sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sem Eco (ou para / até sempre Eco)

     O final do dia trouxe o fim de uma vida, que deixou muita obra.

    Umberto Eco - reconhecido escritor, semiólogo, filósofo, ensaísta - é nome notável para uma obra multifacetada no âmbito das ciências sociais e humanas.
    O meu encontro com alguma da sua obra começou pelos tempos da faculdade, citado que era, como estudioso de referência, ora pelo seu pensamento literário ora pela contribuição dada no domínio da Semiótica (também chamada de Semiologia).
     A morte do autor de O Nome da Rosa abalou não só a Itália como o mundo das Humanidades, que vê 84 anos interrompidos ainda em pleno labor intelectual, conforme o provam as palavras do seu editor (ao anunciar um livro inédito intitulado Papé Satan Alleppe, para maio, no qual se aborda a identidade do Papa Francisco, personalidade admirada por Eco).
  Num espírito sistematicamente desconcertante, muitos foram os pensamentos (críticos) que partilhou com os seus leitores. Em Número Zero (2015), na crítica ao mau jornalismo, à mentira e à manipulação da história, apontou para um universo convulso, em tudo tão coincidente com o dos nossos dias; numa entrevista recente, refletindo sobre o papel das novas tecnologias na difusão de informação, assumiu que as redes sociais proporcionam a uma "legião de imbecis" o direito à palavra, numa escala bem mais preocupante do que a de tempos mais recuados, quando, num "bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade", outros já também imbecis acabavam por ser silenciados. Hoje, o poder da palavra desses é tão ou mais acessível e projetado do que o de grandes intelectuais, nomeadamente os prémios Nobel.
    Na leitura que fazia do seu papel, enquanto intelectual, Eco reconhecia ter formas de protestar, ainda que não tivesse o poder de mudar o mundo. Cultivava, assim, o que chamava de "política da empatia", por forma a criar a rede daqueles cujas estratégias de sobrevivência e defesa da virtude não andariam longe do que deu a ler:

Romance editado em 1994
- Vede, caro Roberto, o senhor de Salazar não diz que o sensato deve simular. Sugere-vos, se bem entendi, que deve aprender a dissimular. Simula-se o que não se é, dissimula-se o que se é. Se vos gabardes do que não fizestes, sois um simulador. Mas se evitardes, sem fazê-lo notar, mostrar em pleno o que fizestes, então dissimulais. É virtude acima de todas as virtudes dissimular a virtude. O senhor de Salazar está a ensinar-vos um modo prudente de ser virtuoso, ou de ser virtuoso de acordo com a prudência. Desde que o primeiro homem abriu os olhos e soube que estava nu, procurou cobrir-se até à vista do seu Fazedor: assim a diligência no esconder quase nasceu com o próprio mundo. Dissimular é estender um véu composto de trevas honestas, do qual não se forma o falso mas sim dá algum repouso ao verdadeiro. 
    A rosa parece bela porque à primeira vista dissimula ser coisa tão caduca, e embora da beleza mortal costume dizer-se que não parece coisa terrena, ela não é mais do que um cadáver dissimulado pelo favor da idade. Nesta vida nem sempre se deve ser de coração aberto, e as verdades que mais nos importam dizem-se sempre até meio. A dissimulação não é uma fraude. É uma indústria de não mostrar as coisas como são. E é indústria difícil: para nela ser excelente é preciso que os outros não reconheçam a nossa excelência. Se alguém ficasse célebre pela sua capacidade de camuflar-se, como os actores, todos saberiam que ele não é o que finge ser. Mas dos excelentes dissimuladores, que existiram e existem, não se tem notícia alguma. 
     - E notai - acrescentou o senhor de Salazar -, que convidando a dissimular não vos convidamos a permanecer mudo como um parvo. Pelo contrário. Deveis aprender a fazer com a palavra arguta o que não podeis fazer com a palavra aberta; a mover-vos num mundo que privilegia a aparência, com todos os desembaraços da eloquência, a ser tecelão de palavras de seda. Se as flechas perfuram o corpo, as palavras podem trespassar a alma. 

     Poder de palavra já clássico: o de movere (a par de docere e delectare).
     E nisto não deixa de estar o pensamento que Eco tão bem traduziu:


     Moral ou lição de vida? A virtude de dissimular a virtude, ou a virtude de quem partilha um saber que nem sempre se revela fácil de cumprir, por mais que até seja simples de compreender. Basta estar atento à vida (também ela feita de morte, ou não formulássemos frequentemente o lamento desta com um simples "É a vida!").