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segunda-feira, 16 de março de 2026

Presença distanciada, muito comprometida

      Há que explorar as possibilidades que a tecnologia permite.

     É a presença sem estar no espaço; é o agora sem o aqui, com tempo(s), instante(s) em paralelo. Foi desta forma que, posso afirmar, estive com o Sr. Ministro da Educação Ciência e Cultura; com o Sr. Diretor do Banco de Portugal e com as altas individualidades da Conselho Nacional de Supervisão Financeira. Impossibilidades de exercício de funções e limitações na distância geográfica não podem comprometer a participação e a representação do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) num momento de orgulho singular: a atribuição do primeiro prémio nacional do ensino secundário na 14.ª edição do Concurso "Todos Contam".
     A sessão solene de anúncio dos vencedores desta edição do concurso ocorreu pelas 14h00, na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em Lisboa, e o convite feito tanto pela Comissão de Coordenação do Plano Nacional de Formação Financeira como pelo Departamento de Ciências Sociais e Humanas do AEML tinham de dar lugar a resposta positiva.

Evidência da presença distanciada, com orgulho no AEML (Foto cedida pela CMVM)

    Num discurso de reconhecimento a quem mais diretamente levou a cabo o projeto vencedor (grupo docente de Economia e Contabilidade), a par de todos os que deram o seu contributo implicado e empenhado (e foram muitos), fica a nota audiovisual do dito:

A prova do dito: do prémio atribuído e do discurso pronunciado (excerto do vídeo público da CMVM)

     "Desafio de Literacia Financeira - joga e aprende" é o exemplo do envolvimento de muitos e de variadas competências. Articular e integrar é possível, numa conjugação de propósitos afins, levados a cabo em várias iniciativas dinamizadas no âmbito da educação e da escola públicas, implicando professores e alunos desde o pré-escolar ao ensino secundário, nas múltiplas inteligências e competências que confluíram nas áreas linguísticas, matemáticas e das expressões.

    Um momento feliz para o agrupamento e para quem faz dele entidade de referência nacional. A gratidão é o valor de ordem e a representação do AEML é um dever a cumprir, como sinal natural do orgulho e do agradecimento por (me) colocarem (com) Laranjeira, enquanto marca institucional, na senda da excelência educativa.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Tempos hodiernos, convocando grandes poetas

      Atos, discursos, história, cultura e mentalidades.

   Vê-se e ouve-se o que, incompreensivelmente, só alguns querem: em Lisboa, impede-se a realização de uma peça, com a agressão a um ator de forma fortuita e irracional; atacam-se barbaramente adeptos de um clube desportivo, após um jogo de hóquei em patins; em vários pontos do país, habitados pelos que nos procuram, verificam-se movimentações contra imigrantes; aumentam, cerca de 30%, denúncias de violência doméstica; cresce a criminalidade violenta provocada por organizações mafiosas; tornam-se mais do que evidentes manifestações progressivas de extremismos políticos e formas de populismo que comprometem a segurança e o equilíbrio social.
     A questão não é apenas nacional. Os exemplos multiplicam-se por países e continentes (na Europa, na América trumpiana, em África, no Oriente).
    Tanta desgraça de indignidade humana, tanto desconcerto do mundo quando mais se pede paz, ética, responsabilidade, segurança... a humanidade e o humanismo que nos fazem ser diferentes.
     No dia de hoje, celebrando-se um poeta, uma língua, a cultura da portugalidade, há todo um discurso que faz a diferença: a tradução de um espírito, de uma mensagem que ilumina o sorriso de muitos e o desconforto de alguns outros. 
    E, assim, se evocam grandes poetas, a sua universalidade e atualidade de pensamento, apesar da passagem e da evolução dos séculos:

"... é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redon-dilhas e vilancetes de Camões como se fossem filmes modernos feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.
    Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico como é em Sôbolos Rios que Vão, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos escritos há quase quinhentos anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender os tempos duros que atravessamos, tão em conformidade com os tempos em que ele próprio viveu.
    Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo, e sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das mil cento e duas oitavas que compõem Os Lusíadas, vinte e duas delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então. Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género. O paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado na criação de um Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que passados cinquenta anos impediam a manutenção desse mesmo império. E nesse campo, pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o Dia de Portugal seja o Dia de Camões, expressa corajosas verdades, dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.
    É bom lembrar que entre os séculos XVI e XVII três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante dezasseis anos, e no entanto os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas. Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos, e entre eles os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias. Sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, e o poder temeroso e o poder laxista.
   No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da História para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral. Mencionava "o vil interesse e sede immiga/ do dinheiro, que a tudo nos obriga", e evocava entre os vários aspectos da degradação o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado o mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer fortuna. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento. Queixava-se da falta de seriedade intelectual que resultava, depois, na prática, na degradação dos actos do dia a dia. Escreve o poeta no final do Canto VIII – "Este deprava às vezes as ciências, /Os juízos cegando e as consciências (…) Este interpreta mais do que sutilmente/Os textos; este faz e desfaz leis; / Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis…"
    Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios em que viveram. Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do Globo Terrestre. Ou, mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a Terra ao pescoço como se fosse um berloque. Os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência. Escreveu Shakespeare no acto IV do Rei Lear: "É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos."
    Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de la Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido. Por seu lado, Camões, no corpo de Os Lusíadas não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas em resultado dela, a insanidade. O desastre de Alcácer Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do canto X. Era a História, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela Literatura. No entanto, o fim de ciclo que neste caso aqui interessa não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa. Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global.
   Porque nós, agora, somos outros, deslocamo-nos à velocidade dos meteoros, e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam pelo Espaço. Mas alguma coisa desse outro fim de ciclo que se seguiu ao tempo da Renascença malograda relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a Terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos? São público que assiste a espectáculos em écrans de bolso. Por alguma razão os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas. É contra isso, e por isso, que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. (...)
    Consta que em pleno século XVII, dez por cento da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro, a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e de migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizava, filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.
    A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos, nos dias de hoje, um pouco por toda a parte, agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte. A pergunta é esta – Quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos, e os pilares de relação de inteligência homem/máquina entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um ser humano? (...)
     Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.
    Hoje, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?"

     Lídia Jorge, aquando da celebração do 10 de junho (Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas) deste ano, disse o que muitos querem ouvir; outros relativizam ou renegam. Enquanto estes últimos crescentemente se reveem no que a maioria não quer esquecer, os primeiros aceitam uma inevitabilidade histórica e uma razão forte para colher e viver mundo(s), aceitar a miscigenação cultural, integrar os que (re)encontram em Portugal oportunidade(s) para descobrir ou responder à questão "Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme, e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?”

    A reflexão de Camões, no final do canto I de Os Lusíadas (1572), é interrogação intemporal, buscando um sentido de vida humano, humanista, focado na segurança, na humildade, nessa pequenez e fragilidade ansiosas de uma felicidade que só o pensamento (crítico), a consciência e a espiritualidade (podem) trazer.

terça-feira, 14 de março de 2023

Poesia nas notícias, com PRR à mistura

     Diz o jornalista que o Sr. primeiro ministro afirmou que só na poesia é que basta Deus querer para a obra nascer.

      A citação, feita por José Rodrigues dos Santos, evocando o discurso de António Costa, é redutora e incompleta. Basta ouvir o restante apontamento noticioso televisivo (Telejornal da RTP1, pelas 20:40-20:42) para confirmar como o governante foi bem mais completo na tradução do pensamento pessoano: "Só na poesia é que basta Deus querer, o homem sonhar e a obra aparecer". 

Pessoa-Poesia-PRR: relações que a (ir)realidade tece no Telejornal da RTP 1 (Foto VO)

    Sem necessidade de precisar arquitetos e empreiteiros implicados na obra (faltaram os trolhas, sem cujas mãos nada passa a existir), diria que o discurso ministerial foi mais feliz na tríade plasmada em verso famoso. Embora "aparecer" esteja mais para "nascer" (tal como o jornalista apresentou e o poeta modernista o concebeu - "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"), a obra talvez não seja tão concreta como o governante a quer fazer passar, ao referir-se à construção de uma estrutura residencial para idosos (a Unidade Social Da Cruz Vermelha da Portela). Pessoa estava mais para algo da ordem do espiritual, do imaterial, do idealizado, do inconsciente. A materialidade e o real eram enleio para o poeta que nos deixou uma "Mensagem": a de que "falta cumprir-se Portugal!" (cumprido o Mar e desfeito que foi o Império geográfico, histórico, material) e, por isso, indiretamente se subentende o convite ao "Cumpra-se!".
        Entre jornalismo e governação, fico-me pela literatura, pela poesia, por ser libertadora de enredos e enleios de uma realidade que vai deixando a desejar, não obstante a pluralidade de cores esbatidas, pálidas para o bem humano.

      Isto de misturar poesia com obras concretas (de cimento, mesmo), PRR e reações a discursos políticos tem muito pouco que se lhe diga. E do jornalismo redutor, incompleto e condicionador mais vale nem falar.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Palavras para quê?!

      Nos últimos tempos, tem circulado no Facebook, com elevado número de visualizações, o exemplo identificado como do melhor dos(as) nossos(as) representantes municipais.

      É isto o que se chama defender uma causa, uma ideia, um princípio. Enfim, persuadir... para o riso ou para o choro, conforme se ache isto (des)construção ou (ir)realidade:

Um discurso clarividente - à falta de melhores palavras! Enfim...!

      Identificada como Margarida Bentes Penedo, deputada municipal do CDS por Lisboa, resta saber que o tema da "preleção" é o da "ideologia de género".
     Que mais dizer / escrever? Discurso fluido, coerente, bem fundamentado, numa clareza de ideias e progressão informativa inexcedíveis. O melhor exemplo de oratória, digno dos modelos mais ciceronianos do discurso. A prova categórica de que ser deputado(a) é o reconhecimento de qualidades superiores - no mínimo, a do falar bem.

       Começo a crer que, com tudo isto a ser verdade, o CDS escolhe cada vez melhor! Outro partido que fosse não lhe ficava atrás.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um julgamento com muito que se lhe diga.

       Depois do apontamento de há dias, a reflexão regressa.

     Desta feita, ela é revista a partir de um vídeo (com tradução em português do Brasil) que me fizeram chegar e que está na linha de alguns dos pressupostos que mencionei nesse apontamento:

Vídeo publicado no Grupo de Mentoria "Humana" 
(projeto de investigação da Escola-de-Redes)

    A parte da valorização do professor é significativa (e aplaudo-a). A de como chegar ao futuro é pouco sustentada, até porque dependente de muitas condicionantes que nem sempre se controlam e/ou anteveem no presente e no contexto de ação escolar. Muito do percurso a cumprir passa por uma cultura de empenho, de esforço, de persistência no trabalho, tão válidos na escola como na vida que existe para lá das paredes e dos muros das escolas. Todavia, são muitas as resistências e as culturas que algumas estruturas sociais educativas (nomeadamente algumas famílias que não convergem com tais valores) optam por contrariar, nomeadamente não ensinando o que é autoridade. Frequentemente é a escola a ter de o fazer, com um reconhecimento que muitas vezes se revela tardio.
    Uma dinâmica interativa, participada e colaborativa contribuirá para um estado de coisas bem distinto do que é julgado. E, por certo, não é sobrecarregando, fazendo mais do mesmo, apostando em inutilidades e "chicoespertismo" que o caminho se faz.
     Entre os aspetos que reconheço (a diferenciação desejada, a visão crítica da organização da escola, a relativização necessária à influência partidária na construção do currículo e de muitas orientações da escola, a adoção de múltiplos dispositivos estratégicos na avaliação, o reconhecimento dos diferentes dons e das múltiplas inteligências) e os que critico (as generalizações, o preconceito do conformismo da escola, a afirmação de imagens de escolas distintas como sendo iguais, a consideração de que nada mudou num século e de que tudo não passa de reprodução do passado, a redução da escola à dominante da costumização e do "costumer", a defesa de modelos de escola transpostos e desajustados dos contextos), fica o registo para memória futura - seja ela lá qual vier a ser. 

      Não se pode ser crítico sem o sustento do saber. Muito do progresso social e muita da evolução dos tempos também passaram e foram conseguidos pelos que andaram na escola. Não é possível fechar um caso que requer uma análise multifocada no(s) objeto(s) e objetivo(s) que o definem.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Pérolas ministeriais...

      Não são novidade, por certo, vindas... de quem ou de onde?

     Há para todos os gostos: das mais presidenciais às mais ministeriais, para não falar de outras proferidas em comissões de inquérito, junto de deputados.
     Começo a acreditar que não interessa de quem vêm. Talvez o problema esteja mesmo no local, que acolhe quem menos está preparado na língua (às vezes, noutras coisas mais, a julgar pela forma como lá chegaram e pelo que não tiveram de provar, só por pertencerem a uns grupos políticos que os içam por razões dúbias).
      Se o senhor ministro põe a mão na cabeça, eu ponho as duas mãos à cabeça com tanta irregularidade  e incorreção nas formas verbais:

Excerto do programa televisivo da Assembleia da República

     Bem lá diz o povo que "Não há duas sem três": depois do 'intervieram' que não saiu (quando assim devia ser), duas vezes se ouviu o presente do conjuntivo do verbo 'ter' na pior forma (E não era eco, não)! Ambas foram convictamente ditas pela mesma boca que o disparou. MAL! MUITO MAL!
    Já não basta haver quem diga "tenhamos" como palavra esdrúxula (acentuando fonicamente a sílaba [te], quando deveria fazer tal com [nha]) e, agora, vem esta nova versão da conjugação (em modo ministerial, sublinhe-se). 

      Desde quando? De quem? De onde? Nunca! Ninguém! Nenhures! Negação plena no uso correto da língua. Quem não dá bom exemplo deixa muitos em tormento (não é provérbio, mas bem que o poderia ser). E mais não digo!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Exemplos do nosso insucesso político

     A propósito dos receios da nossa Presidente da Assembleia da República.

    Apetece-me citar uma amiga, cujas palavras tive já oportunidade de comentar: "Não sou comentadora, mas..." (blogue Mariana).
   Depois de uma semana crítica no Parlamento - com deputados a discutirem se deve ou não haver referendo para a coadoção de crianças por casais do mesmo sexo (Tão absurda é a discussão!); com a decisão final a favor do referendo (Abominável decisão, como se o interesse das e pelas crianças não estivesse acima de odiosos jogos políticos!); com um orçamento que terá favorecido deputados com aumentos de mais de 90% nos subsídios de férias e de natal (tão intratável é o cenário que só o comentarei mais incisivamente quando tiver maior certeza sobre a questão, mais a unanimidade do interesse parlamentar, nada exemplar, para uma população constantemente estropiada nos seus direitos e no produto do seu trabalho); com o descrédito político generalizado, sem vislumbre alternativo para quem possa dirigir este país entre os que protagonizam discursos vazios, desacreditados, sem atos concretos para a mudança ou a esperança -, é certo que alguma coisa está a mudar: a língua, senhores! Até essa parece votada a sofrer as influências políticas do tempo: 


      Apetece-me dizer à Senhora Presidente que escusa de estar preocupada com a sua falta de criatividade ou falta de "espaços de energia" (aposto que a EDP, os chineses ou o próprio Mexia resolveriam o problema, se fosse necessário): em pouco mais de um minuto, criou um nome com derivações sucessivas, em várias etapas ('inconseguimento', que deve resultar de 'conseguimento', derivado por sua vez de 'conseguir'); um adjetivo relacional ('frustracional'); uma expressão neológica associada a um empréstimo muito antitético ('soft power') que, ao menos, tem em 'sagrado' um importante adjetivo (pelo menos é de peso) português. É obra!
      Obra maior é, por certo, falar um minuto sem nada de interessante ou importante dizer.

      Com tanta criatividade, não dá para perceber tanto medo! Seja lá o que tenha sido dito, é caso para ir em frente. O arquivilão Joker aplaude (por alguma espécie de reconhecimento, que suspeito compreender qual é)! Pena que não venha por aí um Batman, para nos livrar destes exemplos da comédia (mas de humor negro) dos dias correntes!

domingo, 6 de outubro de 2013

Ser Português

     É com este título que acordo no fim de semana, a propósito do evento Escritarias.

    Fundado em 2007 na cidade de Penafiel, este sucesso cultural tem vindo a afirmar-se anualmente pelos discursos artísticos promovidos fora dos circuitos habituais associados à homenagem de autores da cultura, literatura e da língua portuguesa. Nomes como Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto e António Lobo Antunes juntam-se ao de Mário de Carvalho, este ano o indicado como autor inspirador de um grande número de iniciativas pela cidade.
    A par dos grandes nomes literários, outros surgem como o do jornalista Mário Galego, premiado com a reportagem radiofónica "Ser Português" (Antena 1). A este propósito fica aqui o registo do que pode bem ser objeto de trabalho didático, em termos da compreensão oral (para escuta ativa) e/ou de eventual integração noutras dinâmicas de trabalho relativos ao ensino da língua (na sua relação com o escrito, por exemplo).

Registo disponível nos arquivos online da Rádio Antena 1 (in http://www.rtp.pt/antena1/index.php?t=Ser-Portugues-reportagem-de-Mario-Galego.rtp&article=6693&visual=11&tm=12&headline=13), última consulta a 07/09/2013 às 14:00)

     Em cerca de doze minutos, resume-se o percurso realizado pelos repórteres Rita Colaço e Mário Galego, durante o mês de junho, desde o Gerês até Vila Real de Santo António - sem deixar de passar pelos Açores e pela Madeira.
      Um caminho para a descoberta, tanto da inovação como da tradição, do que compõe esta condição de "Ser Português".

    Um contributo para a nossa identidade cultural e, daí, um bom documento para utilizar nas aulas de língua, de literatura e de cultura.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Diálogo muito pronominalizado

     Acho que foi por causa do exame de Língua Portuguesa de 3º Ciclo (com um caso de pronominalização muito peculiar) que me lembrei deste diálogo.

     Não é coisa inventada. Foi real, ainda que na prossecução de um desafio que ambos os interlocutores quiseram expandir até ao possível.
      E assim resultou:

     Em plena sala de professores, um diálogo entre colegas:
     - Por acaso, terás contigo o DVD do “Clube dos Poetas Mortos”?
     - Tê-lo-ei, por certo.
     - Emprestar-mo-ias, para o passar numa das minhas turmas?
     - Fá-lo-ei com todo o gosto.
     - E importar-te-ias de mo trazer amanhã?
     - Trar-to-ei, sim senhor. Dir-me-ás apenas onde o deixar.
     - Pois… Encontrar-nos-emos por aqui, lá para a hora e meia?
     - Não creio! Deixá-lo-ei, então, no PBX. Pedi-lo-ás quando por lá passares e entregar-to-ão.
     - Ficar-te-ei muito agradecida.
     - Sê-lo-ás para toda a vida!
     E os sorrisos acompanhavam as palavras e os atos.

      Entre os sorrisos de cumplicidade no jogo discursivo dos dialogantes, chegou, por fim, o riso sonoro de uma outra docente que assistia deliciada a esta interação tão preenchida de mesóclises e de tmeses, para bem da pronominalização.

     Fica o exercício complementar: encontrar os antecedentes das pronominalizações. Indicá-los-ia se não tivesse mais do que fazer.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta-feira de cinzas...

      Porque nas cinzas é possível encontrar o renascimento, na fénix da palavra.

      Na arte prédica de Vieira há muito de reflexivo e exemplar a superar o tempo da produção (barroco) - qualquer semelhança com a realidade não é pura ficção.
      A intemporalidade dos sermões é tão evidente quanto o excerto seguinte, na voz de Luís Miguel Cintra, outrora oralmente produzido pelo próprio Padre António Vieira, no ano de 1672, em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses.

Registo Áudio do Sermão de Quarta-feira de Cinzas 
(dito por Luís Miguel Cintra, na Igreja de São Roque)

      Reflexão sobre (o triunfo d)a morte, a transitoriedade e a efemeridade da vida, mais da vanidade humana, parte-se do mote bíblico "Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris" (Génesis, 3:19) para dar lugar à glosa oratória, tornada discurso de intervenção política face à acusação e à acumulação de riquezas; às desigualdades sociais, numa violenta advertência ao poder, nomeadamente o da Igreja.

      No ritmo da voz e da palavra, nestes tempos críticos que nos fazem sentir mais mortos do que vivos, fica o pensamento de Vieira: "Se levantados, vivos; se caídos, mortos; mas ou caídos ou levantados, ou mortos, ou vivos, pó: os levantados pó da vida, os mortos pó da morte" (cap. IV). Bom era que quem tem poder se visse pó presente, para que não nos tornasse já em futuro pó da morte nesta vida.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Discursos...

    Porque as dúvidas se impõem, quando as definições não são claras.

    Assim mo foi apresentado. Desta forma respondo: com discurso, bem direto.

    Q: Não consigo perceber muito bem a diferença do discurso indirecto-livre e a do discurso directo livre. As definições que encontro parecem muito pouco claras. Será uma questão de moda por causa da escrita dos Saramagos e dos Lobos Antunes? 

   R: Diria por causa desses autores e de outros que pretendam refletir na escrita matizes que a própria oralidade promove, seja para os casos de narrativa oral seja para registos mais elaborados que procurem desenvolver relações e confluências discursivas ou mesmo efeitos de compresença de vozes narrativas distintas (polifonia).
    É certo que tem sido mais habitual e tradicional a abordagem de três formas de relato do discurso: o direto, o indireto e o indireto-livre. No entanto, não só os relatos orais exploram bem o que é uma junção / aproximação / ambiguidade entre o discurso direto de quem relata e de quem é citado como ainda a narrativa literária - marcada pela dimensão reflexiva, de comentário e interação com o narratário - repesca essa estratégia tendencialmente oral para o escrito.
    Os autores citados são um bom exemplo disso, tanto no plano dos romances como no género da crónica.
   Por exemplo, no caso de Saramago e do Memorial do Convento, é possível detetar essa variedade discursiva, essa polifonia de vozes num romance que, num só coro, deixa ouvir a natureza dialogal (interativa, poligerada) e dialógica (convocando para um só enunciado reflexos, ecos, sinais de uma voz plural) da linguagem e da comunicação.
     Perante um narrador que 
       a) assume declaradamente a variedade de perspetivas, de pontos de vista, de focalizações sobre situações, lugares, personagens e o próprio tempo (ora com um pé no século XVIII ora com outro no século XX); 
       b) se implica na narrativa e reflete sobre a própria narração e/ou o ato de escrita; 
      c) cita de forma múltipla e diversificada os pensamentos e as palavras das personagens que constrói, parece ver, quer atingir / transformar (pela crítica) ou com as quais vai solidarizar-se (pela empatia criada); 
        d) se compromete com uma versão crítica, não oficial da História na história que inventa;
       e) simula frequentemente uma espécie de interação com o próprio narratário (explicitamente presente no discurso narrativo),
     adiantam-se já muitas razões para variação e riqueza vocálicas. O discurso narrativo, em termos de composição, permite gravar vários comportamentos verbais dos falantes (com os diferentes registos e/ou traços específicos), geridos intencionalmente pelo narrador. 
      Neste sentido, cabe aqui falar das principais formas de representação e/ou reprodução dos discursos (no discurso narrativo), todas elas a poderem ser revistas no romance considerado:

(Clicar na imagem para reprodução completa das modalidades de discurso: direto, indireto, indireto-livre, direto-livre)


     Riquezas, complexidades que sublinham a singularidade na expressão romanesca, narrativa de vários escritores (de que José Saramago e António Lobo Antunes são exemplo), além da estratégia diversificada e matizada dos relatos orais dos falantes (por exemplo, com ironia, com apartes, com encaixes de comentários, com a desconstrução do discurso e da linguagem, com a coloquialidade e a aproximação ao narratário, entre outros).

domingo, 20 de junho de 2010

Porque há ministras que sabem o que dizem...

     Em horas de tristeza, ainda há palavras, discursos que deixam esboçar alguma lágrima de alegria.

     Esta foi a sensação no final de um discurso de Gabriela Canavilhas (Ministra da Cultura) que teve tudo menos o tom fúnebre que, naturalmente, se impunha à morte de José Saramago.
     Natural foi mais o registo de homenagem, de cerimónia ao Homem, na constatação de uma velhice de mãos dadas com a infância; no ecoar de uma obra que se fez qual hora de conto ("Era uma vez..."); no constrangimento de uma morte que tanto celebrou a vida, lembrando a avó Josefa (que, aos noventa anos, dizia que o "mundo é tão bonito e eu tenho pena de me ir embora") ou o avô Jerónimo (que se despediu das árvores que havia plantado e chorou por saber que não mais as veria).
     Um fim com a solenidade merecida, não por um escritor, mas com o escritor; um recomeço com a Literatura, o Homem e o Ambiente, tomando o Verbo no princípio.


      «Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra, um soldado maneta, uma mulher que tinha poderes, e um padre que queria voar numa Passarola e que morreu doido;
      Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;
      Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;
       Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;
       Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram duas pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.
      Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.
      Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.
     A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.
    Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem.»
(excerto do discurso)

     E com palavras simples tanto se disse.

     Gostei do discurso a um Homem de escrita e pensamento universais. Por isso, obrigado, Senhora Ministra.