domingo, 14 de fevereiro de 2016

Modalidade(s) de 'poder'

      Entre as várias multifuncionalidades que 'poder' tem, para lá da que decorre de uma capacidade / habilitação para algo, vem também a que se impõe pela crença e pelo desejo.

      Tudo a propósito de uma dúvida que me chega pela manhã (é nesta que se começa o dia):

     Q: Que modalidade e valor pensas estar presente neste segmento: "Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal" (Maria, em Frei Luís de Sousa). Obrigada.

       R: Comecemos por situar o "tal" - o tema / assunto de que se fala.

    "E pensar que havia de morrer às mãos de mouros, no meio de um deserto, que numa hora se havia de apagar toda a ousadia refletida que está naqueles olhos rasgados, no apertar daquela boca! Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal."

Telmo (João Villaret) e  Maria (Maria Dulce) 
no filme "Frei Luís de Sousa" (1950) 

       Na interlocução de Maria com Telmo (cena I do ato II), o enunciado proposto é revelador de uma crença do falante (Maria) face a um acontecimento. 
      Convocando uma crença religiosa assumida, a filha de Madalena e Manuel de Sousa Coutinho não acredita num facto que, naturalmente, não deseja e que, em função do contexto e da época representados na ação (príncípios do século XVII, conforme se lê na didascália inicial do primeiro ato), alimentou a esperança sebastianista do tempo: a da morte do jovem rei (condição necessária para que o seu regresso pudesse efetivar-se).
    Focando o segmento sublinhado, este reflete uma construção com o verbo modal 'poder' a transmitir a negação de uma possibilidade, matizada por uma subjetividade assente numa crença ("Não pode ser. Não pode ser") que acaba por ser projetada para um futuro (a ler-se na forma 'podia' do enunciado seguinte: "Deus não podia consentir em tal").
     Esta forma ‘podia’ atende a características específicas, à semelhança do que acontece em inglês com o contraste 'can / could'. Segundo Tim Stowell1, estes modais apresentam-se frequentemente neutralizados na sua interpretação presente/passado, em determinados contextos sintático-semânticos. Não obstante a forma do pretérito imperfeito, 'podia' ('could') não tem necessariamente interpretação de passado - o que pode ser exemplificado com o final da réplica de Maria. A negação, a recusa que subjaz a 'não podia' aponta para várias implicaturas: não querer que D. Sebastião tenha morrido; a morte de D. Sebastião é uma tragédia; Deus não permite que tal tragédia possa acontecer. Resulta, assim, uma enunciação a refletir uma posição pautada pela incerteza velada face à factualidade (a morte de D. Sebastião) e por um perigo iminente face à crença (a de que Deus possa agir de alguma forma contra o rei). 
     Em suma, exprime-se a não factualidade (desejada) da situação e uma crença (sujeita aos limites de qualquer fé), implicando uma força argumentativa próxima da expressão do desejo do falante.
     Consideradas as condições pragmáticas na produção do discurso e uma vez analisada a realização de 'poder' neste segmento textual, evidencia-se uma réplica que está para o ato da recusa, da rejeição, encarado pela personagem Maria, no plano da modalidade epistémica marcada pelo valor do impossível, mais matizado pelo fator das crenças e dos desejos do que pelo da realidade ou factualidade das certezas - um 'poder' que, não o sendo, é a possibilidade negada ou a impossibilidade subjetivamente equacionada.
    É neste enquadramento que a linguista americana Angelika Kratzer2 refere o conceito de modalidade "bulética" (numa tradução livre e literalmente aportuguesada, a partir de ‘bouletic’), para transmitir, enquanto subtipo da modalidade epistémica, o que é possível ou necessário no âmbito dos desejos ou das expectativas do falante.
NOTAS: 
1) STOWELL, Tim (2004:621-636) - "Tense and modals" 
in GUÉRON, Jacqueline e LECARME, Jacqueline (eds.) - The syntax of time, Cambridge, MIT Press

2) KRATZER, Angelika (1981: 38-74) - "The notional category of modality",
in EIKMEYER, H-J.e RIESER, H. (eds) - Word, worlds, and contexts: new approaches to word semantics
Berlin, W. de Gruyter

      A (im)possibilidade das crenças sempre moldou o saber e o conhecer - pelo menos, enquanto assim se desejou.