domingo, 19 de junho de 2011

Algum tempo depois...

       Passou um ano.

       Assim o registei nessa altura: caiu no céu.
     Hoje, na cerimónia pública de homenagem ao nobel da literatura português, sublinhou-se a simplicidade de uma oliveira e de um banco colocados frente à Casa dos Bicos - Fundação Saramago. Depositados os restos mortais junto às raízes dessa árvore, cumpriu-se o desejo, a vontade (tão simples) final do autor.
      É verdade que, no Memorial do Convento, as últimas palavras são para um homem (maneta) cuja alma não subiu às estrelas porque à terra pertencia. O mesmo será dizer que nesta se cumprem ou se formulam as vontades; nela importa que se firmem as almas, para que não só do corpo seja ou esteja ocupada. Desta forma, sol e lua, Baltasar e Blimunda, matéria e espírito se cumprem no mundo que é nosso.
Foto de Daniel Mordzinski
      No Ano da Morte de Ricardo Reis, a abertura do romance "Aqui o mar acaba e a terra principia" não deixa de se reiterar no final, no momento de Ricardo Reis "dar o grande grito": "Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera".
     No documentário José e Pilar,  Saramago dizia querer ser árvore na próxima reencarnação: para estar com as raízes agarrada à terra - esse mesmo lugar que esperou pelas cinzas do escritor e recebeu o cumprimento de uma vontade que na terra se (a)firmou.
      Cumpriu-se também a memória.

    "Somos habitados pela memória", disse-o Saramago. Hoje deixei que a memória saísse deste meu habitáculo e abraçasse a vontade, para que se cumpra na terra o que já se fez no mar; se descubra, junto ao nosso nariz, o que parece estar longe dos olhos; se faça da memória um ingrediente para um futuro melhor.

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