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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Regresso à escola (que ainda é minha) em tempo de pausa letiva!

    A propósito da participação nas X Jornadas Pedagógicas, no Agrupamento de Escolas nº1 de Gondomar.

    A convite da Diretora do Agrupamento (Dr.ª Lília Santos), tive a oportunidade de regressar àquela escola que, na minha vida profissional, quase por certo, irá abarcar o maior número de anos em exercício e identidade docente. Marca-se também aquele espaço por emoções e vivências enriquecedoras. Há treze anos que dele saí, em termos de quadro docente efetivo, mas a ele vou regressando, para trabalho como formador, sempre tomado do sentido tanto colaborativo como afetivo.
     Foi um dia preenchido por dinâmicas de formação, tendo sido dinamizados dois workshops: Do Ensino às Aprendizagens (Parte I e II): reflexões sobre práticas pedagógicas. A incidência dos trabalhos, e em jeito de sinopse, assentou em reflexões / demonstrações / simulações com foco em práticas interativas, oficinais, de consciencialização de aprendizagens e de dimensão avaliativa pedagógica (eminentemente formativa).
    Começou-se por discutir o que é aprender, a questão do paradigma das competências revisto nos documentos curriculares em curso (nomeadamente, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória [PASEO]), das relações entre competências e conhecimentos, dos pressupostos e das implicações focados na aprendizagem por competências, dos modelos de ensino orientados para as competências.
Demonstrações de participação nas X Jornadas Pedagógicas da AEG1 (montagem VO)

     Prosseguiu-se com o que possa ser associado à qualidade das aprendizagens, nessa clara orientação que configura, entre as práticas pedagógicas, a própria dimensão da avaliação. Abordou-se a necessidade de definir / selecionar critérios avaliativos, de construir descritores e de os distinguir segundo níveis de desempenho. Caminhou-se, portanto, no entendimento da avaliação para as aprendizagens (e não delas), da natureza pedagógica da própria avaliação (ao serviço da monitorização e regulação, numa perspetiva eminentemente formativa).
       Exemplificados alguns procedimentos, refletidas algumas demonstrações, partilharam-se também alguns instrumentos e dispositivos relacionados com a dinamização de projetos (por exemplo, cidadania e desenvolvimento) e a ativação de competências transversais (nomeadamente, a participação / interação orais em contexto de aula).
       
       Cerca de cinco horas formando, mais uma ou duas convivendo e lembrando momentos em que o espaço e as pessoas fizeram o afã de muitos dos meus dias (meses e anos). No final, ficam o balanço positivo e a nota de gratidão mútua, pela formação e pelo(s) (re)encontro(s) de boa memória.

sábado, 31 de maio de 2025

Pediram-me para ler...

       ... e não me fiz rogado.

     Aquando da apresentação de VINTE SONETOS e outros poemas, de Manuel Maria, no Auditório da Biblioteca Municipal de Gondomar, durante a tarde de hoje, li dois dos textos poéticos compilados na obra. Tinham-me pedido um, mas, como ando um insubordinado e insubmisso, decidi abusar e dobrei a parada.
     Contrariei, inclusive, a ordem do título, iniciando pelo único dístico presente na secção (segunda) intitulada "outros poemas". Enquanto leitor de Sophia, relembrei o facto de os poemas mais curtos da nossa poeta apresentarem uma profundidade de pensamento evidente, uma sabedoria que nos toca com as palavras mais singelas - lições de vida traduzidas em cerca de dois a quatro versos. Fica, portanto, provado que a escolha não teve nada a ver com preguiça minha, mas com um capital de leitura que, de uma forma ou outra, se vai cruzando com outras oportunidades trazidas pelo próprio ato de ler.
      Também disso o Manuel Maria é capaz, pelo que, ao folhear o livro, na página 33, encontrei o texto
 
Vídeo e áudio do poema "Há tantas coisas tristes...", de Manuel Maria (maio 2025)

     A seleção reflete, por um lado, a tónica de um sentimento emergente de um mundo que nos vai deixando sinais fortes dos perigos e das ameaças que, longe ou perto, nos colocam em aviso constante e na razão da crescente consciência de que nenhuma guerra dignifica o ser humano; por outro lado, assume uma estratégia, na qual o fingimento recobre uma forma de sobrevivência, enquanto ingrediente necessário à vida e ao ato criativo, fictivo, poético, recuperando Pessoa e a génese criadora de quem "chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente" (como se lê em "Autopsicografia"). A nota de negatividade presente ao longo dos catorze versos decassilábicos, não pela forma, mas pelo conteúdo, é típica de um Manuel Laranjeira, que me persegue (n)a vida e que, na polaridade negativa, não deixa de a representar como húmus a alimentar e a valorizar o seu contrário, num caminho de idealização a fazer, a perseguir, a cumprir.
      Por extensão, e numa relação intratextual com a obra hoje dada a ler (desta feita com a parte correspondente aos "Vinte Sonetos"), reencontro novas e coincidentes dissonâncias, em versos a espelhar um sujeito poético atormentado, revoltado, caraterizado por uma disforia exógena a dominá-lo endogenamente (pág. 27):

Poema "Ingratidão" de Manuel Maria (vídeo e áudio por Vítor Oliveira)

      Eis as palavras, os versos de um sujeito poético que o Manuel Maria compôs à imagem e semelhança de um estado de espírito que vive instantes, que tem momentos feitos de opostos complementares, que busca identidades e que encontra palavras num exercício de escrita dominador: ao mesmo tempo "(a minha) cruz" e também "a luz". Na dualidade da dor rimada com amor, resulta uma tensão declarada na expressão poética, visível também ora na forma perfeita e convencionada do soneto italianizante ora na liberdade versificatória moderna (ambas usadas na publicação hoje publicitada), orientadas para Amor - Tempo - Arte. 

Obra poética de Manuel Maria, dedicada "A todos os que, na leitura e na escrita, se sentem com alma de poeta".

    Estas são as linhas com que, acronimicamente, o sujeito poético (também o poeta,... também o Manel) se ATA(m): na multiconfiguração e plurivalência do Amor; na inexorável, mas profícua passagem do Tempo; na exploração e na entrega à Arte (da palavra alada).

      De novo, relembrando Sophia e "Epidauro 62", ecoam versos: "Oiço a voz subir os últimos degraus / Oiço a palavra alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha". A apresentação feita por Ana Maria Cardoso e a estratégia feliz da leitura a várias vozes amigas resultaram, sobretudo, em "partilha poética", em leituras e interpretações de muitos, conduzidas por esse fio de Ariadne a permitir o (re)encontro com a escrita e a leitura, num coro pintado de vozes, tons e cores a matizar uma co-autoria polifónica a diferentes tempos.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Cruzamentos artísticos de metal e mar

     Pensa-se, dá-se a entender e...

    O objetivo passa por cruzar tradições e a expressão artística de localidades que, apesar de distintas, passam a ter algo que as aproxima:

Barca de Arte Xávega em filigrana ou a interlocalidade artística do metal em mar (Foto VO)

     Enquanto sistema de pesca artesanal caracterizado por possuir um aparelho ou rede lançados pelo barco (grande) de mar, a arte xávega ganha expressão / designação por esta mesma rede que carateriza a técnica piscatória de cerco, junto à costa, trazendo a terra o peixe capturado. 
     Se juntarmos a esta arte, o trabalho intrincado de pormenores da filigrana em prata / ouro, a ideia resulta numa bela peça de joelharia, com o apurado rendilhado do metal a sugerir o espiralado remoinho e o ondeado marinho.
      E, assim, se ligam tradições: as de Espinho com as de Gondomar. Porque o mar também se alimenta do rio.

    Pode não ser o coração de ouro da Sharon Stone, mas a barca em prata tem todos os ingredientes que um ourives gondomarense, na sua banca, conseguiu embelezar, inspirando-se no duro trabalho do mar.

sábado, 15 de outubro de 2022

Passear pelo jardim

       Depois do dever (com prazer) o prazer (sem dever).

      A manhã mantém o registo do trabalho, apesar de ser fim de semana. É tempo para lembrar o já cumprido, encarar novos desafios e alguns princípios que valem para qualquer ação educativa:

Apresentação do Projeto 'Geração+' na LIPOR - I (Foto VO)

Pensamento aristotélico na apresentação do Projeto 'Geração+' na LIPOR - II (Foto VO)

     Após uma deslocação até à LIPOR (Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, entidade responsável pela gestão, valorização e tratamento dos Resíduos Urbanos produzidos pelos oito municípios que a integram: Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde), em Valongo, e a propósito do projeto "Geração +" e do "Coração Verde", mal se pode, procura-se que o dever dê lugar ao prazer de...
... respirar,
... alongar o olhar,
... passear,
... estar com quem se quer,
... (re)encontrar antigo(s) aluno(s) e vê-lo(s) bem e com vontade de futuro,
... recuperar vivências passadas na presente  lembrança,
... tomar um pequeno-almoço decente.

Montagem fotográfica - I (Foto VO)

Montagem fotográfica - II (Foto VO)

Montagem fotográfica - III (Foto VO)

Montagem fotográfica - IV (Foto VO)

      No meio da cidade, há um encontro de natureza e humanidade, lembrando que a naturalidade humana ou a humanidade naturais são possíveis, nesse cruzamento em que a expressão natureza humana pode ir do sentido mais literal ao mais metafórico, algures entre o paisagístico e a essência ou a existência do ser.

      Ver coisas bonitas ajuda a "limpar" a alma e o cérebro, mesmo que o cinzento de dia traga um sol matutino feito da luz que as nuvens e o nevoeiro escondem.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Esperando na caminhada

     Ainda por Valbom, junto ao Douro.

     O momento da caminhada deu para captar uma imagem, tornada fotografia.

    Nas margens do Douro - Valbom (Foto VO)  

      ESPERANDO NA CAMINHADA

No curso do rio,
há um bote sem barqueiro
olhando a margem.

Flui o fluvial leito...
Dois cabos prendem 
o boiante lenho.
Não há motor que o leve.
Não está para breve
singrar na corrente.

O ramalhar da árvore,
o áspero tronco lá estão...
Pedra, terra, arbustos secos,
alguém à espreita, mirando.

Nas cores da estação, 
há luz, calor, tons
para que o ânimo revigore.

Quando a partida acontecer, 
soltos os calabretes,
rumará a pequena barca
ao sabor de ondas e ventos.

Saiba o catraeiro navegar,
escolhendo os combadouros,
a evitar águas e sopros agitados
- sem espinhos nem louros,
mas com céu de sol e de luar.

        No curso da vida, há tempo para as palavras e há de vir o tempo salinado do mar. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

As cores da correção

      Preferível o remendo à exposição ao erro.

      Assim o entendeu quem colocou, em plena casa de banho pública de uma cadeia de supermercados reconhecida, um alerta:

Um alerta bem acentuado à espera da vírgula do vocativo (Foto VO)

      Ver, ao fundo, aquele quadradinho do 'à', a cor distinta, até chama a atenção para a forma correta da escrita (nem quero imaginar o que, antes, estaria por baixo). De tão vulgar a má escrita, ver um conserto a cor diferente é sempre uma ocorrência mais feliz, mais pedagógica que certas legendas ou títulos televisivos.

      Virtuosos o reparo e a mudança de cor (falta a vírgula, depois de 'Estimado(a) cliente,...', mas a correção do erro detetado é sinal de que ainda há quem saiba acentuar).

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Coisas do oral (ou de homofonias nos discursos)

      Porque nem sempre o que se diz é o imediatamente entendido.

     Aquele momento em que o enfermeiro pergunta quando aconteceu a última refeição e, com a minha resposta, ele põe aquele ar de quem começa a fazer contas.
    O momento do diálogo aconteceu cerca das 9 horas da manhã. Respondi que tinha bebido o último copo de água à hora e meia da manhã. O olhar e o ato de registo parados eram a razão do cálculo a processar-se: "Ora... seis, sete horas, certo? Foi quando bebeu."
   Nego, mas insisto: "À hora e meia, mesmo. A partir daí não ingeri mais nada".
    Veio, então, o "Ah! Ótimo. Foi à hora e meia do relógio".
    Confirmei. Agora, sim, o tempo certo! Não tinha bebido água há hora e meia, mas sim à hora e meia
   Entre a expressão de duração / intervalo de tempo e a da hora precisa do relógio, a diferença é substancial. Que o digam o enfermeiro e a anestesista, mais o paciente; na oralidade, a distinção não se faz. 

     Valha a ortografia para marcar diferenças semânticas e sentidos pragmáticos que viabilizem uma intervenção cirúrgica. Um dia para a história (não da linguística, mas da pessoa operada).

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Gramido: a casa branca

       Junto ao Douro, no concelho de Gondomar (Valbom), há uma casa histórica.

     É a Casa Branca de Gramido, edifício solarengo do século XVIII (1789) com características de um neoclássico rural. Nela ocorreu, em 29 de junho de 1847, a assinatura da Convenção de Gramido, que assinalou o final de uma época de conflitos entre liberais e absolutistas, nomeadamente os que se sucederam às sublevações populares e burguesas conhecidas, respetivamente, como Maria da Fonte e Patuleia. 

Casa Branca de Gramido I, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

Casa Branca de Gramido II, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

     Ainda durante o século XIX, o espaço foi armazém de cereais, comercializados pelos proprietários «Cazas Brancas» para a atividade da panificação (de Valongo e Avintes, essencialmente). Os grãos de trigo trazidos rio abaixo pelos barcos rabões (de aspeto mais claro do que aqueles que transportavam carvão) eram desembarcados nesse armazém. Por extensão da designação da família proprietária e pela imagem clara dos barcos, popularmente chegou-se à denominação de "Casa Branca".

Convenção de Gramido (1847)

  A projeção e imponência visuais do solar duriense, progressivamente ampliado ao longo do século XIX e restaurado quase século e meio depois, revestem-se da importância histórica de que o local é exemplo, com a afirmação da paz após a Guerra Civil da Patuleia. A Convenção, assinada entre comandantes dos exércitos espanhol e britânico (entrados em Portugal ao abrigo da Quádrupla Aliança), mais os representantes da Junta do Porto e as forças do governo mais conservador, selou a derrota dos setembristas (revoltosos) frente aos cartistas (apoiados pela rainha) numa guerra civil que vinha a assolar o país desde a década de vinte e, mais particularmente, nos anos de 1846-1847. Menos de cinco anos depois, a concórdia viria a sofrer algum revés, com a força governamental apoiada por D. Maria II a retirar aos revoltosos poderes e influências em prol de um maior conservadorismo.

   A recuperação da casa, depois de uma fase de crescente degradação e de um incêndio que praticamente a abandonou a um estado de desleixo e decadência inevitáveis no século XX, ocorre no período 2005-2006, sendo a inauguração da sua requalificação datada de 31 de maio de 2008.

Marginal do Douro, em Gondomar (Foto VO)

      Enquadrada num espaço reabilitado, a Casa Branca de Gramido faz relembrar o romance Uma Família Inglesa ([1867] 1868), de Júlio Dinis, quando Manoel Quintino, guarda-livros da família Whitestone, se refere à zona da marginal como não havendo "outro passeio assim nos arredores do Porto". Desse passeio, em manhã mais soalheira, se faz aqui registo, em tempos mais contemporâneos.

       Na marginal do Douro, a Casa Branca de Gramido vigia o curso do rio.    

sábado, 7 de março de 2020

Cinco Palavras de António Vieira

     Título de um novo romance de Manuel Maria, um livro à guarda do tempo na ânsia de o poder ler.

    Fossem cinco as palavras! São muitas mais, impressas em páginas que, à semelhança de outras publicações já produzidas e a julgar por outras histórias que já deram livros (também eles com títulos de cinco palavras), merecem leitura atenta.
    Um amigo lança um romance, uma amiga apresenta-o, outros amigos assistem e um rosto impõe-se aos olhos de todos e muitos mais, bem presentes, de todas as idades. Muitos vão reparando na capa, folheando o que o autor sublinha ser uma obra de ficção, com a seiva da História, da Literatura e da(s) Humanidade(s) e de uma personalidade, tão nacional como do mundo, colocada no centro da narrativa.
     Com a chancela da editora "Lugar da Palavra", a Biblioteca da Escola Secundária de Gondomar foi o ponto de encontro para sorrisos, afetos e saberes partilhados, numa fraternidade também construída com palavras ditas e escritas (tais como as do missionário jesuíta que é dado a ler).
      Padre António Vieira, orador e prosador, revive nas linhas agora escritas e expostas a um público leitor que precisa de conhecer mais do homem, do tempo e da visão do mundo seiscentista, para nele perscrutar um ideólogo do "novo mundo", um profeta, um fundador de mitos futuros feitos de fraternidade, de uma espiritualidade e de uma união de povos, etnias e línguas (das mais eruditas às vulgares). Trata-se de um pensador na vanguarda de um tempo no qual os ladrões já se multiplicavam; a cor da pele distinguia colonizadores de colonizados ou determinava a condição de dono e a de escravo; as línguas eram também confrontadas com preconceitos (como os da língua de cultura e erudição face aos linguarejares índios e negros).
     O "Pai Grande" (Payassu) foi dos primeiros a reconhecer a diferença, a tolerância nos homens e no que os define; a defender um sentido de miscigenação dos idiomas, numa legitimação tanto do culto "pulcro" como dos registos comuns do "belo" ou do "bonito", para não falar das sonoridades escutadas em todas as cores da ação missionária. A aproximação fazia-se, então, a um Quinto Império (com um Papa "angelicus" e um imperador cristão), abraçando judeus, cristãos, muçulmanos numa espécie de paraíso, a construir em vida entre os homens e não a doutrinar como prémio a alcançar depois da morte (atualidade tão inquestionável).
      Se o Homem é a língua que usa, na composição caleidoscópica de Vieira - orador, escritor, pensador, humanista, diplomata, político, "influencer" de um tempo pleno de teatralidade na vida ou de vida tão feita de teatro -, firmaram-se a multiplicidade e a multimodalidade do Português, que também é voz, face, gesto, grafia e "História de Futuro".  

     "Não é tudo isto verdade?" Eis as cinco palavras que Manuel Maria relembra, reproduz, repete, reforça para a (re)descoberta de um homem e de uma obra de tempos. Outros certamente virão (mas estes serão... Contas de um outro rosário). Ainda bem!

domingo, 12 de janeiro de 2020

"Eu vejo estradas no céu"

        Assim o diz a letra de canção do rapper Valas e da fadista Raquel Tavares.

       Cito-a pela inspiração da foto tirada junto ao rio Douro, em Valbom:

Estradas no céu I (Foto VO) 

Estradas no céu II (Foto VO) 

      Estradas em espaço aéreo, em aglomerado, num entrecruzamento de viagens a que o fluido rio assiste, espelhando o brilho de um sol luminoso, no calor reconfortante de uma tarde que findará para lá dos arbustivos montes de uma margem, aquém do mar. 

      "Hei de continuar o voo, suspenso na gravidade" - palavras feitas música, também a caber em imagens. 

sábado, 24 de novembro de 2018

Diarinhando... bom título!

      A tarde foi de apresentação de um livro especial. Entre amigos, no Centro de Recursos da Secundária de Gondomar.

    Uma capa bonita, um título inovador, uma apresentação entre o elogio fundado na qualidade estético-literária e as cores da amizade, uma obra à espera de ser lida. E a autora?


    Já figura nalguns apontamentos desta 'Carruagem', por nos ter dado Histórias para Lermos Juntos e nos ter brindado com O Tesouro. Na companhia e na amizade. Assim foi, assim continua a ser, com os ingredientes geradores de uma família de leitores que Maria Clara Miguel tem vindo a construir. No caso de alguns dos presentes (inclusivamente de alguns ausentes), mais do que leitores, por certo.
      Nada é por acaso, diria a nossa Isaura. O (re)encontro com Maria Clara Miguel aconteceu. E uma Lúcia está para se dar a conhecer. Não foi 'encontro feito poesia', porque de narrativa se trata. Mas nas máscaras de Narciso (nesse mito que se compõe do eu que também é outro, no espelho da água), o que se narra é um ato de escrita metamorfoseado em diário, em prosa poética, em fragmento reflexivo, em apontamento breve, em opinião ou gosto que se querem partilhados.
      Dizia o apresentador do livro - o colega, escritor e amigo Manuel Maria - que nas páginas lidas há suspense, surpresa e sedução. As personagens e as ações narradas convocam espiritualidade e intuição, conformes à tonalidade lilás da capa, a essa cor metafísica propícia à purificação e à cura do físico, emocional e mental. A criação artística é um dos caminhos, nessa elevação de intuição, inspiração e criação espiritual. É mistério a expressar-se pela individualidade, pela personalidade, numa relação plena com a espiritualidade.
      De tudo isto se compõe a obra hoje dada a público, páginas configurando nove semanas de um diário que Lúcia (também Isaura e/ou Maria Clara Miguel) escrevinhou - não se trata de escrever mal nem de produzir algo sem valor (bem pelo contrário); talvez fingir um registo solto, natural, com um fim diverso (mais do que determinado), entre o entretenimento criativo, a oportunidade aproveitada, a vontade sem compromisso e a necessidade de revisitar tempos, gostos, pessoas, memórias que em todos nós vivem - umas comungadas, outras só de alguns, muitas só do 'eu' plasmado num discurso por natureza calendarizado, datado à cabeça (o Homem é tempo; dá-lhe a mão e larga-o, conforme a força, a vontade e a capacidade de o acompanhar).
      Diarinhando é amálgama para um ato encarado como processo, talvez por pretender culminar numa construção de identidades e entidades fictícias que só a vida pode vir a (re)criar pelo que já deu a (re)ver ou a imaginar.

     Ao folhear o livro, parei em algumas datas (8 de fevereiro foi uma delas) e em alguns segmentos (um deles, logo a abrir: "Está aí alguém?"). Talvez seja Narciso a recriar-se, a rever-se num universo de palavras, num fluir do tempo, num espelho de interrogações, reflexões, intrigas que de vida (também) se fazem.

domingo, 3 de junho de 2018

A velha casa e outros dias

    Gondomar, na Biblioteca Municipal. Com amizade.

    Um dia depois de uma amiga ver o seu livro publicado nas mãos de alguns dos leitores e de ter assistido a uma apresentação da obra por alguém que a lera (e muito bem), ficou-me a vontade de apreciar mais a narrativa matizada de oral e poesia, com boa literatura à mistura.
  Um registo diarístico ficcionado; uma personagem (Madalena) cheia de vida, dando à palavra 'reformada' o sentido de mulher (bem) formada e com oportunidade(s) de reformular, retomar e reformar percursos e projetos; marcas de espaço e de tempo que se (re)visitam para se lhes dar novas cores, sabores e vivências, sem esquecer os tons, as pessoas e as memórias que a novidade faz e traz na (re)criação afetiva do lugar, das estações ciclicamente retomadas e renovadas, do fluir e do fluxo de vida e de comunhão com os outros e consigo própria - de tudo isto o livro se compõe, num jogo de ficção e realidade em que qualquer semelhança (ou coincidência) sai motivada e inspirada por lembranças, pela condição de presente e pelo desejo de futuro.
       E porque este último se complementa com presente e com passado, na linha do tempo, os projetos também se compõem de vivências e de memórias, inclusivamente aquelas que se revisitam pela tradição oral numa literatura feita em verso familiar, popular, universal pelas lições e pelos exemplos de vida configurados:


Poema da D. Marieta (in A Velha Casa e Outros Dias)

"Os Velhos" (in A Velha Casa e Outros Dias)

      Porque o ser humano se faz de, no e com tempo; porque também ele ocupa um espaço mais ou menos difuso, real, virtual ou fictivo; porque ele se (re)vê num espelho em que a imagem observada fica aquém da que verdadeiramente se expõe ou reflete, busca-se, nas linhas da narrativa, os traços de que uma mulher é feita, num retrato e numa vivência com sinais de passado recordado, de presente em ação e de futuro projetado.
      Liberta das contingências de uma vida entregue aos vários papéis que plenamente desempenhou, Madalena é feita de dores (etimologicamente de 'dolores'), de perdas, de conquistas, de ganhos, mas sempre de afetos e de expectativas, na demanda dessa utopia de felicidade que, na vida, não pode ter fim.

     ... porque o outono da vida há de sempre dar em novas primaveras, não obstante as intensidades do inverno e do verão.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Generosidade de quem dá e para quem dá mais

   Voltando à causa da Maria, sem nunca a deixar de considerar.

    Depois de encontros, de serões, de atividades e momentos solidários, coloca-se em rede virtual mais uma iniciativa para uma causa mais do que justa e urgente, a bem do conforto possível que se possa facultar à Maria do Céu.
    Na sequência da generosíssima oferta do Sr. Fernando Neves, temos um quadro para leiloar - "Encontro de planetas - III" (óleo, com 70X50 cm):

Encontro de Planetas- III, de Fernando Neves (foto VO)

    Trata-se de uma obra que esteve exposta nos 25 anos de iniciativas com artesãos e artistas de Gondomar - ARGO (Festas do Concelho 2014) e figura no respetivo catálogo de divulgação, onde constam nomes como Albertino Valadares, Aurélio Mesquita, Aurora Rodrigues, Hélder Mau, João Ferreira, Linda Correia, Manuel Lima, Zulmiro de Carvalho, entre outros.
   Quem der mais receberá a tela. A generosidade concedida não se fez acompanhar de base de licitação. Começo eu: por cinquenta euros o óleo é meu e já tenho parede para o colocar. A todo o tempo será divulgada a oferta maior, a fazer até ao último dia de fevereiro.

Montagem: imagens do catálogo da Exposição da Associação de Artistas de Gondomar (2014).

    Que este seja o passo primeiro para uma quantia que se quer tão grande quanto a causa que nos move. À imagem de cada um de nós como planeta, fica o voto de que cumpramos o "encontro de planetas", no maior número possível para alimentar a esperança.

     À espera do futuro e dos que contribuírem para a causa, a última palavra só pode ser para o agradecimento mais do que reconhecido ao Sr. Fernando Neves e a firme vontade de que se consiga também valorizar um trabalho que em tudo merece também pelo gesto assumido. Muito obrigado.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Noite de Histórias

    Ao final do dia, a escola voltou a ser ponto de encontro.

  Alunos, professores, funcionários, encarregados de educação, familiares, amigos foram o núcleo para muitos laços de afeto e de reconhecimento do trabalho feito com dedicação.
   No Centro de Recursos - Biblioteca Escolar, todos ocuparam o seu lugar para aplaudir aqueles que se dedicaram à leitura, à escrita. No que a estes últimos diz respeito, ficou o orgulho de ver publicado, em livro, o fruto do trabalho: narrativas selecionadas e premiadas naquela que foi a terceira edição do concurso promovido pela Oficina da Língua (da Escola Secundária de Gondomar). O lema foi inspirador - "Histórias com um livro dentro" -, resultou em cerca de cem contos e culminou na edição de quase meia centena.

No Centro de Recursos - Biblioteca Escolar da Escola Secundária de Gondomar (ESG)

    A criatividade, o espírito de partilha, os reencontros, as vozes às histórias, um fundo musical e a generosidade dos que acompanharam o evento compuseram o momento que assistiu ao desejo de um romance querer ser conto; ao aparecimento de "um livro com alma de árvore"; à amizade que os livros (também) oferecem; "à espera do avô Anastácio", como grande ouvidor de histórias; a "o prazer de viver" nas páginas de uma publicação ilustrada por dois jovens alunos do 7º ano de escolaridade (em colaboração com a respetiva professora de Educação Visual).

    Mais um dia (ou melhor, uma noite) e uma história (ou melhor, várias) para contar no grande livro da vida dos participantes e dos dinamizadores da atividade, numa escola que contou com algumas das suas principais personagens.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

40 anos do 25 de Abril na ESG

      Depois de ontem ter sido oficialmente inaugurada...

     Chegou a vez de levar os alunos à exposição dos 40 anos do 25 de Abril (que propositadamente escrevo com a maiúscula do relevo a dar a um tempo histórico que devia ser inspirador para a atualidade que se vive). A atividade, da responsabilidade do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Escola Secundária com EB3 de Gondomar, conta com um programa que abrange colóquios, debates, participação em eventos dinamizados com a edilidade gondomarense, sarau cultural, entre outras iniciativas.
     De particular interesse em toda a exposição, os vários pormenores marcantes de uma época (moda, utensílios domésticos, louça, brinquedos, música, revistas, moedas e notas) e, em especial, a reprodução de uma sala de aula, mais uma mostra de fotografias do pessoal docente e não docente da ESG.
      Destas duas últimas, impõe-se a referência a todos os sinais de uma sala de aula que os alunos viram, na qual sentaram e contactaram com manuais únicos da então chamada escola primária; com as famigeradas provas de passagem, em folhas de papel almaço pautado; com os retratos de Marcello Caetano e Américo Tomás, mais a cruz de Cristo, na parede por cima do quadro negro; com as palmatórias, para lembrar castigos físicos. Talvez tenham achado demasiado estranho, mas todos tiveram que passar pela minha frente, junto à secretária docente, e dizer-me individualmente 'bom dia', depois de apanharem umas "reguadas", só porque tinham pensado que podiam sentar-se onde e com quem queriam; começaram a aula comigo, de pé (a ideia era cantar o hino, mas alguns estarreceram...), à espera da minha autorização para sentarem. Só faltou a cana para que pudesse apontar para o quadro ou atingir a cabeça ou a orelha de alguém mal comportado.

Depois das reguadas, todos sentadinhos e alinhados nas carteiras da escola primária

      Foram poucos os minutos de aula, para saberem que o conformismo era a regra de ouro, para os valores que sublinhavam a importância de Deus, Família e Pátria; que a educação assentava nestes valores, também presentes em conteúdos e áreas de conhecimento praticamente ensinados à mesma hora por todo o país; que a homogeneidade era princípio respeitado nas próprias turmas e escolas (só femininas ou só masculinas); que os erros, os esquecimentos e as distrações eram fatores de castigo severo; que as formas de castigo eram tão visíveis quanto as "orelhas de burro" e a observação das paredes ou recantos das salas, além de frequentemente sentidos quanto as mãos ficarem a ferver pelas "reguadas" aplicadas; que o controlo era tão assumido quanto o desejo de casar de uma professora primária depender da autorização do próprio Ministério; que o respeito era um fim em si mesmo, nos silêncios forçados e no não direito a qualquer reclamação face à figura de poder.
       Com alguma incredulidade nos olhos e nos comentários feitos, prosseguiu-se com a viagem no tempo.
   Top de preferências para jovens e mais crescidos foi sempre o conjunto de fotos, com a imagem de professores, pessoal administrativo e auxiliares de ação educativa, todos com menos quarenta anos. Ver alguns dos docentes ainda nos bancos de escola, procurar descobrir no passado traços de um presente que o tempo tem vindo a moldar de forma por vezes tão distinta; encontrar o habitual preto e branco (já amarelado e com sombras) das imagens, mais os recorrentes cavalinhos das festas e feiras, as roupas de cerimónia ou das festas de comunhão, os registos de rosto ou de corpo inteiro em poses tão estáticas e marcadas quanto os fotógrafos assim o ditavam são marcas já distantes para o ato festivo, quase singular do que era, nessa época, tirar uma foto. Hoje, no tempo das 'selfies' e do 'photoshop', parece que se está perante achados do século passado (e sem dúvida que o são), apesar de nem meio século distar do tempo retratado.

        ... o reconhecimento impõe-se, por toda a dedicação prestada e todo o trabalho concretizado. O espaço do palco e do antigo pavilhão gímnico foram animados, abertos ao público e a uma iniciativa que tem tudo para marcar a vida da escola ao longo dos próximos dias. A palavra de apreço pelo que foi feito e a quem tanto se empenhou na dinamização do evento é o mínimo que este registo pode e deve traduzir.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Hoje, quinta, como há trinta e nove anos...

    É feriado!
Cartaz premiado e divulgado no concelho de Gondomar
(Ana Carolina Ferreira Cardoso, 9ºD, da Escola EB2,3 Marques Leitão - Valbom)

   Em tempos que fazem reviver os cânticos de resistência e de libertação; em tempos que precisam de restaurar um sentido mais coletivo e (com)partilhado de liberdade; em tempos que retornam aos instantes críticos que ameaçaram a paz, a segurança, o bem-estar e a confiança almejados, há quem fale na necessidade de regressar à revolução (não apenas à do espírito, mas à da ação).
    É a vontade de rever a saída do escuro, o sentido de tornar a encarar a esperança, a tentação de caminhar no sentido da luz que orientam os espíritos de toda a humanidade saturada de uma crise que só serve alguns, nomeadamente aqueles que se dizem ao serviço do povo.
     Para que não haja apenas retórica, para que as palavras combinem com os atos, tem que ser maior o testemunho, o desprendimento; não fazer da política um mero jogo estratégico, brincadeira de palavras sem interesse algum, capaz de apenas envaidecer o ego de quem as usa; não citar os poetas e escritores, nos pensamentos descontextualizados e colocados a jeito para legitimar interesses individualistas que só eles  souberam refletir na Humanidade; não viver à custa de uma imagem de poder que facilmente cai (facto que tantos esquecem, tentando preservá-lo a todo o custo, mais a título pessoal do que no interesse de todos aqueles que os possam ter, inicialmente e por alguma razão, reconhecido).
    Hoje são precisas palavras (outras); necessários discursos (outros); desejados políticos (bem diferentes dos que atualmente nos desiludem e desencantam); ambicionados sentidos de esperança (que alguém comprometeu para as gerações mais próximas).
     Por isto, é urgente restaurar abril, para que este traga a cor e os cravos de velhos tempos e não se fique pelo cinzentismo de outrora.
Cartaz elaborado por um aluno 
da Escola Secundária com EB3 de Gondomar,
no âmbito do protocolo da Câmara Municipal de Gondomar 
com as escolas do mesmo concelho
para a produção de cartazes alusivos à celebração do 25 de abril
     
    E na falta de melhor, toca a aproveitar o sol e o bom tempo - que o desgoverno deste país ainda não controla - chegados a todos os que os queiram aproveitar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Reposição da normalidade

   Dizem os alunos que vale a pena reclamar.

   A novidade, hoje, é que o erro detetado já desapareceu.
   Numa loja dedicada a uma conhecida rede de telemóveis, a placa publicitária que, antes, continha erro, deixou de o ter.



   Bom exemplo, disse eu.
   Afinal, a estratégia não era a da publicidade pela negativa.

   Prova de que há quem pense que nem tudo vale para se atingir determinados fins - ainda bem, quando o tudo não faz qualquer sentido. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Lembrando as gôndolas...

      Até podia ser Veneza, que cá por Portugal se diz ser lá para os lados de Aveiro.

      A aproximação é ousada, por certo. Mais ainda quando a terra é a do coração em filigrana dos ourives.
      Tudo começa com os alunos a repararem no erro fotografado e a trazerem-me a prova em foto de telemóvel:

(Fotografia, por telemóvel, com a agradecimento à DA)

      Lembrei-me das gôndolas venezianas. Tudo tão longe!
     Gondomar nada tem de canais. É terra banhada pelo Douro e já nem os barcos rabelos por lá passam. Quando muito, só os turísticos que fazem o rio até à Régua.
     Veja-se o lado mais prático: o erro até pode tornar-se num fator de publicidade (negativa); o erro dá por certo para lembrar que as palavras terminadas em 'r' são, por norma, agudas e, por isso, sem acento gráfico (como na maior parte dos verbos, na forma do infinitivo).
     Dizem os alunos que se dirigiram ao atendimento na loja e que deram a conhecer o erro. Receberam a resposta de que já o tinham detetado e que não sabiam o que se teria passado. O mais explicável é: quem fez a placa publicitária ou não sabia como se pronunciava o nome da terra ou desconhece por completo as regras de acentuação gráfica do Português.

      Se não aumentar a venda de telemóveis na loja, pelo menos ela foi mais do que falada, hoje, na Escola Secundária com 3º Ciclo de GONDOMAR.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A noite do absurdo de todos os dias

      Saí de uma câmara de morte com tudo para a vida, à boa maneira existencialista.

     "In camera" (Huis Clos, no título francês) é o espetáculo levado à cena pelo In skené - grupo de Teatro de Amadores de Gondomar, até ao próximo dia 22, na Sala Monte Crasto - Multiusos de Gondomar.
    Apoiado no texto de Jean-Paul Sartre, pela tradução de Sofia Araújo e encenação de João Ferreira, há um percurso dramatúrgico a que os espectadores não são estranhos: o do acordar para a vida; o das máscaras colocadas nas caras e o dos jogos de força e sedução levados a cabo na existência; o dos caminhos dirigidos a um só fim. E depois...

Vídeo de Ricardo Pita

      A sugestão do vazio, do gelo, da gota que cai continuamente no balde de metal cruza-se com uma luz que dá a ver o que se foi e o que se descobre ser, como se todo o passado tivesse sido vivido em mera sombra. Libertos da caverna, e como se do mito platónico se tratasse, essa mesma luz fere, encandeia, até que dá a ver o que nem sempre se quer.
    Tudo meticulosamente preparado, colocado à disposição de um tempo eterno, feito de renovada estabilidade, qual estátua sem possibilidade de mudança.
      Em torno e ao nível de um palco que também é o do espectador (com um pé na vida real e outro na ficção pós-morte), o vazio vai sendo ocupado por uma angústia tão existencialista quanto desafiante nas forças, nos desconcertos e nos limites. Três passados, três existências dominadas por traços viciosos ou defeitos (Garcia, Inês e Estela) são discutidos, confrontados e analisados até à consciencialização do absurdo de um destino colocado frente aos olhos de todos, mas que ninguém parece querer ver.
      Com a obra, Sartre põe o dedo na ferida; com a peça, torna-se presente todo o ser, vivificam-se a ironia e o sarcasmo que destroem tantas máscaras da existência; arrancam-se risos denunciadores da avaliação de páginas de vida (redescobertas na morte), particularmente naquilo que elas já não podem mais ser ou fazer. Resta-lhes não poder escapar a um ciclo que se fecha, se repete na clausura: a de uma porta que, mesmo aberta, não é trespassada, por causa do que cada um interpreta de si mesmo e dos outros.

      Nessa condição, abandona-se a câmara, regressa-se à vida já não com a luz do dia, mas o escuro que impede o ser humano de ser transparente. Clara foi a qualidade do texto; das palavras recriadas no drama; das vozes escutadas; das representações a refletir, na perfeição, a atitude de desorientação e confusão face às vivências, bem como a fazer cair o "em-si" (recuperando o conceito filosófico de Sartre para a existência do mundo, nada mais sendo para além do que simplesmente se é) num "para-si" (mais do domínio da consciência analítica do espectador). Fragmentos de vida que só pela ficção se situam após a morte. Mais uma ótima representação do 'In skené'.
      

quarta-feira, 14 de março de 2012

In Skené... com heroína em cena

      As palavras têm o significado que se lhes dá: por vezes, os mesmíssimos termos têm significados tão diferentes.

      Este, em parte, foi o balanço de uma representação a que as minhas turmas de 12º ano assistiram hoje no Auditório Municipal de Gondomar: Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, numa adaptação levada a cabo pelo In Skené - Grupo de Teatro de Amadores de Gondomar.
    Numa abordagem económica de todo o primeiro ato, a aposta centra-se na fidelidade ao texto do segundo ato, aquele em que a esfera familiar, o protagonismo feminino e o grito de revolta e de esperança se constroem.
     Matilde de Melo é a heroína, numa extensão da figura libertadora que o Marechal Gomes Freire de Andrade representa até à hora da morte, às ordens absolutistas e despóticas dos três reis do Rossio (Miguel Forjaz, Principal Sousa e General Beresford). É a voz liderante, a dar continuidade às expectativas depositadas na mudança - é o luar no reinado da noite.
    No jogo de poderes configurado na obra, a singularidade e a dimensão expressiva do título revelam-se tão essenciais quanto este poder ser interpretado de diferentes formas. As palavras são as mesmas, a expressividade associada ao ato é comum, mas a intencionalidade última e o alcance dos significados são diversos:


       Felizmente Há Luar! - um só título para muitas falas explícitas ou subentendidas. Entre os dois últimos casos sistematizados (à direita), as aproximações são inevitáveis, numa identidade entre o que o autor pretendia e o que a personagem dizia para o seu tempo; ou mesmo entre o que o dramaturgo desejava para o seu tempo (anos sessenta do século XX) a partir dos atos e das palavras da sua heroína (das primeiras décadas do século XIX).
     Esta última, representada desta feita por Joana Sousa, é portadora de uma força que nos instiga à mudança, numa atitude épica e ética face ao tempo e ao mundo. Esgotante, todo o protagonismo da personagem sobrevive no corpo, na voz, nos gestos da jovem atriz.
      A propósito do evento, fica aqui o registo de uma pequena reportagem televisiva produzida por Catarina Silva (para a Regiões TV) acerca desta época de representações:


     Trabalhos, heranças que a Escola Secundária de Gondomar (ESG) vai reconhecendo nas mãos de antigos alunos, expostos aos olhos e ouvidos de estudantes do presente, ambos a marcar a crença de que pode haver futuro.