E para não ficar pelo dizer, cá vai o escrito.
São muitas as questões levantadas numa breve reportagem televisiva difundida pela SIC (no Jornal da Noite de hoje), a qual vale noticiosamente pela insatisfação criada com todo um processo há muito anunciado com fragilidades evidentes. Desde que, com a digitalização das provas moda, se detetaram falhas incontestadas, ficam este ano agigantados os constrangimentos e as dificuldades com a extensão de procedimentos comuns às provas finais de ciclo, bem como aos exames nacionais. E não se pode afirmar, ou mesmo sugerir, que tal tenha a ver com o funcionamento / a inoperância das escolas ou com o desempenho de alunos e de professores.
Não se sustenta a fiabilidade e validade de um processo com sinais declarados de disfuncionalidade, tecnológica que seja, quando acompanhados de uma recentralização e de um sentido de avaliação eminentemente técnico, para não dizer francamente despersonalizado (diria, longe da avaliação pedagógica).
No meio da contestação e da polémica, ouve-se na mencionada reportagem que o processo de classificação ainda não arrancou (ora porque não se acede aos itens digitalizados, ora porque se acedeu e se deixou entretanto de aceder, ora ainda porque não se atribuiu uma senha de acesso); que há professores aposentados convocados para tal; que há troca entre os professores corretores e as disciplinas que lhes estão destinadas; que, por fim, e segundo voz-off , "a tutela já terá alterado o cronograma inicial" (leia-se, um futuro composto a traduzir uma modalidade do não certo, de algum distanciamento face ao dito).
Insustentável é também esta afirmação da reportagem (com a devida modalização) e a legenda complementar, com a afirmação factual (facto concluído, de aspeto perfetivo) de que "a tutela alterou" - inconsistência e incoerência graves no significado associado, por um lado, à relativização de um futuro composto e, por outro, à perfetividade de um pretérito assumido na legenda.
Ainda mais insustentável, a tocar o absurdo e o ridículo, é o objeto da alteração noticiada:
Incredulidade para um elemento de formação de palavra, no mínimo, inusitado (Foto VO)
Um cronograma aponta para a ideia de planificação, programação num / com um calendário. Do grego "khrónos" decorre o elemento de formação de palavras "crono" - associado a tempo. Ou seja, um elemento que a etimologia, a história da língua e a própria formação de palavras convocam como conhecimento fundamental a qualquer comunicador dos média (que deve dominar a sua língua), mas que, na escrita da legenda, resultou no que de mais risível há, numa fronteira muito ténue entre o ambíguo escárnio e o assumido maldizer.
Nem com mitologia grega isto lá foi, nessa alegoria do deus C(h)ronos, frequentemente representado a fazer girar a roda do zodíaco, numa leitura da passagem do tempo. Tanto conhecimento desperdiçado ou desconhecido!
No final, apetece-me dizer que nem "cornograma / cornómetro" existem (muito menos para planificar / medir chifres, hastes, chavelhos ou apêndices animalescos) nem cronogramas deram lugar, nos dias de hoje, a exemplo de metátese do som [r]. E porque a reportagem em causa não deixa, acima de tudo, de tratar de questões de educação no país, tudo isto se revela muito triste e escusado (porque daqui se cai facilmente no ridículo de assuntos que têm de ser levados muito a sério). No mínimo, bastava um editor ou alguém competente a verificar o que se escreve na televisão.

Estás muito ativo 🤣🤣🤣
ResponderEliminarAção trágico-cómica ou cómico-dramática! Valha-me Deus!
Eliminar