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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Antes dos 70

     Na preparação do meio século de carreira.

     A voz dos Trovante, a voz de um percurso a solo pode continuar a cada vez que se cantar com o ritmo e a cadência musical familiar das canções que, coletivamente, se reconhecem. A marca deixada no cancioneiro da música portuguesa acompanha lutas grandes e pequenas, dentro e fora de portas.
    O dia nasce com a notícia da morte de Luís Represas, na discrição do que foi uma doença prolongada a pôr fim ao espetáculo ao vivo. Persistirá na memória dos que veem e ouvem as suas composições, letras e canto, mesmo estando agora "Fora de mão" (álbum de 2003):

Da voz que nos deixa à música que nos faz ouvir há décadas

    Sem querer trair a autoria inspiradora, diria que "As ruas da minha cidade abriram" não os olhos, mas os ouvidos, para se ficar a saber o que não se queria: partiu "sem deixar destino ou direção."

DA PRÓXIMA VEZ

As ruas da minha cidade 
abriram os olhos de encanto para te ver passar
As pedras calaram os passos 
e as casas abriram janelas só para te ouvir cantar
Porque há muito muito tempo não vinhas ao teu lugar
Ninguém sabia ao certo onde te procurar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Quisemos saber como estavas, 
se a vida tinha tomado bem conta de ti
Ou se a vida teve medo 
e eras tu que a levava refugiada em ti
Cada verão que passava sentíamos-te chegar
Como era possível que o sol se atrevesse a brilhar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Deves trazer tantas histórias, 
tantas que algumas ficaram caídas por aí
Outras, eu tenho a certeza, 
o teu fogo na alma queimou, deixaram de existir
Só queremos saber se és a mesma que vimos partir
Não existe mundo lá fora que te possa destruir
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

     Lembro-o por terras de Espinho, num palco junto ao casino, em concerto de verão, há mais de quinze anos. Soam muitas cantigas de sucesso, nas melodias e pelos propósitos da composição (por todos nós, por Cuba ou por Timor).

     "Se houver próxima vez não esqueças / leva contigo recordação...". Um dia, a festa será algures no universo. RIP.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Uma tarde cinéfila

       Duas horas de um espetáculo musical a lembrar muito da sétima arte.

      Num concerto de homenagem a Ennio Morricone e a 100 anos de cinema, o público foi brindado com algumas das bandas sonoras mais famosas de todos os tempos, desde "Casablanca", "E Tudo o Vento Levou", "África Minha", “Braveheart” até às mais recentes de "Star Wars", "Titanic", "Gladiador" ou "O Senhor dos Anéis".
     Com interpretação da Royal Film Concert Orchestra, um maestro "nuestro hermano", animador, bailarino e saltitão conduzia toda a orquestração, a revelar-se imensa, numa sincronia de instrumentos, de ritmos, de gestão de intensidades musicais - tudo a cativar os espectadores, a ponto de os colocar a "tocar" (cantando, por exemplo, "The Good, the Bad and the Ugly", de Morricone).

Montagem vídeo com vários apontamentos do espetáculo - Coliseu do Porto: 31/01/2026

     De Ennio Morricone (compositor e maestro italiano), conhecido como "Il Maestro" e autor de mais de quinhentas composições para filmes ou séries televisivas (com Óscar honorário em 2006 e Óscar de melhor banda sonora em 2016, pelo filme "Os Oito Odiados"), ouviram-se melodias marcantes: "Once upon a time in the West", "Cinema Paraíso", "The Ecstasy of Gold", "A Missão" (com a celestial composição "Gabriel's Oboé"), entre outras.

Ennio Morricone no concerto de Munique de 2004, conduzindo a orquestração da sua "A Missão"

     O aplauso final, repetido, de pé foi um sinal do bem-estar conseguido, das emoções vivenciadas, das cenas fílmicas que, de olhos fechados, se recordavam à medida que os acordes musicais iam sendo associados às fitas das "nossas vidas". 

     No tudo que de bom e divertido aconteceu, faltou apenas um enquadramento cénico de fundo, fosse o visionamento de algumas cenas dos filmes, fosse um fundo mais sugestivo. Ficou o foco na música e na orquestração.
 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

One man show e seus companheiros

    Uma boa forma de terminar o dia: com um concerto no Super Bock Arena (ou o mais familiar Pavilhão Rosa Mota, que alguns ainda lembram como Palácio de Cristal). 

      O espetáculo (porque foi concerto e porque foi fantástico) assumiu-se como festa, um dos da celebração dos vinte anos de carreira de Miguel Araújo. Um outro acontecerá em Lisboa, mas o(s) do Porto é(são) sempre o(s) "da terra" do músico, enquanto homem do Norte, bem próximo da Finisterre (só para lembrar a "Serenata do Norte").
    São vinte anos para muitas canções daquele que é hoje considerado um dos mais reconhecidos e notáveis compositores, guitarristas e intérpretes do panorama musical português. Também um comunicador nato, tanto no registo sério como no da ironia e da comédia, numa multifacetada interação com o público que reage e se compromete com o espetáculo (como, por exemplo, quando é convidado a dançar uns passos de valsa, em fila de cadeiras que nem uma volta permite). Não poderia ser de outra forma, pela qualidade e familiaridade demonstradas: é o cantor, é a banda, são as músicas (com letras partilhadas), é o cenário luminoso e colorido conjugado com os ritmos e as mensagens transmitidas,... É o espetáculo pleno de energia e força convocadas.
        
Três momentos do espetáculo que foi o concerto do Miguel Araújo (montagem fotográfica VO)

      Um balanço de vinte anos não se faz sozinho: subiram ao palco o filho; artistas e amigos de uma vida, como João Só, António Zambujo, Os Quatro e Meia, Rui Veloso, Os Azeitonas, os Kapa (e, entre todos, uns quantos médicos bem vozeados, como se houvesse necessidade de assistência ou acompanhamento do imenso público que vibrava com o repertório musical do artista, dos amigos, dos familiares, com alguma nota de Beatles e de Rolling Stones).
       Fica um breve apontamento vídeo de um concerto fora de série, num fim de outubro que fica para memória de quem experienciou o evento:

Apontamentos de um espetáculo enérgico, com música/músicos de grande qualidade

     Assisti, há uns anos, a um espetáculo transmitido na RTP1 que, pela sua diferença, me captou a atenção e me prendeu ao televisor. Estar no espetáculo, hoje, ao vivo, sem filtros, é um outro envolvimento contagiante, uma outra sinergia, regeneradora das forças que o cansaço de um dia de trabalho parece fazer esgotar. 

     Amanhã, por certo, ficará a sensação de não ter dormido tudo; porém, haverá reforçado motivo para lembrar a excecionalidade de um concerto bem português. (Com agradecimento ao MA, família e amigos - todos tão musicais!).

sábado, 16 de março de 2024

"Todas as palavras de amor"

      Eis o verso a abrir um dos poemas antologiados em As Palavras do Amor.

    Trata-se de uma compilação poética "de novos poetas de Espinho", conforme se lê na capa da publicação promovida pela Câmara Municipal local e a colaboração da 'elefante editores'. É a segunda edição de um concurso de escrita, bastante participado por alunos de instituições escolares do concelho, nomeadamente, o Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, o Agrupamento de Escolas Manuel Gomes de Almeida e o Externato Oliveira Martins.
    Mais de sessenta jovens escritores, entre os onze e os dezassete anos, expressaram-se acerca de um sentimento universal, a marcar pessoas, tempos, espaços, seres vivos; feito do seu bem e do seu contrário, dos dilemas e das interrogações provocados; das definições a encontrar; de cores e matizes a combinar.
     Em oitenta e cinco páginas, uma resta em branco, para preencher, não com o vazio, mas com o pleno agradecimento a todos os que incentivaram e acompanharam esta aventura de escrita poética, particularmente a dos "novos poetas" que houve oportunidade de aplaudir, numa cerimónia levada a cabo pela Divisão de Educação e Cultura do município. 
      Nas palavras da Sr.ª Presidente da Câmara (e Vereadora da Educação), é uma iniciativa a repetir, dada a evolução, desde o ano letivo passado, no número de versos produzidos, na qualidade da produção e no número de participantes no concurso. Foi bem sublinhada a gratidão aos professores de Português, alguns dos quais assistiram à sessão oficial de lançamento do livro, no auditório António Gaio do Centro Multimeios de Espinho.
     Ouviu-se poesia, logo no início da cerimónia, com os versos iniciais de alguns textos do ano letivo 2022-2023:

Vídeo de apresentação  (exibição na segunda edição do concurso poético)

      Dele e do presente, ficam o orgulho e a satisfação de mais de dois terços dos títulos serem da autoria de estudantes do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML). Prosseguiu-se com poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma conversa entre jurados e a oferta de livros aos agraciados com a publicação dos seus textos. Findou o evento com a fantástica participação musical de alunos da Academia de Música de Espinho.

    Um fim de tarde que juntou pais e mães, alunos, professores, num sentido de comunidade e comunhão que reconhece o contributo de muitos, particularmente daqueles que, nestes momentos, são um motor (muitas vezes invisível) de energia inesgotável. Obrigado aos professores de Português do AEML, que agenciaram o projeto junto dos respetivos aprendentes; particularmente a quem lidera este grupo disciplinar e também merece palavras de amor, ao assumir-se como interlocutora e colaboradora constante com os promotores da atividade (MTM).

terça-feira, 28 de março de 2023

Uma dramatização de 'Uma História do João Ratão'

     Depois da apresentação do livro, projetou-se a representação, hoje levada a cabo.

     Leu-se, releu-se e tornou-se mais presente (isto é, representou-se). Assim foi, com a presença das autoras Maria Clara Miguel e Maria Dolores Garrido:

Uma dramatização de uma obra que foi apresentada há dois meses na EB de Guetim.

       Em pouco tempo se fez muito, numa das iniciativas que animaram a Semana da Leitura numa das escolas do AEML.
    Educadoras, professoras e alunos(as) motivados e animados recriaram um texto que, da tradição, ganhou temáticas novas pela escrita das autoras (um ato I com explicação para o João Ratão ser glutão; um ato II conforme a tradição; um ato III que reforça a lição); se concretizou em ato de representação, dando continuidade à expressão artística e dramática, em sede de inovação.

     Nas palavras de uma das autoras, "foi uma manhã muito bonita". E a alegria de todos aconteceu. Isto é escola.

sábado, 11 de março de 2023

Voltas que duas vidas dão

      Uma balada italiana, no seu melhor. 

    Não sei se é pela língua, se pela musicalidade, se pela interpretação, se por versos que traduzem muito de uma realidade que gostaria de ver contrariada.
    Do ritmo embalatório inicial ao crescendo poderoso do ritmo e da voz, Marco Mengoni vence o festival de San Remo, fazendo caminho para a Eurovisão. Fá-lo pela segunda vez, depois da passagem de uma década, quando representou a Itália com "L'Essenziale". Regressa com "Due Vite":

Representante da Itália no Festival da Eurovisão (2023)

      Duas vidas: a real e a da inconsciência (a lembrar muitos tópicos pessoanos, diria). Letra e melodia numa conjugação perfeita.

      DUE VITE

Siamo i soli svegli in tutto l'universo
E non conosco ancora bene il tuo deserto 
Forse è in un posto del mio cuore dove il sole è sempre spento 
Dove a volte ti perdo, ma se voglio ti prendo 
Siamo fermi in un tempo così, che solleva le strade 
Con il cielo ad un passo da qui, siamo i mostri e le fate 
Dovrei telefonarti, dirti le cose che sento 
Ma ho finito le scuse e non ho più difese 

Siamo un libro sul pavimento in una casa vuota chе sembra la nostra 
Il caffè col limone contro l'hangover, sеmbri una foto mossa 
E ci siamo fottuti ancora una notte fuori un locale 
E meno male

Se questa è l'ultima canzone e poi la luna esploderà 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
E tu non dormi 
E dove sarai? 
Dove vai quando la vita poi esagera 
Tutte le corse, gli schiaffi, gli sbagli che fai 
Quando qualcosa ti agita 
Tanto lo so che tu non dormi, dormi, dormi, dormi, dormi mai 
Che giri fanno due vite 

Siamo i soli svegli in tutto l'universo 
A gridare un po' di rabbia sopra un tetto 
Che nessuno si sente così 
Che nessuno li guarda più i film 
I fiori nella tua camera 
La mia maglia metallica 

Siamo un libro sul pavimento in una casa vuota che sembra la nostra 
Persi tra le persone, quante parole senza mai una risposta 
E ci siamo fottuti ancora una notte fuori un locale 
E meno male 

Se questa è l'ultima canzone e poi la luna esploderà 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
E tu non dormi 
E dove sarai? 
Dove vai quando la vita poi esagera 
Tutte le corse, gli schiaffi, gli sbagli che fai 
Quando qualcosa ti agita 
Tanto lo so che tu non dormi 
Spegni la luce anche se non ti va 
Restiamo al buio avvolti, solo dal suono della voce 
Al di là della follia che balla in tutte le cose 
Due vite guarda che disordine 

Se questa è l'ultima canzone 
(Canzone e poi la luna esploderà) 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
Tanto lo so che tu non dormi, dormi, dormi, dormi, dormi mai 
Che giri fanno due vite
 
     Perdidos entre as pessoas... quando a vida exagera... quando a música não chega... as voltas que duas vidas dão.

      Um candidato à vitória, por certo. Assim seja!

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Dia Internacional / Mundial da Dança

      Entre os muitos que a consideram como a 4ª arte, para outros é a 6ª.

    Para lá da sequenciação numérica, importa que a dança é uma das expressões da humanidade a conjugar movimentação do corpo com ritmo, num compasso motivado de tempo e espaço. Entre impulsos nervosos e musculares, expressam-se sentimentos; anima-se o espírito, através de passos e gestos, num casamento musical que chega muitas vezes à dimensão da arte.
       É neste âmbito, geral, que o Dia Internacional ou Mundial da Dança é celebrado, há quarenta anos, neste dia, numa data criada pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, a propósito do nascimento de Jean-Georges Noverre - um dos grandes nomes mundiais da dança nascido em 1727.
 apelando a uma configuração da dança onde também cabem as que dão a imagem cultural de um povo,      Com as suas marcas mais ou menos codificadas em géneros diversificados e recorrentemente combinados (rituais e religiosos, mundanos e populares, guerreiros e de paz, de espetáculo), há danças para cobrir uma grande diversidade de situações - das danças da chuva às da sedução, bem como às do festejo dos eventos humanos,  numa universalidade de causas a todo o tempo convocadas. Desde logo, as do espírito,  as da alma da da busca de poder(es) que, na origem, também evocam o espetáculo, a dimensão do apelo e do mistério sagrado (seja este mais natural seja ele mais associado a entidades mais abstratas). 
     Do sapateado, volteio, balanço, genuflexão, contorção de peito e de cabeça, há uma linguagem, uma gramática da dança que não é estranha à expressão da vida (mesmo quando esta se compõe, também, pelo fim de ciclos).
     Na consciência da passagem do tempo, figuram aqui algumas sonoridades e passos de dança que nos acompanha(ra)m nas últimas décadas:

Estilos de dança contemporâneos ao som de músicas deste e do passado século.

      O escritor e teórico da arte francês oitocentista Charles Baudelaire, afirmou que "A dança consegue revelar tudo o que a música esconde misteriosamente, tendo mais mérito de ser humana e palpável. A dança é poesia com braços e pernas, é a matéria, graciosa e terrível, animada, embelezada pelo movimento". Se a literatura, nas suas origens, tem a expressão poética combinada com a música, desta à dança pouco falta - que o digam as bailias ou bailadas das cantigas de amigo trovadorescas.
       Claro que interessa "Dançar conforme a música" e descobrir que / se "Bem dança a quem a fortuna canta / a quem a fortuna faz som". E se há quem acrescente "Quem pode toca, quem não pode dança" ou "Como se toca, assim se dança", é de constatar que se está perante expressões ou enunciados paremiológicos a traduzir bem esta nossa" dança da vida".

       Numa variação ao "Quem canta seus males espanta", hoje recrio o provérbio "Quem dança muitos bens alcança" - o da animação e o de uma libertação salutar que sejam. 

sábado, 18 de dezembro de 2021

Adele no seu melhor

      O concerto em Los Angeles, difundido na RTP2, ontem.

     Um espetáculo construído a partir do exterior do Observatório Griffith, com a cantora a apresentar os seus sucessos e novas melodias do seu mais recente álbum (30) - ingredientes para êxito garantido no Adele - One night only. Transmitido pela CBS a 14 de novembro, chega a Portugal cerca de um mês depois.
     Toda a ambiência criada, numa espécie de concerto íntimo, privado (para amigos, familiares e alguns convidados), num anfiteatro ao ar livre, revelou-se espetacular (ou não se tratasse de um espetáculo), no jogo de luz (com reflexos, projeções e sombras), na localização e na panorâmica, na orquestração, no coro, na composição de todo o evento! Começando com Hello e culminando com Love is a game, esta foi a oportunidade de assistir à voz e interpretação poderosas e deslumbrantes da artista britânica. Entre os temas anunciados como inéditos, mas hoje já tomados como hits, ouviu-se Easy on me ou I Drink Wine. Juntaram-se composições já conhecidas desde o álbum de estreia 19 (caso de Make you feel my love), nomeadamente a que deu voz a um dos filmes de James Bond.

Segmentos do espetáculo Adele - One Night Only

      Um final de tarde que deu em pôr-do-sol, noite de cores e luzes, mais uma estrela que encantou o público que assistia ao show. Um programa entusiasmante (o que seria se fosse ao vivo em direto)!
       
      O programa televisivo faz-se acompanhar de alguns segmentos de entrevista exclusiva, conduzida por Oprah Winfrey, na qual Adele deu a conhecer alguns aspetos do seu percurso de vida pessoal e profissional.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

(Mais) Um romano para o mundo, com " O Amor a Portugal"

          Começou o dia com o anúncio da morte de Ennio Morricone.

      Não se pode dizer que seja inesperado, para quem já tinha 91 anos, mas a juventude e a força reveladas um ano antes, no concerto do Altice Arena (Portugal), faziam prever que ainda havia resistência suficiente para construir novas melodias ou conduzir outros espetáculos.
     Falar de Ennio Morricone é sinónimo, entre outras coisas, de música no cinema. O compositor e maestro italiano, nascido e falecido na sua cidade natal (Roma), é uma figura mundialmente conhecida, pela projeção que teve, e ainda tem, com as bandas sonoras de filmes como Era uma vez na América (1984), A Missão (1986) ou Cinema Paraíso (1989), só para citar alguns dos títulos mais sonantes.
       Dizer que ele deixou música para a vida é afirmação demasiado simplista, porque foram / são várias as melodias que estão gravadas na mente: das mais de quatrocentas partituras que compôs para cinema e televisão, há ainda a acrescentar mais de uma centena de obras clássicas. 
      As cinematográficas são, efetivamente, as de maior projeção. São mais do que reconhecíveis sonoridades como...

Banda sonora de "Era uma vez na América" (1984)

          ... ou...

Interpretação de uma das músicas de Ennio Morricone, 
no filme Cinema Paraíso (1989)

      A sua primeira indicação para Óscar ocorreu em 1979, pela banda sonora de Days of Heaven (Terrence Malick, 1978); a segunda, por A Missão (Rolland Joffé, 1986); outras se seguiram, até que, em 2007, recebe, a título honorífico e pelos contributos na música da Sétima Arte, o Óscar Honorário. Em fevereiro de 2016, finalmente, acaba por ganhar seu primeiro Óscar competitivo, por The Hateful Eight (Quentin Tarantino).
        A ligação do compositor a Portugal, para além dos espetáculos cá conduzidos, faz-se também com a voz de Dulce Pontes. Com o álbum Focus (2003), materializou-se uma colaboração da cantora portuguesa com o maestro italiano: ela a cantar alguns dos clássicos dele, que se tornou seu admirador na voz.
         E entre os clássicos, apareciam alguns originais - um deles intitulado "O Amor a Portugal":

Versão orquestral de "O Amor a Portugal", de Ennio Morricone

O AMOR A PORTUGAL 

O dia há de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção e então

O amor há de vencer
E a alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar

Um dia há de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal

        Se a música é símbolo de harmonia, Ennio Morricone muito contribuiu para ela(s). RIP.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Há meio ano

       Passaram seis meses (claro está)!

       O tempo era outro (estávamos no verão, com a brisa de um final de tarde) e o espaço também (no país vizinho, lá para os lados da Catalunha). Era uma vivência de música ao vivo, com um nome sonante do panorama atual. Um pequeno excerto do espetáculo colorido, assistido, é o que se apresenta:

Ed Sheeran ao vivo - Barcelona

       Hoje, em tempo de trabalho intenso, dá para ter vontade de reviver o concerto (já que, por cá, o desconserto vai sendo grande). Ou de reviver o filme que me deu a conhecer um britânico de voz inconfundível.

      ... e ficam os registos de algumas lembranças que valem a pena (mesmo que tenha havido instantes fora do circuito musical para esquecer).

sábado, 19 de outubro de 2019

O Fantasma da Ópera em Concerto

       Coliseu do Porto recebe o musical que há cerca de trinta e três anos estreava em Londres.

      Um dos maiores clássicos do teatro musical esteve no Porto, numa das mais emblemáticas salas de espetáculo da cidade. O Fantasma da Ópera em Concerto, produzido por Armando Calado e encenado por Pedro Ribeiro, arrebatou as palmas do público, que praticamente encheu todo o espaço.


       A cada jogo de vozes e interpretação de sopranos e tenores, no melhor do musical, era inevitável o aplauso. A direção musical de António Vasalo (com a Orquestra Filarmónica das Beiras, o Coro Sinfónico do Porto e o Lisboa Cantat) foi o pano de fundo para uma encenação e representação pautadas por nomes tão sonantes quanto melodiosos (Sofia Escobar, no papel de Christine Daae; Fernando Fernandes ou FF, no de fantasma), a par de outros que se impuseram na mesma linha de qualidade dos primeiros (Bruno Almeida, também como fantasma; David Ripado e Filipe Moura, como Raoul; Lara Martins e Ana Cosme, como Carlotta).

"Think of me" - canção de 'O Fantasma da Ópera'
(interpretação de Sofia Escobar, pelo Natal de 2009, em Laúndos)

       Em dois atos compõe-se a história de um cantor e compositor que esconde a sua deformidade facial por trás de uma máscara. Escapou a uma vida presa numa jaula, como atração de circos e feiras, até ter encontrado refúgio nos subterrâneos da Opera Populaire de Paris. Aí se apaixona por Christine, uma bailarina que aspira a ser cantora. Acaba por o ser, graças à influência do seu "angel of the music" (o professor-anjo que, enquanto a jovem dorme, lhe canta canções na mente, sussurrando-lhe melodias ao longo do dia).
    A sua predileta aluna consegue os papéis principais no teatro, quando 'O Fantasma da Ópera' exige aos administradores do Opera Populaire que assim seja, sob a ameaça de ocorrerem alguns incidentes. Estes surgem sempre que o mestre é contrariado, acabando por conduzir a jovem para o lugar da solista e diva principal (Carlotta),  tornada vítima de alguns percalços. A par disso, sucede o amor de Christine e Raoul (um benfeitor do teatro), deixando o Fantasma louco de ciúmes.
     Todo o enredo começa num leilão em 1905, com a venda de objetos do Opera Populaire. Numa analepse, chega-se ao ano de 1881, a esse momento em que Carlotta ensaia a produção "Hannibal". O desfigurado génio da música conduz Christine ao papel principal, na ópera 'Il Muto'. O amor dela por Raoul é posto à prova no segundo ato, com a encenação de "Don Juan Triunfante" (ópera produzida pelo fantasma, para juntar a sua voz à da amada, ao mesmo tempo que no Opera se procura apanhar o autor das desgraças ou dos incidentes estratégicos vivenciados no teatro). Mestre e aluna confrontam-se e, perante a chantagem por ele criada para salvar Raoul, a discípula reconhece que pior do que a deformidade física é a da alma. Beijando o seu "angel", ela acaba por fugir com Raoul. 
     Dominado pela bondade e compaixão recebidas, o fantasma  deixa os amantes partirem em liberdade, desaparecendo assim que chega a multidão que vai no seu encalço.

Filme com o final musical do espetáculo (no Coliseu do Porto)

       O "anjo da música" esteve no Coliseu, sem incidentes, num espetáculo de qualidade sonora e de representação que parecia ser obra estrangeira. Não foi. Era bem portuguesa e com a qualidade que deixou o público de pé a aplaudir.

domingo, 7 de julho de 2019

Há um mês foi assim!

      Ainda parece que foi ontem, mas já lá vão vários dias, a fazer o mês.

    O final de tarde e a noite no Estádio Olímpico Lluís Companys eram anunciados como grandes momentos para um concerto fantástico. O mesmo já havia sucedido em Lisboa, no Estádio da Luz, nos dias 1 e 2 de junho; Barcelona prometia mais.
    Mais ou menos não interessa, porque foi verdadeiramente forte o concerto catalão. E digo-o só pelo cantor inglês ruivo e multicolormente tatuado. Zara Larsson e James Bay abriram o evento musical, mas este só aconteceu quando, pelas 21.00, num palco enorme, se apresentava uma pequena grande figura a cantar e a mudar de guitarra à medida que se fazia ouvir ao vivo, sem playbacks, com dois ecrãs laterais gigantes a projetá-lo, para todo um estádio ao rubro o poder ver, nos pormenores da movimentação e da composição na guitarra. Coro?! O público que o acompanhava e cumpria o que ele ia pedindo.
    Duas horas para muita voz, energia, música, colorido e efeitos visuais soberbos. Uma sequência musical a abrir com Castle on the Hill, não faltando o famoso I See Fire (no segundo filme da saga de 'Hobbit') e anunciando o artista que a última seria Sing. Porém, com este último convite, não havia condições de parar. Retomou-se com Shape of you, para um 'encore' com mais algumas cantigas sobejamente conhecidas e trauteadas pelos espectadores.

Vídeo com o final do concerto e a passagem para o 'encore'

    Um homem (com menos de trinta anos), uma voz (potente), uma guitarra (sempre pronta a ser trocada por uma outra) e uma caixa de loops (aos pés do cantor). Um público rendido, numa noite para uma só estrela, acompanhada, várias vezes, por pontos de luz de telemóveis balançados nas bancadas e no recinto central, repletos de gente.

    A qualidade de um artista vê-se também na forma como, ao vivo, comanda o seu público. Ed Sheeran foi rei, pondo Barcelona a cantar.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Barcelona...

      Não é a canção de Montserrat Caballé e Freddie Mercury... é outra.

     Há dois anos Ed Sheeran cantou-a; hoje repetiu-a para todo um público (barcelonês e não só) o acompanhar:

Excerto do concerto de Ed Sheeran, em Barcelona (07-06-19)

     Uma canção da e (cantada) na cidade tem outro encanto, por certo. Tem a identidade de pertença, tem o sabor da dádiva de quem a partilha ou  a dedica, tem a cor catalã de uma noite celebrada e encantad(or)a. E quando a voz e a melodia se impõem naturalmente, sem artifícios e com a qualidade de um artista genuíno e totalmente dedicado à música e ao visual de todo o seu show, o espetáculo é fantástico.

      Foi assim hoje, ao final de um dia vivido no Estádio Olímpico Lluís Companys de Barcelona (ou de Montjuïc). Um concerto para memória futura e que fez esquecer, por momentos, as agruras do presente. 

sábado, 11 de maio de 2019

Arcade - um jogo feito canção

      A julgar pelo sucedido no ano passado, espero que não se repita a morte à beira da praia.

      A qualidade da canção de Cesár Sampson, no Eurofestival de Lisboa, foi por mim destacada e elogiada. Ficou em terceiro lugar. Este ano, faço-o pela melodia de 'Arcade', a representar a Holanda. O jovem intérprete Duncan Laurence (pseudónimo artístico de Duncan de Moor) é mais um dos cantores que vingam em programas de talentos musicais (estilo The Voice) e que preenchem a representação dos diferentes países contemplados no certame. Porém, há técnica no canto, para além de a canção ter o registo do feérico na entrada suave (ao piano); do ritmar dos dedos estalando e prenunciando a impactante batida de percussão; da progressão de uma sussurrante balada ao grito interpretativo de quem vive um jogo de amor, alternadamente entrecortado pelo relaxante acorde do piano.
     E se o coro parece vir de um universo mágico, a voz de Duncan combina com ele, dando-lhe também vivacidade, força, projeção, até ao retomar do ciclo (fechando como abriu, numa pianíssima voz a contrastar com os momentos mais altos). É uma montanha russa vocálica e musical à semelhança do amor cantado:

Vídeo oficial da música da Holanda 
no Eurofestival da Canção, em Tel Aviv (2019) 

          ARCADE 


A broken heart is all that's left
I'm still fixing all the cracks
Lost a couple of pieces when
I carried it, carried it, carried it home

I'm afraid of all I am
My mind feels like a foreign land
Silence ringing inside my head
Please, carry me, carry me, carry me home

I spent all of the love I've saved
We were always a losing game
Small-town boy in a big arcade
I got addicted to a losing game

Ooh, ooh...
All I know, all I know
Loving you is a losing game

How many pennies in the slot?
Giving us nothing and take a lot
I saw the end before it begun
Still I carried, I carried, I carried on

I don't need your games, game over
Get me off this rollercoaster



        Seja jogo estratégico seja de quebra-cabeças, este "Loving you is a losing game" é viciante para a audição, talvez por causa de um amor que pode ser tão universal quanto o de um casal ou como o do Homem pela Terra.

      Oxalá vença em Tel Aviv (Israel), para fazer esquecer os efeitos cacarejantes da vencedora do ano passado.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

De Shakespeare a Mendelssohn

      Tempo de música (alemã) e literatura (inglesa) em português.

      SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO: o título é shakespeariano, o de uma comédia cujo início foi inspirador para um espetáculo que, não sendo teatral, se tornou música (a partir da composição do alemão Felix Mendelsshon), canto e leitura expressiva. Da combinação resultou um concerto de sonho numa noite de primavera, sem enganos, sem equívocos ou erros interpretativos, sem o registo hilariante da “comedy of errors”; antes com a melodiosa harmonia de instrumentos de sopro, cordas e percussão, a enlevar o auditório com as reconhecidas ‘Abertura’ e ‘Marcha Nupcial’, entre outras. Foi ontem, no Coliseu do Porto, em harmonia, em melodia e a convocar essa fronteira entre o sonho ou a ilusão (dos efeitos emotivos nos espectadores) e a realidade (do que foi dado a ver na execução). 
     Numa parceria com o Centro Cul-tural de Belém e a Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissio-nal, o ‘Festival Dias da Música’ veio ao Porto, tendo o espe-táculo decorrido de um grande estágio de orquestra, orien-tado pelo maestro Cesário Costa e aberto a alunos de música de Conservatórios Oficiais, de Escolas Profissionais e de Ensino Particular e Cooperativo de todo o país. Com a orquestra (setenta músicos), cerca de noventa vozes fizeram-se ouvir: as do Coro Lira, do Coro dos Meninos Cantores da Trofa, do Coro da Academia de Música de Espinho e as das solistas Ana Maria Pinto e Patrícia Quinta. 
    No seio de tantas estrelas, a jovem promissora Catarina Farias fez-se ouvir com a penetrante sonoridade do seu oboé. 
     Um casamento feliz a três: canto, execução musical, mais a leitura expressiva de Pedro Penim, como narrador, a evocar alguns segmentos traduzidos (por Maria João da Rocha Afonso e Diana Afonso) desse texto dramático inglês. Ficou, assim, enquadrada a progressão de trechos musicais e cantos com a obra literária dos finais do século XVI, recuperando esse 'drama' no qual Egeu pretende casar a filha Hérmia com Demétrio, o qual, por sua vez, ama Helena (amiga de Hérmia). Apaixonada que é a primeira por Lisandro e sem direito a escolha, segundo as leis de Atenas, é a partir de Hérmia que se revelam os primeiros desconcertos no amor (cruzados nos universos da corte, do bosque e da representação dos populares). Fugidos os amantes para um bosque (reino fantástico onde Titânia, rainha das fadas, também está em conflito com o esposo Oberon, rei dos elfos), há feitiços e peripécias dramáticas, nomeadamente as vivenciadas com os “mechanicals”, a ensaiarem, no bosque, uma peça para o casamento dos duques Teseu e Hipólita. Como “All’s well that ends well”, é o amor que acaba por prevalecer.

'Festival Dias da Música' - foto do Coliseu do Porto

     Tal como no final da obra shakespeariana – quando Oberon apela para a música como indicador de recomposição da harmonia e fim do “jangling” (fim das confusões na intriga dramática) -, também os que foram à cidade invicta encontraram na música uma porta de luz, saindo encantados nessa ilusão ou nesse sonho de que há mais para além de um mundo por vezes demasiado duro de real. Tempo, música, companhia e poesia para a vida.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Voz, melodia e força... vencedoras?!

    Espetáculo internacional em Portugal. É a Eurovisão na canção. Em Lisboa.

    Depois da vitória de Salvador Sobral em 2017, a capital portuguesa recebe o certame musical de maior projeção musical no mundo. Realizada a primeira semifinal, diria que se trata de uma realização televisiva que não fica atrás de produções de anos anteriores - balanço de um show que bem podia ser o da final do festival. Um evento que abre o país ao mundo e a uma audiência à escala global.
     Fica o registo da que podia ser a canção vencedora:

A representação da Áustria na primeira semifinal da Eurovisão (RTP1)

      NOBODY BUT YOU

Lord I’m gonna get so high tonight
I’m gonna let the floodgates open wide
I’m in open water
This is what I need
And though I try to get you off my mind

And I get no sleep
I’m in too deep
I can’t let you leave

It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto

Lord, I’m gonna bring you back tonight

Oh you’re running circles round my mind
After your words have been my bible
How could I search for someone new?
When I really want you by my side

And I get no sleep
I’m in too deep
I can’t let you leave

It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto

Don’t make me tear my heart out
I’m shaking till I fall down
Don’t make me tear my heart out
Don’t make me tear my heart out
I’m shaking till I fall down
Don’t make me tear my heart out

It wouldn’t be right letting you go running away
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto
It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
Ain’t nobody but you


    Uma entrada musical suave (em piano) a deixar ouvir uma voz grave (a de Cesár Sampson) para uma melodia rythm & blues que cresce, faz vibrar, num enquadramento cénico e de efeito televisivos surpreendente. No apoio vocal, há uma voz portuguesa (a de Ricardo Soler) a marcar a sonoridade do gospel, do soul, junto de outras vocalistas femininas.
    O resultado é uma música de força negra, de refrão contagiante e de letra que, por mais comum no tema, sublinha a persistência no amor.

    Não pediria mais para ser espetáculo. Sem necessidade de excentricidades, revirar de olhos, cacarejos ou uma "chicken dance" para chamar a atenção, este é um exemplo digno de vencedor. Se não o for, será música que fica (como muitas outras que não chegaram a vencer e marcaram a diferença).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Fuga à vida ou vida à morte?

      104 anos depois, mantém-se a questão.

    Nome de referência local e nacional, Manuel Laranjeira é hoje lembrado pela morte que escolheu ao final de quase 35 anos de vida.
   Nascido no concelho de Vila da Feira (Mozelos) e oriundo de uma família pobre, Manuel Laranjeira teve um percurso de vida a tentar contrariar algum determinismo sociológico. Mais de três décadas de vida singraram-no à condição de médico, de intelectual ligado à escrita, à intervenção artística, social e política de então. Era o tempo entre a Geração de 70 (à data de nascimento) e os anos 20 do século seguinte, num Portugal saído da I Guerra Mundial (marcado pela crise constante em que vinha a sobreviver).
    Numa convergência de fatores (desde motivos mais contextuais a razões de carácter mais pessoal), não contrariou um pessimismo tão crítico para o país como fatal para uma visão da vida conjugada num misticismo e numa perspetivação estética, feitos de valores que tanto marcam o seu tempo como estão aquém e além dele.
  Disso mesmo trata a letra do "Fado Rezende (Ao morrer os olhos dizem)", recentemente identificada como produção de Manuel (Fernandes) Laranjeira. Investigações de Anjos de Carvalho, realizadas na década de 90 do século XX no âmbito do fado de Coimbra, e a publicação das quadras no livro Comigo. Versos dum Solitário (1912) atestam-no.
    Às palavras do escritor espinhense juntou-se a música do compositor Alexandre Rezende:

Vídeo de um espetáculo no Café de Santa Cruz (Coimbra)

 Ao morrer, os olhos dizem:
- «Pára, Morte, e espera aí!
Vida não vás tão depressa
Que eu inda te não vivi...»

E a Vida passa e a Morte
É que responde em vez dela:
- «Mas que culpa tem a vida
De que não saibam vivê-la?

    Um fado (ao estilo e registo da academia de Coimbra) para uma letra cujo autor ficou por largos anos incógnito. Quase como se fosse o fatum a negar-lhe a existência da obra, e talvez da vida. Ainda assim,  esta última acabou por ser determinada pelo próprio ser que, de alguma forma, traçou, por antecipação, o seu fim.

     Quem pode avaliar se alguém soube ou não viver a vida? Miguel de Unamuno, no prefácio das Cartas de Manuel Laranjeira, considerou que, ao seu amigo (que via mais como um "sentidor" do que pensador), "Matou-o a vida" e que, "ao matar-se, deu vida à morte!"

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O luar... da mudança.

      ... para denunciar ou para libertar?

       Pergunta semelhante é colocada na página da companhia de teatro 'Actus': "O luar põe em cena a morte de um homem. Criminoso ou herói?" A resposta encontra-se no texto: tudo depende da perspetiva, claro. Quem está no poder vê crime; quem sofre o abuso desse poder aspira à libertação.
      Assim se deu a ler Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, na representação levada a cabo hoje na Academia de Música de Espinho, pelo grupo 'Actus', numa encenação de Tomé Vieira para o projeto 'Teatro para Escolas'.
       Um palco vazio, cheio de peças de roupa espalhadas pelo chão e correntes suspensas no teto, dava-se a ver ao público que foi enchendo a sala.
      Os (desesperançados) indigentes, os três reis absolutos e despóticos do Rossio, o interesseiro Vicente (a circular, a rodear os espectadores sentados, na sala, como se estivesse a espiar algum sinal a denunciar), as forças da opressão,  a evocação de Gomes Freire de Andrade, a revoltada Matilde de Melo surgem aos sentidos físicos de um público expectante, que assiste a uma encenação ainda (e sempre) com a atualidade típica dos grandes textos, devolvendo ao Homem a pergunta do que ele quer ser no seu tempo. Repete-se a história, com outros contornos, sempre à espera de um grito libertador.

Montagem com fotos da encenação de Felizmente Há Luar!, pelo grupo 'Actus'

        Não posso dizer que tenha sido a melhor das representações (até porque já vi melhor), mas não deixou de ser um momento capaz de desencadear um sincero aplauso e a vontade de cumprir a mudança.

        São tantas as formas de opressão deste tempo democrático que há já quem fale na ditadura da democracia. Entre os resistentes, quem vestirá a saia verde que, na noite dos tempos, o luar iluminará?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

P'ra cima!

    No dia de Natal, há que elevar o espírito.

    Para isso, nada melhor do que uma música positiva, com energia em crescendo e uma mensagem estimulante.
     Assim o diz o título, a letra e o fecho da canção.

Montagem com compacto de 'Up&Up' dos Coldplay 
(a partir da reprodução de Tito TiVi)

    Up&Up

fixing up a car to drive in it again
searching for the water hoping for the rain
up and up, up and up
down upon the canvas, working meal to meal
waiting for a chance to pick your orange field
up and up, up and up
see a pearl form, a diamond in the rough
see a bird soaring high above the flood
it’s in your blood, it’s in your blood
underneath the storm an umbrella is saying
sitting with the poison takes away the pain
up and up, up and up it’s saying

we’re going to get it get it together right now
going to get it get it together somehow
going to get it get it together and flower
oh oh oh oh oh oh
we’re going to get it get it together I know
going to get it get it together and flow
going to get it get it together and go
up and up and up

lying in the gutter, aiming for the moon
trying to empty out the ocean with a spoon
up and up, up and up
how come people suffer how come people part?
how come people struggle how come people break your heart?
break your heart
yes I want to grow yes I want to feel
yes I want to know show me how to heal it up
heal it up
see the forest there in every seed
angels in the marble waiting to be freed
just need love just need love
when the going is rough saying

we’re going to get it get it together right now
going to get it get it together somehow
going to get it get it together and flower
oh oh oh oh oh oh
we’re going to get it get it together I know
going to get it get it together and flow
going to get it get it together and go
up and up and up

and you can say what is, or fight for it
close your mind or take a risk
you can say it’s mine and clench your fist
or see each sunrise as a gift

we’re going to get it get it together right now
going to get it get it together somehow
going to get it get it together and flower
oh oh oh oh oh oh
we’re going to get it get it together I know
going to get it get it together and flow
going to get it get it together and go
up and up and up

oh-oh oh, oh-oh oh oh oh oh

fixing up a car to drive in it again
when you’re in pain
when you think you’ve had enough
don’t ever give up
don’t ever give up

    Com músicas destas até o dia fica melhor, na evocação do espírito resistente, resiliente. Não é preciso uma típica cantiga de Natal, por mais que também as haja ao estilo do grupo.

   É por estas e muitas outras (canções) que Coldplay (banda que tem estado à altura dos acontecimentos) anda comigo no carro, até para manter "A Head Full of Dreams" (título da sétima compilação de músicas recentemente editada). Dá para esquecer alguns pesadelos.

sábado, 18 de outubro de 2014

Uma divindade mística de felinidade

    É o que se pode dizer e escrever quando os gatos têm mais de sete vidas (para não falar de experiências e convívios muito recentes com outros "gatos").

     Não era meia-noite nem as ruas da cidade estavam vazias (ao contrário do que diz a famosa canção da gata Grizabella). Havia, contudo, o luar: o da noite e o do palco que recebiam o público, a chegar desde as 20:30. Pouco depois de uma hora de espera, anunciava-se o começo: apareciam figuras esculturais e felinas junto a uma lixeira, num musical de canto e dança só interrompido por um curto intervalo.
   Desde a estreia em 1981, no New London Theater (onde permaneceu em palco até 2002), muitos foram os países que assistiram a este espetáculo de Andrew Lloyd Webber com versos de T. S. Elliot, (na maioria, do Old Possum's Book of Practical Cats, da década de 30 do século XX; alguns outros mais que, não sendo de conhecimento público, foram integrados graças à cedência de vários textos pela viúva do escritor); milhões de espectadores se emocionaram com a magia da celebração da raça dos gatos Jellicle, bem como a escolha daquele que teria a hipótese de "renascer" para uma nova vida.
    Sugerido pelo poema "Rhapsody on a Windy Night", alguns dos versos de T. S. Elliot podem ser revistos na cantiga "Memory", cantada pela gata Grizabella:


     Também na memória fica este espetáculo, de luz, cor e muita gataria. No final, fechado o baile dos Jellicle, o velho gato da tribo (Old Deutoronomy) indica como os espectadores devem lidar com os seus companheiros (afinal, aqueles que também circularam pela plateia e assustaram os mais desprevenidos): eles são muito parecidos com os humanos, feitos de beldades (como a gata branca Victoria), de vilãos (como Macavity), de perfecionistas (como Skimbleshanks, o gato dos comboios), de nostálgicos (como Gus, o gato do Teatro), de artistas mágicos (como Mistoffelees), de preguiçosos (Jennyanydots, a gata Gumbie), de poderosos (gato Rumpus), de engatatões narcisistas (Rum Tum Tugger), de líderes sábios (Old Deutoronomy) e também dos que se afastam para mais tarde regressar (Grizabella).

      No meio de tanto gato - com cumplicidades, batalhas, bailes, alegrias e desapontamentos -, há vidas que se multiplicam numa lixeira que, podendo ser um tipo de mundo, sempre pode dar lugar a uma viagem com destino a um novo e universo; a uma nova oportunidade (Heaviside Layer). Nisso também os gatos ensinam os humanos, apelando para a dimensão da memória ("Memory").