quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Interações 'muito' educativas

     Há tempos, um colega contava-me uma experiência de sala de aula, no mínimo, risível.

     No máximo, este apontamento é o reflexo crítico para uma das grandes preocupações que certos grupos editoriais têm em "facilitar" o máximo do trabalho aos professores. Põem-se no papel de facilitadores, quando deviam ser facultadores de instrumentos credíveis.
     Reza a história o seguinte: estava o professor a corrigir um exercício de Ciências - solicitado para resolução em aula -, quando, na interação posteriormente criada, vive este diálogo:

     - Vamos lá corrigir a tarefa. Que respondeste à questão X, Diogo?
     - Ah, essa é resposta aberta!
   (Se o aluno experiencia a certeza do sucesso, fica o professor incrédulo perante a incoerência da resolução, pois nada faz prever que se discuta a abertura ou o fecho de qualquer coisa que seja). 
     - És capaz de explicar o que te levou a dizer isso?
     - Está aqui nas soluções, professor.
     (E mostra o livro, com uma banda de soluções à esquerda).

    Assim se educa para melhores competências nas aprendizagens!
    Têm já sido várias as experiências de que mais vale não ter em conta o que se diz nessas bandas; que tão mau (ou pior) quanto apresentar soluções inúteis é induzir professores a errar ou a vivenciar situações absurdas junto dos estudantes; que nessas bandas muitas vezes se constroem desconcertos, para não dizer mesmo erros inquestionáveis. Entre vários, o último que encontrei foi o de se assumir a expressão "esta barca de tristura" (segmento vicentino do quadro cénico do Fidalgo, proferido pelo próprio no Auto da Barca do Inferno) como representativa de eufemismo! (Imagino a "suavização" que o termo 'tristura' sugere, comparando com tristeza, ou que a própria personagem condenada deve sentir). 
     Se houver alunos que pensem que os autores devem estar loucos (ao proporem o que não devem), mais vale explicar que pensar é ato mais seguro do que receber respostas, muitas vezes surgidas não porque os primeiros queiram, mas porque alguém acha que os manuais - encarecidos numa época crítica para todas as famílias - vendem mais por isso mesmo. Interesses pouco didáticos ou pedagógicos, portanto.

   Ilusões incompatíveis com a consistência do saber (que para alguém já não é, por certo, prioridade).

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