sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Quando deixar não é autorizar nem partir

      "Por mares nunca dantes navegados..."

      É com este verso que me lanço à resposta da questão proposta:

     Q: Na frase “Nas naus estar se deixa, vagaroso, /Até ver que o tempo se lhe descobre”, surgem-me várias dúvidas: (i) “Deixa estar” é complexo verbal, sendo “deixa” auxiliar? Parece-me que cumpre alguns critérios de auxiliaridade (*deixa não estar; deixa-se estar /*deixa estar-se), mas não outros (“deixa que esteja” é possível, por exemplo, embora me pareça que há mudança de sentido); (ii) “nas naus” é predicativo do sujeito, entendendo “deixa estar” como complexo verbal e sendo, portanto, o principal a selecionar semanticamente os complementos? (iii) “vagaroso” é predicativo do sujeito ou modificador?

     R: Primeiro de tudo, há aqui um enunciado cujo pendor literário desafia qualquer perspetiva analítica da língua, no que esta tem de pendor sugestivo e criativo. 
       Depois, recompondo o enunciado na sua ordem mais natural, ter-se-ia a construção 'Deixa-se estar nas naus, vagaroso, até que se lhe descobre o tempo'. Não há aqui nenhum complexo verbal ('deixa estar'), mas a construção 'deixar-se estar' - uma realização transitiva predicativa, na linha de um subgrupo ou subtipo de construções muito particulares, conforme o estudado pelo Professor Joaquim Fonseca sob a designação de 'Predicação do Complemento Direto' (in Estudos de Sintaxe-Semântica e Pragmática do Português, Porto, Porto Editora). Enquadram-se aqui construções de causatividade, como a proposta pelo verbo 'deixar' (X DEIXAR alguém estar > X DEIXAR-se estar), associadas a predicações (estar nas naus / estar vagaroso). Estas predicações, por outro lado, são ainda depreendidas de uma estrutura subjacente, configurável numa redução léxica (deixar-se estar nas naus > ficar nas naus / deixar-se estar vagaroso > ficar vagaroso).
       Assim, o verbo 'deixar' é um verbo principal (causativo), seguido de um pronome na posição de complemento direto (construção acusativa, reflexiva) e de uma construção predicativa configurada como subordinada não finita infinitiva (estar nas naus / estar vagaroso). 
      Vejo o "vagaroso" como uma extensão justaposta da estrutura predicativa 'estar nas naus' ('estar vagaroso' seria um coordenado assindético), circunscrevendo-me ao enunciado proposto. Admito que a contextualização deste último possa trazer uma outra leitura. Sublinho, ainda assim, que todo o raciocínio está apoiado na realização 'deixar-SE + V'.

    E nesta navegação penso noutras frases com outros verbos que também admitem realizações transitivas predicativas: fazer, dizer, declarar, saber. Não sendo padronizáveis ou frequentes, não sendo estas as realizações dominantes, não deixam de existir na língua. Tratá-las-ia, contudo, como exemplos atípicos, não na perspetiva da gramática assente no ensino das regularidades - para isto ficaria por aquelas que o citado linguista considera ser realizações transitivas predicativas em sentido restrito.

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