terça-feira, 3 de maio de 2011

A aumentar... nem sempre a gente se entende.

     Há, de facto, na língua portuguesa, situações ou casos muito complicados, por mais repetidos que sejam na exemplificação de alguns mecanismos ou processos linguísticos, logo nos primeiros anos de aprendizagem formal da língua.

     Esta foi a reflexão que me surgiu quando me foi lançada esta questão:

   Q: Como você explica a seus alunos a formação de termos aumentativos, como é o caso de 'canzarrão', 'gatarrão' e 'casarão'? Acha que são casos de derivação sufixada?

     R: Reconheço a dificuldade, desde já, na explicação destes casos, em termos morfológicos. Ainda que sejam habituais na exemplificação do grau aumentativo dos nomes, por segmentação morfológica dificilmente se escapa a uma implicação de conhecimentos dos quais o falante comum já não tem forte consciência. Aponta-se para alguma irregularidade em termos de formação, o que poderá tender para o processo de lexicalização de algumas das palavras.
     Começando por 'canzarrão', trata-se de um caso que evidencia a marca do Português enquanto língua proveniente do latim: o radical latino 'can(e)-'. O sufixo '-ão' é comum e, entre outros valores, é utilizado com sentido aumentativo. Do que resta da segmentação é um sufixo, por uns estudiosos perspectivado como de substrato pré-romano  e por outros tomado como de origem basca ('-arro' / '-arra' / '-orra', presente em 'bocarra', 'cabeçorra'). Nesta linha, ter-se-á ainda o interfixo '-z-'. Em síntese, tudo parece apontar para o facto de se estar perante uma palavra derivada por sufixação, mas com uma sucessividade faseada na derivação (cão > *canzarro > canzarrão) - o que não andará distante da derivação de 'homenzarrão' (< *homenzarro < homem) e de 'gatarrão' (<*gatarro < gato), neste último caso sem a necessidade do interfixo.
   Quanto a 'casarão' (que também convive com a forma dicionarizada 'casão'), há maior regularidade nos processos e nos constituintes morfológicos a considerar: à base 'casa' acrescenta-se o sufixo '-ão', mediado pelo interfixo '-r-'.
      Perante isto, tremo só de pensar que algum aluno esteja na idade dos 'porquês' e tudo queira saber.

   Pela complexidade verificada, estes são casos que não deverão ser abordados na lógica das regularidades da língua: há exemplos mais pacíficos na sistematicidade de processos e na regularidade dos afixos. Pelo menos, são exemplos que contemplaria mais na perspectiva do trabalho do léxico do que na do processo de formação de palavras.

Sem comentários:

Publicar um comentário