quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Primeiro estranha-se..."

     Lembrando o publicitário, para não esquecer o poeta.

Poster gráfico de Fábio Castro com o slogan pessoano
e a caricatura do poeta feita por Almada Negreiros
    Fernando Pessoa, trabalhador da agência publicitária 'Hora' pelo ano de 1927, produziu um slogan para a empresa Coca-Cola, que pretendia introduzir a famigerada bebida em Portugal. 
   “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” foi objeto de censura, uma vez que ou induzia ao consumo de um produto com elementos de coca (estupefaciente) ou, então, resultava numa publicidade enganosa (isto no caso de o primeiro argumento não ser válido). Assim o justificou o diretor de Saúde de Lisboa de então (Dr. Ricardo Jorge).
   Mais por razões políticas do que sanitárias, a Coca-Cola acabaria por não entrar em Portugal, não tendo a frase publicitária pessoana saído do papel. Foi só cerca de cinquenta anos mais tarde que a baixa lisboeta assistiu à venda do produto numa garrafa de vidro de 0,2 litros, por mais que o mercado português tivesse bastante conhecimento da bebida - ora por já ser vendida em Espanha desde a década de 50 ora por já ser familiar nas então colónias portuguesas de Moçambique e Angola (por via da influência comercial da África do Sul).

     Deste modo, o inicial xarope concebido por John S. Pemberton se cruza com Pessoa - a ponte é a publicidade, que muitos contributos recebeu de vários escritores.