domingo, 11 de outubro de 2009

Poesia do nosso tempo... e do barroco

     A propósito de um comentário a um 'post' que refere o facto de a poesia visual e a concreta manterem relações com o período barroco. E não só!

      Buscar a motivação imagética que possa estar por trás de um poema concreto, na verdade, não está muito distante dos poemas emblemáticos de Alciati (jurista italiano, autor da obra Emblematum liber, publicada em 1531). Estes foram muito conhecidos entre os séculos XVI e XVII e, na generalidade, eram compostos por um mote (provérbio ou outra expressão emblemática), uma ilustração e um texto epigramático.
      Esta tendência iconográfica tem sido, inclusivamente, estudada para cruzar formas artísticas e estéticas que se enriquecem mutuamente - caso da poesia e da pintura. Dir-se-ia mesmo que estas relações encontram-se já sublinhadas na Ars Poetica de Horácio e na máxima "Ut Pictura Poesis" (numa irmandade das artes em torno e/ou em busca de sentidos). Daí o reentendimento de muitos textos poéticos - como os de Camões, por exemplo, à luz dos códigos culturais convencionais bem como das fontes (artísticas) da sua produção lírica.

Pormenor de "A Primavera", de 1478 (Boticelli)

CANÇÃO IV

A instabilidade da Fortuna,
os enganos suaves de Amor cego,
- suaves, se duraram longamente - ,
direi, por dar a vida algum sossego;
que pois a grave pena me importuna,
importune meu canto a toda a gente.

Camões
(excerto inicial)

Aquele dos meus olhos doce lume,
por quem alegre fui, por quem sou triste,
e a vida em largas queixas se consume,
donde está, cego Amor? (...)

Camões
(excerto de "Éclogas")

... aqueles cujos peitos
ornou de altas ciências o destino,
esses foram sujeitos
ao cego e vão Minino,
arrebatados do furor divino.
Camões
(excerto de "Epigramas")

       Nesta circularidade do tempo, neste mito do eterno retorno (tópico romântico), nesta cegueira humana de que o amor participa como "frecheiro cego", pauta-se a consciência da finitude da existência e a da vontade de contrariar, de algum modo, a heraclitiana constatação de que um homem não se banha duas vezes na mesma água. Preocupação clássica!

2 comentários:

  1. Pois não banhará, mas nestas coisas do amor, o Heráclito era capaz de nem estar assim tão certo. Cada um saberá onde se banha. Como. O menino cego prega partidas, é a especialidade dele, menino tonto. O amor é tão complexo que -torno a dizer - o Heráclito é capaz de se ter enganado. E mais não digo, proibido que estou pelo menino, não vá ele pregar-me partida de que me queixe... :)

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  2. Esta metáfora do banho levar-nos-ia longe... quanto mais não seja à "virtude" e à "razão" dos clássicos... que também foram homens e mulheres. Tempo e amor assim os fizeram... com alguns "banhos". :)

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