quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Dos canoístas e da modalidade hoje tão falada

    Em dia de medalha de prata (a saber a ouro) nos jogos olímpicos, com Fernando Pimenta e Emanuel Silva a sagrarem-se vice-campeões olímpicos em canoagem, há quem não saiba referir-se à modalidade.

    Por influência certa do termo 'canoísta', hoje mais do que uma locutora, em mais do que um canal televisivo, referiu-se ao feito do '*canoísmo' português.
      A associação das olimpíadas à cultura grega não tem correspondência com a origem do afixo para a designação da modalidade em causa.
      A partir de 'canoa' forma-se 'canoagem', pelo acrescento do afixo (sufixo) '-agem' - um elemento morfológico com proveniência múltipla:

i) do francês '-age', que permite a formação de nomes ora deverbais ora denominais, ou da influência provençal '-aitge', de base masculina, que se constituiu como empréstimo pelo século XIV e, por vezes, se associou ao elemento latino '-atĭcu-' - daí palavras como 'bagagem', 'barragem', 'carruagem', 'coragem', 'homenagem', 'hospedagem', 'linguagem', 'linhagem', 'mensagem', 'paisagem', 'passagem', 'personagem', 'plumagem', 'portagem', 'selvagem', 'vantagem', 'viagem'; 
ii) da terminação casual genitiva do latim '-go, ĭnis' presente em nomes como imagem (< imāgo, ĭnis), voragem (< vorāgo, ĭnis), cartilagem (< cartilāgo, ĭnis); das terminações conexas de nomes obtidos a partir da conversão de adjetivos construídos no latim com '-atĭcu-' (selvagem < selvatĭcu- < selva), os quais resultaram também, em via erudita, em algumas palavras com a terminação '-ádego', '-ádigo' e '-ágio'.
iii) de construções associadas a empréstimos de outras línguas, por sua vez já marcas pela recursividade de elementos e/ou pela combinação de processos morfológicos: percentagem (< provém do inglês 'percentage', por sua vez, obtido da expressão latina '[per][centum]' acrescida do afixo [agem].

     A produtividade do sufixo em questão revê-se na recorrente utilização no âmbito da formação de nomes:
. pela vulgarização do sufixo na construção de deverbais (decorrentes de verbos com a vogal temática '-a-', isto é, da primeira conjugação): abordagem (< abordar); açambarcagem (< açambarcar), acoplagem (< acoplar), adoçagem (< adoçar), aparelhagem (< aparelhar), aterragem (< aterrar), cobreagem (< [a]cobrear), estiagem (< estiar), estocagem (< estocar), galinhagem (< galinhar), gatunagem (< gatunar), lavagem (< lavar), matutagem (< matutar), postagem (< postar), secagem (< secar), soldagem (< soldar), vadiagem (< vadiar), zincagem (< zincar) - exemplos que traduzem o significado de ação, processo, estado, resultado da situação relacionada com o verbo de base; 
pela aglutinação do afixo na construção de nomes deverbais associados à segunda conjugação verbal: moagem (< moer);
. pela derivação associada a deadjetivais (particularmente na variedade do Português do Brasil): sacanagem (< sacana), bobagem (< bobo);
. pelo recurso na formação de vários denominais e/ou depredicativos, frequentemente com um sentido
       a)  coletivo, com ou sem registo pejorativo: costumagem / libertinagem (< costume / libertino), folhagem (< folha), gatunagem (< gatuno), malandragem (< malandro), pelagem (< pelo), politicagem (< política), ramagem (< ramo), utensilagem (< utensílio), vadiagem (< vadio), vitragem (< vitral);
       b) intensificador: voltagem (< volt);
       c) locativo: pastagem (< pasto).

       A canoagem é, portanto, designação formada segundo a produtividade do afixo'-agem' na formação de nomes denominais. Não é o caso de '-ismo', mais relacionado com a origem grega ('-ismós,oû) para formar nomes a partir de verbos gregos terminados '-ízó' e, por vezes, em '-ió', numa relação análoga com o afixo latino '-ismus,i': catequizar / catecismo (< katékhízó:katékhismós); helenizar / helenismo (< hellenízó:hellenismós); para construir, na área da medicina, nomes denominais que servem para designar agentes tóxicos (álcool > alcoolismo); para formar nomes relativos a movimentos sociais e/ou ideológicos, culturais, espirituais, profissionais na base de outros nomes (África > africanismo, anarquia > anarquismo, Aristóteles > aristotelismo, Buda > budismo, biografia > biografismo, enciclopédia > enciclopedismo, moda > modismo, símbolo > simbolismo, técnica > tecnicismo); para obter nomes deadjetivais (brasileiro > brasileirismo, tropical > tropicalismo).
    Ainda que a relação entre os sufixos '-ista', '-ico' e '-ismo' seja próxima não se pode concluir da implicação cognata dos afixos no que possa constituir uma família de palavras e/ou morfológica. Há relações de seleção a caraterizar os sufixos reveladoras de muita diversidade e complexidade quanto à atuação destes com as  suas bases (derivantes).
      Assim, ao canoísta associa-se a canoagem e não o '*canoísmo' hoje tão divulgado.

    Fica então um registo do feito histórico e olímpico, não compaginável com feitos linguísticos e/ou morfológicos televisivamente difundidos.

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