sexta-feira, 24 de março de 2017

Crenças... muito oblíquas.

     Quando se acredita, acredita-se em alguma coisa.

     Vem isto a propósito de uma dúvida, formulada em apontamento anterior, que se debruça sobre a sintaxe do verbo 'acreditar' (o que também é válido para 'crer'):

      Q: Olá, Vítor!
      Precisava da sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida. Na frase "Um em cada 10 portugueses acredita que o amor pode estar escondido atrás do ecrã do computador", que função sintática é desempenhada pela oração completiva? Normalmente, esta oração corresponde ao complemento direto, mas neste caso não me parece possível pronominalizar por "o" - "acredita-o". Diríamos "acredita nisso"; logo, podemos admitir que a oração tenha a função sintática de complemento oblíquo? Obrigada.

       R:  Viva.
      A oração "(em) que o amor pode estar escondido atrás do seu computador" é, de facto, um caso de oração subordinada completiva oblíqua (daí a função sintática de complemento oblíquo) à semelhança de outras construções que também apresentam, como principal, um verbo transitivo indireto (que seleciona preposição) - exemplo: aconselhar a, acreditar em, concordar com, conduzir a, convencer decrer em, discordar de, insistir em, lutar por, preferir a, prevenir de, entre outros.
        A estrutura argumental típica do verbo 'acreditar' é, na verdade, 'Alguém ACREDITA EM Algo / Alguém', pelo que 'em algo / alguém' desempenha a função de complemento oblíquo. O facto de se poder suprimir ou omitir a preposição não invalida a identificação desta função, atendendo aos testes de verificação da mesma (questionação por 'Em que acredita...?' / pronominalização 'acredita nisso' / impossibilidade da passivização, típica nas construções transitivas diretas).


       Vários outros exemplos análogos podem ser considerados, também com a omissão da preposição e a identificação da subordinada completiva oblíqua:

      i) Os alunos insistiam (em) que o teste devia ser adiado.
      ii) Os estudantes confiaram (em) que havia pouca matéria para estudar.
      iii) As vítimas anseiam (por) que seja feita justiça.
      iv) Ninguém se apercebeu (de) que alguém estava a faltar.
      v) Gosto (de) que faças tudo pelo melhor.
      vi) Ele convenceu-se (de) que tinha de salvar o mundo.

      No caso do verbo 'acreditar', a construção sem preposição é seguramente a preferida:

      a) Não acredito que tenhas feito asneira.
      a') ?? Não acredito em que tenhas feito asneira.

   Um caso para demonstração como a estrutura de superfície prefere uma construção típica de queísmo (recurso a construções iniciadas por 'que' pela supressão da preposição em orações subordinadas finitas, em situações aceitáveis para a maioria dos falantes), não obstante os testes e a manipulação da frase apontarem para o que os olhos não dão a ver.