quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Volta Descartes, que estás perdoado!

     Não propriamente pela filosofia, mas pela morfologia.

     A questão prende-se com a formação da palavra "cartesiano".

     Q: Como é que se forma a palavra "cartesiano"? Só derivação? Não há primeiro truncação?

     R: Admitindo a existência do sufixo 'iano' com alguma regularidade no português, o facto é que a base derivante que resta (Cartes) é algo estranha. Está aqui, portanto, uma razão para admitir, desde logo, a possibilidade de a palavra já ter entrado na língua portuguesa por intermédio de uma outra língua (eventualmente, o francês, com 'cartesien'), tendo-se procedido ao seu aportuguesamento.
   Pela consulta de um dicionário com informação etimológica, além do conhecimento que vulgarmente associa o adjetivo cartesiano a tudo o que tem Descartes como autor ou origem, lá aparece a entrada etimológica do termo no século XVII, a partir do francês e numa recuperação latina do radical 'Cartes' (de Cartesius, nome latino - numa vertente neoclássica e academicista - para Descartes).
       Portanto, a formação da palavra ocorre verdadeiramente no francês (cartes+ien). Em português, processa-se a adaptação do empréstimo. Na base deste raciocínio, tem cabimento falar num exemplo de processo irregular de formação de palavras, não pela truncação (dado o radical latino que preexiste), mas precisamente pelo processo de transferência ocorrido de uma língua (francês) para outra (português) já há alguns séculos.

        Esta moda neoclássica de recuperar a etimologia latina tem muito que se lhe diga, de novo convocando o interesse de uma plataforma entre a formação de palavras, a história da língua e a etimologia. Quanto ao empréstimo, é tão antigo que nem dele há já consciência no presente.

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