domingo, 15 de junho de 2014

"... sobretudo cansaço"

      Hoje, lembrei os versos do poeta...

    Cumprido o dever e satisfeito o desejo, o balanço do dia de ontem foi muito positivo. Ainda assim, e talvez por isso também, recupero as palavras de Álvaro de Campos:


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...

9-10-1934

in Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa, Lisboa, Ática, 1944

     Lembro especialmente o verso que abre, e também os que fecham: "Íssimo, íssimo, íssimo, / Cansaço...
     Tanto há ainda para fazer, que é preciso contrariar esta sensação.
   Nada que um cafezinho não resolva, numa canequinha que passa a ser de estimação:


     Assim, fica aqui o antídoto para o cansaço e o agradecimento para quem cuidou e pensou na minha autoestima (a precisar de profundo restauro).

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