Isto está a ficar mais comum e abrangente do que o desejável.
Reconheço que há umas tragédias mais avassaladoras do que outras. As provocadas pela própria natureza são, por norma, tão incontroláveis e devastadoras que fazem pensar nessa condição humana que Camões já designou como a de "fraco humano", numa consciencialização de um "bicho da terra tão pequeno" face à grandiosidade das forças que o dominam.
Foi na sequência de uma destas, ocorrida na Venezuela, que foi noticiado o salvamento de um homem, depois de ter ficado uma semana soterrado nos escombros de um centro comercial. Uma equipa portuguesa esteve envolvida nesse processo, resgatando a vítima de um incidente que tinha tudo para ser fatal. Um caso feliz, no meio da desgraça.
Trágico também é o que se dá a ler nas legendas televisivas, de que é exemplo o caso seguinte:
No meio de tanta desgraça, importa salvar a língua para o seu uso devido, "Doa a quem doer" (foto VO)
Não se trata de troca de letra, de ausência dela ou de confusão resultante entre os planos gráficos e fónicos. É letra a mais, para não dizer que é afixo revelador de discordância sintática, entre um sujeito na forma singular (Equipa portuguesa) e uma forma verbal no plural a abrir o predicado (salvam).
Por mais que o nome coletivo implique a significação quantificativa plural, a sua forma singular determina a concordância em número no singular ('Equipa portuguesa salva Hernán'). Daí o 'm' final de 'salvam' resultar numa leitura muito crítica de um afixo flexional de pessoa-número (terceira pessoa do plural), com implicações sintáticas (de concordância) e indicador de agramaticalidade.
Entre os erros que vão sendo assinalados neste blogue, os de natureza sintática começam a ser uma constante bem mais inexplicável e indevida no uso dos media. Uma tragédia.

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