quarta-feira, 6 de março de 2013

And the Oscar goes to...

      O evento não teve direito a "red carpet". Nem foi preciso. 

     Era a centésima lição. Um aluno tinha prometido um bolo de chocolate para a ocasião.
     À entrada na sala, um grande tabuleiro anunciava o manjar, que foi acompanhado de um copo de ice-tea e um brinde conjunto.
     Bem pedi um poema, mas saíram poucos e tímidos versos, algumas simples rimas. 
    Comidos e bebidos, lá íamos mais animados para a coordenação e subordinação. Só que, em vez disso, se anunciou uma prenda. Quando é que a lição número cem dá lugar a prendas? Disseram os alunos que era só uma pequena lembrança e que eu não me esquecesse que era da melhor turma.
   Num saco, com direito a lacinho, foi-me entregue... um Óscar!
   Para disfarçar a emoção, lá fiz o que me competia: pedi desculpa por ter tropeçado no vestido; agradeci ao pai, à mãe, ao avô, à avó, à vizinha, à tia, à prima, ao gato, ao cão... E, aos meus fãs e ao vivo, um abraço.
   Com a fotografia da praxe, para memória futura, lá se foi a matéria... e ficou o afeto e a diversão.

  Sumário: Comemoração da centésima lição, com coordenação de atividades e subordinação ao espírito da festividade (se vier a inspeção, está registada a matéria prevista e planificada). O resto fica no coração.

terça-feira, 5 de março de 2013

Há grupos e grupos...

      ... e, por certo, há grupos que nem ao diabo lembra.

      Isto é o que se pode dizer quando surgem questões como esta:

      Q: Colega, ao trabalhar um exercício do caderno de atividades do manual adotado na minha escola, reparei que se pedia para classificar os grupos frásicos destacados. Três deles são 'O Carlos, evidentemente, gosta da Maria', 'Naturalmente, o João vai saber de tudo' e 'O livro que li era o mais extraordinário'. O que está sublinhado são grupos frásicos?

      R: Naturalmente que não.
       A designação grupo frásico é utilizada para referir um constituinte ou uma sequência oracional. Há grupo frásico quando se está perante uma oração (ou seja, uma predicação assente num verbo principal / copulativo).
     O que se encontra sublinhado nos exemplos facultados são grupos de palavras: no primeiro caso, um grupo preposicional; no segundo, um grupo adverbial; no terceiro, um grupo adjetival.
      Para dar conta de um grupo frásico, ter-se-ia de considerar toda a frase, no caso dos dois primeiros exemplos; a última frase, por ser complexa, apresenta dois grupos frásicos, já que tem duas orações.
       Assim, o que deve ser pedido, em termos de discurso didático e/ou de formulação da instrução, é que os alunos classifiquem os grupos de palavras sublinhados.

       Com isto, pressente-se a necessidade de abordar criticamente os manuais no que, pelo menos, ao discurso didático diz respeito. E se estes são validados cientificamente por nomes que, em capa, se responsabilizam por isso mesmo, torna-se evidente que isso não passa de uma estratégia editorial ou, então, de uma falácia a que os professores devem escapar.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Supervisão - em autorreflexão

    Devem ser reflexos ainda da formação vivida - era bom poder ver "sobre" muita coisa.

    Hoje uma colega dizia-me, ao entrar numa sala que bem conhece e com uma turma que também lhe é mais do que familiar, "Olha que lindos que eles agora estão!"
    Concluí de imediato que antes não deviam ter estado assim. E percebi-o bem, porque momentos há comigo em que também não estão "lindos". Não é que sejam feios (porque não o são), mas às vezes precisam de um controlo que tira qualquer professor do sério: conversam paralelamente, depositam energias no que não interessa, riem-se por tudo e por nada, comentam o que não foi pedido, pedem para se repetir o que nem há um minuto foi indicado, dizem ao contrário aquilo que ainda está registado e visível no quadro...
     Hoje, contudo, o tema da conversa era a designação dos meses e de como já tinha havido só dez meses, num outro calendário, tudo começando em março. Descobriram que dezembro vinha de dez; novembro, de nove; outubro, de oito; setembro, de sete... Depois quiseram saber de janeiro (e lá veio Jano), mais dos restantes meses (uns com nomes de deuses; outros de imperadores). 
     E vieram os dias da semana, e perguntaram de onde vinha o sábado e o domingo, e depois não percebiam como é que eu sabia aquilo tudo ("Oh! Não vês que o professor já leu a Bíblia toda!"... É preciso ser crente! E não reparar que já me está a chamar velho!)...
     Ainda que não tivesse sido matéria planificada para a sessão de hoje, a conversa foi cultural o suficiente para ser interrompida quando todos estavam em escuta sossegada.

    À despedida, a colega pedia-me a solução para o sossego e eu respondia "Também eu a queria!" (pensando naquelas outras aulas tão desassossegadas). Olhando para trás, nem sempre foram eles a perguntar ou a pedir informação; nem sempre tudo dizia diretamente respeito à vida comum de qualquer humano; nem sempre pude dar tempo e/ou espaço a uma dimensão que a língua também tem (a da sua história e cultura). Chegará isto para justificar a diferença?

domingo, 3 de março de 2013

O dia seguinte

    Depois de um sábado a cantar "Grândola Vila Morena", o país acorda com o balanço dessa chamada de atenção massiva ao governo deste país.

     Muitas vozes, muita gente em muitas localidades.
    Muita saturação, muita desilusão, muita descrença e falta de confiança no que está a ser feito, para não falar no desalento que é ver sempre os mesmos a pagar por uma crise de que não são nem foram responsáveis.
    Entre o canto do desespero, entre as ondas de revolta e os sentimentos de injustiça, entre os cartazes de protesto e de indignação, tudo parece valer para mostrar o cartão vermelho, bem escarlate, a quem governa e desgoverna já sem crédito.
     Nem a língua escapa. E a instabilidade é tanta que nem as melhores seleções se cumprem: é caso das preposições junto de alguns verbos.

    

Pormenor de uma foto 
que circula no Facebook, 
na página BIG LOL



  Por mais que se saiba que se deve preferir uma coisa "A" outra, insiste-se numa lógica comparativa que subjaz ao discurso das preferências e que vulgar e frequentemente se associa mais à sequência "DO QUE". Contudo, uma coisa é GOSTAR MAIS DE X DO QUE DE Y; outra, é PREFERIR X A Y. 
    Por mim, e no que a comida diz respeito, PREFIRO COELHO NO ESPETO A LASANHA DE QUALQUER ESPÉCIE (com carne de vaca, de porco ou de cavalo).

    E quanto a burros, convivo bem com eles, desde que não estejam no governo (porque, quanto os que neste figuram, já não há cenouras que os queiram).

Desconstrução dos "western" e de uma visão da América

      Balanço para o visionamento de "Django Libertado" ("Django Unchained", no original).

    O filme de Quentin Tarantino, premiado com os óscares de melhor argumento adaptado e melhor ator secundário, é uma visão desconstruída dos westerns americanos, para não dizer mesmo de algumas referências culturais e históricas de um país que, no clamor da liberdade e da igualdade, conviveu com episódios pouco dignificantes para a causa.
    A intriga é localizada num período e numa coordenada geográfica marcantes da história dos Estados Unidos da América: dois anos antes da Guerra Civil e nos territórios do sul. Jamie Foxx é Django Freeman ('homem livre', no sobrenome), um escravo comprado por um exímio caçador de recompensas alemão (o "dentista" Schultz, interpretado por Christoph Waltz). Liberto da sua condição pela "qualidade" dos serviços prestados, Django mantém-se junto de Schultz, torna-se o seu "valet", perseguindo os criminosos mais procurados e ansiando resgatar a sua mulher Broomhilda, perdida muitos anos antes no comércio esclavagista do sul.
     Neste propósito, o encontro com Calvin Candie (um provocatório "doce", na construção do argumento, para uma personagem que Leonardo DiCaprio interpreta como mau da fita, proprietário da plantação "Candyland") e o seu escravo de confiança (Stephen, interpretado por Samuel L. Jackson) motivam o confronto de duas duplas, ambas compostas de negro-branco - Django-Schultz e Stephen-Candie -, mais o tratamento fílmico de temas como a escravatura, a vingança, a luta contra o racismo (seja entre brancos e negros seja no seio destes últimos), com os perseguidos a enfrentarem e a levarem a melhor face aos opressores.


      Impressivos e impressionantes são, por certo, o grafismo da película, por vezes a aproximar-se da banda desenhada, na cor e no registo de movimentos das personagens; os "banhos explosivos" de carne e sangue nas cenas de tiroteio, num tratamento de pormenor e de grandes planos que violentam o espectador; os registos orais de uma língua americana matizada da sonoridade sulista e  da apropriação negra simplificada; um fundo musical a auxiliar na desconstrução do que pudesse ser visto como um western dos anos cinquenta / sessenta do século passado.
      O toque humorístico de alguns diálogos e da representação sugestiva do "dentista" King Schultz compagina-se com as ações controversas de Django, a polémica visão do negro Stephen, que persegue os da sua cor e procura manter a sua posição, mais a dos seus mais próximos, junto de Candie, um egocêntrico que se compraz na luta de escravos; a cena dos irmãos Brittle e seus comparsas, a tocar o nonsense para uma irmandade a fazer lembrar uma «'ku klux klan' avant-la-lettre», mais preocupada com os sacos que enfiam na cabeça do que com o propósito dos seus atos.

      Não o vejo como filme que faça história; antes um exercício de desconstrução de algumas ideias feitas sobre a história do cinema, a escravatura, a visão sulista da América ou o jogo de interesses que persiste em qualquer fação ou causa que motive os homens. No final, a vitória do amor (Django-Broomhilda) suaviza alguma da violência, alimentando a lenda (também wagneriana) da libertação.
   

sexta-feira, 1 de março de 2013

Moralidades em moliceiros

    Numa embarcação da ria de Aveiro, há um pensamento de vida, muito vicentino.

   No delta do Vouga, veem-se alguns moliceiros com as proas e as rés ilustradas com legendas e painéis muito sugestivos, alguns dos quais dignos de fazer corar os transeuntes.
   Fico-me por um exemplo politicamente correto, a fazer lembrar o Auto da barca do inferno (1517) e o quadro (intemporal) do frade com a sua Florença (nome simbólico para uma terra que, no período quinhentista, tinha tanto de desenvolvimento como de ousadia):

Bela pergunta, para frade e uma "lady in red"! (Foto VO)

   Na decoração colorida e humorística desta ré (popa), retrata-se um episódio de vida, de um quotidiano pintado de (falsa) moralidade, traduzida numa frase interrogativa com muita orientação retórica e um pressuposto sem questão: o de que ambos pecaram.

    Embarcações de trabalho, sem esquecer o(s) sentido(s) da vida - ou, como também diria Eugénio de Andrade, "É urgente um barco no mar" (o tópico da passagem).

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A estalajadeira... ou simplesmente Mirandolina

        Na procura de comédias no cinema, tropecei numa de Goldoni no Teatro Nacional de São João.

        A peça, na tradução e encenação de Jorge Silva Melo, conta com a representação de Artistas Unidos: Catarina Wallenstein (Mirandolina), Américo Silva (Marquês de Forlipópoli), António Simão (Conde Albafiorita), Elmano Sancho (Cavaleiro de Rippafat), Rúben Gomes (Fabrício, empregado de Mirandolina), Maria João Falcão ("Baronesa" Hortênsia, de Palermo), Maria João Pinho ("Condessa" Dejanira, de Roma), João Delgado (Criado do Cavaleiro) e Tiago Nogueira (Criado do Conde).
       Da autoria do veneziano Carlo Goldoni, A estalajadeira (estreada em 1753) é o alvo nesse conflito setecentista entre uma velha aristocracia em decadência e uma burguesia em ascensão. Num teatro que reflete a mudança no Mundo, no realismo que espelha a questão social e a natureza das relações homem-mulher feitas também dos sentimentos matizados pela sociedade dominante.
     Num local de encontros (a estalagem), aprende o público as artes de sedução (da estalajadeira Mirandolina) e como não é credível dizer "nunca mais" (como o cavaleiro que, conscientemente afastado dos perigos femininos, acaba por se render aos encantos de Mirandolina); confronta-se com os vários estratos sociais, as expectativas e as frustrações vividas; partilha, com a heroína, as estratégias de uma sobrevivência que pode sair cara, quando levada ao limite dos estratagemas e dos artifícios. Daí o aviso final, com a moralidade típica do exemplo: "E vós, senhores, aproveitai de tudo o que vistes para vantagem e segurança dos vossos corações. E se alguma vez estiverdes numa ocasião de duvidar, quase a ceder, pensai nos artifícios que vistes. E lembrai-vos da Estalajadeira!"
      Mirandolina é "diretora" na representação do amor. É aquela que confidencia ao espectador o que nunca fará, para não cair nas malhas do duque arruinado ou do conde que usa e abusa do dinheiro que tem para tudo conseguir; é aquela que dá a conhecer tudo o que vai  ser feito para dominar um cavaleiro que se diz distante dos efeitos de sedução feminina. No exercício desse seu poder - que transforma as relações com o masculino num jogo cómico -, o controlo dos "cordelinhos" pode ser perdido. Mirandolina sabe-o, como o revela ao confrontar astutamente duas comediantes, senhoras sem condição social definida (e sem homem), frívolas, disponíveis para tudo e para todos. 


      Por isso, a dona da estalagem, no final e por opção própria, cumpre o que lhe está destinado, na sua própria situação: aceitar o que a realidade lhe dá (Fabrício, o homem que a deseja e que se encontra ao seu lado, no seu próprio espaço / universo), em vez de continuar com jogos de teatro, que a podem comprometer.

      Entre um duque, um conde e um cavaleiro, a estalajadeira é aquela que define o que quer da vida, dona de si e do seu nariz - um pouco à imagem da Inês Pereira: não quer cavalos que a derrubem (cavaleiro ou alguém de condição "superior"); fica com o "asno" (não tão tolo ou ingénuo quanto o original vicentino, mas alguém que sempre viveu e quis ser em função dela).

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Que linda é a noiva!

    Convenhamos que a intenção do enunciado do título não anda muito longe da clássica ironia do "Que lindo serviço!".

    Nem o serviço nem a noiva!
    Há publicidade que surte, de facto, efeito... pela negativa.


    É por exemplos destes que mais valia fazer o anúncio com um noivo. É que 'ao noivo' era menos complicado, com menor probabilidade de erro. 
      Querem apelar à (registo, À; insisto À) noiva e, depois, erram! Ela não merecia isso!

      Em termos de escrita, não há casamento muito feliz, por certo. É grave... quando surge o acento agudo em vez do grave.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Chegou a vez dos falares, dos dialetos e das línguas

     Na variação que comprova o modo de ser de uma língua viva, o que hoje é nada tem de eterno.

      Isto é o que se me oferece dizer, em jeito de balanço, antes de responder à solicitação seguinte:

      Q:  Sempre estudei que é dada a atribuição de dialeto ao mirandês.
       Àquilo que sempre aprendi, como sendo variedades linguísticas regionais (caso dos diversos falares do português do Minho, de Trás-os-Montes, do Alentejo, do Algarve), pode dizer-se que se trata de dialetos?
       E ao português falado na Madeira e nos Açores, pode atribuir-se a designação de dialetos?
         É que estive numa palestra como assistente e isto fez-me pensar.

     R: Apetece-me dizer sim a tudo, ainda que tenha de clarificar alguns dados.
        O conceito 'dialeto' associa-se ao estudo da variação e das variedades de uma dada língua, no interior de uma comunidade que a utiliza com marcas de diversidade e diferenciação, mais particularmente as que dizem respeito ao fator geográfico (ainda que este último esteja em relação estreita com questões de natureza histórico-cultural ou político-administrativa determinantes), e que se refletem essencialmente nos domínios fonético-fonológico, morfológico e lexical. Trata-se, portanto, das várias formas que uma mesma língua assume ao longo da sua extensão territorial (dialetos regionais ou, simplesmente, dialetos).
      Sociolinguisticamente equacionado numa perspetiva valorativa, um dialeto referencia-se relativamente à norma-padrão de uma certa língua e assume a distintividade diatópica, segundo uma área ou zona mais ou menos alargada (para se distinguir do que é um "falar", conceito mais reservado a realizações linguísticas próprias de localidades mais circunscritas - por exemplo, no dialeto duriense, há diferenças entre os falares do Porto da Ribeira e os do Porto da zona do centro da cidade).
    É comum dizer-se que, em Portugal, existem
i) os dialetos setentrionais (que compreendem subdialetos transmontanos e alto-minhotos, mais os baixo-minhotos, durienses e beirões);
ii) os centro-meridionais (que englobam os do centro-litoral -estremenho-beirões - e os do centro-interior - ribatejano, baixo-beirão, alentejanos e algarvio);
iii) os insulares (que dizem respeito aos que se falam na Madeira e nos Açores).
     Os estudos dialetológicos do professor Lindley Cintra, que datam de 1971, motivaram esta classificação geral.
    Quanto ao caso específico do mirandês, este demonstra como a noção de dialeto também joga bastante com o critério do estatuto político-administrativo: junto dos dialetos asturo-leoneses (Rionorês, Guadramilês, Mirandês), aquele ganhou relevo a ponto de atualmente ser considerado uma segunda língua oficial no território nacional.
    Trata-se, portanto, de um conceito com elevado grau de relativização. Numa perspetivação evolutiva, a existência e a variação de dialetos pode culminar na transformação destes em línguas, pela aquisição de um estatuto sócio-político-administrativo que assim as institui (foi o que sucedeu com o mirandês, em Portugal, com a Lei nº7/99 de 29 de janeiro, que o tornou segunda língua oficial do país).

Imagem: Classificação dos dialetos galego-portugueses, segundo estudo de Luís Filipe Lindley Cintra datado de 1971, 
numa súmula que pode ser encontrada na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, p. 15).

      O tempo já mostrou como o que foi uma língua viva, como o latim, teve os seus dialetos, na ampla variação geográfica que matizou a realização desse idioma (enquanto instrumento de romanização) e que esteve na origem de novas línguas (as românicas ou novilatinas).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Pior cego...

      Diz o provérbio que é aquele que não quer ver - porque há os que não querem ver -, entre os que não podem, porque não nasceram ensinados ou não têm tempo para aprender (mais).

     Nos últimos dias, têm sido partilhadas, entre colegas de profissão, evidências do que têm sido práticas tão surpreendentes quanto escusadas, em pontos diferentes do país.
     São múltiplos os casos:
     a) o pedido, a alunos de língua materna, de conjugação verbal obrigatoriamente com a pessoa 'vocês' em vez do 'vós' - porque, dizem, está em desuso; não está correto (mesmo que a situação ocorra numa das regiões do país onde há traços de evidente conservadorismo);
    b) a instrução para uma tarefa de escrita na qual se pede um registo autobiográfico ficcionado (exercício já desafiante, a vários níveis!), apoiado num quadro expressionista (melhor ainda!) e para o qual não se admitem leituras senão as que a/o docente queira (a cereja no topo do bolo, para a natureza autobiográfica!);
    c) a atribuição de zero pontos a uma composição que, no resultado da instrução anterior, tem o / a escrevente a colocar-se na posição de personagem de um quadro, assumindo-se na primeira pessoa e a tentar exprimir os sentimentos nele evocados (o problema é que não podia ser isto... tinha de ser qualquer coisa na ordem dos sentimentos pretendidos por quem fez o teste, experienciando-os numa situação de ordem factual);
     d) a questionação, para a interpretação textual (no ensino secundário), formulada com um "Parece-te que no texto se sugere X ou Y?" , sem nada mais (não anda longe de uma pergunta do tipo sim-não...; e que dizer de quem responder Y, se vier a ser X?);
   e) um exercício de verdadeiro-falso para se saber (?) alguma coisa da poética camoniana (tendo que se marcar como falsa a indicação de que Camões produziu poemas inspirados num retrato concreto e real da mulher!);
     f) o estudo da formação de palavras, num exercício de seleção ou cruz, para se pedir o processo no vocábulo "triângulo" (e a correção feita de que, espanto dos espantos!, se trata de uma palavra derivada por prefixação, quando o aluno vê indevidamente riscada a resposta correta da composição); 
   g) a indicação de que a palavra "parquímetro" é um exemplo de composição morfossintática (salvo seja! - e a "vogal de ligação", não diz nada?!)...
     Mais haveria para listar, dentro do sucedido só em situações de avaliação escrita de alunos.
     E só lamento que esteja a antever uma pequena gota de um oceano tão turbulento e presente, a agudizar-se no futuro e sem ninguém de responsabilidade a ver a necessidade de apostar na didática específica, na formação profissional orientada para o que ensinar / aprender, no trabalho de reflexão e de apreciação crítica, fundamentada das práticas.

    Quando se pode fazer isto? Agora que os professores se encontram assoberbados de trabalho(s) com uma carga letiva pesada, com o aumento do número de alunos / turmas, com uma componente não letiva cada vez mais reduzida na intervenção e nas dinâmicas de formação específica entre pares, com horários que só são completos entre escolas vizinhas (na melhor das hipóteses), ... Não sei. Sei apenas que já houve tempo(s) para isso e tive a oportunidade de aprender. E ainda mais teria, se houvesse tempo(s) para tal.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Reposição da normalidade

   Dizem os alunos que vale a pena reclamar.

   A novidade, hoje, é que o erro detetado já desapareceu.
   Numa loja dedicada a uma conhecida rede de telemóveis, a placa publicitária que, antes, continha erro, deixou de o ter.



   Bom exemplo, disse eu.
   Afinal, a estratégia não era a da publicidade pela negativa.

   Prova de que há quem pense que nem tudo vale para se atingir determinados fins - ainda bem, quando o tudo não faz qualquer sentido. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sorriso... onde estás?

      Em tempos depauperados, há poucos motivos para sorrir (muito menos para só rir).

      A pergunta levou à procura.
      O poeta quis responder, com os seus versos e a sua voz.


     O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso. 

in Poemas de Eugénio de Andrade
seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva, 
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999

     Fica o esgar de um sorriso, na expectativa de que venham tempos e momentos mais poéticos, para fazer esquecer esta triste vida que muitas vezes nos faz desprezá-lo.

     E na cara do poeta há um sorriso...

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Entre 'pois' e 'porque', mais alguns outros articuladores / conectores

    Pelo que se vai lendo, há mais zonas de aproximação do que distanciamento, para além de parecer que não há grande diferença entre 'O resultado foi bom, pois estudaste' e 'O resultado foi bom, porque estudaste'.

     Se a permuta de um por outro, nos discursos do dia a dia, parece válida, as gramáticas escolares pautam diferenças que muitos processos de regulação das práticas (como os exames) fazem persistir, para não dizer que alguns testes de verificação permitem diferenciar.

     Q: Pergunto-te se uma oração iniciada pela locução "visto que" poderá ser classificada como coordenada explicativa. Tenho lido algumas coisas sobre as diferenças entre as coordenadas explicativas e as subordinadas causais, diferenças essas ao nível semântico e sintático. Porém, em tudo o que tenho lido só me aparecem as conjunções "pois" e "porque", quando têm realização ora explicativa ora causal. 

      R: A questão não é completamente pacífica, alguns estudiosos veem mais aproximações do que diferenças no âmbito do significado (semântica). Na base da construção de inferências e da coerência textual, faz algum sentido falar em marcadores ou conectores discursivos de causalidade, sendo que, sob tal designação, se incluem diferentes formas de expressão e diferentes valores associados (relação causa-efeito, motivo - consequente, valor causa-conclusão, valor explicativo).
       Contudo, sublinho a necessidade de haver alguma contextualização do trabalho que se pretende fazer (no domínio semântico, sintático ou outro), nomeadamente aquele que diz respeito ao ensino de alunos de ensino não superior, com exploração desejável de regularidades nos mecanismos da língua, bem como a projeção de domínios gramaticais para a configuração dos textos (marcadores e conectores discursivos não deixam de pertencer a categorias gramaticais heterogéneas, com a mesma distribuição das classes de palavras).
      Começo por me referir às conjunções 'pois' e 'porque', associadas, típica e respetivamente, a relações de explicação e causa. Tradicionalmente, as gramáticas situam-nas, numa perspetiva sintática, no grupo das coordenativas explicativas (a primeira) e no das subordinativas adverbiais causais (a segunda).
     Outras perspetivas de estudo, como as da análise do discurso e da pragmática (na sua focalização argumentativa da linguagem), têm revelado outras conclusões, menos redutoras da que é proposta pela sintaxe. Num dos seus estudos, Carlos Vogt («Indicações para uma análise semântico-argumentativa das conjunções 'porque', 'pois' e 'já que'» in Linguagem, pragmática e ideologia, São Paulo, Hucitec, 1989) sublinha as especificidades de 'pois' na relação entre duas orações: 
        a) não é afetada pela negação;
        b) não cumpre o teste da interrogação; 
      c) não se presta a encadeamento, isto é, a tornar-se em bloco como subordinada de uma outra oração (subordinante);
       d) não se constitui como escopo de um quantificador, sem que tal acarrete uma rutura semântica.
    Considerando um enunciado como "Os trabalhadores pararam a produção, pois são cinco horas" e uma vez aplicados os testes, obtém-se:

        a) Os trabalhadores não pararam a produção, pois são cinco horas
        (só a primeira oração é afetada pela negação; a segunda orienta-se argumentativamente para a ideia de que não é expectável a paragem de produção às cinco horas, o que não sucede com o enunciado original)
        b) * Os trabalhadores pararam a produção, pois são cinco horas? 
          (só a primeira oração admite ser interrogada, não o bloco completo)
        c) Penso que os trabalhadores pararam a produção, pois são cinco horas
        (não é o bloco que é encadeado na subordinante 'Penso que', mas só a primeira oração do enunciado original, com a segunda a explicar não o facto de os trabalhadores terem parado a produção, mas a crença / o pensamento produzidos com a subordinante)
        d) Poucos trabalhadores pararam a produção, pois são cinco horas
          (o quantificador só afeta a primeira oração não o bloco)

    Assim sendo, genericamente as transformações não afetam o conjunto do bloco 'X, pois Y'; quebram a aparente unidade do enunciado. 'Pois' assume-se como um articulador / conector que introduz uma explicação proferida pelo enunciador (ato de fala) para uma asserção anterior (evidenciada na primeira oração), inviabilizando sintaticamente a hipótese de inversão dos atos com o articulador à entrada (é agramatical a construção *'Pois são cinco horas, os trabalhadores pararam a produção). Reside aqui a natureza sintática da coordenação.
    Com a conjunção 'porque' (e respetivos sinónimos locucionais diretos: 'já que', 'dado que', 'visto que', 'uma vez que') a situação revela-se distinta, como se pode verificar pela aplicação dos mesmos testes ao enunciado 'Os trabalhadores pararam a produção porque são cinco horas'. Resultam desse trabalho de análise leituras distintas dos dados anteriores, podendo mesmo gerar-se duas linhas interpretativas (uma para toda a integridade do enunciado; outra para só uma das orações):

     a) Os trabalhadores não pararam a produção porque são cinco horas
     (todo o bloco pode ser afetado pela negação: não é por ser cinco horas que os trabalhadores pararam a produção, mas há outra razão / apenas a primeira oração é negada, separando-se a segunda da primeira por uma vírgula e entendendo-se as cinco horas como horário incompatível para a paragem de produção)
     b) Os trabalhadores pararam a produção porque são cinco horas? 
      (todo o bloco está implicado na interrogação, perguntando-se se a causa da paragem da produção é o horário - podendo ser uma outra / a primeira oração é objecto de questionação, a segunda também, com o horário a não parecer razão suficiente para a paragem de produção)
     c) Penso que os trabalhadores pararam a produção porque são cinco horas
     (todo o bloco é encadeado na subordinante: pensa-se que o motivo para os trabalhadores pararem a produção é o horário / só a primeira oração é encadeada na subordinada, a segunda surge separada por vírgula e apresenta o motivo não para o facto de os trabalhadores terem parado a produção, mas para a crença / o pensamento produzidos)
     d) Poucos trabalhadores pararam a produção porque são cinco horas
      (o quantificador afeta todo o bloco: poucos trabalhadores viram o horário como razão para parar a produção, tendo parado por outro motivo / o quantificador só afeta a primeira oração: poucos trabalhadores pararam a produção e tal aconteceu porque são apenas cinco horas)

   A duplicidade de leituras associada a 'porque' passa pela possibilidade de o foco incidir ora no bloco integral 'X porque Y' (tomando-o como um só ato de fala) ora apenas em 'porque Y' (encarando-o com um ato de fala distinto do que o antecede: X). Ao contrário de 'pois', 'porque' é articulador / conector que introduz uma causa, um motivo, uma razão e viabiliza sintaticamente a hipótese de inversão dos atos, com o articulador à entrada (é gramatical a construção 'Porque são cinco horas, os trabalhadores pararam a produção). Reside aqui a natureza sintática da subordinação.
    A gramática tradicional equaciona a questão explicativa / causal em termos de processo de construção de frases (complexas), respetivamente, para a coordenação e a subordinação (na primeira uma oração não funciona como termo integrante da outra; na subordinação, uma oração é função sintática da outra). Os atos de fala exploram também aspectos distintivos das conjunções / locuções, inclusivamente efeitos argumentativos nem sempre contemplados nas gramáticas. O aspeto da inversão creio que pode ser o mais imediatamente manipulável e oficinal para que os alunos diferenciem o explicativo 'pois' do causal 'porque' (com os devidos sinónimos deste último). Outros valores devem ser problematizados em níveis de ensino superiores.

       Eis um contributo para marcar como diferente o que muitos dizem ser igual. Estar próximo não é estar no mesmo lugar ou em vez de algo. Se explicar pode implicar apontar a razão, o motivo, a causa, também pode acontecer que dê lugar a outros processos lógicos e discursivos. Pode explicar-se descrevendo, exemplificando, comparando ou construindo analogias.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um dia depois... por nAMORo

     Um dia depois do Dia dos Namorados, quando na escola se fala de amor, ...


     ...preferi falar de poesia.
    De tantos meios ou formas que pode haver para dela falar, numa turma de ensino básico questionaram-me por onde é que eu começava. Sorri, pelo simples facto de mo perguntarem a mim (como se tivesse autoridade para falar do assunto, com o crédito e a especialidade que me atribuíram) e por pensarem que a verso com mestria.
     Disse-lhes que eram muitas as portas por onde entrar (isto se não aparecesse uma janela mais à mão). Às vezes, algum esforço mais e a tentativa de subir ao que os olhos ainda não veem acabavam por resultar nalguma coisa que (nos) surpreendia.
    Já que estávamos em tempos de namoros e de amor, já que tínhamos visto o jogo que este último podia proporcionar aos poetas (com leituras top-down / bottom-up), lá abrimos a porta da música, da sonoridade. 
    Ensaiámos a busca de sons que pudessem  trazer uma definição de amor.
     Chegado a casa, deixei-me levar pela brincadeira da aula. Assim aconteça com eles. Vão ter de me trazer frases nas quais repitam um som que associem ao sentimento. Na próxima aula, terão de me dizer que som escolheram, por que motivo, e apresentar a frase que construíram (estou para ver o que vai sair).
    Depois do que me derem, talvez resulte uma combinação de algumas ideias / frases, para construir um poema coletivo. Caso contrário, sempre lhes posso oferecer um exercício saído 

de um som que ficou, 
de palavras que o repetiram,
de frases que o acolheram,
de combinações que surgiram.

     Talvez seja um texto sem grande valor, mas, por certo, dará para um bom separador.
  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Supervisão... em formação

       Chegou hoje ao fim a formação em supervisão.

      Anunciada a experiência, passaram as 35 horas (quinze das quais presenciais) de uma oficina de formação que teve a vantagem de criar dinâmicas supervisivas, na escola.
      Hoje o dia foi dedicado à apresentação dos trabalhos e à discussão de conclusões (virtudes e constrangimentos associados aos esquemas de ação construídos).
   Em registo de balanço, depois das experiências discutidas, lembrei-me do deus romano Jano e de como um esquema supervisivo joga com os dois rostos da cabeça divina. 
     Ao rosto juvenil do deus, associa-se-lhe a função de aprendizagem, relacionada com uma prática de formação cuja finalidade é a de encetar a reflexão sobre os valores, as crenças epistémicas, as representações que condicionam a aprendizagem dos professores. A juventude plasmada no rosto da divindade significa, também, a facilidade e a recetividade aos outros, permitindo ver a possível desconstrução de uma relação hierárquica entre supervisor e supervisionado, não obstante os constrangimentos na perceção do processo supervisivo no prisma de quem observa e de quem é observado.
     É grande a tendência para se deslizar para um sentido de avaliação, mais associado ao rosto envelhecido que Jano também dá a ver: a face daquele que, pela experiência e/ou pelo já vivido, faz juízos de valor e que intervém sempre a posteriori, com o distanciamento que a situação de execução nem sempre permite.
      Saiba ver-se na avaliação a oportunidade e as potencialidades para se fazer melhor, se destacar as vantagens, as virtudes e os benefícios; se confrontar com o que há de mais (re)construtivo. 

       Desta forma, a dupla face de Jano constituirá a virtude que a supervisão admite: caminhar no sentido do desenvolvimento, no âmbito mais ou menos alargado de uma organização educativa, feita de pessoas e para pessoas que podem progredir.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta-feira de cinzas...

      Porque nas cinzas é possível encontrar o renascimento, na fénix da palavra.

      Na arte prédica de Vieira há muito de reflexivo e exemplar a superar o tempo da produção (barroco) - qualquer semelhança com a realidade não é pura ficção.
      A intemporalidade dos sermões é tão evidente quanto o excerto seguinte, na voz de Luís Miguel Cintra, outrora oralmente produzido pelo próprio Padre António Vieira, no ano de 1672, em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses.

Registo Áudio do Sermão de Quarta-feira de Cinzas 
(dito por Luís Miguel Cintra, na Igreja de São Roque)

      Reflexão sobre (o triunfo d)a morte, a transitoriedade e a efemeridade da vida, mais da vanidade humana, parte-se do mote bíblico "Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris" (Génesis, 3:19) para dar lugar à glosa oratória, tornada discurso de intervenção política face à acusação e à acumulação de riquezas; às desigualdades sociais, numa violenta advertência ao poder, nomeadamente o da Igreja.

      No ritmo da voz e da palavra, nestes tempos críticos que nos fazem sentir mais mortos do que vivos, fica o pensamento de Vieira: "Se levantados, vivos; se caídos, mortos; mas ou caídos ou levantados, ou mortos, ou vivos, pó: os levantados pó da vida, os mortos pó da morte" (cap. IV). Bom era que quem tem poder se visse pó presente, para que não nos tornasse já em futuro pó da morte nesta vida.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Non habemus Papam

    Hoje não se fala de outra coisa. O anúncio surgiu em latim.

    Bento XVI decidiu a data de três canonizações e, também o dia da sua renúncia: 28 de fevereiro.
    Os motivos aduzidos são os da idade, da associada e progressiva falta de vigor físico e espiritual, da doença que limita a ação do Sumo Sacerdote.
    Sem que tivesse concluído oito anos de pontificado, termina assim o ministério papal daquele que foi considerado o ideólogo religioso do Vaticano, o braço direito de João Paulo II. No desejo de se entregar à reclusão, pretende Bento XVI tornar-se um peregrino da oração, cumprindo na discrição o seu ofício espiritual de entrega à igreja que presidiu.


     Discute-se como poderá o Catolicismo conviver com a coexistência de dois Papas: um cessante e um outro em exercício. A cadeira do Pastor, do sucessor de Pedro parece não ter sido talhada para a vontade humana; só para os desígnios do Espírito Santo, que impõe um dever a findar com a morte e a dar lugar à sucessão de uma nova obrigação.
     Relembro, a este propósito, a atualidade do filme "Habemus Papam", de Nanni Moretti, e a vontade de ver o fumo branco para alguém com o espírito das "Sandálias do Pescador".

    Coincidência ou não, foi captada a imagem de um raio a tocar a cúpula da Basílica de S. Pedro. Uns dizem que foi mensagem do desagrado divino; outros, que foi um raio de luz sobre uma instituição que precisa de ser iluminada.

    

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O que as elipses provocam...

     Quando nem tudo se diz ou escreve, há que ler nas entrelinhas.

      Uma das propriedades da língua é a economia que ela assume na sua realização. No domínio da sintaxe, ela configura-se por meio de vários processos.

      Q: Na expressão “A última dessas cabriolas”, como devo classificar, quanto à classe de palavras, o sublinhado? Comecei por achar que seria um adjetivo numeral, mas, entretanto, comecei a pensar que ele não concorda em número com o nome que sucede e, sinceramente, depois de ver que o determinante demonstrativo (contraído com preposição) fazia essa concordância, ainda mais baralhada fiquei.

      R: O raciocínio inicial está correto. 
     Trata-se de facto de um adjetivo numeral (ordinal), o qual expressa a ordem ou sucessão de elementos. A sua posição é a tipicamente assumida - pré-nominal - e encontra-se precedido de um determinante artigo (definido). O que creio estar a faltar na reflexão feita é a consideração da estrutura da expressão: trata-se de uma construção de natureza elíptica, isto é, com omissão de termos / palavras que podem ser recuperados(as) a partir do contexto e/ou co-texto linguístico. Com todos os termos explicitados, ter-se-ia a expressão "A última cabriola dessas cabriolas". 
      Assim, a concordância pretendida é assegurada com o termo nominal elidido (cabriola).

       Este é um dos casos que evidencia a estreita relação do domínio da classe de palavras com o da sintaxe (nomeadamente com mecanismos ou processos de construção frásica).

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Perguntas que se renovam

     Em pleno mês de fevereiro, nada como lembrar o pensamento de alguns aquarianos que fizeram história.

     É já familiar algum do pensamento de Garrett, no andamento desta carruagem. 
   No mês do seu nascimento (passados já seis dias, desde que abriu os olhos para o mundo), fica a pergunta que tem já quase dois séculos de existência.


       O que foi pensamento do século XIX mantém-se atual, no curso do XXI.
     Em tempos de crise, de assumida consciência de que as medidas políticas adotadas não estão a resolver os problemas dos países (e muito menos as condições dos homens), quantos mais humanos terão de perder a vida para alimentar um poder que foi atribuído/construído pelo Homem e não responde verdadeiramente aos seus problemas?

     Não creio que se trate de pergunta sem resposta, mas o Homem teima em torná-la retórica.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Hitchcock Com Alma

       Foi já no curso de um sábado que a porta da sala de cinema se abriu, para deixar sair os dois únicos espectadores de uma sessão de sexta à noite.

      O nome Alfred Hitchcock (1899-1980) é por certo geracionalmente reconhecido; noutros casos, é um realizador de cinema a descobrir, para se revelar o mestre dos filmes de suspense (ainda que, aos olhos dos espectadores habituados aos efeitos hoje conseguidos na sétima arte, possa parecer exemplo de menor empolgamento).
     O filme é um tributo à personalidade daquele que, também como figurante, aparecia nas suas realizações, quase como se fosse a sua forma de as assinar. Tão pouco conhecido na sua dimensão mais pessoal, mais familiar; na interioridade que tão bem explorou; na sua dimensão psicologicamente intensa e intrigante, Hitchcock tem nesta obra, dirigida por Sacha Gervasi, um retrato biográfico apostado em desvelar o que há de mais marcante em Sir Hitchcock - nas convicções assumidas, nas escolhas feitas, nos ideais perseguidos, tanto no cinema como na vida.


      Na interpretação bem conseguida de Anthony Hopkins - cuja caracterização explora a obesidade, a ritualização das falas, o ritmo arrastado e sagaz, a altivez teatral dos gestos -, reencontra-se a silhueta, o poder observador e acutilante do olhar, o humor sedutoramente estratega e desconcertante nas interações e relações, o conhecido "good evening" que o diretor inglês proferia no final das curta ou longa-metragens. Na cena em que o ator representa (quase numa espécie de bailado), as reações do público a "Psycho" (1960), joga-se o aliciante e o cómico, evidenciando-se a perfeita consciência do realizador de "Os Pássaros" (1963) para atingir o seu auditório cinéfilo. Neste sentido, há aqui um Hitchcock com alma; há ainda um com Alma (Reville), quando se destaca a figura vital da mulher que o complementou e o soube acompanhar na vida e na arte.
      Não se podendo dizer que se trata do melhor dos filmes ou que se perde muito se, um dia, este vier a ser visionado em pequeno ecrã, há aspetos, contudo, a relevar desde já na película: desde logo, a representação e caracterização de Hopkins; o paralelismo construído entre a produção paralela do filme "Psycho" no filme "Hitchcock", explorando relações biográficas e associações artísticas / técnicas que sublinham o "maior diretor de todos os tempos" (segundo a revista cinematográfica The Screen Directory) como figura cimeira do thriller, do terror, do insólito, do inesperado; a reprodução sonora de trilhas e de efeitos de suspense; a parceria construída entre Hopkins-Helen Mirren, numa identificação coesa do casal Hitchcock-Alma; a afirmação das convicções de um homem sobre os jogos e poderes de figuras empresariais que o procuraram condicionar, manietar a ponto de lhe minarem a felicidade ou quererem desvirtuar aquilo em que acreditava.

       Pelo que dá a conhecer do homem e pela mensagem transmitida (na defesa e resistência face àquilo em que se crê e por que vale a pena lutar), o filme resulta. E se, no final, a música de "Alfred Hitchcock apresenta" (uma das séries televisivas produzidas pelo realizador) não sair da cabeça nem da boca dos espectadores, é porque havia alguém que sabia o que andava a fazer.