sexta-feira, 27 de maio de 2016

Lembrança(s)...

     Seja um exercício mental seja um ato ou gesto de dádiva.

     É, por certo, um registo de memória, por dois anos que foram de trabalho, de cumplicidades e de momentos também de convívio que o tempo não apagará. Dizem alguns que foi período de transformação: dos medos provocados nos primeiros dias às experiências comuns dentro e fora da escola; às leituras que foram sendo desveladas; às partilhas de saber, que foram libertando o sentir; às alegrias e ousadias que fizeram dos tampos das secretárias o palco (de evocação cinéfila) para o reconhecimento, para o agradecimento mútuo pelo bem que soubemos fazer (par)a todos.
      É, ainda, depois de um ano afastados, a prova de que algures, no imaginário conjunto, há lugar para as proximidades que a afetividade faz perdurar. O que foi ensinado ficou seguramente matizado pela compreensão e pelo colorido dos sorrisos, muitas vezes surgidos no meio do cansaço, do sono e da vontade de buscar o sol (que as palavras, as frases, os longos parágrafos e as páginas dos livros nem sempre deixavam brilhar). O que se aprendeu, o tempo dirá para que servirá.
   É o sinal repetido da generosidade que sempre existiu, porque também alguém a soube alimentar, para que se tornasse marcante nas pessoas que estes jovens têm sido.
    É a oferta desinteressada de um grupo de alunos que, entusiasticamente, recebeu um professor e o fez sentir brilhante, numa noite e num espaço que o fizeram sentir-se em casa (como se nunca a tivesse deixado).

      Ao 12º 8, meu no 10º e no 11º anos. Mais uma turma especial para o meu currículo dos afetos. Muito obrigado pela companhia, pelos abraços e pela(s) lembrança(s) - também coloridos com o azul das "letras", tão próprio às humanidades, às línguas e literaturas.
     

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Uma questão de intenções...

    Depois de um feriado à quinta, a sexta-feira é uma tentação... de más intenções.

    Talvez, por isso, seja bom contrariar as vontades e ficar no plano das boas intenções.

    Q: Olá, Vítor! Mais uma dúvida: como se classifica, quanto ao processo de formação, a palavra 'bem-intencionado'? Obrigada.

   R: A partir da palavra "intencionado" forma-se bem / mal-intencionado, pelo acrescento de um advérbio. A uma palavra (intencionado) junta-se outra (bem). Trata-se, portanto, de um exemplo de composição, quanto ao processo de formação de palavras.

(Clicar na imagem para ampliar)

  Considerando o subprocesso de formação, "bem-intencionado" é um composto morfossintático. conforme se evidencia pela sequencialização compatível com a propriedade de combinação, ordenação e flexão dos constituintes sintáticos (verificável numa sequência frásica do tipo 'Eles mostram-se bem intencionados quanto aos projetos do grupo' / 'Elas estáão bem intencionadas relativamente ao novo emprego').

      Bem ou mal, a verdade é que tinha tenção de fazer uma "ponte"; mas "outro valor mais alto" se levantou.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Valor (não restritivo) dos adjetivos

      A questão, hoje, tem contornos diversificados, atendendo à ordenação das palavras em causa.

      Tudo começa com a pergunta formulada, com tanto de certo como de errado (a fazer lembrar um apontamento anterior).

   Q: Olá, Vítor. Diz-me só uma coisa: o valor não restritivo do adjetivo é como nas subordinadas adjetivas não restritivas, com vírgulas, certo?

      R: Em parte sim, em parte não.
       A associação faz sentido no caso dos adjetivos posicionados à direita do nome - a posição típica no português (contrariamente, por exemplo, ao inglês, que vê o adjetivo à esquerda do nome). Quando colocados entre vírgulas, apresentam valor não restritivo (como nos sublinhados de 1a-c), apontando para uma propriedade que não contribui para a construção específica ou particular de uma dada referência nominal:

          1. a) O lixo, inesgotável, deve ter um tratamento seletivo.
              b) O Homem, racional, por vezes age animalescamente.
              c) Não gosto desse livro, aborrecidíssimo.

         Além destes casos, devem ser entendidos como adjetivos de valor não restritivo aqueles que, não estando separados por vírgula, se posicionam à esquerda do nome (antecipação do adjetivo). Trata-se de uma posição marcada no português (contrariamente à habitual ou tipicamente usada na sintaxe do português - a da posposição face ao nome), para dar conta de sentidos mais conotados, mais modalizados ou de matiz mais qualitativo / subjetivo.
           Compare-se o valor restritivo de 2a e 3a com o uso não restritivo de 2b e 3b:

           2a) A biblioteca antiga está a precisar de obras. 
                                                 ('antiga' no sentido de velha, antiquada - uma biblioteca que é antiga)
           2b) A antiga biblioteca deixou saudades aos que a frequentavam.
                    ('antiga' no sentido de inexistente)

                   3a) Ele ajudou o homem pobre.
                                                  ('pobre' no sentido de humilde, necessitado - um homem que é pobre)
          3b) Ele ajudou o pobre homem.
                                     (´pobre' no sentido de coitado, infeliz, independentemente de até poder ser rico)

         Em 2b e 3b há, portanto, sentidos derivados em jogo (por efeitos conotativos e/ou modalizados) como, aliás, se pode verificar no azulejo à direita, na segunda ocorrência de 'rica'. Ao sentido denotativo de 'mãe rica', numa realização restritiva, contrapõe-se o modalizado (afetivamente marcado) de 'rica mãe', numa ocorrência não restritiva e numa anteposição que explora dimensões significativas múltiplas (nomeadamente, as mais expressivas, irónicas ou qualitativamente orientadas).
    Sem vírgulas, estas realizações são também não restritivas, uma vez que não restringem, particularizam a referência nominal; antes a modalizam, salientam qualitativamente uma propriedade na subjetividade da avaliação, avaliação ou depreciação.

         Entre uma questão difícil (objetiva, restritiva e denotativamente encarada) e uma difícil questão (subjetiva, não restritiva e conotativamente marcada), fico-me por esta resposta, sem adjetivação, para não complicar mais a situação.

domingo, 15 de maio de 2016

Parábola!

   Acho que já escrevi isto várias vezes: qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.

    É verdade que a ficção ultrapassa a própria realidade. O problema maior é quando ela nos faz lembrar esta última, não nos libertando do que de mais real existe.
     Transcrevo o texto, tal como me apareceu, sem tirar nem pôr, como diz o povo, sempre que quer atestar a validade ou verdade dos factos. Estar escrito em português do Brasil só dá para concluir que há muitos mais a sentir o mesmo, e noutro continente. Nisso, nem o oceano nem a língua nos separam.

     "Todos os dias, uma formiga chegava cedinho ao escritório e pegava duro no trabalho. A formiga era produtiva e feliz.
    O gerente marimbondo estranhou a formiga trabalhar sem supervisão. Se ela era produtiva sem supervisão, seria ainda mais se fosse supervisionada. E colocou uma barata, que preparava belíssimos relatórios e tinha muita experiência, como supervisora.
    A primeira preocupação da barata foi a de padronizar o horário de entrada e saída da formiga. Logo, a barata precisou de uma secretária para ajudar a preparar os relatórios e contratou também uma aranha para organizar os arquivos e controlar as ligações telefônicas.
  O marimbondo ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com indicadores e análise das tendências que eram mostradas em reuniões. A barata, então, contratou uma mosca, e comprou um computador com impressora colorida. Logo, a formiga produtiva e feliz, começou a se lamentar de toda aquela movimentação de papéis e reuniões!
   O marimbondo concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga produtiva e feliz, trabalhava. O cargo foi dado a uma cigarra, que mandou colocar carpete no seu escritório e comprar uma cadeira especial... A nova gestora cigarra logo precisou de um computador e de uma assistente a pulga (sua assistente na empresa anterior) para ajudá-la a preparar um plano estratégico de melhorias e um controle do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se tornava mais chateada.
     A cigarra, então, convenceu o gerente marimbondo, que era preciso fazer uma pesquisa de clima. Mas, o marimbondo, ao rever as finanças, se deu conta de que a unidade na qual a formiga trabalhava já não rendia como antes e contratou a coruja, uma prestigiada consultora, muito famosa, para que fizesse um diagnóstico da situação. A coruja permaneceu três meses nos escritórios e emitiu um volumoso relatório, com vários volumes que concluía: Há muita gente nesta empresa!
     E adivinha quem o marimbondo mandou demitir? 
    A formiga, claro, porque ela andava muito desmotivada e aborrecida." 

   De autor desconhecido, esta parábola (ironicamente intitulada da demissão da formiga desmotivada) tem muito que se lhe diga nestes tempos de multiplicação de tarefas, sobrecarga de trabalhos, retórica de dispositivos e procedimentos que em nada promovem a pretensa eficiência (e muito menos a eficácia) das organizações. Na ânsia de tudo se fazer, tudo acontece e pouco ou nada se muda. Uma coisa é estar ocupado; outra, ser produtivo.
    Quando o propósito é mostrar que se faz, sem se agir com vista a um foco ou à abordagem de uma questão crítica específica, é natural que a desmotivação e o desinteresse surjam e o sentido das coisas se perca.

     Estou como a formiga, a desejar ser maribondo (vespa) ou cigarra. Isto deve ser porque amanhã é segunda-feira!

sábado, 14 de maio de 2016

Desconcerto(s) do(s) tempo(s)

     Camões tratou o tema do desconcerto do mundo na sua poesia. E lá teria as suas razões para o fazer.

      Talvez muito pouco tenha mudado desde aí, no que ao tema diz respeito.
     Continuam os "bons" a passar "grandes tormentos"; os outros a viver um mar de contentamentos. Nada de extraordinário, por certo, pois, na cadência da vida, sempre houve quem quis marcar um ritmo - desarmónico - e compor sinfonias - patéticas, por certo, porque a destempo, sem sentido e causadoras de algum sofrimento (para os ouvidos, e não só). Para mim, a música é outra, sempre mais voltada para o prazer melodioso que a cantiga do tempo me possa dar.
   Escreve o nosso poeta quinhentista que "Correm turvas as águas deste rio", metaforicamente sugerindo o curso da própria vida. E eis senão quando, ao ler o verso "Passou o verão, passou o ardente estio", uma nota explicativa de um manual de Português aponta para o significado de "estio" como sendo a primavera!!!!! Querem ver que a época estival passou a ser primaveril?! Espantoso!
  Muito recentemente, num programa televisivo, também houve quem quisesse mudar o sentido e a forma da palavra, paronimicamente associando 'estio' a 'estilo' e recriando um provérbio - que deixava de ser 'Dezembro frio, calor no estio' para passar a ter mais... estilo (* "Dezembro frio, calor no estilo"). Ora, agora, confronto-me com o manual a assumir que 'estio' é primavera. Consultando um dicionário (o Dicionário de Português da Priberam, por exemplo), lê-se que se trata da estação do ano intermédia à primavera e ao outono; noutro (Dicionário Online de Português), refere-se o verão, o tempo quente e seco ou, figurativamente, a idade madura (o estio da vida); um outro ainda (Infopédia - Dicionários Porto Editora), indica-se o verão e o calor. Fico-me pelos mais imediatamente acessíveis, sem desconsiderar a aprendizagem que há muitos anos recebi (na denominada 'escola primária', dos meus tempos). Ainda, assim, perante o insólito, fui confirmar o já sabido. É sempre preferível a deixar-me levar por certezas infundadas. Conclusão: era melhor que não se fizessem notas explicativas aos textos, quando particularmente elas induzem em erro e, portanto, nada esclarecem.
    Voltando ao citado texto camoniano, "Tem o tempo sua ordem já sabida; /o mundo, não". Concordo com o poeta quanto ao mundo. Do tempo, nem sei que diga, ainda que Camões não devesse saber que há quem queira, nestes tempos, ensinar a desordem do próprio tempo. Lá (não) terá (as suas) razão (ões) para tal!

       Em tempos de primavera a anunciar um estio, ora com dias de sol ora com a ameaçadora chuva, nem a primeira parece já o que foi; nem o segundo já querem que o seja.
       

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Coincidências...

     Isto de o 13 de maio ser a uma sexta-feira resulta estranho, no mínimo.

    Quando se celebra a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima, em 1917, sobre uma azinheira da Cova da Iria, aos pastorinhos (Lúcia dos Santos, Francisco e Jacinta Marto), tudo inspira uma questão de religiosa e respeitosa fé... exceto o facto de, neste ano, o dia coincidir com uma sexta-feira 13.
    Em tempos de tão propagado "milagre do sol" (há fiéis que, há cerca de uma semana, afirmam e descrevem um clarão mais intenso do que o sol, a piscar e girar velozmente, no momento em que a Imagem Peregrina da santa deixa a igreja matriz de Ourém), esta sexta-feira 13 até parece profanação: é a história do milagre português a par de um episódio da Igreja com um Papa e um rei francês (Clemente V e Filipe IV, respetivamente) envolvidos numa maquiavelice e num pacto de contornos muito suspeitos - tanto para eles como para uma ordem religiosa (Templários) que parece ter usado e abusado do poder recebido; é juntar uma santa à bruxaria de Friga (conforme o cristianismo a ditou).
     Estas coincidências parecem sacrílegas. No meio de tanta alvura e intensidade de luz sagrada, o dia também se cumpre com o que de mais pagão e gentio tem a lembrar - como se entre Deus e o Diabo houvesse interseções que escapam à perceção humana, mais preocupada em ver gatos pretos heréticos (tal como Inocêncio VIII, no século XV, os fez constar nas listas do Index inquisitorial) do que felinos de espírito amigável, sociável e identificáveis numa extensão do próprio Homem.
     No discorrer destes pensamentos, outros dois se cruzam:
      - o do autor de Memorial do Convento (1982), entre muitos outros romances;


         - o de uma personagem do mesmo romance, que falou, por certo, como o narrador-autor quis.














 Sábios pensamentos estes, nomeadamente o de Deus que nos visita pelas ações que possamos fazer "cá" - mais do que estarmos preocupados em o ver "lá", nesse campo desconhecido, sem que o melhor seja feito naquele (em) que todos (vi)vemos.

     Fica a hipótese de, para algum azar, hoje poder haver um milagre, como se destas dimensões tão antagonicamente encaradas não resultasse uma complementaridade tão comum quanto a morte e a vida, a tragédia e a comédia, o mal e o bem, o preto e o branco, perder e ganhar. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Questões do 'além' a ficar muito 'aquém'

    Vamos lá compor as coisas...

     Depois de um apontamento sobre a composição de palavras, surge nova pergunta.

    Q: "Além-mar" é derivada ou composta? Eu considero composta, porque não aceito que "além" seja um prefixo, mas já a tenho encontrado como derivada por prefixação.

     R: Sendo 'além' um advérbio e havendo, com alguma recorrência, palavras compostas formadas por um primeiro constituinte pertencente a essa classe (ex.: abaixo-assinado, bem-vindo, bem-querer, mal-estar, mal-humorado, não-agressão), 'além-mar' é, naturalmente, uma  palavra composta morfossintaticamente. Nela estão associadas duas bases (palavras), ambas com existência autónoma ('além' e 'mar'), sendo a primeira um constituinte da composição com acentuação própria (daí a hifenização).        
       Não vejo o que possa estar em jogo na eventual classi-ficação de 'além' como prefixo (e não o é), a ponto de (erradamente) já alguém ter consi-derado 'além-mar' como derivada por prefixação - mesmo considerando alguns casos críticos que possam ser adian-tados no que Celso Cunha e Lindley Cintra designavam como 'pseudo-prefixos' no âmbito da recomposição (com a deriva ou evolução semântica de termos segmentados, como 'auto' em 'automóvel' - o que não sucede com o termo 'além').
    'Além-fronteiras', 'além-mar', 'além-mundo', 'além-túmulo' são exemplos claros de palavras compostas morfossintáticas.

      Para não ir mais além, fico-me 'aquém', só para dar conta de mais um elemento de composição em palavras como 'aquém-mar', 'aquém-fronteiras'.

sábado, 7 de maio de 2016

Nódoa(s)!

      Nem sei se será o melhor pano, mas a nódoa está lá.

    Na discussão atual do financiamento dos colégios e das escolas particulares pelo Estado, os partidos da oposição têm vindo a reagir, de diversas formas, com os argumentos mais impensáveis (sempre orientados para a preservação de uma situação que já foi mais do que alertada e publicamente apontada como dúbia, polémica e adversa). Há mesmo os que "exigem" o respeito dos contratos de associação. Se exigissem respeito por todos e não apenas por alguns, o mundo seria bem melhor, com igualdades menos injustas e com associações mais felizes ao serviço público, sem necessidade de contratos injustos. Pagar com dinheiro público a sobrevivência ou manutenção do ensino privado é, no mínimo, perverso, inclusive na adução, a todo o custo, de um direito de liberdade que só pode ser entendido na radicalidade do seu uso minoritário, seletivo e excessivo. 
     Daí que sejam mais do que oportunos os jogos de palavras a espelhar uma realidade bem iníqua:


     Não quero com isto dizer que sou contra o ensino privado (nalguns casos, muito pontuais, a constituir a única oferta educativa disponível de algumas localidades) ou, como alguém já o defendeu, que, graças a ele, os ricos conseguem entrar nas universidades públicas, enquanto os pobres andam na escola pública para serem empurrados para as universidades privadas - felizmente, a escola pública tem representantes de todas as condições sociais, algo bem típico da heterogeneidade social que a vida dá a (vi)ver; as competências destes são avaliadas e reconhecidas pelo ensino superior público como de maior preparação para a prossecução de estudos académicos (a julgar por algumas notícias lidas nos jornais), e algumas vezes contrariando determinismos sociológicos que teimam em perdurar; muitos ainda são os estudantes que entram na universidade pública e que do ensino público são oriundos, por princípio, sem práticas assumidas de evidente exclusão ou seleção. Por isto, sou dos que se revê na(s) qualidade(s) da escola pública, não obstante alguma que o privado também possa ter. E se a tem, que seja pago por isso e por quem o quer; não pelo Estado, que, desde há muitos anos, vem financiando turmas de alunos que bem podem caber numa escola pública, para não falar da concessão de algumas autonomias na gestão de recursos que o Estado impede ou dificulta ao sistema público - contrariamente ao privado que as tem asseguradas e delas faz bandeira. Assim, este último que se faça pagar, a bem da categorização adjetiva que tem e da liberdade daqueles que nela queiram investir com o dinheiro que a escola pública não tem.
    Nesta medida, muito me espanta que ainda haja quem, a todo o custo e como princípio geral, dê a cara pelo indefensável. Pior ainda quando o moreno da figura feminina não condiz com a preocupação social, argumentada do modo mais infeliz: primeiro, porque uma maior procura da escola pública não deixaria de representar maior necessidade de recursos, com oportunidades de emprego mais ajustadas às condições contratuais do serviço público (pode não dar para o ouro, para as pérolas ou para o solário, mas também não se pecará por alguns ou outros excessos); segundo, porque, contrariamente ao escrito, o que pode estar em causa nunca serão as pessoas, as profissões por elas exercidas ou o estatuto em que se encontram (por mais retórica que a formulação seja, para referir implicitamente os postos de trabalho ou a quantidade de matrículas), até porque todas elas têm de valer bem mais do que qualquer número (que, por sua vez, nada diz sobre o que o caracteriza ou sobre as condições concretas da sua existência); terceiro - e apetece-me dizê-lo à moda inglesa "the last but not the least"-, porque se usa uma só vírgula a separar o sujeito do predicado da frase, bem reveladora do desconhecimento quanto ao emprego deste sinal de pontuação (na variação que o uso de vírgula possa ter, está em evidência uma das poucas incorreções da língua, grave no que à pontuação diz respeito).

     Coisa(s) tão escusada(s)! Se no melhor (?) pano cai a nódoa, é bom que os serviços de limpeza atuem de forma eficaz (se é que me entendem)! Assim espero.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Questões de território

    Não se trata nada de conquistas territoriais; antes, da sua especificação gramatical.

    Logo de manhã começa o dia.

   Q: Olá, Vítor. Diz-me, por favor, se o nome "território" pede complemento do nome ou modificador do nome restritivo.


 R: O termo 'território' não se encontra na tipolo-gia de nomes que seleciona comple-mentos. Neste senti-do, a sua especifi-cação é construída pelo recurso a estruturas que fun-cionarão como modificadores do nome (restritivo ou não restritivo, conforme a construção de referência) .
 Atentando nos segmentos sublinhados nos exemplos seguintes, é possível encontrar sequências representativas de modificadores do nome restritivos (i) e não restritivos (ii):

   i) É preciso marcar o território (que se encontra) sob tutela do estado.
      O território suíço encontra-se dividido em vários cantões linguísticos.
      Há territórios inóspitos à dignidade humana.
    Para além do território terrestre, há quem pretenda dominar o território marítimo e o aéreo.

   ii) Os territórios planetários - terrestre, marítimo e aéreo - têm sido objeto de múltiplas conquistas.
       Cada vez mais se fala de um território, virtual, que ninguém tem e a todos pertence.

        Espero ter ajudado.

      Avancemos para outros territórios!
       

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Eu não digo! Chamou, virgulou.

    Estou sempre a dizer isto, na chamada de atenção para a correção escrita em termos de pontuação.

    Entre os poucos sítios em que a vírgula se impõe, o do vocativo é fundamental.
  Bem digo aos alunos: "Chamou, virgulou". Ainda assim, também pode ser "Virgulou, chamou" ou "Virgulou, chamou, virgulou" - tudo dependente do sítio onde se encontra a sequência do chamamento (no início, no final ou no meio de um enunciado).
    Desconsiderar isto pode representar a afirmação da prática de canibalismo:


     Pode também significar o uso desnaturado da língua escrita ou a razão para eu não dar atenção aos vizinhos, que me possam estar a chamar - depois de saudar -, sem eu dar por isso (é que falta a vírgula, entre 'olá' e 'vizinho', ora pois então!):

Anúncio e cumprimento na abertura do Continente em Espinho (foto VO)

    Isto para não falar no clássico erro do serviço público televisivo da RTP1, com as notícias da manhã. Muda-se a imagem do canal e do programa, mas mantém-se o lamentável erro de há anos:

Imagem de abertura do programa noticioso da manhã na RTP1
 
    Custa colocar uma vírgula, depois da saudação e antes de 'Portugal'?! O que não custará contribuir para a generalização da ignorância! 

    Já era tempo de aprender que, no escrito, a vírgula é uma das marcas do vocativo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Composições... de palavras

      Mantêm-se dúvidas quanto à composição de palavras. Assunto complexo, por certo.

      No seio das palavras complexas (sejam derivadas sejam compostas), a composição (a morfológica e a morfossintática) tem vindo a revelar-se crítica na abordagem que dela fazem. A dúvida colocada é prova disso:

    Q: Vítor, quando puderes, diz-me só por que motivo 'cronómetro' é uma palavra composta morfológica enquanto 'girassol' é composta morfossintática? Ou estará mal?

        R: Nada mal.
       Começo pela segunda: independentemente da convenção ortográfica que requer a grafia dupla 'ss', girassol é um composto morfossintático, na medida em que foram ligadas duas palavras 'gira' e 'sol', com existência autónoma e sem variação nos sons produzidos (seja enquanto duas palavras simples seja como composto).
         O caso de 'cronómetro' é distinto: junta-se o radical 'cron-' ao termo 'metro', encontrando-se entre estes uma vogal de ligação a funcionar como fronteira entre os dois segmentos. Inclusivamente, se forem considerados outros compostos com o mesmo radical (ex.: cronologia, cronograma, cronografia), é possível, pela leitura oral, verificar a variação fónica da vogal sublinhada - dita como [u] e não como [ɔ] em 'cronómetro' ou 'cronodiagrama'). O reconhecimento da existência desta vogal de ligação, no trabalho comparativo dos compostos, permite identificar a composição morfológica. Também 'luso' tem a sonoridade [u] no sublinhado, mas em 'luso-americano' já se volta a ter o som [ɔ]; 'biblioteca' e 'bibliófilo' obedecem ao mesmo contraste (para não falar em 'agricultura', 'agropecuária'e 'agrologia', a revelar maior variedade sonora nessa vogal de ligação).
         Em síntese, poderia então apontar-se para a seguinte sistematização:

(Clicar na imagem para ver maior)

       E, para terminar, registo que, contrariamente ao que já ouvi dizer, a oposição composição morfológica / composição morfossintática nada tem a ver com a ausência ou presença de hífen ('luso-descendente' e 'surdo-mudo' têm-no e são, respetivamente, um composto morfológico e um composto morfossintático), havendo mesmo palavras derivadas com esse sinal gráfico (ex.: 'anti-higiénico).

sábado, 23 de abril de 2016

Prémio Literário Manuel Laranjeira - 1ª edição

   No Dia Mundial do Livro, foi apresentada ao público a 1ª edição do Prémio Literário Manuel Laranjeira. 

   Depois de um interregno de cerca de cinco anos, regressa a Espinho um evento para marcar a atividade cultural da cidade, na projeção de uma das suas figuras maiores e na dinamização da arte de escrita literária.
    Na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva e em parceria com o Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, publicitou-se aquele que vai ser um prémio com periodicidade bienal, visando o incentivo, a promoção e a divulgação da criação literária para autores com idade igual ou superior a 18 anos. São admitidos apenas textos inéditos, escritos em português e de autoria única, na modalidade dos géneros de diário, da carta ou do texto ensaístico, versando um tema da atualidade. A entrega poderá ser feita até ao dia 22 de fevereiro de 2017, na já mencionada Biblioteca e segundo os termos do programa e das regras de participação (abaixo apresentados).
     O prémio pecuniário de 5.000,00€ (cinco mil euros) será atribuído, no dia da cidade de Espinho (16 de junho), no próximo ano, ao autor cujo texto e cuja qualidade de escrita sejam reconhecidos por um júri constituído para o efeito (a saber, um representante da edilidade; o Prof. Dr. Pedro Serra, da Universidade de Salamanca; a Prof. Drª. Maria João Reynaud, da Universidade do Porto; o escritor João Pedro Mésseder e o Prof. Anthero Monteiro).
    A propósito dos géneros considerados (carta, diário, texto ensaístico), contam-se, por certo, aqueles a que o homenageado mais recorreu e que mais o notabilizaram na sua produção escrita. São aqueles aos quais o produtor de um discurso se dedica e se propõe no que é, no que pensa e no que deseja ser ou ter; aqueles nos quais o escritor dá imagem(ns) intencionalmente criada(s), admitindo ao leitor a construção de representações na maior ou menor dependência do sabido sobre quem escreveu; aqueles em que o "eu" pode convocar uma multiplicidade de papéis, conforme a versatilidade da sua personalidade e das suas vivências (das mais consensuais às mais alternativas ou ousadas, das mais individualistas e confessionais às mais coletivamente configuradas num 'nós' que pode ter tanto de convergente como de crítico e dissonante); aqueles em que o 'eu' se pode dar a ler com matizes muito diferenciados, metamorfoseando-se e fazendo do registo tendencialmente autobiográfico uma condição que não contradiz o ficcional, o sentido "mascarado" das emoções, das vivências, dos retratos, das opiniões e das posturas onde o mito de Narciso de se (re)cria em espelhos mais ou menos deformado(re)s.
     A escrita e os textos são um exemplo desses espelhos, onde Manuel Laranjeira se olhou e se deu a ver e a ler. Bastaria lembrar o Pessimismo Nacional (1907-8), enquanto obra de fôlego na índole do ensaio reflexivo sobre a condição de um tempo; as Cartas de Manuel Laranjeira (1943), volume póstumo prefaciado por Miguel de Unamuno, no domínio epistolográfico; o Diário Íntimo (1957), na confessionalidade de um 'ego' inconformado, que anseia pelo que o mundo não lhe parece querer dar - todos a corroborarem a seleção dos géneros e a mostrarem-se como obras ou exemplos textuais inspiradores de um autor na vida de um ser, de um espaço e de um tempo. Desta feita, interessará que os temas a eleger sejam os contemporâneos. E dos mais consensuais aos mais fraturantes, eles estão aí aos nossos olhos, ouvidos e outros sentidos, para motivar reações, visões, escritos ajustados à mediação criativa de quem esteja / está também atento à vida e a faz representar(-se) em texto. Saibamos vivê-la para que a morte não responda por ela.
    Entre os géneros e o tema ficam também o programa e as regras de participação aqui divulgadas:

(clicar em cima da imagem, para ver em tamanho maior)



      Para terminar, em beleza, não pode acabar este apontamento sem deixar de se referir que a sessão de apresentação pública contou com a leitura dramatizada de um excerto da obra do autor espinhense, além de um momento belo e sonoroso, conduzido por um par de alunos da Escola Secundária Manuel Laranjeira, tendo dado a conhecer (tocando piano e cantando) uma ária de registo erudito composta por um contemporâneo de Manuel Laranjeira: Francisco Lacerda ("Tenho tantas saudades").

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Prince...

     Morreu Prince Rogers Nelson ou, simplesmente, Prince.

    “O Artista” ("The Artist"), como era conhecido, foi dançarino, cantor e compositor, um ícone do espetáculo e da cultura musical americanos, fundindo sonoridades do pop, funk, R&B, jazz e disco em composições que ficaram para a história da música. Reconhecido na versatilidade da voz e dos arranjos produzidos para as suas canções, tal é verificável em casos como "1999" (1983), "When Doves Cry" (1984), "Purple Rain" (1984), "Kiss" (1986),  "Batdance" (1989), "Diamonds and Pearls" (1991) ou  "Cream" (1991), alguns dos muitos êxitos do multifacetado e platinado cantor.

Registo fílmico com a cantiga "Diamonds and Pearls" (1991)

     Em homenagem ao pai, que tinha tocado num trio de jazz chamado 'Prince Rogers Trio', adota o nome artístico de Prince, passando a identificar-se com um símbolo identificado com a junção do masculino e do feminino - algumas das suas guitarras adquiriram esta forma também designada como "símbolo do amor".
      Versátil, ousado e inovador, o músico nascido em Minneapolis (1958) deixa, nas vésperas de fazer 58 anos, êxitos e momentos musicais considerados, por muitos, como dos mais singulares dos anos 80 e 90 do século XX.

Diamonds and Pearls

This will be the day
That u will hear me say
That I will never run away

I am here for u
Love is meant for two
Now tell me what u're gonna do

If I gave u diamonds and pearls
Would u be a happy boy or a girl
If I could I would give u the world
But all I can do is just offer u my love

Which one of us is right
If we always fight
Why can't we just let love decide (Let love decide)

Am I the weaker man
Because I understand
That love must be the master plan (Love is the master plan)

D to the I to the A to the M
O to the N to the D to the pearls of love
D to the I to the A to the M (To the M)
O to the N to the D to the pearls of love

There will come a time (There will come a time)
When love will blow your mind (Blow your mind)
And everything U'll look 4 U'll find (Take a look inside)

That will be the time (That will be the time)
That everything will shine (Forever)
So bright it makes u colorblind (U will be color blind)

If I gave u diamonds and pearls (Diamonds)
Would u be, would u, would u
(Would ya, would ya, would ya be happy little baby)
A happy boy or a girl
If I could I would give u the world

  Um caso de sucesso e de afirmação num tempo ainda coincidente com uma fase da vida plena de expectativas.

     Mais uma estrela que, da música, fez vida e que, com a morte, não deixará de se fazer ouvir.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Aqui respira-se, em Portugal abafa-se"

   Frase de Amadeo de Souza-Cardoso, referindo-se ao "aqui" (deítico) que é Paris.

   Não espanta, portanto, que o documentário, hoje mundialmente estreado e transmitido pela RTP1, seja francês; que Paris se renda a uma exposição dedicada ao pintor português modernista, no Grand Palais (em exibição desde hoje até 18 de julho). Parece que os homens do primeiro modernismo português estão destinados a ser conhecidos desta forma: assim foi com Pessoa, com Mário de Sá-Carneiro,...
   Numa mestria de movimentos, na intensidade do brilho e na policromia das pinturas, a genialidade do jovem português de Manhufe (Amarante) impõe-se no centro cultural europeu de então, bem como nos Estados Unidos - palcos abertos a uma rede de influências marcante e que muito contribuíram para o reconhecimento daquele que se afirmou na sensibilidade estética e artística dos movimentos de vanguarda, pela expressão cubista, futurista e expressionista, sem dela fazer escola, a bem da pluralidade que sempre defendeu.

Vídeo sobre a exposição no Grand Palais (Paris)

   Falece, com apenas 30 anos, em Espinho, em 25 de outubro de 1918. Refugiou-se nesta localidade numa tentativa inútil de escapar à epidemia de Gripe Espanhola (pneumónica), depois de ter auxiliado a mulher e a irmã na mesma luta.
    Seis anos antes vira desaparecer um amigo - Manuel Laranjeira - que conhecera na localidade onde havida passado os verões da juventude, numa casa da família localizada muito perto da praia (praticamente ao lado do atual Casino, e da qual presentemente não resta nenhum vestígio).

     Programa televisivo de relevo para um artista excecional, na breve vida longamente silenciada e praticamente esquecida por um regime que o fechou à visibilidade por ele conquistada.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Misturas!

    Muitos significados tem a palavra, das misturas mais pacíficas às mais críticas.

    Por ora, uso-a para caracterizar uma reação natural a quem ouve 'O amor é assim', dos HMB com a participação de Carminho. Isto de juntar uma voz do fado com o vocalista Héber Marques (mais Joel Silva, na bateria; Daniel Lima, nos teclados; Fred Martinho, na guitarra, e Joel Xavier, no baixo) como ritmo do soul e do R&B é significativamente inédito:

Vídeo de 'Got Talent - Portugal', na RTP1 (emitido a 20 de março de 2016)

     O AMOR É ASSIM

Eu não sei se algum dia eu vou mudar
Mas eu sei que por ti posso tentar
Até me entreguei e foi de uma vez
Num gesto um pouco louco
Sem pensar em razões nem porquês

O amor é assim
Pelo menos p'ra mim
Deixa-me do avesso
Tropeço, levanto e volto p'ra ti

Eu não perco a esperança
Espero a bonança
E nela avança o mesmo amor
E o tempo é companheiro é bom parceiro
E até já nos sabe a cor
E as voltas que embora nos tracem e eu lá sei
Leva-nos para onde for
Insiste, persiste, não sabes o fim
Mas assim é

Mas será que é mesmo assim?
Dizem que o amor é assim
Há tempo para descobrir

Mas só quero o teu bem
(Quero o teu bem)
E que eu seja o teu bem
(Que eu seja o teu bem)
E tudo nos vá bem
(vá bem, vá bem)
Não quero ficar sem ti

O amor é assim
Pelo menos p'ra mim
Deixa-me do avesso
Tropeço, levanto e volto p'ra ti

Caio e levanto qual é o espanto?

O amor é assim
Assim é o amor

    O facto é que resulta e muito bem. Há cerca de dois meses que já ouço a composição na rádio e, de cada vez, lá elevo o som para ouvir melhor. Uma batida nusical com uma combinação de vozes fantásticas.

     Os puristas do fado talvez não apreciem esta junção; por mim, ficou uma boa canção. Por isso, "Misturas!" é razão para uma boa reação e continuada audição, em balanço de dança e animação.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Politiquices...

      Depois de Cristo ter tido dois pais, eis que chega a questão do dia: o cartão de cidadão / cidadania.

    Comenta-se o projeto apresentado, na Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda (BE), para modificar a designação do 'Cartão de Cidadão', que se quer 'Cartão de Cidadania'. A argumentação parece residir no facto de não se respeitar a "identidade de género de mais de metade da população portuguesa”. Portanto, defende-se que a denominação masculina está desajustada à taxa populacional maioritariamente feminina (depreende-se) ou, então, pretende-se que ela seja preterida face a uma outra mais neutra e mais próxima de uma igualdade de direitos entre homens e mulheres.
   Isto de confundir o género linguístico (gramatical) com o género biológico (sexual) é, no mínimo, risível! Enfim... noções tão distintas que bastaria saber um pouquinho sobre 
- nomes comuns de dois - como a designação o indica, com dois valores de género, sem consequências morfológicas (a palavra mantém-se inalterada independentemente do género), mas com consequências sintáticas (desencadeando concordâncias), como é o caso de 'o/a jornalista' ou 'o/a intérprete'; 
- nomes sobrecomuns, sem contraste de género e sem marcação morfológica ou sintática (apesar de referir entidades de um e outro sexo), como 'a pessoa, a criança ou o indivíduo, a testemunha'; 
- nomes epicenos - na designação de animais, apenas com um género gramatical, embora referindo ambos os sexos, como 'a cobra, o elefante, a águia, a foca' (expansíveis com o restritor «macho» ou «fêmea»).
   No meio disto tudo, antevejo já um problema sério: quando o BE descobrir que, na língua portuguesa, o género marcado, linguisticamente, é o masculino, vai ser um Deus nos acuda! Já ouço quão injusto é, no meio de tanto feminino, um só masculino se impor! Onde já se viu! Nem o genérico Homem, para designar a Humanidade, vai ser permitido!
  Preparemo-nos, porque as polémicas mudanças do Acordo Ortográfico serão pormenores de somenos importância face à revolucionária mudança que o Português vai ter de sofrer, em nome de uma língua mais promotora da "igualdade de género".

    A não ser despiciendo o projeto, diria que a prioridade da iniciativa é, no mínimo, bastante discutível. No meio disto, só falta pensar que alguns milhares já terão sido, por certo, gastos no pagamento de tanto estudo, tanta hora de discussão e pouca oportunidade de ação comprometida com o desenvolvimento do país e a melhoria de condições de quem trabalha, independentemente do género e a bem de todos os que labutam seriamente.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Voltando ao beijo

    De novo, o Dia Mundial do Beijo.

   Entre várias cenas fílmicas que hoje passam na televisão para exemplificar o grande beijo (do mais clássico ao mais alternativo), foram tantos os exemplos e os estilos que fiquei surpreendido com o facto de não se terem lembrado do mais saboroso... à bolonhesa:

Excerto de A Dama e o Vagabundo (1997)

    De A Dama e o Vagabundo (na versão relançada em 1997, pela Walt Disney Records), este é um dos mais românticos beijos do filme animado. Talvez não tenha a duração do recorde mundial (que dizem estar contabilizado com mais de 58 horas, no Guinness World Records), mas são cerca de uns segundos em que um cão de rua (eu diria 'um Street Dog' para ser mais chique) e uma Cocker Spaniel roçagam apaixonadamente os focinhos no mais singular, famoso e cinéfilo beijo canino.
    Ainda assim, não é só destes beijos que reza o dia; outros há, para e em múltiplas situações, como o poema de Mário de Sá-Carneiro o traduz.

    E por mais que também exista o 'beijo de Judas', este é cá escusado, porque de traição e falsidade se trata.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Assim não brinco!

    Brincadeira tão triste!

  Isto de fazer convites com o pior da língua é caso sério, particularmente quando se destina a um público que precisa de bons exemplos; não dos péssimos.
  Parece que, lá para os lados do Parque Nascente (centro comercial em Rio Tinto), o Násci (um ursinho de cara simpática) quer brincar; contudo, podia escolher melhor quem faz os registos dessa sua vontade:

Anúncio publicitário no seu pior!

   Confundir o singular (VEM) com o plural (VÊM) é grave, mais ainda quando se desconhecem os modos verbais (o imperativo do convite - VEM - com o indicativo no tempo presente - VÊM) em pessoas gramaticais bem distintas (VEM <tu> e VÊM <eles>).
    E, por fim, a pontuação anda nas ruas da amargura, particularmente nas duas primeiras linhas: a saudação não está separada da afirmação / identificação; esta última não é separada do convite senão pelo aspeto gráfico do escrito (tudo em maiúsculas no início, como se letra de imprensa se tratasse, para uma escrita mais conforme e convencional nas linhas seguintes).

    Enfim! No dia de hoje, que os ingleses designam como 'april fool's day', alguém anda louco e não é em terra britânica; é em Portugal, onde a publicidade que se faz até parece mentira! Nem a brincar!
    

quarta-feira, 30 de março de 2016

Uma música para uma série

      Depois do apontamento para a série, vai o da música.

     A anunciar Versailles está o genérico baseado na composição "Outro" da banda eletrónica francesa M83, a mesma que participou na banda sonora de filmes como Interstellar e Cloud Atlas.
    Do duplo álbum Hurry Up. We're Dreaming (2011) saiu esta melodia, projetada e divulgada na série televisiva:

Montagem de imagens com o genérico da série Versailles

    Uma pequena letra acompanha a música, como se a voz ouvida fosse a do próprio Luís XIV:

        OUTRO
I'm the king of my own land 
Facing tempests of dust, 
I'll fight until the end. 
Creatures of my dreams raise up and dance with me 
Now and forever, I'm your king !

     Com letra e música, nesta quarta-feira, mais um episódio de Versailles marca o dia. Repito: série fantástica. A não perder.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Versailles

    Começou hoje uma série que promete! E na RTP1!!!

   Falo de Versailles, série anunciada como tendo chocado o público britânico, quando assistiu à representação televisiva do que foi a vida de Luís XIV, o rei-sol francês. 

Trailer oficial da série (primeira temporada) intitulada Versailles

    Numa produção franco-canadiana levada a cabo pelo Canal+, aquele que se designou como "L'État c' est moi" surge aos olhos do telespectador num cenário histórico grandioso, com um guarda-roupa majestoso e com uma perspicácia fora do comum. Estratega, manipulador, de olhar sordidamente penetrante e figura imponente, este monarca seiscentista foi o responsável (contra tudo e contra todos os que o queriam manter em Paris) por aquele que hoje ainda é considerado o palácio mais deslumbrante do mundo: o palácio de Versailles. Razão de esgotamento para inúmeros orçamentos extravagantes, tornou-se o modelo inspirador e o anseio de muitas figuras da realeza europeia - que o diga o nosso D. João V, quando decidiu construir o Palácio de Mafra e o radicou à sua magnânima pessoa real -, tanto por razões arquitetónicas como pela simbologia de um poder encarado como absoluto pelos "representantes de Deus na terra".
    Entre figuras históricas e fictícias, mais um fundo histórico marcado por criatividade e algumas infidelidades à História, as personagens da série acabam por manter relação mais ou menos direta com a corte de Luís XVI, num mundo em que glória e violência estão de mãos dadas para sustento do poder de um monarca (representado por George Blagden), a vida algo dissoluta do irmão mais velho (Alexander Vlahos) e as intrigas palacianas de todos os que deles dependem.
    Nas ousadias de quem tudo quer, pode e manda (para o bem e para o mal), há cenas intensas; personagens e representações fortes; uma intriga que "agarra" o espectador e se impõe como motivação forte para permanecer frente à televisão às quartas-feiras à noite, assistindo à primeira temporada (dez episódios) produzida por Simon Mirren e David Wolstencroft.

    Num reinado com mais de 72 anos (dos maiores, se não for o maior da Europa ocidental), há seguramente fonte inspiradora para muitas temporadas, assim a qualidade do primeiro episódio se mantenha. Boa aposta da RTP, para contrariar tanta telenovela e "reality show" que nem ao Diabo lembra.