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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Legendas televisivas muito dúbias

     A estranheza instalada, ainda que de português se trate.

   Na variabilidade que as construções com 'até' possam apresentar em Português, no uso enquanto expressão de delimitação temporal podem ocorrer diversas configurações. No caso do Português do continente europeu, são admissíveis duas realizações:

(i) A candidatura decorre até dia 2 de outubro.
(ii) A candidatura decorre até ao dia 2 de outubro.

      O mesmo não se aplica ao segmento da legenda televisiva seguinte, particularmente no contexto de um meio de comunicação social de Portugal, para falantes maioritariamente da variedade do continente europeu:

Fosse numa televisão ou canal televisivo do Brasil até podia ser (foto VO)

    Já a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (14.ª ed., Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1998, p. 561), se refere ao uso generalizado da preposição 'até' acompanhada da contração da preposição 'a' com o (determinante) artigo definido 'o/a(s)', no caso do português europeu, enquanto no do Brasil se verifica a ausência da contração.
       Assim, deveria ler-se, na legenda, a construção proposta em (ii), com contração; eventualmente, (i) sem contração nem determinante. O televisivamente assinalado está mais para um registo produzido em variedade do continente não europeu.

       Em período de férias, perguntei se me encontrava algures pelo Brasil. Né, cara?!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mais obras do 'artista'

      Passear pela praia dá nisto.

     Há sempre uma pedra na caminhada pelo areal, algumas revelando formas interessantes e atraindo as mãos que as transportam até casa.
     Depois, com um pouco de brilho, cor e aplicações de outras artes, produz-se um adorno a evocar lembranças, trazendo para dentro da casa um pedaço de céu e de mar, mais o sol que hoje eclipsou.

Uma "barcarola ou marinha" numa das estantes com muito estudo da literatura portuguesa (foto VO)

      Mais uma obra do 'artista' para a coleção decorativa da casa.

      Haja vontade, porque matéria prima não falta, a par de alguma criatividade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Mais um de Marguerite Yourcenar

        Entre um histórico e um autobiográfico com muito que se lhe diga.

Edição lida, em tradução de Maria Lamas     
    É considerada uma das obras maiores da literatura do século XX, pela erudição da autora, pelo conteúdo da obra, pela grandiosidade humana, humanista e humanizadora da personagem central - um homem que foi grande no seu tempo (séculos I e II), a ponto de Yourcenar o retratar (nos apontamentos dedicados a Grace Frick, partilhados com o leitor no final do romance) da seguinte forma: "Se este homem não tivesse mantido a paz do mundo e renovado a economia do império, as suas felicidades e os seus infortúnios pessoais interessar-me-iam menos".
      Publicado em 1951, o romance Memórias de Adriano dá-se a ler num registo confessional e no formato de uma longa carta autobiográfica (ainda que imaginada e mediada pelas pesquisas da autora) cujo destinatário é o jovem Marco Aurélio. Será este o sucessor escolhido ("neto") para o império romano, preparado e acompanhado pelo fiel Antonino ("pai"). A narrativa cumpre um balanço da vida de Publius Aelius Hadrianus, desde as suas origens, à ascensão ao poder, aos seus amores, à sua visão do mundo. Contrariamente a outros imperadores assumidamente conquistadores, este revela-se um líder mais orientado para a paz, focado na manutenção das fronteiras do império e não propriamente na sua expansão. Tendo viajado largamente pelo território, na expressão de um domínio atento e empenhado em compreender os povos dominados, procurou manter um equilíbrio que não se identifica com a dominação brutal das conquistas expansionistas; antes com a afirmação da dimensão humana, espiritual e cultural.
       Enquanto obra a versar a consciência da doença e da morte, a reflexão sobre a passagem do tempo, a progressiva degradação do físico, as fragilidades e inseguranças da existência humana, bem como tudo o que de verdadeiro se deixa com a morte, estão assim assumidos os temas que pautam a intemporalidade e universalidade da obra, num exercício de inteligência da personagem (da autora ou de qualquer outro ser humano pensante) que reflete sobre si mesma num tempo em que a liberdade de pensamento não deixou de existir. A escritora belga chega a reconhecer, nos seus apontamentos, o interesse por uma vida e um tempo inspiradores: "Este século II interessam-me porque foi, durante muito tempo, o dos últimos homens livres. Pelo que nos diz respeito, estamos talvez já muito distantes desse tempo". Era o tempo em que já não se acreditava propriamente nos deuses romanos, com o Cristianismo ainda por se afirmar, a despertar apenas curiosidade - ou seja, um tempo de entremeio, de transição, com alguns sinais de liberdade necessários à descoberta e à construção da humanidade.  
Uma das grandes obras assumidas por Adriano (montagem e foto VO)
      O livro encontra-se organizado em seis par-tes, acompanhadas de apontamentos finais e de uma nota explicativa quanto à génese da escrita, distinguindo-se o que é facto e o que é ficcional na construção (da) históri(c)a. “Ani-mula vagula blandula” (Alminha errante, deli-cada) retrata o limiar entre a vida e a morte (“…eu começo a avistar o perfil da minha morte.”), expressando-   -se a tentativa de viver um dia após outro, sem medo nem agonia - a constatação da matéria de que o Homem é feito, perante as limitações que progressivamente o assolam; “Varius multiplex multiformis” (Diverso, múltiplo, multiforme) evidencia as origens (avô feiticeiro, pai, educação e formação na cultura e sociedade gregas, paixões, visão política, morte de Trajano e sucessão de Adriano ao poder); “Tellus stabilita” (Terra estabilizada) expõe o clima de instabilidade social e as medidas necessárias para a resolução (assassinato de quatro cônsules conspiradores, rejeição do título de “Pai da Pátria”, a proibição dos banhos mistos, fundição da baixela de ouro maciço e a sua introdução nos cofres do Estado, diminuição da quantidade de escravos da casa imperial, uso público da toga, visão do feminino, previsões para um futuro longínquo, sendo de destacar ideias tão atuais como: “Duvido que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome”; “Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres”); “Saeculum aureum” (Idade de ouro) é capítulo central do romance, no qual se dá conta da relação com o amado jovem grego Antínoo, a paixão do imperador, cuja morte trágica o marca de forma profunda, mostrando-se aí a sensibilidade de uma personalidade angustiadamente apaixonada, sofrida com a perda incompreendida; “Disciplina augusta” faz várias referências a Antínoo e à forma a perpetuar a sua lembrança no tempo, à revolução dos judeus e como esta foi abolida (Judeia cortada do mapa, passando a designar-se Palestina), à nomeação de Antonino como sucessor e Marco Aurélio como seu "neto"; “Patientia” (Paciência) consciencializa acerca da falta de forças para prosseguir, do desespero, da conformação face ao fim inexorável (tendo vivido de forma intensa e fervorosa e tendo conhecido vários aspetos do mundo terreno: o amor, a amizade, a fidelidade, a alegria…).
Outra das grandes obras de Adriano em Roma (montagem e foto VO)
    Uma narrativa fundada na recons-trução / recriação da verdade da História (ou, como diria Yourcenar: "Sucede com essa verdade o mesmo que com todas as outras: enganamo-nos mais ou menos") e uma autobio-grafia que poderá ter existido (mas não passa da máscara de um Narciso que se espelha na água bebida das fontes inspiradoras da autora) - este é um romance que propõe uma reflexão sobre os ideais e os limites de governação, sobre os sentidos de responsabilidade desse poder, sobre o alcance da ação humana e de como tudo é encarado não necessariamente pela perspetiva da glória ou da glorificação, mas pelo exercício frágil, submetido aos erros e aos enganos, com lugar à questionação e interrogações próprias da existência e da condição humanas. Desta forma, também se desafia a versão oficial da História, aproximando-a, quem sabe, de um real mais autêntico (porque do humano comum).
       Palavras finais: "Procuremos entrar na morte de olhos abertos..."

    Apaga-se, assim, a dimensão da personagem histórica para dar lugar ao indivíduo comum, dominado por uma sabedoria intemporal, transformando a história numa reflexão universal, misturada com erudição e humanidade. Fosse Zenão (ou Sebastião Théus), evocaria liberdade; é Adriano, tomo-o no poder da vida pela filantropia, pela cultura e pela humanidade.

sábado, 25 de julho de 2026

Trágico: na vida e na língua

    Isto está a ficar mais comum e abrangente do que o desejável.

   Reconheço que há umas tragédias mais avassaladoras do que outras. As provocadas pela própria natureza são, por norma, tão incontroláveis e devastadoras que fazem pensar nessa condição humana que Camões já designou como a de "fraco humano", numa consciencialização de um "bicho da terra tão pequeno" face à grandiosidade das forças que o dominam.
    Foi na sequência de uma destas, ocorrida na Venezuela, que foi noticiado o salvamento de um homem, depois de ter ficado uma semana soterrado nos escombros de um centro comercial. Uma equipa portuguesa esteve envolvida nesse processo, resgatando a vítima de um incidente que tinha tudo para ser fatal. Um caso feliz, no meio da desgraça.
     Trágico também é o que se dá a ler nas legendas televisivas, de que é exemplo o caso seguinte:
      
No meio de tanta desgraça, importa salvar a língua para o seu uso devido, "Doa a quem doer" (foto VO)

    Não se trata de troca de letra, de ausência dela ou de confusão resultante entre os planos gráficos e fónicos. É letra a mais, para não dizer que é afixo revelador de discordância sintática, entre um sujeito na forma singular (Equipa portuguesa) e uma forma verbal no plural a abrir o predicado (salvam).
    Por mais que o nome coletivo implique a significação quantificativa plural, a sua forma singular determina a concordância em número no singular ('Equipa portuguesa salva Hernán'). Daí o 'm' final de 'salvam' resultar numa leitura muito crítica de um afixo flexional de pessoa-número (terceira pessoa do plural), com implicações sintáticas (de concordância) e indicador de agramaticalidade.

     Entre os erros que vão sendo assinalados neste blogue, os de natureza sintática começam a ser uma constante bem mais inexplicável e indevida no uso dos media. Uma tragédia.

domingo, 19 de julho de 2026

Manipulações

     Não são feitas com mãos, mas com tecnologias "de ponta" (aguçada por intenções dúbias).

     A circulação de uma foto com legenda televisiva imprópria (porque manipulada por Inteligência Artificial - IA), e com impropério, dá conta de como a palavra "pauta" se aproxima bastante de uma outra, retirando-se o grafema 'a' da primeira sílaba. O certo é que o confronto com a emissão do programa difundido quinta-feira passada (dia 16) permite confirmar que de "pautas" se fala e se escreve, sem qualquer confusão possível:

A prova do que o Ministro admite: as pautas; não o que outros querem dar a ler (Foto VO) 

     Contrastada a foto mencionada (que evito expor pela leitura explícita do que nunca realmente existiu) com a agora apresentada, seja para quem se ria / ri da situação seja para quem via /vê o que não pode ser lido, fica o aviso: o assunto motivador da brincadeira não merece o tratamento dado, por um lado; lamentavelmente, atesta-se que não se pode acreditar em tudo o que se lê, por outro. Há que confirmar as fontes, e a que é necessária está ao alcance de muitos, recuando-se no tempo e verificando-se o que foi efetivamente escrito na legenda do canal televisivo "Now" (fosse outro e diria que havia matéria para a rubrica do "Polígrafo SIC", dedicada à constatação da veracidade / falsidade de notícias e conteúdos virais). 
       Tal como diria Camões, "vi claramente visto"; melhor, "li claramente lido". Despistada, portanto, qualquer intenção outra que não a do que foi escrito, apesar de a possibilidade poder ser considerada (na base de legendas insólitas já verificadas).
       Tenho pena que, na mesma emissão, ainda abordando o tema da crise dos exames nacionais e a questão da publicitação dos resultados, surja o «famigerado verbo 'meter'» (hoje tão vulgarmente utilizado, mesmo nos contextos em que para tal não deve ser convocado):  

A crise dos exames nacionais a par de uma outra bem mais alargada: 
a do uso da língua nos canais televisivos (Foto VO)

     'Pôr em risco' / 'colocar em risco' perde, com a legenda escrita, a configuração de expressão fixa, pelo recurso de "meter". Lá diz o povo, "entre marido e mulher não metas a colher", o que deve ser relativizado em contextos muito críticos. Eu digo aos alunos que não se mete no quadro, no papel,... Também embirro com 'mete em risco', pela sua coloquialidade ou familiaridade, pouco desejáveis na comunicação social. Entre as expressões e/ou as combinações mais comuns no uso (assumir, aumentar, avaliar, controlar, correr, estimar, evitar, gerir, identificar, minimizar, mitigar, reduzir o risco), o verbo 'meter' não parece ter lugar; evitá-lo-ia, portanto, para que não se 'meta' em lugares / expressões que não se deve utilizar ou se deve evitar.
     Portanto, enquadro 'meter notas em risco' em construções que evidenciam inadequação nas legendas televisivas, a tocar a impropriedade lexical (das penalizações maiores na escrita dos alunos, a par dos erros sintáticos), face ao exemplo que deveriam assumir. 
      Entre os variadíssimos exemplos que já foram contemplados neste blogue, pode já dizer-se que há matéria para demonstrar / analisar tais falhas em vários domínios linguísticos.

      E continua a questão: a da responsabilidade editorial. Não há quem verifique, sugira, corrija, cumpra o que deve ser uma obrigação na difusão correta e adequada da língua (seja lá qual for o canal). 

sábado, 18 de julho de 2026

Crise(s)

     Depois da crise e da novela sem fim da digitalização dos exames nacionais,...

     ... outra crise mais duradoura grassa por aí: a da língua nas legendas televisivas. Desta feita, é no CNN Portugal, e no âmbito da sintaxe e do princípio da concordância:

Quando há outro sistema em falha e também tudo tem a ver com correção... da língua (Foto VO)

     Um sujeito singular (Professor) para um núcleo verbal conjugado no plural (apontam)! É erro muito grave para quem aprende português e para quem resolve os famigerados exames; na televisão, parece ser entendido como simples gralha e desatenção, em canais diversos.

     Reescrevo a legenda: Professor aponta falha a domínio da língua. Se quiserem 'apontam', façam com que 'professor' esteja configurado no plural (com 'e+s'), por favor. É uma questão de conhecimento, com o cérebro e o digital (porque, etimologicamente, é com os dedinhos que se escreve).

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Voltando a Aveiro, com Eça e/ou os Queirós

      O dia foi vivido em grupo (grande grupo), com saber, sabor e arte.

     Rumo à Veneza portuguesa, foi-se ao encontro de Eça e das pistas que a família Queirós deixou pela cidade, aquela que se diz ser "lugar das aves" (etimologicamente, 'aviarium').
      O ponto de encontro na Escola Secundária com 3º Ciclo Dr. Manuel Laranjeira refez-se, passada meia hora, na padaria / pastelaria Eça de Queirós, com alguns participantes que aí se juntaram ao convívio. A propósito, lá figura um painel azulejado, com um pequeno trecho de O Primo Basílio (1878): 

"Servia-se muito, com gula; 
depois picava um bocadinho da ponta do garfo, deixava, 
punha-se a comer côdeas de pão 
que barrava de manteiga". 

Na rua Capitão Lebre, na Pastelaria Eça de Queirós, há um painel com citação de O Primo Basílio (Foto VO)

      Na gula, coube um docinho a acompanhar o cafezinho.
   Roteiro na mão, organizado e inspirada e queirosianamente mente produzido pela professora Adélia Reis, o grupo preparou-se para a caminhada. À hora de pagar, veio a pergunta ao empregado do balcão: "Porque é que esta pastelaria tem o nome Eça de Queirós?" A resposta não tardou, apenas com algo de certeira e uma certa marca de familiaridade no trato: "Acho que o Eça morou para estes lados e a rua tem qualquer coisa a ver com ele". Não diretamente, porque na rua Capitão Lebre se localizava - nome caricato para António Tavares Lebre, figura influente local e nacional, um oficial do exército que, na primeira metade do século XX, marcou a vida social de Verdemilho (de que as romarias religiosas eram exemplo e, diz-se, alguma investigação para provar as andanças de Eça por estas paragens, nomeadamente a presença da então criança em Aveiro). 
   É nesta localidade que se situa a "Quinta da Torre", onde Eça passou alguns anos da sua meninice. Há quem o refira como o solar do avô Queirós (o conselheiro e desembargador José Joaquim de Queirós); melhor, contudo, é falar do que resta dessa propriedade: uma fachada velha e degradada do que foi um palacete brasonado, resistindo à desamparada queda final e ainda disputando, com a Torre da Lagariça, o 'locus' inspirador para A Ilustre Casa de Ramires (1900); e talvez o espaço de infância de Carlos n'Os Maias (1888) ou mesmo a memória e o retrato criativos do jacobino e liberal avô Afonso da Maia. 

Por terras de Verdemilho, na busca de vestígios da presença queirosiana (Fotos e montagem VO)

       Junto a um posto de gasolina da Prio, no limite da Avenida Europa, uma rotunda tem no seu centro um monumento ao escritor realista-naturalista, com a cabeça empalada num pilar, um brasão estilizado da família e um excerto do pensamento transcrito das Notas Contemporâneas (publicação póstuma, 1909)): "A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da Terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas". Ironia desta peça de arte: colocar a cabeça do neto como esteve quase para ser a do avô.
       Chegados a Aradas, no cemitério onde se encontra o jazigo do conselheiro José Joaquim de Queirós, percebe-se a singularidade de um monumento fúnebre, por comparação aos circundantes: a ausência de símbolos católicos, cristãos. O espírito e a atuação de quem escapou a uma pena de morte atroz (exilando-se em Inglaterra e regressando com os liberais chegados ao Mindelo) fazem com que a luta contra os miguelistas estivesse mais para os valores e ideais revolucionários, progressistas e maçónicos do que para uma tradição e um conservadorismo religiosos fortes. Fosse por reservas aos primeiros ou por convicção nos segundos, a hipótese de trasladar Eça para a terra do avô parecia requerer um outro lugar de paz, talvez um mausoléu para a nova família constituída pelo casamento, em 1886, com Emília de Castro Pamplona Resende, com quem teve quatro filhos (Alberto, António, Maria e José Maria). A  gosto ou a contragosto de alguns familiares, e da finitude da vida, tal não viria a acontecer e os restos mortais do escritor conheceram as sepulturas de Neuilly, do Alto de São João, de Santa Cruz do Douro (Baião-Tormes) e, por fim, de Santa Engrácia (Panteão Nacional).
      Nas imediações da universidade de Aveiro, a Quinta do Alboi ou dos Santos Mártires foi espaço visto e evocado a partir dos encontros e das práticas maçónicas em que o avô de Eça se viu envolvido, enquanto comandante do Batalhão de Caçadores 10. Perante a tentativa falhada de revolta em maio de 1828, o que conduziu José Joaquim de Queirós para o exílio (evitando-se a condenação à morte pelos miguelistas, com enforcamento, decapitação e exposição pública da cabeça em estacas frente às casas dos capturados), fica a Capela dos Santos Mártires como símbolo de uns mártires religiosos (S. Veríssimo, Máxima e Júlia, romeiros sacrificados nos tempos das perseguições de Diocleciano) que, por extensão, passam também a representar os condenados e revoltosos liberais ou os mártires da Liberdade.
       Após o almoço, junto à ria e no Centro Cultural e de Congressos, chegou a vez da Costa Nova e do palheiro de José Estevão, pai de Luís de Magalhães - grande amigo de Eça. Aí se ia a banhos e aí também foi tratado o casamento do escritor com D. Emília, uma vez que a família Resende também frequentava a Costa. Em carta à já esposa, quando esta e as crianças se encontravam de férias no local e Eça em Paris, refere-se o local: "(...) a Costa Nova - e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães" (escrito de 1883, publicado em Eça entre os seus - Cartas íntimas). O conhecimento do espaço vinha também já das vivências aí mantidas com os avós, a ponto de, em carta a Oliveira Martins (1884), Eça assumir-se como "filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe na ria". Com previsível palheiro próprio ou não, deste último já não restam provas. Fiquemo-nos, portanto, pelo do amigo, logo à entrada, frente à atual marina.
      Última paragem em hotel de luxo: o palacete Valdemouro, hoje Hotel MS Collection Aveiro, um dos mais requintados edifícios oitocentistas da cidade onde viveu a família Queirós. Tornado hotel literário na conhecida "rua Larga" (hoje rua José Estevão), fica o que dizem ter sido morada, nomeadamente, do pai de Eça e da tia Anna Emília. Verdade ou não, nele encontram-se quartos temáticos relacionados com personagens queirosianas, uma sala de receção e de estar com múltiplos sinais da vida e obra do autor (alguns dos quais cedidos pela casa de Tormes), mais um mural com o rosto de Eça (a instalação de arte urbana "Essa é que é Eça", da autoria de Vhils, o graffiter e pintor Alexandre Farto). Entre café, água e limonada, num breve instante de repouso, cumpriu-se um momento de tertúlia inspirado na escrita, no pensamento do escritor e nas vivências na cidade. Pedidas as desculpas pela animação não preparada, mas oportuna e justificada, findou-se a interação com a sugestiva expressão "Ora essa!"

Palacete de Valdemouro, na rua José Estevão (Fotos e montagem VO)

      Fosse Sintra e não nos esqueceríamos das queijadas; sendo Aveiro, lá fomos aos ovos moles, em receita com mais de cinco séculos criada pelas freiras do Convento de Santa Joana (a padroeira) e que, nas palavras de Aquilino Ribeiro, são "Os miríficos e celestiais ovos moles, uma das melhores descobertas de Portugal, depois da Índia". Bons momentos merecem ser prolongados e recordados com um docinho.
        

sábado, 27 de junho de 2026

Reportagens e legendas com muito que se lhe diga

     E para não ficar pelo dizer, cá vai o escrito.

   São muitas as questões levantadas numa breve reportagem televisiva difundida pela SIC (no Jornal da Noite de hoje), a qual vale noticiosamente pela insatisfação criada com todo um processo há muito anunciado com fragilidades evidentes. Desde que, com a digitalização das provas moda, se detetaram falhas incontestadas, ficam este ano agigantados os constrangimentos e as dificuldades com a extensão de procedimentos comuns às provas finais de ciclo, bem como aos exames nacionais. E não se pode afirmar, ou mesmo sugerir, que tal tenha a ver com o funcionamento / a inoperância das escolas ou com o desempenho de alunos e de professores.
     Não se sustenta a fiabilidade e validade de um processo com sinais declarados de disfuncionalidade, tecnológica que seja, quando acompanhados de uma recentralização e de um sentido de avaliação eminentemente técnico, para não dizer francamente despersonalizado (diria, longe da avaliação pedagógica). 
      No meio da contestação e da polémica, ouve-se na mencionada reportagem que o processo de classificação ainda não arrancou (ora porque não se acede aos itens digitalizados, ora porque se acedeu e se deixou entretanto de aceder, ora ainda porque não se atribuiu uma senha ou credencial de acesso); que há professores aposentados convocados para tal; que há troca entre os professores corretores e as disciplinas que lhes estão destinadas; que, por fim, e segundo voz-off , "a tutela já terá alterado o cronograma inicial" (leia-se o cuidado no uso de um futuro composto, a traduzir a modalidade do não certo, de algum distanciamento face ao dito).
    Insustentável é também o jogo desta afirmação da reportagem (com a devida modalização) com a legenda complementar, esta última com a afirmação factual (facto concluído, de aspeto perfetivo) de que "a tutela alterou". Inconsistência e incoerência graves no significado associado: por um lado, a relativização de um futuro composto e, por outro, a perfetividade de um pretérito na ordem do certo e do facto. 
      Ainda mais insustentável, a tocar o absurdo e o ridículo, é o objeto da alteração noticiada:

Incredulidade para um elemento de formação de palavra, no mínimo, inusitado (Foto VO)

   Um cronograma aponta para a ideia de planificação, programação num / com um calendário. Do grego "khrónos" decorre o elemento de formação de palavras "crono" - associado a tempo. Ou seja, um elemento que a etimologia, a história da língua e a própria formação de palavras convocam como conhecimento fundamental a qualquer comunicador dos média (que deve dominar a sua língua), mas que, na escrita da legenda, resultou no que de mais risível há, numa fronteira muito ténue entre o ambíguo escárnio e o assumido maldizer. 
    Nem com mitologia grega isto lá foi, nessa alegoria do deus C(h)ronos, frequentemente representado a fazer girar a roda do zodíaco, numa leitura da passagem do tempo. Tanto conhecimento desperdiçado ou desconhecido!
      
    No final, apetece-me dizer que nem "cornograma / cornómetro" existem (muito menos para planificar / medir chifres, hastes, chavelhos ou apêndices animalescos) nem cronogramas deram lugar, nos dias de hoje, a exemplo de metátese do som [r]. E porque a reportagem em causa não deixa, acima de tudo, de tratar de questões de educação no país, tudo isto se revela muito triste e escusado (porque daqui se cai facilmente no ridículo de assuntos que têm de ser levados muito a sério). No mínimo, bastava um editor ou alguém competente a verificar o que se escreve na televisão.
 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Podia ser melhor, para ser "bom".

      Isto de representar sílabas não é fácil.

      Em termos prosódicos, são analisados fenómenos fonéticos e fonológicos envolvendo unidades maiores do que os fonemas, como o caso da sílaba, da palavra ou da frase. No primeiro caso, está em causa uma unidade estruturada e organizada que agrupa sons na fronteira da palavra, podendo incluir um ou mais, como, por exemplo, nas sílabas das palavras [a][pren][der] ou [en][si][nar] [por][tu][guês]. 
      Os sons integrados numa sílaba podem ocorrer no seu ataque  - configurados pelas consoante(s) à esquerda do núcleo vocálico -, no núcleo vocálico (vogal ou ditongo) ou na coda da sílaba - consoante à direita do núcleo.
    Ora, no início da rubrica "Bom Português" de hoje, quando se procura verificar qual a sílaba destacada na palavra "tenhamos" (caso interessante, porque, definitivamente, resulta na leitura / na produção oral devida da palavra, quanto ao acento tónico), eis que surge o que não deve:

Há sílabas com amarelo a mais (Foto VO, a partir de emissão televisiva da RTP1)

      Leia-se convenientemente a segunda hipótese como a correta, assumindo a sílaba tónica e a natureza grave da palavra (e não a forma de a tornar esdrúxula, como muitos falantes tendem a oralizar). Até aqui tudo bem.
     O que não está correto é assumir [ten] no primeiro cenário como sílaba, como se de uma nasal se tratasse. A divisão silábica da palavra é [te][nha][mos], pelo que a primeira sílaba à esquerda não está convenientemente representada, na sua configuração gráfica. O 'n', indevidamente assinalado, é parte constituinte de um dígrafo (duas letras a representar um só som) que está para o ataque da sílaba medial [nha], e não para um som de coda da inicial.

        Quando de "Bom Português" se trata, tem de ser melhor. Haja esperança! E tudo faÇAmos para que consiGAmos, oralmente, produzir discursos corretos. TeNHAmos fé!

domingo, 14 de junho de 2026

Nobre causa em língua pobre

       Assim começou a manhã noticiosa: com nobreza e pobreza.

     A nobreza traduz-se na imagem e na ação dos dadores que generosamente dão o que têm a muitos que precisam. Solidariedade fantástica dos dadores, bem como de todos aqueles que cumprem, no seu trabalho, com uma causa que se impõe para a salvação / sobrevivência / manutenção da vida e da dignidade humanas.

Quando a imagem contradiz a legenda, num canal televisivo nacional - RTP Notícias (Foto VO)

       A pobreza encontra-se mesmo na legenda, como se houvesse brigadas contra as populações (ir de encontro a). E o curioso é que ela é imediatamente contradita pela voz da locução noticiosa, assumindo (e bem) que as brigadas vão ao encontro das populações necessitadas (ir ao encontro de).
    Já aqui se apontou, por mais de uma vez, como a simples troca das preposições / contrações dá em significados completamente contrários: respetivamente, o de esbarrar, chocar, ir contra, por um lado; o de aproximar, estar ao serviço de, por outro.

         A deriva do uso da língua (ainda mais em contexto de comunicação de massas), no que à expressão diz respeito, não pode causar incoerência nos atos: tudo vai ao encontro da causa maior; nunca de encontro a ninguém. Persista a nobreza; erradique-se a pobreza.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bodas de ouro para um edifício (e não só)

     50 anos numa noite espetacular, com memórias revistas em escassos minutos.

     Hoje, pelas 21 horas, no Multimeios de Espinho, foi tempo de encerrar uma história que culminou em espetáculo-concerto e contou com a participação da comunidade educativa do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), nomeadamente professores, alunos, pessoal não docente (operacional e técnico-administrativo), encarregados de educação, mais as entidades parceiras que viveram os "50 anos: do Liceu ao Agrupamento" - tema aglutinador de todo um plano de atividades vivenciado desde o ano letivo 2024-2025.

Convite endereçado à Comunidade Educativa do AEML
     
       As bodas de ouro dizem respeito a um edifício construído no início da década de setenta do século passado, para nele ser alocado o Liceu Nacional de Espinho. Entrou aquele em funcionamento no dia 4 de novembro de 1975, conforme ofício redigido pela presidente do conselho diretivo provisório de então: a professora Maria do Céu Beato Oliveira Dias de Sousa. Em tempos marcados ainda pelo espírito revolucionário pós-25 de abril, tudo começou de acordo com decisão unânime assumida em reunião geral de professores (RGP). Assim se lê no documento exarado: "... encontrada uma plataforma de solução... em relação a uma decisão tomada por unanimidade numa anterior reunião sindical, segundo a qual as aulas não seriam iniciadas sem que todos os professores eventuais estivessem colocados...". Nas palavras citadas de quem viveu o momento, a construção foi como que tomada de assalto, para que se cumprisse o desígnio para que havia sido erguida.
        O programa do evento celebrativo iniciou-se com a projeção de um pequeno vídeo, a dar conta do percurso desse estabelecimento escolar que, aberto em novembro de 1975, em 1976-77, passa a ganhar um patrono com a designação "Liceu do Dr. Manuel Laranjeira". Em 1978, chegou a "Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira". Em 2011, o edifício foi objeto de reabilitação por parte da Parque Escolar (hoje, Construção Pública), segundo um projeto arquitetado por Rui Lacerda. Cumprido meio século de um estabelecimento escolar (que, na atual e requalificada escola-sede de agrupamento, apresenta apenas alguns poucos apontamentos dispersos do passado), mantém-se a missão, ainda com futuro.
     Na presen-ça da Diretora do AEML, do Presidente do Conselho Ge-ral e do Vice-  -Presidente da Câmara Muni-cipal de Espi-nho, houve oportunidade para me pro-nunciar acerca do vídeo pro-duzido e de como este pode ser injusto face a uma multiplicidade de projetos, de atividades, de rostos que têm vindo a marcar gerações e que nele não figuram. Não cabem 50 anos em menos de dez minutos e, nessa medida, impõe-se a compreensão e a generosidade de muitos poderem rever-se naquilo que foi editado; encontrarem no que fizeram / fazem interseções, comunhões (re)visitadas no que foi incluído (há impossibilidades óbvias no conceito de memória: desde a perda, ao esbatimento e à recuperação recriada). Importa ainda agradecer a todos os que, saindo, entrando ou permanecendo no agrupamento, deram ou têm vindo a dar o seu melhor a uma instituição que tem servido bem o concelho, para não dizer o país (considerando alguns dos nomes que saíram formados do "liceu", como ainda é familiar e popularmente nomeado).
       Fica aqui o registo vídeo (clicar na expressão destacada) desses menos de dez minutos para uma história que já segue caminho no sentido do século - porque, do meio já vivido, há já provas consolidadas quanto ao papel de-sempenhado na socie-dade, enquanto exem-plo de escola pública focada na qualidade educativa, na inclusão, na multi e interculturalidade, bem como no acompanhamento socialmente empenhado e implicado na ativação de competências (conhecimentos, procedimentos, atitudes e valores) formativas diversificadas.

         Comemorados e encerrados os 50 anos, rode-se a ampulheta e reveja-se a areia a cair, em nova contagem de tempo com atenção à vida e, como o diz o patrono, abrangendo no "mesmo olhar o céu e a terra". Acrescentaria o mar, pela força que detém e pelo horizonte que nos dá, nos caminhos e nas oportunidades a descobrir, a explorar e a conquistar.
        

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Açúcar com retórica

     Nem de propósito: o exemplo do pacote de açúcar.

    Um aluno perguntava, a determinada altura da aula, se as palavras antónimas tinham alguma coisa a ver com antítese. Têm sim, enquanto mecanismo linguístico ao serviço de efeito retórico presente em discursos de natureza diversa.
    Quando se diz que importa fazer da fraqueza força, as palavras antónimas finais configuram um jogo antitético, tal como o enunciado publicitário de um pacote de açúcar que me veio parar às mãos:

Um jogo antonímico ou antitético - leve / forte (Foto VO)

    Não precisa de se enquadrar a questão das figuras de estilo ou figuras de expressão exclusivamente na lógica da produção literária. Poderá ser na comunicação do quotidiano, na linguagem argumentativa e persuasiva da publicidade, da política, da oratória, de textos poéticos ou literários.

       A retórica não se prende apenas a questões de estilo; cumpre-se no(s) uso(s) da língua e no que se evidencia nas figuras de palavras. Mais um caso de evidência da inseparabilidade da língua e da literatura.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dar voz às mulheres

       Hoje e sempre, mesmo com uma voz masculina a abrir. 

    Um final de tarde, pelas 17:30, foi tempo de participar na palestra "Dar Voz às Mulheres", no Auditório Maria Ricardo. Em espaço com nome de mulher, foram recebidas seis ex-alunas e/ou professoras do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), numa oportunidade para recordar a passagem delas pela escola e para falar do percurso profissional que assumiram / têm assumido até hoje. Assim culminou o projeto de Cidadania da turma do 11ºF/F1 (Artes e Humanidades), intitulado "Mulheres que transformam o Mundo: Arte, Voz e Cidadania". No mural da cantina, uma exposição sublinhava o contributo feminino para o mundo; no caso português, havia lugar para as figuras singulares de Maria de Lurdes Pintassilgo (até hoje, a única mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro), de Paula Rego e de Joana Vasconcelos (artistas contemporâneas de renome internacional).
     Convidaram-me para abrir o evento na qualidade de ex-diretor do agrupamento - uma presença masculina que não deixou de agradecer o convite, a iniciativa, um projeto que protagoniza mulheres nas áreas em que se destaca(ra)m: Carolina Marques (ex-aluna e deputada), Margarida Quaresma (professora aposentada e voluntária), Margarida Fonseca (jornalismo), Maria Resende (ex-aluna e jurista da APAV / Assembleia da República), Patrícia Carvalho (ex-aluna e enfermeira) e Ana Pais Oliveira (ex-aluna e artista / professora de dança).
      No âmbito das comemorações dos "50 anos: do Liceu ao Agrupamento", o evento não deixou de ser tributo aos conceitos de democracia, de cidadania e de república (femininas na língua, com a última a ser simbolicamente representada pela alegoria da Marianne portuguesa); cruzou-se com temas de referência como os dos Direitos Humanos e da Igualdade de Género; da Democracia e Participação Política das Mulheres; do Desenvolvimento Sustentável e Empoderamento Feminino; da Literacia Financeira e do Empreendedorismo Feminino; do Pluralismo e da Diversidade Cultural.
      A atualidade da sessão foi notória e notável, com a questão do género a manter-se premente enquanto tópico de discussão num mundo ainda pautado pelo domínio / poder masculino. Mesmo assim, a afirmação do foco feminino não deixou de ser uma constante, remontando aos tempos da antiguidade. O tema é transversal na cultura e na literatura - assim se pense na poetisa Safo de Lesbos (c.630-570 a. C.), na helénica Corina (quinto século a. C.), na ascensão de Cleópatra, nas figuras das proféticas sibilas, na romana Sulpícia (primeiro século a.C.), na mártir cristã Perpétua (c.182-203 d. C.); assim se leiam cantigas de amigo, obras de Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge ou se representem personagens ficticiamente inspiradoras como Matilde de Melo, Blimunda ou Lídia (clássica e moderna).
     É um facto que, no seio dos grandes feitos e heroísmos masculinos, grandes homens tiveram sempre o apoio e o amparo de não menores figuras femininas: num tempo como o reinado quinhentista de D. Manuel (o Venturoso), teve de existir uma infanta D. Maria na afirmação e expansão da cultura nacional; o século XVIII vincou o papel da poetisa e pedagoga Marquesa de Alorna, ainda com muito por divulgar e reconhecer na sua obra; a democracia e a liberdade do século XX muito devem ao pensamento ousado e feminino / feminista das três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno), com as suas Novas Cartas Portuguesas, de 1972.
      E na geografia nortenha que nos radica, entre o Minho e o Douro, não é de esquecer o sentido da raiz, da origem, de um matriarcado que se firma nos valores fundacionais, da terra, da resistência e da tradição - simbologia de um género que sublima a mítica Geia ou Gaia.

As convidadas no Auditório Maria Ricardo do AEML, numa lição de testemunhos, vivências e conselhos 
(Foto VO)

      A par de tudo isto, três jovens estudantes conduziram uma palestra que (entre o registo da entrevista, a curiosidade juvenil perante vidas experientes, a partilha de conselhos) resultou numa oportunidade feliz de aprendizagens, de expressão de emoções, de uma lição e afirmação expectante numa mundividência outra para gerações futuras. Só para me manter no feminino.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Presença distanciada, muito comprometida

      Há que explorar as possibilidades que a tecnologia permite.

     É a presença sem estar no espaço; é o agora sem o aqui, com tempo(s), instante(s) em paralelo. Foi desta forma que, posso afirmar, estive com o Sr. Ministro da Educação Ciência e Cultura; com o Sr. Diretor do Banco de Portugal e com as altas individualidades da Conselho Nacional de Supervisão Financeira. Impossibilidades de exercício de funções e limitações na distância geográfica não podem comprometer a participação e a representação do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) num momento de orgulho singular: a atribuição do primeiro prémio nacional do ensino secundário na 14.ª edição do Concurso "Todos Contam".
     A sessão solene de anúncio dos vencedores desta edição do concurso ocorreu pelas 14h00, na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em Lisboa, e o convite feito tanto pela Comissão de Coordenação do Plano Nacional de Formação Financeira como pelo Departamento de Ciências Sociais e Humanas do AEML tinham de dar lugar a resposta positiva.

Evidência da presença distanciada, com orgulho no AEML (Foto cedida pela CMVM)

    Num discurso de reconhecimento a quem mais diretamente levou a cabo o projeto vencedor (grupo docente de Economia e Contabilidade), a par de todos os que deram o seu contributo implicado e empenhado (e foram muitos), fica a nota audiovisual do dito:

A prova do dito: do prémio atribuído e do discurso pronunciado (excerto do vídeo público da CMVM)

     "Desafio de Literacia Financeira - joga e aprende" é o exemplo do envolvimento de muitos e de variadas competências. Articular e integrar é possível, numa conjugação de propósitos afins, levados a cabo em várias iniciativas dinamizadas no âmbito da educação e da escola públicas, implicando professores e alunos desde o pré-escolar ao ensino secundário, nas múltiplas inteligências e competências que confluíram nas áreas linguísticas, matemáticas e das expressões.

    Um momento feliz para o agrupamento e para quem faz dele entidade de referência nacional. A gratidão é o valor de ordem e a representação do AEML é um dever a cumprir, como sinal natural do orgulho e do agradecimento por (me) colocarem (com) Laranjeira, enquanto marca institucional, na senda da excelência educativa.

domingo, 15 de março de 2026

Por terras de Viriato

      Foi dia de os professores passearem, soltarem risos e conviverem.

     Apesar de alguns pingos de chuva, foi um dia bem vivido e bem "regado", com pequeno-almoço em Vouzela; visita ao Museu do Quartzo, idealizado pelo prestigiado geólogo Galopim de Carvalho e instalado num antigo local de extração de quartzo (Monte de Santa Luzia, na zona de Viseu-Dão-Lafões); almoço no familiar restaurante Zé Pataco (onde não faltaram as encomendas das morcelas, dos queijos e chouriços, mais os tupperwares das migas de entrada); prova e degustação de vinhos na Quinta de Santa Maria; passagem pelo exterior do palácio-museu Aristides Sousa Mendes.

Cartaz de divulgação da atividade promovida

As evidências do vivido: de Vouzela, Viseu, Cabanas de Viriato (Fotomontagem VO)

    Foi um roteiro diferente do traçado no ano passado, ainda que em espaços comuns, numa consolidação e expansão de aprendizagens, com focos em biologia, física, geologia, química, história. No âmbito da plantação, produção e degustação vinícola - com champanhe, branco ou tinto -, ficou o apontamento do "Ribeiro Santo" da região do Dão, com aromas de fruta e rusticidade, mais o apuramento do paladar. A apologia vinícola do norte foi mais do que sublinhada pelo guia, em detrimento daqueles outros que continuam a afirmar que o Alentejo tem mais do que se lhe diga. Um ou outro, o certo é que o nacional (é que) é bom.
    Com muita foto a evidenciar os momentos vivenciados, concretizou-se mais um convívio para criar laços, aproximar nos risos e viver aprendizagens / experiências a recordar.

    Entre referências a famílias brasonadas, percursos a recuperar traços entre o medieval e o barroco, aromas e sabores báquicos da ancestralidade à contemporaneidade, ficou um sábado bem passado, na intenção de prosseguir com viagens e (re)encontros de grupo inter e transdisciplinar para lá dos tempos de escola.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a desgraça e a desgraceira

      Assim correm estes tempos. Tão mal!

     Primeiro, acorda-se com notícias de mais um conflito, outro ataque ou nova agressão a um país - o que começa a parecer banal, como se de um jogo estratégico se tratasse. Estratégia até pode ser (a favor de quem se sabe); porém, de jogo nada tem, pela desgraça que resulta para todos.
   Depois, não fosse isto suficiente, lá vem mais uma nota de rodapé / legenda televisiva para a desgraceira dos erros que invadem os olhos dos espectadores / leitores:

Citação de palavras, no mínimo, explosivas... pela construção errada na conjugação do verbo 'haver' 
(com agradecimento pela foto à GR)

    Triste é o desconhecimento de que o verbo 'haver' , enquanto principal, não admite conjugação no plural, inclusivamente com os verbos auxiliares que o acompanham (como é o caso de 'estar', no caso concreto do que se lê no rodapé). 
      Não menos desagradável é a expressão "estar a haver explosões". Sem 'haver', a opção 'acontecer', 'ocorrer' resultaria melhor e já sem problemas no plural de 'estão'.
      Como uma amiga o diz, e bem, "É a loucura!"

     A da guerra, a da língua e a de muitas outras situações que haverá (no singular, sim!) a considerar nos dias de hoje, para desgraça da humanidade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Marés de oportunidades (IV) a abrir

      Chegados à quarta versão, fecha-se um ciclo.

    Entre ventos alísios e contra-alísios, foram quatro anos de boas marés no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), com as quatro unidades orgânicas sempre a remarem para bom porto.
    Na escola-sede, este ano (tal como em anteriores), iniciou-se o programa de atividades com a colaboração de professores(as) e alunos(as) da Escola Profissional de Música de Espinho (EPME), numa demonstração variada de composições, feita de ritmos e intensidades diversas; de produções individuais e coletivas; de harmonias conjugadas em instrumentos de percussão e de sopro.

Cinco dos instrumentistas da EPME que honraram o AEML com a sua presença e colaboração 
(Foto APV)

    Em périplo por diferentes espaços, deu para constatar a participação e a adesão de muitos jovens às dinâmicas propostas por docentes que programaram e animaram atividades motivadoras, de imersão plena em ação, em movimento(s) e sentido(s) tão múltiplos e integradores quanto entusiasmantes: com palestras, pinturas, escrita, jogos, teatro, sussurros poéticos "entubados", desafios e raciocínios práticos, confeção de alimentos, projetos eTwinning, línguas e multiculturalidade, experiências laboratoriais, exposições, plantas e plantações, argumentação, inclusão, entre tanta outra oferta mais. Os assistentes estavam também por todo o sítio, atentos a tanta vivacidade e tanto bulício. Entre a preocupação e a satisfação, ora sorriam com o "tudo à solta" ora sentiam que há dias bem mais exigentes e fatigantes. Alguns prenunciavam que amanhã também correrá bem, confidenciando haver salas por abrir que estão um espetáculo. Para além das que já vi, fica a gestão da expectativa e da novidade.
    Hoje fechou-se o programa com a divulgação de um projeto de cidadania do 10º ano, à semelhança de outro realizado com várias turmas do 12º. O Auditório Maria Ricardo esteve bem composto, com professores(as), alunos(as) e Encarregados(as) de Educação. Pode dizer-se que os temas "Literacia Financeira" e "Cidadãos de Futuro" foram uma forma de ocupação da manhã e fecho do primeiro dia em consciencialização (refletida e crítica) e em beleza.

Apresentação de projetos de Cidadania e Desenvolvimento: 12º (cima) e 10º (baixo) anos
Montagem fotográfica (VO)

     No fim, entre biscoitos e bolhachinhas, mais pipocas, houve breve porto de honra para adultos (ou a variedade sumo, não menos honrado ou honroso), com um pequeno brinde e simpático convívio. À hora dos arrumos, um delgado copo cintilante deixou-se atrair pelo chão e, sonorosamente, multiplicou-se em pedaços. Resumiu uma assistente: "Deixe lá, é festa!"

      Amanhã será outro dia. Com festa ou não, promete ser novo tempo e espaço de aprendizagens em (recre)ação com a comunidade escolar e a educativa.
     

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Uma questão de torres

       Conheço a de Pisa, a de Londres, a dos Clérigos...

    ... mais as de alguns monumentos e igrejas nacionais e não só. Não figuram nesta ilustração, encontrada no Facebook:

As torres que nos fascinam (sendo que a primeira e a última são as mais belas, para meu espanto)

     Por isso, são análogas ao que Caeiro escreve quando se refere ao Tejo: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."
     Assim sendo, devo assumir que as torres conhecidas são, para mim, as mais belas, porque as vi(vejo) e estive(estou) junto delas. As outras podem fazer pensar; podem ser grandiosas e fenomenais, mas... só me fazem pensar, pelo que possa (não) saber delas e porque as não vi.
    Das que constam no gráfico, a primeira e a última são-me familiares: a Torre Eiffel é linda! Já teve várias cores, subi ao topo dela (ora a pé ora por elevador) e até vi o "escritório" do engenheiro, mais a panorâmica de Paris.

A Torre Eiffel e a panorâmica de Paris a partir do escritório do engenheiro (montagem de fotos - VO)

       A dos livros que não li e quero ler é, por sua vez, também a maior de todas e a que conheço melhor. E está a aumentar, a julgar pelos que estão espalhados pela casa, à espera que pegue neles, os folheie, neles sublinhe as frases / os pensamentos que me espantam,  neles anote o que me faz aprender.

        Venha o tempo para que possa dedicar-me a eles e vá diminuindo a torre mais bela do gráfico.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Regressaram as dores... sem sentido.

     Ainda há pouco entrou o ano e aí estão elas.

    Já havia comentado esta leitura que certo jogador ("joga com a dor") e treinador ("treina a dor") de futebol (aqui, sim, é 'foot' e 'ball') faz com algumas palavras, segmentando o que não é segmentável.
    A campanha da NOS recuperou o senhor (um pouco mais velho) com o mesmo jogo inconsistente (de palavras que não o são) - uma teoria em que só o "mister" Abel Xavier conhece, parece um "master", vende, expande (com os ganhos publicitários), sem ensinar ninguém.

Com anúncios destes pouco se aprende, linguisticamente falando (Foto VO)

     Não é dor no que joga nem no que treina ou vende.
     Para quem entender que se trata de criatividade, é, por certo, de fraca qualidade.
     Em suma, não se atende nem se entende as dores que possam estar a ser criadas.

  Em publicidade tudo vale, independentemente dos valores pedagógicos (que não são garantidamente considerados). Esta é a verdade. Quando um aluno assumir que um jogador é palavra composta, agradeçam à NOS.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).