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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Nada convicto, mas seguro

      Com tantas depressões, anseio por outras estações.

     A primavera e o verão são sempre as preferidas. E quando mudar a hora, deixando para trás a de outono e a de inverno, melhor será.
     Instalada a vontade de mudança, fico-me, para já, com o sentido da esperança. 
   Tal como o diria Pessoa, "Não sei o que o amanhã trará"; ou, então, repito Régio, no final do seu "Cântico Negro": "(...) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / - Sei que não vou por aí!"
     Há já algum tempo que tenho vindo a expressar uma preferência. Hoje é dia de decisão. 

Cumpra-se o dever com a responsabilidade que se impõe: a de escolher por causa do que não se quer.

     A ideia tem sido a mesma: nada convencido ou convicto da cruz a colocar em ato eletivo; apenas certo da que não vou assinalar. Fico-me pelo seguro (a figura retórica da antonomásia nunca fez tanto sentido), por não querer a desventura (a negação é certa, por ser verdadeira) nem por quem se mostra atacado pela síndrome Calimero.

     O tempo ditará se a escolha foi a devida. Por ora, foi a possível, por não haver outra.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Uma questão de torres

       Conheço a de Pisa, a de Londres, a dos Clérigos...

    ... mais as de alguns monumentos e igrejas nacionais e não só. Não figuram nesta ilustração, encontrada no Facebook:

As torres que nos fascinam (sendo que a primeira e a última são as mais belas, para meu espanto)

     Por isso, são análogas ao que Caeiro escreve quando se refere ao Tejo: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."
     Assim sendo, devo assumir que as torres conhecidas são, para mim, as mais belas, porque as vi(vejo) e estive(estou) junto delas. As outras podem fazer pensar; podem ser grandiosas e fenomenais, mas... só me fazem pensar, pelo que possa (não) saber delas e porque as não vi.
    Das que constam no gráfico, a primeira e a última são-me familiares: a Torre Eiffel é linda! Já teve várias cores, subi ao topo dela (ora a pé ora por elevador) e até vi o "escritório" do engenheiro, mais a panorâmica de Paris.

A Torre Eiffel e a panorâmica de Paris a partir do escritório do engenheiro (montagem de fotos - VO)

       A dos livros que não li e quero ler é, por sua vez, também a maior de todas e a que conheço melhor. E está a aumentar, a julgar pelos que estão espalhados pela casa, à espera que pegue neles, os folheie, neles sublinhe as frases / os pensamentos que me espantam,  neles anote o que me faz aprender.

        Venha o tempo para que possa dedicar-me a eles e vá diminuindo a torre mais bela do gráfico.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Está para chegar (novo ciclo)

      Depois da despedida (saída), a entrada.

       Fecha 2025; abre 2026.
      Entre um e outro, entre o balanço e as expectativas, parte-se para novo ciclo, no alinhamento do tempo, dos caminhos e das passagens, que se cumprem em percursos, mudança e esperança.
     Com música,... a lembrar harmonias no final de um ano e o desejo de união e amizade para um outro:

Uma balada de bondade e amizade, que começou por ser uma secular cantiga escocesa (para os que migravam)

        Eis a letra cantada:

Should auld acquaintance be forgot,
and never brought to mind?
Should auld acquaintance be forgot,
and auld lang syne?

For auld lang syne, my dear,
for auld lang syne,
we’ll tak’ a cup of kindness yet,
for auld lang syne.

And there’s a hand, my trusty friend!
that gives a hand to thine!
we’ll tak’ a cup of kindness yet,
for auld lang syne.

      Com outros versos, num grafismo sugestivo de movimento, afirme-se novo ciclo que se (re)abre a cada estação, a cada vivência que vale por isso: por se orientar para a vida.

Movimentos na direção de mais um ciclo (poema VO) 

     Virá o momento em que os "bons velhos tempos" darão lugar a nostalgia, a saudade de um bem passado, inspirando presente e futuro, no que há de bom a lembrar, a viver, a conseguir.

      Um bom 2026 para todos. Com saúde, união, bondade e amizade, na humanidade e no humanismo de um mundo que pode (sempre) ser melhor (se baseado na verdade e na dignificação dos seres).

Renovados votos

     Está aí mais um Natal.

     Recupera-se uma foto e um texto domésticos. Constrói-se um novo postal.

Versinhos natalícios em modo reciclagem

     Renovam-se os votos: um natal luminoso, mais humano e menos conflituoso.

     Feliz Natal.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Animar... a leitura

       Fui convidado a ler, numa turma de 10º ano, um texto sobre o natal... tempo de nascer...

    A proposta da Biblioteca AEML consistia num breve momento de leitura em todas as turmas, enquanto dinâmica enquadrada na feira do livro, mais a abordagem temática do natal e do nascer. 
     Ao final de uma primeira experiência, veio a segunda e, porque não há duas sem três, lá chegou mais uma.
      Inscreveram-se as turmas que quiseram receber o(a) leitor(a). Eis que lhes surge o diretor... para ler.
     Levei comigo o livro (Quinze Poetas Portugueses do Século XX, com seleção e prefácio de Gastão Cruz), apresentei o autor (Jorge de Sena), pedi que me dissessem se o poema trazido tinha alguma coisa a ver com o natal, o nascer; mas, acima de tudo, quis que partilhassem comigo a leitura a fazer. 
     Ensaiado um esquema de animação (escrita a palavra "BRILHA" no quadro; lida em voz alta e em coro, marcando a força, a vontade e a luminosidade que importa ter neste mundo; combinado o momento em que a diriam), foi só oralizar o texto:

"Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, in Fidelidade (1958), com voz e vídeo de VO

     No final, depois de partilharmos a voz na leitura, pronunciaram-se sobre a (in)adequação da escolha; refletiram sobre o que "nasceu" no momento viv(enc)i(a)do; explicaram aproximações e afastamentos de opiniões; concluíram que, no ato de ler, é possível a união, o gosto da emoção, o (re)nascimento do que vale na vida.
       Tiveram cinco minutos (talvez dez) de, espero, luz com a poesia.

   Também eu vivi a luz, o calor, o gosto de estar na sala de aula, com todos eles. Esqueci dores, agruras, urgências, sufocos e senti que todos merecemos experienciar momentos destes mais vezes. 

domingo, 26 de outubro de 2025

E depois da quarta...

       ... vem a quinta dimensão.

       Altura, largura, profundidade, tempo - quatro são. Qual é a quinta de que se fala?
      Talvez uma outra mais ou a fusão de todas. Alguma que permita ultrapassar as anteriores e vá bem além do que qualquer outra força permita (visibilizar). O conceito de dimensões adicionais aparece mencionado em diversas obras de Óscar Wilde, Marcel Proust e HG Wells; configura-se em Picasso e noutros artistas modernistas, que representam dimensões alternativas, múltiplas, transcendentes.
     Eis que me surge um poema com esse título, na segunda parte de um livro intitulado Ousadias (2025), com poesia e fotografia, da autoria de Adriana Carmezim e Cristina Pinto
        Na estruturação da obra, depois de 'ousadias lua' vem o 'sol ousadias', com notas de cor e palavras de esperança, tal como a noite se faz dia:

A ousadia de pôr voz no escrito e de tornar visível um livro, pelo título, já ousado (montagem VO)

    Adriana Carmezim traz regeneração, um solstício que deixa de ser inverniço e frio e passa artisticamente a um tempo diferente, salvífico, com ritmo poético expectante, confiante. Ecos de uma nova fase de vida, mais promissora, risonha, própria de quem vê luz, seja no fundo do túnel seja no caminho que passa a ser cumprido mais positivamente. O lunar dá lugar ao solar - ampliando-se o toque de luz.

         Lidos os versos silenciosamente, deu-se-lhes voz, como se o canto trouxesse às palavras escritas um efeito metamorfoseador, transfigurador. Recriador. Uma outra dimensão - a que permite acreditar em melhores tempos.

sábado, 25 de outubro de 2025

Nostalgias e Ousadias

       Hoje foi dia de (re)encontros, no Lugar de Desenho - Fundação Júlio Resende (Valbom).

    A convite da Adriana Carmezim e da Cristina Pinto, fui apresentar o relançamento do Nostalgias (outubro de 2001 - de 2025) e o nascimento público do Ousadias. Duas artistas, duas publicações, duas expressões artísticas (desenho / fotografia e escrita literária), num crescendo multiplicativo que preencheu o dia com sentido(s), sentimento(s), reflexão(ões), memória(s), vivência(s) a todo o tempo revitalizadores.

As obras da Adriana e da Cristina, no Lugar do Desenho (Valbom) - exemplos interartísticos

      O espaço é belo, as obras apresentadas também; e as pessoas são o melhor, quando o tempo é (re)vivido em sorrisos, partilha e (re)união.

A responsabilidade de apresentar duas obras é grande. Foi uma honra!
 (Foto facultada pela AC e CP)

      O meu contributo procurou trazer vivências tão contrastivas quanto complementares, referências sintonizadoras de expressão (inter)artística e cultural (literárias e não só), bem como a partilha, o testemunho, a parceria, a sintonia, a terapia, a difonia (duas pessoas com duas expressões artísticas capazes de se multiplicarem em comunhão e beleza), para harmonias, geografias e cosmogonias mais humanas e humanistas.
         Destas autoras fico à espera de outro '...ias' (e já sei qual é)!

      Lá fora chovia, mas o calor humano do momento aqueceu uma tarde outoniça a prenunciar inverno. Agradecimento à Adriana Carmezim e à Cristina Pinto pela aposta.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Tempos hodiernos, convocando grandes poetas

      Atos, discursos, história, cultura e mentalidades.

   Vê-se e ouve-se o que, incompreensivelmente, só alguns querem: em Lisboa, impede-se a realização de uma peça, com a agressão a um ator de forma fortuita e irracional; atacam-se barbaramente adeptos de um clube desportivo, após um jogo de hóquei em patins; em vários pontos do país, habitados pelos que nos procuram, verificam-se movimentações contra imigrantes; aumentam, cerca de 30%, denúncias de violência doméstica; cresce a criminalidade violenta provocada por organizações mafiosas; tornam-se mais do que evidentes manifestações progressivas de extremismos políticos e formas de populismo que comprometem a segurança e o equilíbrio social.
     A questão não é apenas nacional. Os exemplos multiplicam-se por países e continentes (na Europa, na América trumpiana, em África, no Oriente).
    Tanta desgraça de indignidade humana, tanto desconcerto do mundo quando mais se pede paz, ética, responsabilidade, segurança... a humanidade e o humanismo que nos fazem ser diferentes.
     No dia de hoje, celebrando-se um poeta, uma língua, a cultura da portugalidade, há todo um discurso que faz a diferença: a tradução de um espírito, de uma mensagem que ilumina o sorriso de muitos e o desconforto de alguns outros. 
    E, assim, se evocam grandes poetas, a sua universalidade e atualidade de pensamento, apesar da passagem e da evolução dos séculos:

"... é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redon-dilhas e vilancetes de Camões como se fossem filmes modernos feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.
    Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico como é em Sôbolos Rios que Vão, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos escritos há quase quinhentos anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender os tempos duros que atravessamos, tão em conformidade com os tempos em que ele próprio viveu.
    Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo, e sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das mil cento e duas oitavas que compõem Os Lusíadas, vinte e duas delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então. Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género. O paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado na criação de um Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que passados cinquenta anos impediam a manutenção desse mesmo império. E nesse campo, pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o Dia de Portugal seja o Dia de Camões, expressa corajosas verdades, dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.
    É bom lembrar que entre os séculos XVI e XVII três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante dezasseis anos, e no entanto os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas. Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos, e entre eles os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias. Sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, e o poder temeroso e o poder laxista.
   No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da História para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral. Mencionava "o vil interesse e sede immiga/ do dinheiro, que a tudo nos obriga", e evocava entre os vários aspectos da degradação o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado o mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer fortuna. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento. Queixava-se da falta de seriedade intelectual que resultava, depois, na prática, na degradação dos actos do dia a dia. Escreve o poeta no final do Canto VIII – "Este deprava às vezes as ciências, /Os juízos cegando e as consciências (…) Este interpreta mais do que sutilmente/Os textos; este faz e desfaz leis; / Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis…"
    Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios em que viveram. Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do Globo Terrestre. Ou, mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a Terra ao pescoço como se fosse um berloque. Os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência. Escreveu Shakespeare no acto IV do Rei Lear: "É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos."
    Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de la Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido. Por seu lado, Camões, no corpo de Os Lusíadas não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas em resultado dela, a insanidade. O desastre de Alcácer Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do canto X. Era a História, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela Literatura. No entanto, o fim de ciclo que neste caso aqui interessa não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa. Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global.
   Porque nós, agora, somos outros, deslocamo-nos à velocidade dos meteoros, e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam pelo Espaço. Mas alguma coisa desse outro fim de ciclo que se seguiu ao tempo da Renascença malograda relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a Terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos? São público que assiste a espectáculos em écrans de bolso. Por alguma razão os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas. É contra isso, e por isso, que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. (...)
    Consta que em pleno século XVII, dez por cento da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro, a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e de migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizava, filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.
    A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos, nos dias de hoje, um pouco por toda a parte, agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte. A pergunta é esta – Quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos, e os pilares de relação de inteligência homem/máquina entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um ser humano? (...)
     Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.
    Hoje, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?"

     Lídia Jorge, aquando da celebração do 10 de junho (Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas) deste ano, disse o que muitos querem ouvir; outros relativizam ou renegam. Enquanto estes últimos crescentemente se reveem no que a maioria não quer esquecer, os primeiros aceitam uma inevitabilidade histórica e uma razão forte para colher e viver mundo(s), aceitar a miscigenação cultural, integrar os que (re)encontram em Portugal oportunidade(s) para descobrir ou responder à questão "Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme, e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?”

    A reflexão de Camões, no final do canto I de Os Lusíadas (1572), é interrogação intemporal, buscando um sentido de vida humano, humanista, focado na segurança, na humildade, nessa pequenez e fragilidade ansiosas de uma felicidade que só o pensamento (crítico), a consciência e a espiritualidade (podem) trazer.

sábado, 31 de maio de 2025

Pediram-me para ler...

       ... e não me fiz rogado.

     Aquando da apresentação de VINTE SONETOS e outros poemas, de Manuel Maria, no Auditório da Biblioteca Municipal de Gondomar, durante a tarde de hoje, li dois dos textos poéticos compilados na obra. Tinham-me pedido um, mas, como ando um insubordinado e insubmisso, decidi abusar e dobrei a parada.
     Contrariei, inclusive, a ordem do título, iniciando pelo único dístico presente na secção (segunda) intitulada "outros poemas". Enquanto leitor de Sophia, relembrei o facto de os poemas mais curtos da nossa poeta apresentarem uma profundidade de pensamento evidente, uma sabedoria que nos toca com as palavras mais singelas - lições de vida traduzidas em cerca de dois a quatro versos. Fica, portanto, provado que a escolha não teve nada a ver com preguiça minha, mas com um capital de leitura que, de uma forma ou outra, se vai cruzando com outras oportunidades trazidas pelo próprio ato de ler.
      Também disso o Manuel Maria é capaz, pelo que, ao folhear o livro, na página 33, encontrei o texto
 
Vídeo e áudio do poema "Há tantas coisas tristes...", de Manuel Maria (maio 2025)

     A seleção reflete, por um lado, a tónica de um sentimento emergente de um mundo que nos vai deixando sinais fortes dos perigos e das ameaças que, longe ou perto, nos colocam em aviso constante e na razão da crescente consciência de que nenhuma guerra dignifica o ser humano; por outro lado, assume uma estratégia, na qual o fingimento recobre uma forma de sobrevivência, enquanto ingrediente necessário à vida e ao ato criativo, fictivo, poético, recuperando Pessoa e a génese criadora de quem "chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente" (como se lê em "Autopsicografia"). A nota de negatividade presente ao longo dos catorze versos decassilábicos, não pela forma, mas pelo conteúdo, é típica de um Manuel Laranjeira, que me persegue (n)a vida e que, na polaridade negativa, não deixa de a representar como húmus a alimentar e a valorizar o seu contrário, num caminho de idealização a fazer, a perseguir, a cumprir.
      Por extensão, e numa relação intratextual com a obra hoje dada a ler (desta feita com a parte correspondente aos "Vinte Sonetos"), reencontro novas e coincidentes dissonâncias, em versos a espelhar um sujeito poético atormentado, revoltado, caraterizado por uma disforia exógena a dominá-lo endogenamente (pág. 27):

Poema "Ingratidão" de Manuel Maria (vídeo e áudio por Vítor Oliveira)

      Eis as palavras, os versos de um sujeito poético que o Manuel Maria compôs à imagem e semelhança de um estado de espírito que vive instantes, que tem momentos feitos de opostos complementares, que busca identidades e que encontra palavras num exercício de escrita dominador: ao mesmo tempo "(a minha) cruz" e também "a luz". Na dualidade da dor rimada com amor, resulta uma tensão declarada na expressão poética, visível também ora na forma perfeita e convencionada do soneto italianizante ora na liberdade versificatória moderna (ambas usadas na publicação hoje publicitada), orientadas para Amor - Tempo - Arte. 

Obra poética de Manuel Maria, dedicada "A todos os que, na leitura e na escrita, se sentem com alma de poeta".

    Estas são as linhas com que, acronimicamente, o sujeito poético (também o poeta,... também o Manel) se ATA(m): na multiconfiguração e plurivalência do Amor; na inexorável, mas profícua passagem do Tempo; na exploração e na entrega à Arte (da palavra alada).

      De novo, relembrando Sophia e "Epidauro 62", ecoam versos: "Oiço a voz subir os últimos degraus / Oiço a palavra alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha". A apresentação feita por Ana Maria Cardoso e a estratégia feliz da leitura a várias vozes amigas resultaram, sobretudo, em "partilha poética", em leituras e interpretações de muitos, conduzidas por esse fio de Ariadne a permitir o (re)encontro com a escrita e a leitura, num coro pintado de vozes, tons e cores a matizar uma co-autoria polifónica a diferentes tempos.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Pedro Lamares na Laranjeira

       Chegou o momento de o rever: um ex-aluno da escola.

      O reencontro aconteceu graças à iniciativa do grupo disciplinar de Português, que preparou, junto com a Coordenadora da Biblioteca do Agrupamento e o Departamento de Línguas, uma sessão para o programa que constituiu a celebração da Semana da Língua Portuguesa (onde se inclui o dia 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa).

Reencontros num "Passei por aqui" que honra o AEML (com Pedro Lamares)

     Um ex-aluno da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira deu-se a conhecer aos que hoje frequentam o agrupamento, numa interação que se pautou pela abordagem de vários tópicos: a formação, as opções académicas e profissionais, o posicionamento político, o gosto pela poesia, a apresentação de programas televisivos, entre outros.
        Nascido em Portimão, Pedro Lamares cedo mudou para a Granja, tendo estudado em Espinho. Cruzou-se com as artes plásticas, a escola de jazz do Porto (1996/97), o curso de preparação para licenciatura em música sacra, até que chegou ao teatro (com formações em vários pontos do mundo). Conta, no seu currículo, a participação no Filme do Desassossego, de João Botelho (2010), onde assumiu o papel de Fernando Pessoa. Em 2015, é convidado para apresentar o programa televisivo Literatura Agora (RTP2), onde "diz" (e não declama) poesia.

Interação de Pedro Lamares com o público que assistiu ao (re)encontro

    Foram praticamente duas horas de uma conversa próxima, à qual assistiram alunos e professores, brindados com a simpatia de quem partilhou o gosto pela leitura (nesse encontro feliz do leitor com os textos, pela janela do sentido e não pelos formalismos de análise tecnicista), a natureza expressiva do discurso teatral e das experiências de leitura poética (mais ou menos marcadas por escolas e por diferentes modos de oralizar os textos), o elogio da aposta nos cursos das literaturas e humanidades. No princípio de tudo, uma visão e uma posição face ao mundo, focadas no exercício de uma cidadania comprometida com os valores que dignificam a pessoa. Em suma, uma lição para muitos, na qual a experiência de vida se cruza com o sentido (inter)artístico e político das causas comuns.
     Não terminou o encontro sem que fosse dada a conhecer uma poetisa a descobrir: Filipa Leal (jornalista, escritora portuense). Lido o poema "Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis", ecoaram os rituais desse 'topus' literário da partida, seus motivos (imigração) e efeitos (autocontrolo), junto das que muito a sentem.
     
Espaço de cidade, espaço de mundo para o ser humano do século XXI 
(poema de Filipa Leal dito por Pedro Lamares)

       Realidade tão atual em texto tão contemporâneo: "É tanto o que se pede a um ser humano no século XXI!" 

        Manual de despedida para mulheres sensíveis 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito, 
não chorar para não enfraquecer o emigrante, 
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo, 
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas 
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala 
que não pode levar mais de vinte quilos 
(quanto pesará o coração dele? e o meu?), 
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, 
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia 
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre, 
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda 
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui), 
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe, 
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas 
e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar, 
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes, 
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar, 
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente, 
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem, 
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico, 
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez, 
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado, 
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal. 

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um. 
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro. 
Mas que não chore. 
                                                  
                                                   in Vem à Quinta-feira (2016: 48)

        E, no fim de tudo, despediu-se com o sorriso e a empatia que o caracterizam. Sem chorar.

    Mais uma figura de relevo nacional passou pelo agrupamento (ontem e hoje) e deixou o seu testemunho a quem o acompanhou.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Ainda Camões, pelos 500 anos

      A propósito de uma das pérolas televisivas que ainda se encontra na RTP3: Visita Guiada.

      Refiro-me ao programa de Paula Moura Pinheiro (temporada 14, episódio 14), que se debruçou sobre a coleção do último rei português (D. Manuel II), dedicada à obra camoniana e depositada em Vila Viçosa. Caso para dizer, Portugal herdou uma obra do desventurado rei, que se viu exilado da pátria com a deposição da monarquia e a implantação do regime republicano.
      A morte precoce do monarca em 1932 (42 anos) não permitiu concluir o projeto de estudo e pesquisa dos textos de Camões, numa linha de recolha das edições diversas de Os Lusíadas e das Rimas, ao longo dos séculos. Se nos finais do século XIX haviam sido inúmeras e grandiosas as celebrações nacionais d' "O Poeta" (na continuidade de uma consagração que já vinha do século XVI), o vigésimo não o seria menos na contínua afirmação de um escritor que se tornou símbolo de pátria, de língua, de cultura, de lusofonia (assim o prefigura o feriado do 10 de junho).
    Num apontamento do programa televisivo, a Professora Doutora Isabel Almeida partilhou com a apresentadora o facto de não se conhecer um manuscrito, a caligrafia, uma assinatura de Camões. O estádio de formação da escrita autógrafa é um mistério no que ao príncipe dos poetas português diz respeito. Daí a questão da importância da fixação de texto, do confronto das versões múltiplas com que a literatura tem vindo a trabalhar; daí a diversidade editorial que enriquece e se multiplica na difusão e divulgação poéticas; daí a própria dificuldade de ter certezas sobre o que o poeta escreveu, numa dispersão que se compagina ora com a tradição oral ora com a da cópia manuscrita (não assinada) em coletâneas.
    Investigações diversas apontam para a atribuição indevida de alguns sonetos ao nosso poeta universal. "A fermosura desta fresca serra" é um dos exemplos, com alguns estudiosos a assumirem uma autoria distinta: a do poeta D. Manuel de Portugal, contemporâneo de Camões.

Um poeta sem boca, pelo que (não) cantou?! Melhor sorte tivera!
(moeda comemorativa dos 500 anos de Camões, por José Aurélio)
A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos oferece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.

    Sempre questionei muita coisa acerca deste soneto, nomeadamente a sua inserção em linhas de leitura que o perspetivam no seio dos poemas que representam a figura da mulher amada e da sua presença / ausência como condição para a inspiração do poeta. O anafórico final "Sem ti", frequentemente apontado como tópico de ausência da mulher amada, sempre entendi como mais coincidente com a leitura da ausência da pátria - desse "locus" personificado e reconfigurado em tantas referências de elementos naturais, ambientais (que, distantes / ausentes, têm seus efeitos adversos no eu lírico) - do que a de qualquer figura feminina que pudesse ser mais ou menos inspiradora. Agora, o soneto não ser de Camões é apontamento forte, para um texto que o próprio escritor teve como razão maior para ser poeta; para versos tradutores de uma necessidade que a ausência não permite.

      Estudos de Leodegário Azevedo Filho reconhecem, num crivo de critérios filológicos muito rigoroso, a redução substancial de textos produzidos por Luís de Camões (em número inferior a cem poemas). E se "Amor é fogo que arde sem se ver" for mais um a não figurar entre eles? Talvez não seja grande o mal, pensando que a lírica quinhentista fez conviver grandes poetas que se confundiram, espelharam, citaram, imitaram nos modelos (intertextuais) que adotaram.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Mulher de "invenção"

     Porque, além da epistolografia e da narrativa, também em poesia escrevia.

   No tempo em que andava pela aventura da autoria de manuais escolares, considerava-a, enquanto escritora viva, entre os poetas contemporâneos a ler por alunos(as) do ensino secundário:

Só de amor (1999) - assim se intitulava uma obra no fim do século XX (Foto VO)

      Com a notícia da morte de um percurso de vida inspirador (1937-2025) de uma das responsáveis pelas Novas Cartas Portuguesas (1972), diz-se que se perdeu uma das maiores da literatura portuguesa atual. Sim, é. Continuará a ser, pelo exemplo feminino que foi; pela obra que nos lega; pelo reconhecimento que poderá ser maior (assim a queiram dar a conhecer, a ler):

Um exemplo poético a "rasgar" perceções

     Mulher de liberdade, de amor, de invenção, de contestação e luta contra despotismos de qualquer natureza. Uma das três Marias, uma Minha Senhora de Mim (para citar um dos seus títulos de 1971) ou um' A Desobediente (como a sua biógrafa Patrícia Reis a apelidou) a marcar a sociedade e o pensamento de um tempo à espera da (r)evolução, na esperança dos olhos verdes com que nos viu.

Nada mais de mim
haverá memória
- sei -
só os poemas darão conta
da minha avidez
da minha passagem
Da minha limpidez
sem vassalagem

      Bem podiam ser as palavras de um epitáfio para uma irreverente que encontrou na poesia a voz da (r)evolução. RIP.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Que Natal (é este), afinal?!

      Passados os 24 dias de dezembro, o que nasce?

      O inverno é certo; o frio, previsível; chuva, neve ou sol, venha o que Deus quiser.
      Tudo o resto, se não for de(o) bem, é escusado.

Do título ao texto
Composições natalinas ou natalícias,  tanto faz!

       Nasça a esperança de dias e noites melhores, para que a Humanidade acredite mais em si e no que de bom neles possa fazer. Com harmonia (rimada com alegria), compaixão (combinada com gratidão), caridade (concordada com generosidade), paz (dela seja o mundo capaz).

       Um bom Natal para todos.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Caminhada literária com Sophia

       A fechar setembro, o sol e a poesia animaram os caminhantes, fazendo a diferença dos dias.

     Éramos mais de quarenta. Seis quilómetros de ida e vinda, ao longo do passadiço marítimo a ligar Espinho à Granja, foram o percurso traçado, na passada poética de uma obra em vários pontos declamada - uma atividade promovida pela Coordenadora e pelas professoras bibliotecárias do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, no âmbito da Rede Interconcelhia de Bibliotecas Escolares de Entre Douro e Vouga. Estiveram presentes a Coordenadora Interconcelhia, Diretores do Centro de Formação do AVECOA e de Terras de Santa Maria, a representante para a Autonomia e Flexibilidade Curricular do Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis, representantes do SABE de Santa Maria da Feira, Vale Cambra e Oliveira de Azeméis, bem como professores bibliotecários da área do Douro e Vouga.

   Pequena brochura com alguns poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

    Levei comigo o Livro Sexto (1962), para dar visibilidade a um livro e lembrar a contemplada com o "Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores", atribuído em 1964 (sessenta anos); o "Prémio Camões", pela primeira vez ganho por uma escritora, em 1999 (vinte e cinco anos); o "Prémio Rainha Sophia da Poesia Iberoamericana", em 2003 (vinte um anos). Autora há vinte anos falecida; há dez no Panteão Nacional. Recordaram-se histórias.
    Tudo começou com Poesia (1944), esse título de há oitenta anos que o crítico e professor de Literatura Pedro Eiras sublinhou como o mais justo dos títulos, para uma obra onde «Assim surgia uma língua, nova e límpida».
   Aproveitei o facto de estarmos junto ao mar; de inspirarmos esse sal de vida trazido por ondas, conchas e corais; de estarmos banhados de uma luz matinal; de nos dirigirmos a um lugar vivido por Sophia e os seus; de sentirmos uma Geografia (1961) feita de tempo, de sentimento, de humanidade.
       Evoquei "Manhã" (in Livro Sexto):

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.

       Assim, o fizemos. Entrámos na manhã (luz) e nessa maresia que é cheiro e toque desse elemento que inspira "Inscrição" (in Livro Sexto):

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.

     Uma imensidão que a limitação humana só pode atingir pela imaginação, pelo humanismo, pela humanidade, pela cultura, pela antiguidade greco-latina e pelo sentido de liberdade que a poeta (como se designava) também versou, narrou, representou na versatilidade de géneros e modos literários produzidos.
     Desafiei o grupo à leitura de pequenas composições, tantas vezes despercebidas entre poemas mais longos.  Tão pequenos (dísticos, tercetos) e tão poderosos na mensagem, no pensamento - quase parecem "haikus", no trabalho de uma palavra a traduzir a justaposição de imagens, de temas, interligados na experiência de vida, na sensorialidade do natural e da natureza, na sonoridade simples (in Ilhas, 1990):

Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas

Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga

      A sabedoria constrói-se também com movimento, do mar ou outro - vento, tempo, pessoas -, como se antevê em "Coral" (in Coral, 1950):

Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha

    A reflexão social plasmada na denúncia dos desfavorecidos e na ironia destinada aos seres racionais não impede que as origens aristocratas de uma biografia rimem com um apurado sentido de justiça, de luta pelo bem comum, de partilha e de generosidade (in "Epidauro 62" de Ilhas, 1989):

Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha

     Recuperei os cinquenta anos do "25 de Abril", nesse poema inicial dos tempos de liberdade e democracia, de luz e limpidez, afastando a noite e o silêncio.
     Numa irmandade de leitores, deu-se voz à obra que todos tinham à mão. Leituras singulares, experiências em coro, animadas por esquemas que não precisaram de qualquer ensaio. Só a vontade de ler, de viver a palavra, o ritmo, a voz, a companhia. A poesia uniu o que de melhor havia em todos. 
    Culminou a atividade num almoço concluído com a "Cantata da Paz" (in Canções com aroma de abril) - nunca melhor poema para os tempos de guerra que (ainda) vivemos.

       "Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar ", repetidamente declamado a cada estrofe de lamento, violência e destruição, parecia uma oração trazida para o seio dos crentes, nessa religião tão necessária e tão nossa: a da paz e da poesia.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

"Isto vai, meus amigos, isto vai"

    Assim começou o dia, citando as palavras de Ary dos Santos.

    Retomada a prática letiva em pleno mês de abril, celebrou-se um dos dias que, há cinquenta anos e entre muitos outros dias, no silêncio estratégico e agregador, deu expressão à liberdade e à democracia, tão queridas ao poeta citado.
    Num incentivo à mudança, com as cores da esperança, cumpriu-se Abril (sim, com maiúscula, pela simbologia convocada). Também podia ser Maio (de novo, com maiúscula), enquanto marca de tempo inspiradora para revoluções (a de Maio de 68 ou outra), voltadas para a melhoria e para o bem comum da humanidade:

Declamação do poema "O Futuro", de Ary dos Santos (in O Sangue das Palavras, 1978)

     Veja-se na palavra poética o movimento dos tempos, das pessoas, dos caminhos feitos com valores de participação, de esforço, de trabalho (ou não seja este um poema pertencente ao "Tríptico do Trabalho" - formado por "O Futuro", "A Terra" e "A Fábrica").

    Estes vão ser os dias, as semanas, o mês de abril, que cabem em cinquenta anos de democracia (a bonança), surgida de uma penosa ditadura (tempestade), para dar lugar ao desenvolvimento, à construção de um regime, de um povo, de um país.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Já foi a 21, agora dizem que é a 20

     Seja o dia que for, é Dia Mundial da Poesia.

   Ontem, alguém me dizia "Amanhã, temos poema". As palavras, ao som de alguma "diretividade" disfarçada de constatação futurologista, ecoaram na mente como dever a cumprir.
   Hoje deu-me para isto, nuns breves minutos de final de tarde, para descomprimir:

Composição poética com Vivaldi a acompanhar

    Deus me valha, mais a generosidade dos leitores. Já da música, é do melhor barroco para a celebração do dia.

     Perdoai-o, Senhor, que ele não sabe o que faz (com tanto que há para fazer)!

sábado, 16 de março de 2024

"Todas as palavras de amor"

      Eis o verso a abrir um dos poemas antologiados em As Palavras do Amor.

    Trata-se de uma compilação poética "de novos poetas de Espinho", conforme se lê na capa da publicação promovida pela Câmara Municipal local e a colaboração da 'elefante editores'. É a segunda edição de um concurso de escrita, bastante participado por alunos de instituições escolares do concelho, nomeadamente, o Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, o Agrupamento de Escolas Manuel Gomes de Almeida e o Externato Oliveira Martins.
    Mais de sessenta jovens escritores, entre os onze e os dezassete anos, expressaram-se acerca de um sentimento universal, a marcar pessoas, tempos, espaços, seres vivos; feito do seu bem e do seu contrário, dos dilemas e das interrogações provocados; das definições a encontrar; de cores e matizes a combinar.
     Em oitenta e cinco páginas, uma resta em branco, para preencher, não com o vazio, mas com o pleno agradecimento a todos os que incentivaram e acompanharam esta aventura de escrita poética, particularmente a dos "novos poetas" que houve oportunidade de aplaudir, numa cerimónia levada a cabo pela Divisão de Educação e Cultura do município. 
      Nas palavras da Sr.ª Presidente da Câmara (e Vereadora da Educação), é uma iniciativa a repetir, dada a evolução, desde o ano letivo passado, no número de versos produzidos, na qualidade da produção e no número de participantes no concurso. Foi bem sublinhada a gratidão aos professores de Português, alguns dos quais assistiram à sessão oficial de lançamento do livro, no auditório António Gaio do Centro Multimeios de Espinho.
     Ouviu-se poesia, logo no início da cerimónia, com os versos iniciais de alguns textos do ano letivo 2022-2023:

Vídeo de apresentação  (exibição na segunda edição do concurso poético)

      Dele e do presente, ficam o orgulho e a satisfação de mais de dois terços dos títulos serem da autoria de estudantes do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML). Prosseguiu-se com poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma conversa entre jurados e a oferta de livros aos agraciados com a publicação dos seus textos. Findou o evento com a fantástica participação musical de alunos da Academia de Música de Espinho.

    Um fim de tarde que juntou pais e mães, alunos, professores, num sentido de comunidade e comunhão que reconhece o contributo de muitos, particularmente daqueles que, nestes momentos, são um motor (muitas vezes invisível) de energia inesgotável. Obrigado aos professores de Português do AEML, que agenciaram o projeto junto dos respetivos aprendentes; particularmente a quem lidera este grupo disciplinar e também merece palavras de amor, ao assumir-se como interlocutora e colaboradora constante com os promotores da atividade (MTM).

quinta-feira, 14 de março de 2024

A propósito de uma exposição... o reencontro com História(s)

    O convite foi formulado, imediatamente aceite... e assim voltei a tê-los comigo.

   Na sequência do Dia da Mulher (e porque este deve acontecer todos os dias), a Biblioteca do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) tem o seu espaço ocupado pela presença de uma poeta: Sophia de Mello Breyner Andresen.
    À entrada da escola, nos corredores do edifício, a presença feminina evidencia-se, assim todos possam educar-se com os contributos que muitas mulheres têm deixado, em diversas áreas, para a Humanidade, por razões de abril ou outra que afirme a construção de valores dignos para qualquer ser humano.
     Convidaram-me a partilhar, com alunos de 12º ano, a minha leitura de alguns poemas de Sophia, da minha visão acerca da sua vida e obra. Tarefa difícil, por certo, dada a grandeza de quem foi falado e dado o relevo formativo, poético-literário a salientar para quem ia ouvir. Muitas caras familiares suavizaram o registo, pela lembrança do bem vivido.
    Enquadrada no tema do Plano Anual de Atividades deste ano letivo ("74:24 - o que cabe em 50 anos"), a poesia é tópico de destaque, na expressão comprometida e transfiguradora da sociedade. Se com Antero de Quental a máxima foi "A poesia é a voz da revolução", com a autora de Poesia (1944), Dia do Mar (1947), Coral (1950), Livro Sexto (1962), Grades (1970), O Nome das Coisas (1977), Ilhas (1990), entre muitos outros contributos poéticos, conjugaram-se as forças da terra, da natureza, do mar, da cultura e da erudição para a luz da libertação e da liberdade.
    Sublinhei os traços biográficos da ascendência aristocrática da primeira mulher a receber o maior galardão literário de expressão portuguesa - o Prémio Camões (1999) num puzzle criativo onde generosidade, humildade e sabedoria se refletem em poemas breves com mensagens eternas, como a da entrega e da dádiva poéticas ao leitor:

     EPIDAURO 62

Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha
                                                                   (in Ilhas, 1990)

       Três a cinco versos bastam para trazerem a vida, o(s) tempo(s), a cultura, a pátria, os valores da justiça, da verdade e da dignidade humana à reflexão - motivos mais do que suficientes para que, também, a escritora portuguesa tenha sido reconhecida, no país vizinho, com o Prémio Rainha Sofia (maior galardão para a expressão literária iberoamericana), em 2003.
       2004, 2014, 2024 são datas para Sophia: o ano da morte, o da trasladação do corpo para o Panteão Nacional, o de celebração de cinquenta anos do 25 de abril - facto histórico que a poeta eternizou em quatro simples versos:

        25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
                                                             (in O Nome das Coisas, 1977)

Obra de Sophia numa das secções da exposição, na Biblioteca do AEML (foto JR)

    Na versatilidade da obra (em modo lírico, dramático ou narrativo), há imaginário(s) rico(s) portador(es) desses valores que compõem uma ética de apelo ao imaginário, à cultura, à viagem, à descoberta, à origem da luz, do cristalino, da concha, da onda, da força que o ser humano transporta como "O super-homem" (que cada um de nós é no labirinto da vida).
      As flores da celebração eram as da primavera, do jardim, mas também as da liberdade - que se (re)viram nos poemas, no mar, na madrugada (25 de abril) que quebrou a noite e o silêncio (do regime ditatorial). 
      Assim foram evocados os versos da escritora, lidos, partilhados na mensagem de energia, de passagem, de crença e de luta pelo progresso das coisas, de aprendizagem e de vida, sugeridas na diversidade de matizes do coral:

     CORAL

Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha.
                                       (in Coral, 1950)

        Do mais que se dissesse e do muito que Sophia viajou (física e espiritualmente), pode afirmar-se que Sophia, neste território espinhense tão próximo da Granja e marcado pelo mar, é personalidade para um roteiro que não pode esquecer esse leito original de vida:

       INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.
                                        (in Livro Sexto, 1962)

       Se não tiver ficado a vontade de voltar a Sophia (na poesia, no passeio junto à Granja, na visita ao Panteão, na descoberta do Epidauro, na ironia que perpassa em "As Pessoas Sensíveis"), que esta tenha sido a razão para a vivência de uma libertação; de um momento de recordação; de reencontro com um tempo passado, num presente a caminho de futuro. Com História e com o agradecimento à MCB.

segunda-feira, 11 de março de 2024

Estratégias e interações para aprendizagens com o digital

     Numa sessão de formação para docentes do agrupamento.

    O desafio foi lançado e estruturou-se uma ação de curta duração destinada à equipa educativa que se encontra a trabalhar no projeto piloto dos Manuais Digitais (oito turmas e cerca de quarenta professores).
     Tudo começou pelas consabidas vantagens genéricas do digital:

Slide 1: Vantagens do Digital (extrato de PPT - VO)

   Prosseguiu-se com algumas orientações metodológicas a apontar para a pedagogia ativa e o método da aula invertida, enquanto pressupostos a considerar na planificação de procedimentos, de dinâmicas e tarefas, de mecanismos avaliativos, por forma a que o manual digital não se torne mais um exemplo "melhorado" de abordagem expositiva das aulas:

Slide 2: Pressupostos / orientações metodológico-didáticas para o trabalho com o digital 
(extrato de PPT - VO)

Slide 3: O método da aula invertida no trabalho com o digital (extrato de PPT - VO)

    O foco da(s) interação(ões) prevalece num ensino-aprendizagem que se equaciona de acordo com princípios / sentidos de interação assentes na/no(s):

Slide 4: Sentidos de interação no trabalho com o digital (extrato de PPT - VO)

   Por fim, reconheceu-se que ensinar e aprender com o digital levanta questões de fundo, algumas das quais encaradas como necessidades a destacar no trabalho a desenvolver:

Slide 5: Questões de fundo no trabalho com o digital (extrato de PPT - VO)

     E porque tudo não terminou sem alguma nota poética, foi relembrado um poema de Ana Luísa Amaral com um título sugestivo - não o do sentido de um verbo de movimento (que se assumiria desde logo no imperfeito), mas o de um universo de referência maiusculamente identificado com a "Inteligência Artificial":

Slide 6: Nota poética para terminar (extrato de PPT - VO)

     Com a afirmação do humano, dessa inteligência natural que não pode esquecer(-se) do papel que tem (nomeadamente na educação, no ensino-aprendizagem, as opções que intencionalmente assume), caminha-se para o que se anuncia como uma nova sessão de trabalho: a avaliação do projeto, dos processos de / para aprendizagem(ns), das tarefas, dos alunos.