nenhum nome com a forma 'mossar'. Assim fosse, perder-se-ia toda a piada. Como só se reconhece 'mossar' como verbo (torcer o linho), 'fui ao mossar' é sintagma tomado como agramatical e, daí, sí na virtualidade cómica poder ser o que não é ou ler-se o que lá não está.

     À imagem de um apontamento anterior, a comunicação pode fazer-se, por mais que o ponto de partida pareça ruído. Por ora mais não digo (ou melhor, escrevo), porque é hora de jantar.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aluga-se quando há lugar...

     Pedem-me comentário a uma foto...

   Perante o que me é dado a ver, acabo a ler em voz alta, para a sonoridade da língua me ajudar a resolver o enigma gráfico:

(Foto partilhada por uma colega da área da matemática que me pede comentário. Assim seja!)

    Decifrado o texto, há criatividade suficiente na língua para se poder ultrapassar o desconhecimento e as limitações revelados quanto à convenção escrita. Na base de tudo fica a oralidade, a procurar pontes entre os sons e o reconhecimento de alguma reprodução destes naquilo que são registos escritos que os possam traduzir. Quando não se sabe, fazem-se aproximações "criativas" (lembro-me de uma aluna que leu tão atentamente 'Os Maias', de Eça de Queirós, que chegou ao ponto de escrever o nome do pai de Afonso como 'Queitano').
     Não obstante a tentativa (criativa, mas fracassada) demonstrada na foto, é preciso ainda adicionar outra problemática: a da interferência de alguma variação linguística no registo feito. O português de sonoridade vocálica aberta está mais para variedades não europeias da língua (como a do Brasil ou de África) do que para o que é dado a ouvir em Portugal. Aquele "Ha luga-se", inexistente na escrita, é uma aproximação ao que se ouve algum falante africano (ou mesmo falante nativo de uma língua estrangeira) produzir. 
    Resta juntar, a este dado, outros ingredientes como um défice de escolarização; uma inconsciência fonético-fonológica, lexical e ortográfica. Alguma história da língua também ajudava à correção pretendida, mas isso significaria ativar competências que, por mais importantes que também sejam para a justificação da escrita comum e socialmente reconhecida na correção, corresponderiam a um grau de desenvolvimento maior.

     ... e acabo a reconhecer a grande vontade / necessidade de comunicar com muita inconsciência à mistura.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cinco palavras a morrer

      No blogue 'Certas Palavras', lê-se que há palavras a morrer.

      Assim se fica a saber:

    Cinco palavras portuguesas 
    que estão a morrer


        Ósculo
   Provavelmente, esta palavra não está a morrer: já morreu. Muitas pessoas já nem saberão o que quer dizer - e não me parece que alguém chore por esta morte, pois é um pouco estranho misturar a ideia dum beijo com uma palavra que lembra algum tipo de bicho estranho.

        Deveras
    Será ainda uma sobrevivente em certos discursos mais inflamados ou em paródias dum estilo antigo. Mas na vida do dia-a-dia não há quem diga “deveras”. Pelo menos sem que outros torçam o nariz a esta palavra com ar de outros tempos.

       Cassete
       Não morreu, mas está muito velhinha: uma palavra que ainda há poucos anos andava nas bocas do mundo… É bem provável que, muito em breve, siglas como CD, DVD e outros que tais se juntem à cassete nesse lar da terceira idade das palavras.

       Obséquio
      Uma palavra galante, mas cada vez mais rara. Ainda soa bem e não deixa de ter a sua graça, mas ninguém a ouve por essas ruas fora. Mas tiremos-lhe o chapéu, que merece o nosso apreço.

       Cosmonauta
     Nestes tempos em que a Rússia está mais interessada nas Crimeias desta vida do que na conquista do espaço, já poucos se lembrarão que os astronautas, por aquelas bandas, são cosmonautas. Nunca se sabe se não será esta uma palavra a ressuscitar muito em breve. Por enquanto, talvez seja bom recordar que um astronauta chinês é um taikonauta.

       Conhecem mais palavras que estejam a morrer?

      Até que eu gostava de responder, para que não seja debalde formulada esta questão. Mas para que os cinco vocábulos apontados não caiam em desuso, registo o seguinte: não procrastinemos! Osculemo-nos para que não haja deveras o desaparecimento de tão insignes ou egrégias palavras nem o olvido de usança tão propícia a relações humanas salutares e edificantes.

      E para que não vades sem galanteria, por obséquio, sede felizes. Votos de um repousante fim de semana.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Gerúndio...forma não finita?

       A questão é levantada por um colega interessado em distinguir formas finitas de não finitas.

      Tudo por causa de formas verbais e sua implicação nas orações.

     Q: Não consigo perceber por que razão o infinitivo é uma forma não finita. Consigo conjugá-lo. O gerúndio tem mais razão de ser para uma forma não finita. Se puderes, esclarece-me. Obrigado.

    R: Ainda que, classicamente e na gramática tradicional, o infinitivo (a par do gerúndio e do particípio passado) seja considerado uma forma verbal sem conjugação, efetivamente há um infinitivo flexionado em termos da categoria pessoa (infinitivo pessoal - ex.: 'para eu fazer > tu fazeres > ele fazer > nós fazermos > vós fazerdes > eles fazerem). Esta flexão não se compagina, contudo, com a possibilidade de a forma verbal infinitiva ser exclusiva numa frase simples nem se projetar numa conjugação em termos de tempo  (contrariamente às formas finitas do indicativo, conjuntivo, condicional, imperativo).
       Em termos de realização padronizada da língua, é verdade que o gerúndio é mais limitativo neste aspeto (e, por isso, a maior aceitação enquanto forma não finita).  Contudo, também já se encontram estudadas algumas realizações de conjugação pessoal do gerúndio em variedades do português do Brasil e mesmo do europeu (no sul de Portugal). É o caso de enunciados como “Em querendos isso, trabalha” ou “Em comendem a sopa, podes pensar na sobremesa”, com uma espécie de flexão evidenciada na segunda pessoa do singular e na terceira do plural, numa aproximação a expressões gerundivas como "Em acabando o dinheiro, não se compra mais nada" (sinónima de "Quando acabar o dinheiro, não se compra mais nada") adaptadas à pessoa em causa ("Em tendos dinheiro..." ou "Quando tiveres…"; "Em tendem dinheiro..." ou "Quando tiverem...").

       Não sendo uma construção da norma padrão, estas realizações estão aí tanto na boca do falante comum quanto na de utilizadores instruídos e cultos, nem que seja numa adequação ou adaptação ao discurso de pares convivas, no dia-a-dia. Ainda assim, a projeção da flexão fica-se  pela pessoa; não pelo tempo. Daí o gerúndio ser uma forma não finita.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Tempo deles...

       ... dos dióspiros, pois então.

O fruto da discórdia linguística (foto VO), com agradecimento à VS.
    E, antes que digam que é erro, convém alertar para o facto de a palavra estar bem escrita. DIÓSPIROS, sim senhor, com acento gráfico no primeiro 'o', é verdade.
   Verdade, verdadinha é que ninguém o diz tal como deve ser - que é como quem diz, tal como se escreve: a palavra é esdrúxula (assim o dita o dicionário), mas toda a gente a pronuncia como se fosse grave (com a sílaba tónica no 'pi'). Não é de admirar, portanto, que, por influência da fala (incorreta), também quase todos escrevam (erradamente) o termo, sem o acento gráfico que se impõe.
     Ainda hoje falei do caso aos meus alunos, até para que ganhem a noção de como a língua se encontra em mudança no estádio sincrónico em que nos encontramos, a ponto de atualmente já ninguém ter consciência de que deve escrever-se 'dióspiro' e não 'diospiro'; de que deve dizer-se a palavra como proparoxítona (acento fónico esdrúxulo) e não paroxítona (grave).
       
       Ofertaram-me seis dióspiros. Um (dióspiro) já foi! Quando acabarem (os dióspiros), posso comprar mais (dióspiros), mas vou preparar-me para falar de forma errada (não vá a vendedora pensar 'Olha, olha... Professor de Português e a falar tão mal). Ironias da evolução da língua (viva).

sábado, 28 de dezembro de 2013

Vontade de ser zambeziano

      Estreou quase há um ano, mas só hoje o vi. Mais vale tarde do que nunca.

     Trata-se do filme animado Zambézia, realizado por Wayne Thornley - uma história que tem tanto para crianças como para adultos, pelas aprendizagens e pela moralidade destacadas.


      A intriga foca o percurso de vida de Kai, um jovem falcão que sai do Catungo, onde viveu apenas com o pai (Bravo), antigo protetor e fundador dos furacões que patrulham os céus da Zambézia. Um desastre no passado, que quer esquecido, leva-o a preservar-se e a livrar o filho dos perigos que persistem para lá da fronteira que agora vigia. Chega, porém, a hora em que o jovem afirma a sua vontade e o seu espírito livre, acabando por migrar para aquele que é apresentado como o lugar mais seguro de toda a África: o reino de Madagáscar, junto a uma velha árvore que se impõe no limite da terra e no início das quedas de água.
      Mais do que Kai (o Raio Azul), que arrisca nos voos e se aventura na vida para se tornar um furacão, toda uma comunidade de aves se afirma na história, numa mensagem capaz de mostrar que há bem mais no que a aproxima do que naquilo que a separa. Inclusive para os heróis voadores vale esta lição, ao rever(ter)-se um passado que excluiu da cidade a espécie dos Marabus (por preconceito, face à aparência diferente, à rudeza e à impetuosidade). Por esta razão, momentaneamente, estes últimos aliaram-se ao mal, tentados que foram para um poder assente no engano, na sevícia e na traição; também eles acabam por, a tempo, reconhecer as suas fragilidades, desfazendo o prejuízo provocado com a aliança feita com o vilão e juntando-se aos restantes pássaros na luta contra o mal.
    Constantemente se sublinha a ideia de que em conjunto tudo é mais fácil, numa reação clara aos individualismos que possam surgir. O coletivo sai sempre vencedor, mesmo nas situações de maior perigo, como a que é protagonizada pelo lagarto Brutus, o invasor da cidade das aves, na ânsia de controlar a cidade e encontrar a maior omoleta para a sua gula de poder.
       Não houvesse já aqui razões para se ver esta película, acresce ainda o facto de na tradução e versão portuguesas se encontrar um outro ponto de interesse: linguisticamente, está explorada a variação nas vozes de várias espécies de aves. Do português africano de Nonô, da variedade alentejana dos Marabus ou de Canja, da pronúncia nortenha do chefe dos furacões até à gíria estudantil de Canja ou o registo afetado das passaruchas (que não gostam de passarecos, só de passarões), há toda uma riqueza e versatilidade da língua motivadas para os diálogos das aves mencionadas.

       Um filme a não perder, para trabalhar com os alunos seja pela moralidade seja pelo material com valor linguístico (pela variação), que a versão portuguesa consegue motivada e sugestivamente explorar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"Apuntamentu du Nuórte"

      Circula no facebook uma imagem com algumas notas da "bariedáde" do "Puôrto", com a "debida internacionalizaçõue".

                                     Imagem da IllustrArt
       Algumas das expressões típicas  figuram na imagem, com uma pequena ilustração e a tradução, nem sempre fiel, do significado atribuído: o "c'a grizo" é mesmo a exclamativa "Que frio!", que também tem a variante do "que brióle!"; o "arrostar postas de pescada" é mais abrangente, para todo aquele que fala daquilo que não sabe. As restantes são mesmo típicas aos ouvidos do Porto.
       Claro que faltam os "bitorinos" (sapatos) para "dar de frosques" ou o também comum "bazar" ou "pôr-se na alheta"  (fugir). Nada de confundir com "abanar o capacete", porque isso só quando chega a hora da dança e nada como "pôr-se à coca" para apanhar o ritmo.
        Destas e muitíssimas outras expressões, nada como ler os Heróis à Moda do Porto (publicação da editora "Lugar da Palavra" e com a coordenação do professor João Carlos Brito), que bem podia ser à moda do Norte, para ser mais correto, pois tudo o que está para lá do Douro já é mouro.
        Para lá do escrito, nada como ouvir os Trabalhadores do Comércio, na clássica (já dos anos oitenta do século passado) cantiga "Ou tás quetinho ou lebas no focinho" (com letra imprópria para os ouvidos e os olhos habituados ao registo mais padronizado da língua):


TÁ QUETINHO OU LEBAS NO FOCINHO

Ou tás quetinho ou lebas no focinho (4x)
Ou tás quetinho e caladinho
Ou tás quetinho ou lebas no focinho

Já num quero mais comer
Já tou farto de ir p'à escola
O qu' eu gosto é de correr
E d' andar ao chuto à bola.

Eu num bisto mais calções
Nem bebam do qu' eu tenho
Não me deiam encontrões
Quando caio eu não saio.

Cala essa boca, não digas isso, isso é pecado
Olha c'o pai e o Jesus fica zangado.
Num custa nada pôr o sabudo a ser delicado

                                Refrão

Já tou farto de ir à missa e de rezar o Padre nosso
E num gosto que m' obriguem a comer do que num gosto
Só me impingem babozeiras
Só me querem magoar
E são tantas as asneiras mas eu tenho que calar.

Cala essa boca, não digas isso, isso é pecado
Olha qu' o pai e o Jesus fica zangado.
Eu só pergunto mas ele fica todo atrapalhado.

                                Refrão (x 2)


      Este apontamento ficou um hino ao linguarejar tripeiro, "p'ra ninguém mandar bire" (refilar, discutir, reclamar ou protestar).

        É o que faz ser um "hóme do Nuorte, carago!"

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Falares... com pronúncia do Norte.

     A propósito de um pedido de colaboração, no âmbito dos falares do Português, recupero os sons e os sentidos de uma canção.

     É certo que todas as línguas têm uma melodia própria.
     Há mesmo quem procure caracterizar os falares distintos de cada língua.
    A pronúncia do norte de Portugal tem uma canção só para ela. Assim o interpretou Rui Reininho (vocalista do grupo Grupo Novo Rock - GNR), em colaboração com Isabel Silvestre (cantora portuguesa identificada com os cantares folclóricos de Manhouce - região influenciada pelo Douro e Beira Litoral), no álbum Rock in Rio Douro (1992):


         PRONÚNCIA DO NORTE

Há um prenúncio de morte
Lá do fundo de onde eu venho
Os antigos chamam-lhe ralho
Novos ricos são má sorte

É a pronúncia do Norte
Os tontos chamam-lhe torpe

Hemisfério fraco outro forte
Meio-dia não sejas triste
A bússola não sei se existe
E o plano talvez aborte

Nem guerra, bairro ou corte
É a pronúncia do Norte

Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
Tolheste os ramos onde pousavam
Da geada às pérolas as fontes secaram

Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte

E as teias que vidram nas janelas
esperam um barco parecido com elas
Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar

E é a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar


   Na variação que o Português possui, "Nem guerra, bairro ou corte" é o que se impõe, para reconhecimento de uma diversidade e riqueza linguísticas feitas de um tempo ainda em curso ("Meio-dia não sejas triste") e de um espaço com múltiplas coordenadas ("A bússola não sei se existe").

    Está aí a natureza viva da língua: (sobre)viver na sua progressiva atualização e ativação, à procura de "caminhos novos para andar".

sexta-feira, 12 de julho de 2013

No que dá a variedade sonora...

    No andamento desta carruagem, vão chegando viajantes que vão dando sentido à continuidade do projeto.

      Desta feita, a questão é sonora.

     Q: Boa noite, Vítor!
       Peço desculpa por estar a incomodá-lo, mas, ao "viajar" na Carruagem 23, que apanhei por um feliz acaso, pensei que talvez pudesse ajudar-me numa questão tola, decerto, mas para a qual já procurei e não encontro a resposta: ao classificarmos uma frase subordinada completiva, como se pronuncia a palavra "completiva"? Se a palavra é grave, a sílaba "ple" deve pronunciar-se com E aberto? Penso em palavras da família, por exemplo, completamento, completar, completado, ou completude e convenço-me de que o E deve ser átono, mas depois penso em completamente ou em outros exemplos - letivo, coletivo, seletivo, afetivo - e fico sem saber...
     Se me pudesse esclarecer, ficar-lhe-ia muito grata. E, se me permite, gostaria de dar-lhe os parabéns pelo blog, pela pertinência, clareza e bom gosto. (Não é um cumprimento para obter um favor, mesmo que não me possa responder, mantenho a opinião ).
      Muito obrigada.

    R: Começo por agradecer as palavras simpáticas que me dirigiu a propósito da "Carruagem 23". Melhor do que tudo é o facto de contribuir para o "andamento desta carruagem", com a questão / dúvida formulada.
       Esta última não é tola, definitivamente.
Pontos de articulação vocálica                         
     Em termos linguísticos, a procura, por um lado, de alguma estabilização ou normativização não nega, por outro, o reconhecimento de fatores de variação muito difusos, nomea-damente nos domínios da fonética e fonologia. O Português é rico neste campo, bem como algumas línguas românicas, até pela própria proveniência latina.
   Primeiro de tudo, há que referir que na classificação / caracterização das vogais, o traço aberto opõe-se a fechado (e não átono), atendendo ao movimento baixo ou alteado da língua; a natureza átona opõe-se a tónica e diz respeito às propriedades acentuais das sílabas (nomeadamente dos núcleos vocálicos).
  Consultando um dicionário referencial com transcrição fonética (por exemplo o Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa), encontra-se padronizada a realização com 'e' aberto ([ɛ]), quando 'ti' é a sílaba tónica. Aliás, o exemplo proposto da palavra 'completamente', para me situar no contexto da mesma família de palavras, é outro caso exemplificativo: a sílaba 'ple' tem vogal aberta, sendo 'men' a tónica. Não há, portanto, incompatibilidade entre estes dois últimos dados. A par disto, e contrariamente a uma especificidade do Português Europeu - que aponta para a extrema redução das vogais átonas -, há contextos de exceção a este princípio geral (de natureza morfofonológica): 

i) o caso das vogais átonas em sílabas terminadas em [l] (ex.: escaldado, falsidade, relvado, salgado, soldado < do verbo soldar>), que mantêm as respetivas propriedades fónicas de base, apesar da derivação: escalda > escaldado, falso > falsidade, relva > relvado, salga > salgado, solda > soldado); 

ii) o das vogais átonas seguidas de semivogal com a qual formam ditongo (ex.: pautado < pauta, endeusar < deus, foicinha < foice).

   Destacar o acento tónico de uma palavra (associado à sílaba tónica, pela intensidade e duração apresentadas na vogal que se constitui como núcleo silábico) não exclui a possibilidade de considerar outros acentos fónicos (etimologicamente motivados). Explica-se, assim, que, além do acento principal (o tónico), possa existir um acento secundário na mesma palavra. 'Completamente' tem o acento tónico na sílaba 'men' e um acento secundário em 'ple' - daí também a abertura desta última vogal. O mesmo sucede com 'completivo', assim como em vocábulos como 'facilmente, 'patetice', 'pazada', 'solteiro', 'vaidade', cujas sílabas átonas sublinhadas não dão lugar à típica redução sincrónica do núcleo vocálico. Assinala-se, desta forma, uma prova fónica de que há razões de ordem etimológica para a manutenção de vogais abertas. Contribui para isto a origem latina e o jogo deste idioma com acentos fónicos relacionados, por um lado, com a altura ou o tom e, por outro, com a intensidade. Acresce ainda a consideração de questões ligadas à quantidade fónica da própria sílaba latina (se era longa ou breve) e a processos de assimilação / dissimilação sonora.
     Trata-se, portanto, de um assunto que se pode apoiar no domínio da fonética diacrónica ou histórica e com relações no que hoje se prende com a construção do ritmo da própria palavra. Extensivamente, podem ainda contemplar-se motivações sociológicas e/ou analógicas decorrentes da preservação das vogais abertas de termos derivantes (ex.: alerta > alertar, ambos com 'e' aberto) ou da tendência para manter abertas vogais átonas em posição inicial (ex.: exato, pronunciado também com 'e' aberto ([ɛ]); orelha, realizado com [ɔ] inicial) - mesmo não se tratando de realizações-padrão. 

    No que toca a sons, está aqui um breve apontamento de como o estudo da fonética e fonologia do Português contribui para a abordagem da história e do funcionamento interno da língua, nomeadamente da sua componente morfofonológica.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Chegou a vez dos falares, dos dialetos e das línguas

     Na variação que comprova o modo de ser de uma língua viva, o que hoje é nada tem de eterno.

      Isto é o que se me oferece dizer, em jeito de balanço, antes de responder à solicitação seguinte:

      Q:  Sempre estudei que é dada a atribuição de dialeto ao mirandês.
       Àquilo que sempre aprendi, como sendo variedades linguísticas regionais (caso dos diversos falares do português do Minho, de Trás-os-Montes, do Alentejo, do Algarve), pode dizer-se que se trata de dialetos?
       E ao português falado na Madeira e nos Açores, pode atribuir-se a designação de dialetos?
         É que estive numa palestra como assistente e isto fez-me pensar.

     R: Apetece-me dizer sim a tudo, ainda que tenha de clarificar alguns dados.
        O conceito 'dialeto' associa-se ao estudo da variação e das variedades de uma dada língua, no interior de uma comunidade que a utiliza com marcas de diversidade e diferenciação, mais particularmente as que dizem respeito ao fator geográfico (ainda que este último esteja em relação estreita com questões de natureza histórico-cultural ou político-administrativa determinantes), e que se refletem essencialmente nos domínios fonético-fonológico, morfológico e lexical. Trata-se, portanto, das várias formas que uma mesma língua assume ao longo da sua extensão territorial (dialetos regionais ou, simplesmente, dialetos).
      Sociolinguisticamente equacionado numa perspetiva valorativa, um dialeto referencia-se relativamente à norma-padrão de uma certa língua e assume a distintividade diatópica, segundo uma área ou zona mais ou menos alargada (para se distinguir do que é um "falar", conceito mais reservado a realizações linguísticas próprias de localidades mais circunscritas - por exemplo, no dialeto duriense, há diferenças entre os falares do Porto da Ribeira e os do Porto da zona do centro da cidade).
    É comum dizer-se que, em Portugal, existem
i) os dialetos setentrionais (que compreendem subdialetos transmontanos e alto-minhotos, mais os baixo-minhotos, durienses e beirões);
ii) os centro-meridionais (que englobam os do centro-litoral -estremenho-beirões - e os do centro-interior - ribatejano, baixo-beirão, alentejanos e algarvio);
iii) os insulares (que dizem respeito aos que se falam na Madeira e nos Açores).
     Os estudos dialetológicos do professor Lindley Cintra, que datam de 1971, motivaram esta classificação geral.
    Quanto ao caso específico do mirandês, este demonstra como a noção de dialeto também joga bastante com o critério do estatuto político-administrativo: junto dos dialetos asturo-leoneses (Rionorês, Guadramilês, Mirandês), aquele ganhou relevo a ponto de atualmente ser considerado uma segunda língua oficial no território nacional.
    Trata-se, portanto, de um conceito com elevado grau de relativização. Numa perspetivação evolutiva, a existência e a variação de dialetos pode culminar na transformação destes em línguas, pela aquisição de um estatuto sócio-político-administrativo que assim as institui (foi o que sucedeu com o mirandês, em Portugal, com a Lei nº7/99 de 29 de janeiro, que o tornou segunda língua oficial do país).

Imagem: Classificação dos dialetos galego-portugueses, segundo estudo de Luís Filipe Lindley Cintra datado de 1971, 
numa súmula que pode ser encontrada na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, p. 15).

      O tempo já mostrou como o que foi uma língua viva, como o latim, teve os seus dialetos, na ampla variação geográfica que matizou a realização desse idioma (enquanto instrumento de romanização) e que esteve na origem de novas línguas (as românicas ou novilatinas).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Verbos abundantes (no duplo particípio)

      Para completar o que se começou e que ficou inconcluso ou não findo.

      Na sequência de um comentário e de uma pergunta formulada em apontamento anterior, deixo aqui uma listagem dos verbos que mais comummente se tomam como abundantes no particípio passado, isto é, admitindo duas formas de particípio.


VERBOS COM DUPLO PARTICÍPIO (PASSADO)
Forma forte
(irregular)
Forma fraca
(regular)
Uma questão de
ser / estar / ficar…
Uma questão de
ter / haver…
Primeira conjugação […AR]
Aceitar
Aceite
Aceitado
Cegar
Cego(a)
Cegado
Completar
Completo(a)
Completado
Descalçar
Descalço(a)
Descalçado
Dispersar
Disperso(a)
Dispersado
Encarregar
Encarregue
Encarregado
Entregar
Entregue
Entregado
Enxugar
Enxuto(a)
Enxugado
Expressar
Expresso(a)
Expressado
Expulsar
Expulso(a)
Expulsado
Fartar
Farto(a)
Fartado
Findar
Findo(a)
Findado
Fixar
Fixo(a)
Fixado
Ganhar
Ganho(a)
Ganhado
Gastar
Gasto(a)
Gastado
Inquietar
Inquieto(a)
Inquietado
Isentar
Isento(a)
Isentado
Juntar
Junto(a)
Juntado
Libertar
Liberto(a)
Libertado
Limpar
Limpo(a)
Limpado
Manifestar
Manifesto(a)
Manifestado
Matar
Morto(a)1
Matado
Murchar
Murcho(a)
Murchado
Ocultar
Oculto(a)
Ocultado
Pagar
Pago(a)
Pagado
Salvar
Salvo(a)
Salvado
Secar
Seco(a)
Secado
Segurar
Seguro(a)
Segurado
Soltar
Solto(a)
Soltado
Sujeitar
Sujeito(a)
Sujeitado
Suspeitar
Suspeito(a)
Suspeitado
Vagar
Vago(a)
Vagado
Segunda conjugação […ER]
Acender
Aceso(a)
Acendido
Benzer
Bento(a)
Benzido
Eleger
Eleito(a)
Elegido
Envolver
Envolto(a)
Envolvido
Incorrer
Incurso(a)
Incorrido
Morrer
Morto(a)
Morrido
Perverter
Perverso(a)
Pervertido
Prender
Preso(a)
Prendido
Revolver
Revolto(a)
Revolvido
Romper
Roto(a)
Rompido2
Submeter
Submisso(a)
Submetido
Suspender
Suspenso(a)
Suspendido
Terceira conjugação […IR]
Afligir
Aflito(a)
Afligido
Cobrir
Coberto(a)
Cobrido
Corrigir
Correto(a)
Corrigido
Emergir
Emerso(a)
Emergido
Exprimir
Expresso(a)
Exprimido
Extinguir
Extinto(a)
Extinguido
Frigir
Frito(a)
Frigido
Imergir
Imerso(a)
Imergido
Imprimir
Impresso (a)
Imprimido3
Inserir
Inserto(a)
Inserido
Omitir
Omisso(a)
Omitido
Restringir
Restrito(a)
Restringido
Submergir
Submerso(a)
Submergido

  NOTAS: (1) Particípio de ‘morrer’, que se estendeu também a matar; (2) também usado com o 
verbo auxiliar ‘ser’; (3) Único particípio no caso de o verbo ‘imprimir’ se associar a movimento.

     Como se pode verificar, tal não constitui uma propriedade dos verbos de uma só declinação / conjugação, como, aliás, já se podia verificar pela exemplificação feita com 'imprimir' (da terceira conjugação) e pela sistematização produzida com verbos terminados em[AR] (da primeira).
      Outros há, por certo, para alargar a lista, mas algumas situações já caíram em desuso ou, então, resultaram na conversão da forma verbal em outra categoria de palavra. É o caso do verbo 'tingir', cuja forma forte (sem associação ao sufixo flexional típico do seu paradigma) acaba por contemporaneamente circunscrever-se ao uso adjetival (vinho tinto) ou nominal (ex.: Mandei tingir umas calças, mas o tinto não pegou / As calças estão tingidas / As calças ficaram tingidas / Eu tenho tingido muitas peças de roupa / MAS *As calças estão tintas). 
     No plano do uso da língua, esta tem sido uma das áreas com mais indicadores de evolução, de mudança. Prova-o o facto de muitos utilizadores reagirem negativamente à regularidade (ex.: Eu tenho pagado tudo o que é imposto / Ele já havia entregado o teste, quando o professor mandou recolher os restantes) ou de haver zonas de contacto que escapam ao sentido mais normativo e prescritivo da língua (veja-se a nota 3 da tabela e ex.: A peça está muito gasta, está corrompida / ?está corrupta OU Está tudo resolvido / concluído / ?concluso OU Já paguei o seguro do carro, por isso estou seguro / segurado).

      Assim se prova que nem tudo o que a gramática diz é considerado no e pelo uso da língua - prova da vitalidade que esta tem.