quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Habemus Papam

    Não se trata de fumo branco; antes da ordem do cinzento, para não dizer (de humor) negro.

    Este é o título do filme exibido no Festival de Cannes com data de 2011, assinado por Nanni Moretti na realização. Trata-se de uma película com uma visão questionadora do poder institucional do Vaticano, mais particularmente da figura papal que a ele preside.
     O enredo aponta sumariamente para a eleição de um papa  (Melville) que, depois de aclamado entre os cardeais, acaba por, em resultado de um ataque de pânico, não aparecer à varanda da Praça de São Pedro, a fim de saudar os católicos aí presentes.


     A dimensão dos limites humanos, o confronto com a rotina de papéis e de convenções, as marcas do passado, o peso da responsabilidade em contraste com o interesse pessoal e as vivências humanas (muitas vezes incompatíveis com os deveres encarados como divinos) são razões mais do que suficientes para que o novo papa não tome posse - uma situação que tem tanto de surreal como de possível e realizável.
      Perante a delicadeza da situação, a intervenção (sem sucesso) de um psicanalista famoso (com um passado não resolvido), as estratégias de simulação para esconder um problema (que, sendo só de uns, afeta muitos mais), o comportamento dos cardeais e o espírito de mudança (sugerido num fundo musical tomado por sonoridade popular e animada) imposto nos bastidores de um dos pilares da tradição católica são os ingredientes para se traçar um retrato crítico, com tonalidades de risível, suscetível de mostrar um conclave sem espírito (muito menos santo), um grupo de cardeais dominado por vícios e tiques nada divinais.
     Resta uma figura simpática capaz de, pela recusa, revelar maior sentimento e humanidade - menos imponência e solenidade; menor peso das "pedras". O questionamento do dogma, do ritual, do sentido de um dever que se quer fora da ação humana, mas dela resulta, compagina-se com a (re)descoberta do que é a escolha humana no sentido da realização e da felicidade.

      Numa sátira ao Vaticano, Michel Piccoli representa o papel de um papa sem nome que abre uma instituição fechada às fragilidades da vida do Homem. Neste jogo de forças, nos conflitos e complementos do palco da própria vida, a citação da Gaivota, de Tchékohv, é o que faz ver, no tom cómico do filme, um drama humano para resolver.

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