domingo, 4 de outubro de 2015

Sem cor..., mas sem ser nêspera

      A propósito de uma pequena narrativa de Mário-Henrique Leiria, com tanto de atualidade e num dia que se quer sem nêsperas (ou magnórios, num registo mais nortenho).

      Hoje é dia de grande decisão para os próximos tempos (que se anunciam algo conturbados).
     Bom seria que todos contribuíssem para o melhor do país, saindo da comodidade que os faz ficar em casa, protegidos do mau tempo que hoje se vai fazendo sentir. A abstenção é "um partido" cuja participação favorece a percentagem de um vencedor que, eventualmente, não interessa ver governar.
      Não vá o diabo tecê-las e ainda aparece uma Velha...

A NÊSPERA

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

                                Mário-Henrique Leiria,
                               in Novos Contos do Gin (1974)

       Porque não quero a Velha (do tempo mal passado), não vou fazer de nêspera: nem fico deitado nem calado, "a esperar o que acontece". Para ficar de consciência tranquila, vou votar, na convicção de que não o farei em quem me roubou nos últimos anos nem em quem, antes, (também) tinha deixado o país na pior das condições (legitimando que os que se seguiram aplicassem uma austeridade cega, com vantagens mais do que duvidosas para o comum dos cidadãos). Posso andar sem cor política, porque as certezas que tinha neste campo tornaram-se desilusões. Voto sem ilusão e sem cor, mas com o inconformismo que o olhar matreiro e a voz de Mário Viegas trouxeram à escrita do texto de um outro Mário.

      Depois de tanta sondagem e tanto discurso inconsistente ao longo dos últimos tempos, era bom que o final deste dia desse em árvore de fruto feita de verdadeira alternativa e com a cor da esperança (tão arredada da maioria dos que trabalham séria, honrada e responsavelmente neste país, contando os parcos euros que não chegam para as contas do mês, enquanto outros se lambuzam com os milhões que não deviam ter nas mãos).