A observação surgiu perante a estranheza do uso.
É verdade que é mais comum ler-se a palavra sem acento gráfico. Por isso, a mensagem surgiu:
A: Olá, Vítor!
De quem me lembrarei, sempre que me deparar com algo como o que está abaixo?
Guia Geral de Exames 2026: «(...) obrigatoriamente, de atestado médico de incapacidade multiúso (...)»
É por isso que, por muitos olhos que passem no que escrevemos, nunca são demasiados.
Tive de responder a desfazer um pouco a certeza nessa estranheza de um 'multiúso', que faz todo o sentido existir, atendendo às convenções ortográficas e de acentuação gráfica contemporâneas.
B: Bom dia.
As convenções ortográficas, por vezes, são complicadas. Este é um dos casos. Ainda que o uso comum permita a utilização consensualizada da grafia 'multiuso' (com o elemento latino 'multi' e a palavra 'uso' aglutinados), o certo é que, na escrita, há uma regra de acentuação gráfica a determinar que duas vogais juntas em situação de hiato (lidas não como ditongo, numa só emissão de som, mas como vogais diferenciadas foneticamente) fazem com que 'u' seja graficamente acentuado. É o que acontece, por exemplo, com 'reúne', 'saúde', 'suíça', 'país', 'baú' entre outras palavras.
Assim, convivem as escritas 'multiuso' e 'multiúso' na língua portuguesa: a primeira, na consciência morfológica e etimológica da (re)composição de um elemento latino com uma palavra atual; a segunda, na ativação das convenções de ortografia e acentuação gráfica. Importa, portanto, que a escrita de uma ou de outra formas surjam coerente e consistentemente nos textos.
Muito uso com ou sem acento - um caso de liberdade na acentuação gráfica (montagem VO)
Pronto: lá terão que se lembrar de mim na complexidade das relações fonético-grafológicas da nossa língua em combinação com a perspetiva morfológica e algum toque de história da língua e etimologia em deriva.

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