quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Maria e Madalena (ou a revisitação de... um pecado?)

      A vez do feminino, no lugar que foi do masculino.

      Almeida Garrett focalizou a personagem masculina de Manuel de Sousa Coutinho, tornado Frei Luís de Sousa, nessa espécie de anti-herói romântico que, tendo desafiado o destino (ao incendiar o seu próprio palácio), sofreu as consequências de um ato patriota (é certo), mas instigador e questionador do que era a ordem estabelecida.

Montagem com fotos de João Tuna, a propósito da representação 'Madalena' (do Grupo Ensemble)

     A proposta de encenação do texto dramático Frei Luís de Sousa, levada a cabo por Jorge Pinto, incide num título focado na figura feminina: Madalena. A interpretação de Emília Silvestre para esta personagem romântica aposta na dimensão psicológica de uma mulher em constante conflito consigo mesma, atormentada pelas memórias do passado; pela presença num casamento perturbado pela existência de um outro (anterior) sem provas reais de que este tivera um fim; por um tempo de nascida felicidade incompleta, adoentada e sem condições de vingar.
     D. João de Portugal - dado como morto em terras de África (desaparecido na batalha de Alcácer Quibir) - é o espectro dos medos de D. Madalena de Vilhena, dominada por pesadelos e premonições matizados por um sentido de culpa impeditivo da vivência presente ou da perspetiva de futuro; é a fantasmagórica concretização de uma ameaça persistente e do dedo inquisidor do aio Telmo Pais; é o "Ninguém" fatal que destrói qualquer possibilidade de felicidade no casamento de Manuel de Sousa Coutinho; é o romeiro portador da trágica consciência de uma relação bígama e de um sentimento adúltero já e só vivido em pensamento.
    Com Madalena morta para o mundo social, com Frei Luís de Sousa regressado ao mundo espiritual, com Maria fisicamente debilitada pela tuberculose e moribunda, o final trágico de toda uma família impõe-se, simbolicamente conotada com a expressão dos perigos de uma pátria revista em situação crítica.

Cenário no claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória - Foto (VO)

      A peça do grupo Ensemble, estreada em 2013, foi (re)posta em cena no Mosteiro de São Bento da Vitória, buscando a identificação do texto romântico com um público contemporâneo mais jovem e sugerindo uma atmosfera de terror, "hard rock" e "gore" ("death metal"), capaz de “excitar fortemente o terror e a piedade ao cadáver das nossas plateias” (segundo as próprias palavras de Garrett, na 'Memória ao Conservatório Real'). 

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