segunda-feira, 30 de maio de 2011

O ciclo da História e do Tempo

      Com a passagem do tempo, descobre-se que o ciclo da História se repete...

     Garrett, nas suas Viagens na Minha Terra (1846 - cap. XXXVIII), reconhece a "Admirável condição da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe!". Contudo, quando o longe ainda está tão perto, torna-se incompreensível que se apoie e defenda o indefensável.
    Com Frei Luís de Sousa (1843), já se devia ter aprendido que um homem, quando "queima" a sua imagem,  caminha iniludivelmente para um tempo trágico, quando este último é, ainda por cima, ameaçado por um passado mal resolvido.
   Não fosse isto suficiente, Eça de Queirós tem a actualidade que se reconhece em toda uma obra que, à diferença de cerca de século e meio, parece ainda um retrato do presente. E, por certo, tomaria qualquer um dos romances ou crónicas como bons exemplos de uma evidência do século XIX (finais) transformada em vidência para o XXI (inícios).
    Relembro, então, o final de Os Maias e essa reflexão de Carlos e Ega tão ao jeito de quem já descrê da nossa elite política e de um destino que surge como fatal:
    
    "– E que somos nós? – exclamou Ega. – Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão...
      Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
      – Creio que não – disse o Ega. – Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor...
      – Resumo: não vale a pena viver...
      – Depende inteiramente do estômago! – atalhou Ega.

    Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança – nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades.
     Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na Terra – porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do «Eclesiastes», em desilusão e poeira.
     – Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna como a dos Rothschilds ou a coroa imperial de Carlos V, à minha espera, para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, que é o único que se deve ter na vida.
      – Nem eu! – acudiu Carlos com uma convicção decisiva. (...)

   – Espera! – exclamou Ega. – Lá vem um americano, ainda o apanhamos.
      – Ainda o apanhamos!
    Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
    – Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
    Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
    – Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...

    A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
    – Ainda o apanhamos!
    – Ainda o apanhamos!

   De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."

    Esta a diferença entre as palavras e os actos, com vantagem para estes últimos no romance. 
     Contemporaneamente ouviram-se muitas palavras; todavia, os actos desdisseram-nas. 
    Há quem fique no sofá à espera do que venha a suceder no próximo domingo. Outros há que gritam e aplaudem os "preparados", os "conscientes", os "coerentes" nas palavras e nos actos que nos levaram ao anúncio próximo de uma bancarrota. E assim fica um país em clima de festa, de animação, numa alegria sinónima da "paz podre" que pode tornar repetível o ciclo da História: não com um mapa cor-de-rosa que nos retire territórios africanos, mas com uma bandeira negra de fome, de desemprego, de dependência financeira e económica, sem solução para um país europeu cada vez mais no fundo.

      ... ainda que esteja nas nossas mãos o poder de não o fazer repetir-se (mesmo que haja nódoas que só o tempo venha a resolver).

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