terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Uma questão de 'dar' (e sua finalidade)

      Cá chega uma questão de muita índole... gramatical... pela qual vou dar a cara (ainda que de 'dar' haja muito a falar).

     E para não se ficar no diz que disse, cá vai o escrito (que alguns eruditos - como Santo Agostinho - dizem ser mais perene).

    Q: Como classificas a oração subordinada da frase "Dei-lhe ordem que se sentasse"? Eu diria "Ordenei-lhe que se sentasse" e, por isso, parece-me substantiva completiva, mas dizem-me que é subordinada adverbial final...

    R: A transformação operada ("Ordenei-lhe" < "Dei-lhe ordem") faz algum sentido, sendo bem representativa e resultante de uma realização de 'dar' próxima de um verbo funcional - ou seja, sem o estatuto de verbo principal -, encarado como termo gramatical seguido de uma nominalização - no caso 'ordem' (obtida a partir de "ordenei").
      Ainda assim, neste caso, a análise sintática a fazer é a da frase que serve de ponto de partida, com o núcleo verbal (dar) a selecionar um complemento direto nominal ("ordem") e um indireto pronominal ("lhe"), os quais já se encontram inscritos no quadro sintático proposto. 
     "Que se sentasse" é, efetivamente, uma oração subordinada substantiva completiva, a funcionar como complemento direto, na realização com o verbo 'ordenar'. Todavia, na frase com o verbo 'dar', a mesma oração subordinada surge a seguir aos complementos selecionados, com um comportamento típico de adjunto adverbial (enquanto modificador), numa construção elíptica a exprimir o valor lógico da intenção, da finalidade ou do propósito. Daí tratar-se de uma subordinada adverbial final (> Dei-lhe ordem para que se sentasse / para se sentar / a fim de que se sentasse), até pelos complementos já inscritos na oração subordinante.

     Dou por concluído o esclarecimento (com mais uma realização de 'dar', desta feita similar a uma construção transitiva-predicativa), na expectativa de que a clareza tenha luz suficiente para dissipar a dúvida.