domingo, 5 de novembro de 2017

Voltando à(s) coesão(ões)

     O fim de semana permanece como tempo de trabalho para muitos professores.

    Porque há testes ou trabalhos para corrigir, matérias para preparar, fichas para produzir, leituras a fazer,... quando o ritmo da semana é alucinante e insuficiente: não dá para tudo o que cumpre ser feito junto dos alunos (e não só). 
    Vale o facto de este também ser o tempo de reencontro(s) com propósitos formativos.

    Q: Vítor, qual o mecanismo de coesão presente no enunciado "Poesia 2, de J. Sena, estende-se por 900 pp. (...) cuja escrita corresponde ao tempo de publicação dos seus LIVROS, desde "Peregrinação" até "Exorcismos"? O nome "livros", relativamente aos títulos enumerados, é um elemento que garante a coesão lexical - interfrásica - temporal - referencial? Eu digo lexical; porém, há quem aponte para a referencial. Serão as duas? Quando puderes, diz-me o que achas.

     R: Olá. Viva.
    A propósito das questões de coesão, tive já oportunidade de me pronunciar nesta "carruagem", particularmente acerca da noção de coesão referencial e de coesão lexical. Estas últimas concorrem para a construção de uma cadeia de referência num texto / segmento textual, mas só se pode falar de coesão lexical quando o foco do mecanismo linguístico utilizado se circunscreve ao uso do léxico / vocabulário.
   Ora, no caso em concreto, há coerência referencial entre 'livros' e os títulos mencionados, sendo todos estes termos constituintes de uma cadeia de referência, com anáforas de natureza nominal. Que esta última se constrói com base no léxico também não há dúvidas (até pela relação hiperonímica de 'livros' face aos hipónimos assumidos pelos títulos dos livros referidos), por mais que se trate de um caso de correferência não anafórica.
     Portanto, conjuga-se aqui a existência de uma cadeia referencial (coesão referencial) apoiada em léxico (coesão lexical). Só quando a primeira se faz em termos estritamente mais gramaticais (pronomes, determinantes, advérbios, entre outros) é que se fica pela designação de coesão referencial (onde cabe falar de anáforas, catáforas, deíticos, construções elípticas, por exemplo).
      Pensando num exercício de escolha múltipla, não colocaria como hipóteses a selecionar as duas atrás mencionadas, pois ambas são validáveis pelo enunciado em análise, com a segunda (a lexical) a poder estar também implicada na primeira (referencial).

      Neste sentido, pode dizer-se que a coesão referencial é uma das propriedades textuais mais genérica, pela sua natureza léxico-gramatical; a coesão lexical foca- -se, mais especificamente, nas relações lexicais textualmente representadas.